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AFETIVIDADE E EDUCAÇÃO:
PATOLOGIAS E SAUDABILIDADE?
Michela Silva Moreira
RESUMO
Este estudo procura examinar os aspectos patológicos
e saudáveis da dimensão afetiva
que permeiam o contexto educacional, estabelecendo
um paralelo entre a perspectiva a antropocêntrica
e a biocêntrica.
Inicialmente, são discutidos os problemas
relacionados à afetividade e ao desempenho
da profissão docente. Em seguida, caracterizam-se
conceitos relacionados à afetividade; identificando
as características patológicas relacionadas
ao trabalho docente, para, depois, evidenciar
a relação entre a saudabilidade
afetiva e as condições do trabalho
do professor, esclarecendo os princípios
que orientam uma educação que valoriza
a vida. Com esse enfoque, explora-se um novo conceito:
a educação biocêntrica.
Logo, este artigo promove uma reflexão,
visando desmistificar a concepção
equivocada de que a dimensão afetiva não
faz parte da ambiência educacional. Ademais,
defende uma abertura pedagógica maior para
propostas permeadas pelo princípio biocêntrico,
que valorizam a vivência, a saudabilidade
afetiva.
Palavras-chave: afetividade, educação
biocêntrica, princípio biocên-trico,
trabalho docente, vivência.
Introdução
No presente estudo, tenho como objetivo a análise
da relação entre afetividade e educação,
destacando as dimensões patológicas
e saudáveis que permeiam o ambiente escolar.
Nesse sentido, como acredito que a afetividade
é inerente à educação,
apresento a concepção de vários
autores, privilegiando a abordagem de Toro (2002;
s.d.), tendo a educação biocêntrica
como referencial teórico, a fim de salientar
que a interação afetiva dos professores
e alunos entre si e com os demais, produzirá
conseqüências.
Primeiramente, numa abordagem pessoal, revelo
minhas inquietações, mas que certamente
podem ser as de muitos outros educadores deste
país, os quais enfrentaram problemas semelhantes
e/ou questionaram seu papel, seu ambiente de trabalho
ou sua remuneração. Assim, demonstro
, ao leitor, que quem realizou este estudo foi
uma pessoa que pesquisou, leu, resumiu, fez citações...
Mas, que também foi alguém que,
antes mesmo de elaborar idéias em um texto,
sentiu-as, vivenciou-as.
Em segundo lugar, indico o que é afetividade
bem como as relações entre cognição
e afeto, fazendo uma reflexão sobre a relevância
das aptidões emocionais no contexto educativo,
uma vez que muitas vezes sentimentos indesejáveis
perpassam as interações entre professores
e alunos.
Por fim, como na prática de muitos professores
as relações afetivas são
habitualmente negligenciadas, busquei explorar
as razões de tal situação,
questionando as questões estruturais, ideológicas
e relacionais que explicam por que vigoram patologias
afetivas no contexto educacional. Em contrapartida,
analisei as expressões positivas da afetividade,
pois estas contribuem para uma reflexão
crítica sobre como possibilitar a instauração
da saudabilidade nas interações
que permeiam o cotidiano do educador.
Enfim, neste artigo, convido os professores a
repensarem sua prática, a experimentarem
e ousarem escolher uma educação
voltada para a promoção da vida.
Minhas inquietações
Este estudo nasceu como uma exigência da
minha própria prática e também
pelo desejo de ilustrar as dificuldades e possibilidades
afetivas do professor na atualidade. O cotidiano
dos educadores é permeado pela dimensão
afetiva; por isso considero fundamental esclarecer,
de uma forma teórica, a natureza da afetividade,
a fim de fazer uma leitura interpretativa da minha
profissão.
A “profissão-professor” é
construída por práticas que envolvem
a relação com os alunos, a qual
pode ser afetivamente integradora ou desintegradora.
Ademais, tenho consciência de que, na sociedade
em que vivemos, dominada pelos ideais da chamada
era da globalização, em que há
supervalorização do capital financeiro
e desvalorização do capital humano,
ainda se dá pouca atenção
aos aspectos que envolvem o afeto.
Entretanto, tenho lucidez para perceber que, se
não dermos a devida importância para
o aspecto relacional da profissão docente,
em pouco tempo muitos profissionais estarão
afastados das escolas ou, ainda pior, permanecerão
nelas “intoxicados”, visto que muitos
autores (AMADO, 2000; ARAÚJO, 2006; CODO,
1985 e CURY, 2003) constataram o amplo uso de
medicamentos entre professores que sofrem de estresse,
entre outras doenças. Reitero que a escolha
da afetividade como temática de estudo
justifica-se pelo fato de que vivenciei situações
que emocionalmente me inquietaram.
Posso, ainda, lembrar que muitos professores enfrentam
o desinteresse, a agressividade dos alunos e a
falta de apoio da direção para solucionar
conflitos. O mais impressionante, porém,
é o fato de o educador receber uma remuneração
vergonhosa. Ninguém desconhece que o professor
de escola pública, em especial aquele que
leciona em escolas municipais, é efetivado
após obter aprovação em um
concurso; contudo seu salário é
bem inferior se comparado ao estipulado para outros
cargos providos também por concursos públicos,
como, por exemplo, os oferecidos nas áreas
de segurança pública ou de justiça,
sendo que nestes exigem apenas nível médio
de escolaridade.
Ademais, não devo calar-me diante das injustiças
a que tentam submeter os profissionais da educação,
nem consigo achar digno e justo que me ofereçam
um piso salarial idêntico (ou inferior)
ao de um comerciário; afirmo isso não
por ser arrogante – pois fui comerciária
durante todo o tempo em que cursei a universidade
–, mas por estar especialmente revoltada,
porque, hoje, formada, observo que a profissão
que escolhi não me oferece segurança
financeira; afinal as entidades de ensino privado,
principalmente os cursos pré-vestibulares,
pagam por hora/aula trabalhada, contratando de
março a dezembro. Isso acaba obrigando
muitos educadores recorrerem a uma sobrecarga
de trabalho a fim de assegurar um salário
que permita uma “poupança”
para os meses sem remuneração e/ou,
ainda, a procurarem um trabalho temporário
num período que deveria ser destinado para
as férias.
Pude ver e sentir, convivendo com colegas de profissão,
que em muitas ocasiões a autoridade, a
agressividade, a hostilidade, a indiferença
e até o desencanto permeiam o nosso cotidiano;
mas poucas vezes questionamos tais sentimentos.
Atuei como professora de língua portuguesa,
na cidade de São Lourenço do Sul/RS,
em regime de contratação temporária
emergencial, com carga horária em sala
de aula de 32 horas semanais – sem mencionar
o tempo gasto para a preparação
de aulas e correção de trabalhos
e provas, este que não era remunerado.
Assim, por quase um semestre, gastei com transporte,
dois aluguéis e alimentação.
Nesse período, precisei arcar com todos
os gastos para me deslocar até a referida
cidade, e também necessitei continuar trabalhando
em Pelotas, em uma instituição privada
de ensino, para garantir meu sustento, afinal
o recebimento de salários em contratações
feitas pelo Estado só ocorre após
publicação no jornal Diário
Oficial. Além do mais, só recebi
apenas um mês e meio de salário,
isso depois de mais de três meses de exercício.
E isso ocorre com todos os contratados! Então,
decidi desistir do contrato; mas precisei entrar
com um processo chamado “exercício
de fato”, e aguardar mais de um ano para
receber o restante do pagamento. É lamentável
a realidade de quem quer trabalhar com educação
pública em nosso país!
Devo esclarecer que meu despreparo para lidar
com problemas financeiros e com situações
nocivas à afetividade despertou-me, inicialmente,
um sentimento de decepção –
afinal a prática em sala de aula difere
muito de toda a teoria que a universidade me ofereceu.
E, com o passar do tempo compreendi que algumas
colegas de profissão pareciam resignadas.
Entretanto, o que mais me assustara, e marcou-me
profundamente, pode ser exemplificado com a transcrição
de uma frase, proferida, num intervalo, por uma
colega que já exercia a profissão
há vários anos: “graças
a Deus que hoje já é quarta-feira!”.
Nesse dia, voltei para o pensionato em que me
hospedava refletindo se iria, depois de algum
tempo, dizer o mesmo com tanta naturalidade. Questionei-me
se passaria a usar minha frustração
para justificar o conformismo... Se anularia a
“vontade de me realizar profissionalmente”.
Por tudo isso, interessei-me pelo estudo das condições
afetivas que permeavam meu trabalho. Com o objetivo
de compreendê-las, julguei mais apropriado
interromper por um tempo a idéia de ser
regente de classe. Continuei trabalhando somente
em outra atividade que já desenvolvia (corretora
de redações) junto a cursos preparatórios
para o vestibular e, após ser aprovada
em processo seletivo, iniciei a Especialização
em Educação na UFPel, no núcleo
de educação biocêntrica, fato
que me permitiu acesso a leituras significativas,
orientação qualificada dos professores,
troca de experiências vivenciadas com colegas
de profissão e conhecer uma nova proposta
de ensino: a educação biocêntrica,
a qual permeará este artigo.
Durante o tempo de estudo, busquei respostas principalmente
para uma pergunta: que tipo de educação
é esta que despreza a emoção
e nega a história existencial do educando
e do educador? E, procurando amenizar minhas angústias
com relação ao exercício
da profissão, iniciei uma pesquisa sobre
muitos temas relacionados à prática
educativa. Nesse sentido, como Freire, pude entender
que:
Não há ensino sem pesquisa e pesquisa
sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um
no corpo do outro. Enquanto ensino, continuo buscando,
reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei,
porque indago e me indago. Pesquiso para constatar;
constatando, intervenho; intervindo, educo e me
educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não
conheço e comunicar ou anunciar a novidade.
(FREIRE, 1996, p.32).
Segundo Dalla Vecchia (2002), o papel desta educação
é “propiciar uma aprendizagem reflexiva
e vivencial”. Para o autor, “a escola,
em seus conteúdos programáticos,
pode e deve prever a possibilidade da expansão
da consciência moral e principalmente ética
para a conservação da vida”
( p. 75-77). Também ressalto que permaneço
na profissão por acreditar que conseguirei
ter autonomia. E minha “legítima
raiva” – defendida por Paulo Freire
– justifica-se pelo fato de que não
sou uma observadora imparcial da situação
em que se encontra inserida a imensa maioria dos
professores deste país. Sou alguém
que concebe a curiosidade como:
(...) inquietação indagadora, como
inclinação ao desvelamento de algo,
como pergunta verbalizada ou não, como
procura de esclarecimento, como sinal de atenção
que sugere alerta e faz parte integrante do fenômeno
vital. (FREIRE, 1997, p.35)
Em síntese, considero conveniente esclarecer
que: descreverei os problemas, relacionados à
afetividade e ao desempenho da profissão
docente, presentes na educação brasileira;
caracterizarei conceitos relacionados à
afetividade; identificarei as características
patológicas relacionadas ao trabalho docente
e evidenciarei a relação entre a
saudabilidade afetiva e as condições
do trabalho docente, esclarecendo os princípios
que orientam uma educação que valoriza
a vida.
Com esse enfoque, pretendendo evidenciar o fato
de que a dimensão afetiva encontra-se intrinsecamente
ligada à educação, explorando
um conceito de educação que conheci
na Universidade Federal de Pelotas: a Educação
Biocêntrica. Além disso, saliento
que Paradigma Biocêntrico já faz
parte do cotidiano de muitas escolas e universidades
no nordeste do Brasil, mas o sul do país,
felizmente, está despertando para esse
novo princípio. Logo, é mister desmistificar
a concepção equivocada de que a
dimensão afetiva não faz parte da
ambiência educacional.
Deste modo, devo enfatizar que penso e escrevo
sobre minhas inquietações pelo fato
de ainda ter esperança; por crer, assim
como Dalla Vecchia, que é fundamental que
“a educação considere a afetividade
sadia e trabalhe integralmente com ela, mas considere
também as suas patologias para atuar de
forma pertinente e eficaz.” ( p. 97).
Educação e
afetividade: instâncias indissociáveis.
Definição de afetividade
Na linguagem cotidiana, é comum que se
substitua emoção por afetividade,
tratando os termos como sinônimos. Todavia,
não o são. A afetividade é
um conceito mais abrangente no qual se inserem
várias manifestações.
Goleman (1995), num estudo mundialmente divulgado
, buscando suporte em estudos neurológicos,
propôs um modelo explicativo para a complexidade
da mente humana, definindo o conceito “inteligência
emocional”. Essa habilidade mental é
distinta da inteligência racional e rege,
sobretudo, as interações humanas,
envolvendo a autoconciência, a automotivação,
a empatia, a capacidade de saber lidar com emoções
e de se relacionar.
Restrepo (1998) ressalta que o que nos caracteriza
como humanos e nos distancia da inteligência
artificial é a capacidade de nos emocionarmos,
“de reconstruir o mundo e o conhecimento
a partir de laços afetivos que nos impactam”.
O autor também reflete sobre a questão
cultural que dissocia corpo e mente:
A contenda que separa a inteligência da
afetividade parece ter sua origem no fato de que
– diante de uma percepção
mediada pelo tato, pelo gosto e pelo olfato –
o ocidente preferiu o conhecimento através
dos extereoceptores, ou seja os receptores a distância,
como são a vista e o ouvido. Nossa cultura
é visual auditiva. (p.165)
Creio que é necessário destacar
a concepção de afetividade que orienta
este artigo: “teoria de inteligência
afetiva”, elaborada por Toro. Essa teoria
é comentada por Cavalcante (2001) : ”pensamos
não só com o cérebro, mas
com todo o nosso corpo (...) o fator permanente
que integra e dá estrutura à inteligência
como função global é a afetividade”(p.
44 apud Toro, s.d.).
Já, com relação às
idéias de Toro (2002), é possível
acrescentar que a dimensão afetiva é
complexa:
Por afetividade entendo um estado de afinidade
profunda com os outros seres humanos, capaz de
originar sentimentos de amor, amizade altruísmo,
maternidade, paternidade, solidariedade. Sem dúvida,
também sentimentos opostos como ira, o
ciúme, a insegurança e a inveja
podem ser considerados componentes desse complexo
fenômeno. ( p. 90)
É indispensável, para ilustrar
melhor a teoria de Toro, explicitar que ela é
orientada pelo princípio biocêntrico,
o qual pode ser mais bem explicado através
da definição de Dalla Vecchia: ”pelo
princípio biocêntrico o universo
e a terra são organismos vivos e regem
se regem pelas leis da vida.” (2002, p.
25). Segundo o autor, esse princípio é
o critério da ética, pois “a
defesa e o cuidado pela vida sob as mais variadas
formas constituem a perspectiva ética fundamental”.
Assim, quando se valoriza a pessoa sem a natureza
e os cosmos, quando se valoriza a competição
e a exploração está sendo
adotado o princípio antropocêntrico.
Então, guiar-se pelo princípio biocêntrico
seria buscar uma conexão com a vida. (2002,
p. 24-32).
Para uma melhor compreensão desta temática,
preciso ressaltar que Toro, em seus estudos, define
um novo componente que perpassa a dimensão
afetiva: a vivência, isto é, a capacidade
de viver o “aqui e agora”. Para ele,
a vivência é um ponto de conjunção
da unidade psicossomática, que está
relacionado ao processo de transmutação
do psíquico em orgânico e do orgânico
em psíquico. Há vivências
que produzem desorganização e, conseqüentemente,
distúrbios em nível orgânico
e psíquico; há, ao invés
disso, vivências de integração
que favorecem uma elevação do grau
de saúde e de vitalidade. (TORO, 2002,
p. 31)
Segundo Toro, a vivência é uma
manifestação do ser, é uma
experiência original que precede a consciência,
não é dirigida pela vontade, manifesta-se
a partir da identidade, tem uma intensidade variável,
é passageira, dá origem a emoções,
liga o ser à percepção de
estar vivo e envolve a dimensão psicossomática
(2002, p. 29-31). Sendo assim, o autor estruturou
o sistema Biodanza , uma metodologia participativa
voltada à integração e ao
desenvolvimento humano, mediante a estimulação
arcaica da conexão com a vida.
Outro autor faz referência à Biodanza.
Signor (2003) declara que “uma biodança
que não nascer da vivência não
é biodança”, enfatizando que,
nesse sistema, há uma música que
suscita uma vivência e que faz nascer um
movimento, visando a integração
afetiva e a reaprendizagem das funções
originárias da vida.
Nesse sentido, convém acrescentar que os
parâmetros Curriculares Nacionais reconhecem
a importância das novas teorias que questionam
a dissociação entre razão
e emoção, esclarecendo que a relação
entre inteligência e sentimentos pode ser
bem trabalhada pela música e pela dança:
A atividade da dança na escola pode desenvolver
na criança a compreensão de sua
capacidade de movimento, mediante um maior entendimento
de como seu corpo funciona. Assim, poderá
usá-lo expressivamente com maior inteligência,
autonomia, responsabilidade e sensibilidade.
Tal visão está de acordo com as
mais recentes pesquisas feitas pelos neurocientistas
que estudam as relações entre o
desenvolvimento da inteligência, os sentimentos
e o desempenho corporal. Essas teorias criam um
desafio à visão tradicional que
separa corpo e mente, razão e emoção.
(2001, p. 67)
Então, para ilustrar melhor a proposta
de Toro (2002, p.32), é fundamental, diferenciar
três conceitos – vivência, emoção
e sentimento – cujos limites, para o autor,
não são bem definidos:
Vivência – é a sensação
intensa de viver o aqui e agora com um forte componente
cenestésico. As vivências são
experiências passageiras (por exemplo, vivências
de plenitude, de segurança, de prazer);
Emoção – é uma resposta
psicofísica de profundo envolvimento corporal,
representado pelos impulsos internos à
ação. As emoções têm
uma orientação centrífuga
e uma acentuada expressividade (por exemplo, alegria,
raiva e medo); tem uma forte influência
sobre o sistema neurovegetativo. Emoções
violentas de raiva ou medo, repetidas com freqüência,
induzem transtornos psicossomáticos; emoções
que não se expressam acumulam nos órgãos;
Sentimento – é uma resposta mais
elaborada nas confrontações das
pessoas com o mundo. Os sentimentos são
duradouros (memória), envolvem a participação
da consciência, são diferenciados
(preferência) e têm um caráter
simbólico (por exemplo, amor, solidariedade,
felicidade).
Em face do que foi exposto, Toro (s.d.) propõe
que a afetividade seria um estado, relacionado
ao instinto de solidariedade dentro da espécie,
à capacidade de empatia e aos impulsos
biológicos de cooperação.
O autor propõe que, ao contrário
das vivências (que são estados passageiros),
a afetividade permanece ao longo do tempo (as
recordações são prova disso)
e Implica a participação da consciência,
da representação simbólica
e da memória.
A afetividade há de ser avaliada nas três
dimensões de vínculo do sujeito:
consigo mesmo, com o outro e com o universo. Se
o sujeito está ligado ao outro, existe
uma troca. Assim, na interação afetiva
saudável com o outro, a pessoa intensifica
sua relação consigo, observa seus
limites e, ao mesmo tempo, também aprende
a respeitar os limites do outro, do universo.
Indissociabilidade entre
a prática educativa, os processos cognitivos
e os processos afetivos
Sem dúvida, há dissociações
e estereótipos sobre o “bom professor”,
o e o “bom aluno” que permanecem como
empecilho para uma educação mais
humana. A educação tradicional ainda
privilegia o aspecto cognitivo, mas a afetividade
está presente na escola; embora muitas
vezes dissociada.
Reconheço que algumas escolas, atualmente,
transformaram-se num espaço em que há
ausência de contato e vínculo, em
que há o “aprisionamento do corpo”,
pois são valorizados mais os olhos e ouvidos
dos alunos (RESTREPO, 1998; SIGNOR, 2003).
Por isso, como é possível não
haver desmotivação diante de uma
realidade difícil, em que o saber é
desvinculado da vivência? Como não
haver resignação? Indubitavelmente,
cabe a nós, professores, não aceitarmos
o sistema “anti-vida” que ainda impera
na educação brasileira. Considero,
desse modo, que a educação formal
poderá estimular uma pessoa a praticar
a solidariedade e a ter respeito por todas as
formas de vida ou, ao contrário, a desenvolver
o egoísmo e, conseqüentemente, julgar
benéfica a exploração do
seu semelhante e da natureza.
Dado o exposto, é fundamental que os educadores
comecem a questionar a ideologia da dissociação
entre cognição e afetividade que
permeia o sistema educacional atual, da era globalizada.
O que se ilustra no comentário de Paulo
Freire (1998, p. 10): “é preciso
ousar, no sentido pleno dessa palavra, para falar
em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso,
de a - científico, senão de anti-científico”.
Também outros estudiosos (ASSMANN, 1998;
BUSCAGLIA, 2006; CURY, 2003) defendem que a aprendizagem
depende da afetividade, motivo pelo qual modelos
que levam em conta apenas o aspecto intelectual
necessitam ser questionados.
Segundo Toro (2002) a “inteligência
afetiva” não seria um tipo especial
de inteligência. Segundo sua teoria, todas
as formas diferenciadas de inteligência
– motora, espacial, mecânica, semântica,
social, etc. – têm uma fonte comum:
a afetividade. Além disso, o autor critica
que a educação tradicional, antropocêntrica,
inspira-se em uma imagem do ser humano extremamente
restingida, pois ainda comete, entre tantos erros,
o de exigir a aprendizagem memorística.
Para Toro, é necessário “aprender
a sentir” e logo, “aprender a pensar”.
Desta maneira, convém explicitar a base
epistemológica da educação
biocêntrica, que provém do paradigma
biocêntrico. Para Toro, “o princípio
biocêntrico estabelece um modo de sentir
e de pensar que toma como referência existencial
a vivência”( 2002, p. 50-51).
A proposta de Educação Biocêntrica,
apoiada por Cavalcante (2003), é definida,
por esta autora como Pedagogia Biocêntrica
e Pedagogia do Encontro. Cavalcante propõe
que essa concepção de educação
seria uma “tendência evolucionária
em educação” (p. 33-42). Em
seus estudos, revela que esse método de
ensino, implantado no Brasil em 1980, objetiva
a reeducação afetiva da vida através
do vinculo, do desenvolvimento da inteligência
afetiva, da aprendizagem reflexiva e vivencial
e do cultivo de energias organizadoras e conservadoras
da vida. A autora acredita que enfocando o desenvolvimento
da inteligência afetiva, a educação
biocêntrica pretende despertar a afetividade
nas pessoas, ampliando sua percepção
e expandindo sua consciência ética;
com isso
não permite, portanto, o controle, a domesticação
ou o bloqueio da afetividade que ocorrem na maioria
dos estabelecimentos de ensino, desenvolvendo
um verdadeiro estimulo à competição.
( p. 45)
Visando permitir uma melhor definição
aos conceitos que são explorados neste
artigo, analisarei, em primeiro lugar, as patologias
afetivas porque, a partir da compreensão
de outras concepções de educação,
tornar-se-á mais claro, ao leitor, entender
algumas idiossincrasias e práticas que
promovem uma saudabilidade afetiva, uma educação
integrada à vida.
Patologias e saudabilidade afetivas na educação
PATOLOGIAS AFETIVAS NA EDUCAÇÃO:
UMA
PERSPECTIVA ANTROPOCÊNTRICA
Em sua maioria, os profissionais da educação
enfrentam as conseqüências de profundas
transformações sociais, sem que
a escola as acompanhe. Afinal, “Os meios
de comunicação, no seu cotidiano,
atuam intensamente, submetendo as pessoas a um
bombardeio permanente de sínteses ideológicas
que explicam e justificam a supremacia do mercado
como força indutora e reguladora de todas
as ações”(FERREIRA, 2000,
p.189).
Referindo-se à dissociação
afetiva presente na contemporaneidade, Dalla Vecchia
(2000, p. 13) revela que “ estrutura social,
econômica, política e cultural do
ocidente é anti-vida”. O autor indica
que, no fenômeno da globalização,
a virtude é ser egoísta. O erro
é ser solidário com os que sofrem,
com os excluídos, Portanto, o autor, esclarece
que, nos seus aspectos negativos, o neoliberalismo
procura propalar a idéia da liberdade de
competir, revelando a ampliação
e o aprofundamento das estratégias de exploração
e de dominação a nível planetário
( p. 14). Na visão antropocêntrica,
o que constitui o suporte do universo capitalista
da produção, o trabalho explorado
é uma ação de dominação
humana e de destruição da natureza
e
o critério de valor nesta ação
é o acúmulo de capital e a natureza
também é vista com algo que deve
ser submetido e dominado. Não há
sensibilidade pela vida, principalmente pelo outro
negado e explorado. (DALLA VECCHIA, 2000, p. 39)
Já com relação ao papel
da escola, muitos autores usam uma abordagem fatalista,
pois apenas listam problemas, fazem críticas
aos educadores e ao sistema de ensino, sem apontar
possibilidades de melhorias, e acabam apenas tentando
encontrar “culpados”.
Creio que é importante reconhecer que,
no estágio de conclusão de curso,
tive a oportunidade de experimentar “um
faz de conta”, pois na prática cotidiana
é que realmente conheci o que é
o trabalho de um professor em escola pública.
Verifiquei que , assim como eu, muitos universitários
de cursos de licenciatura, quando estagiam, dedicam
muito tempo para preparar suas aulas, aplicam
métodos mais criativos, arcando com altos
gastos com cópias reprográficas,
aluguel de vídeos, entre outros recursos,
pelo fato de almejarem uma boa nota; todavia ,quando
passam num concurso, percebem que terão
20 ou 40 horas/aula a cumprir (e muitos alunos)e
que, devido ao baixo salário que receberão,
há impossibilidade de gastar tanto com
materiais, que a escola também tem limitações...
Que o estágio foi uma “ilusão”!
Devo relatar alguns aspectos negativos que perduram
no ambiente de trabalho do educador: embora já
exista quadro branco, que pode ser usado com pincel
atômico, a maioria das escolas continua
usando o “quadro-negro” e o giz, este
tão nocivo às vias respiratórias;
as cadeiras dos professores dificilmente são
confortáveis ou estofadas; as salas de
aula geralmente são mal ventiladas e iluminadas
por lâmpadas fluorescentes, também
nocivas à saúde; o espaço
também costuma ser pequeno, visto que muitas
turmas podem ter quase 40 alunos; o nível
de ruído (conversas, gritos, classes arrastadas)
em alta também prejudica o desempenho da
aula e, muitas vezes, também faltam materiais
básicos, como giz, folhas, ou recursos
para ministrar uma aula mais criativa, como aparelhos
de som, televisão ou DVD. Isso posto, muitas
vezes, o ensino é precário porque
o professor enfrenta limitações
materiais, as quais também afetam o aluno.
Assim, a realidade acaba chocando o educador,
que se sente angustiado e impotente diante das
particularidades do oficio que escolheu. E, ainda,
percebe que o salário ou a estabilidade
– no caso dos “concursados”
– geralmente não são compensatórios
e que possivelmente precisará ter vários
empregos; o que pode trazer graves conseqüências
para o processo de ensino-aprendizagem. Porém,
muitos professores, por estarem imersos na lógica
capitalista, acabam sujeitando-se a uma extensa
carga horária de trabalho a fim de garantirem
uma remuneração mais digna. Devido
a isso, conforme enfatiza Dalla Vecchia (2000,
p. 40 apud BOOF, 1999, p. 99), na “ditadura
do modo-de-ser-do-trabalho”, o grande desafio
é combinar trabalho com cuidado”.
É interessante evidenciar que, ao investigar
a imprensa e publicações pedagógicas
do século XVII aos dias atuais, alguns
autores (Hypolito,1997; Lopes, 1998) perceberam
que havia um consenso sobre a concepção
de que o professor teria uma “sagrada missão
pedagógica”. Segundo Lopes, pela
força da repetição, foi construída
uma verdade histórica sobre a docência.
As seguintes passagens, recolhidas pela autora,
são exemplares: “ser professor é
professar a religião do dever”, “ser
pobre, extremamente pobre, para ganhar o reino
dos céus”. Lopes (1998) ainda critica
que perdura um modelo e um ideal de professor,
o qual está presente não só
na sociedade, como na própria formação
do futuro professor, nos cursos de magistério
e nas universidades.
A mídia também explora modelos e
prescrições, qualidades a serem
perseguidas e defeitos de que fugir. No entanto
o professor, a professora não é
uma abstração ou ente metafísico.
Se tem uma inserção concreta –
econômica, cultural, social, política
– tem também certa inserção
psíquica, que constitui sua particularidade,
sua maneira única de ser (LOPES, 1998,
p. 54)
Logo, o que verifico é que há um
“aprisionamento ideológico”,
pois a classe dos professores muitas vezes adota
o conformismo em vez de buscar soluções
para os problemas pelos quais passa. A crítica,
feita por Lopes (1998), a tais discursos se justifica
pelo fato de que atribuir ao professor uma responsabilidade
que não é deles, como, por exemplo,
“o futuro da nação”,
seria “iludi-los com um papel na sociedade
e no Estado que não é o deles; ilusão
que enaltece, engana e desvia”.
Resta, ainda, evidenciar um fato muito preocupante
sobre o ambiente educacional: “destruíram
a qualidade de vida do professor” (CURY,
2003, p. 62-63). O autor alerta que
de acordo com pesquisas do Instituto da Academia
de Inteligência, no Brasil, 92% dos professores
estão com três ou mais sintomas de
estresse e 41 % com dez ou mais. É um número
altíssimo, indicando que quase a metade
dos professores não deveria estar em sal
de aula, mas internada numa clínica antiestresse.
Percebendo tal problema como reflexo do descaso
dado à dimensão afetiva, o autor
declara que não apenas os salários
e a dignidade dos educadores precisam ser resgatados,
mas também a sua saúde. Com essa
colocação, Cury confirma que a que
a profissão acarreta elevado desgaste emocional,
fruto do atual paradigma antropocêntrico.
Já em um estudo, realizado por Araújo
et al (2003), são citadas as principais
queixas referentes a desgastes físicos,
com relação: ao uso intensivo da
voz – dor na garganta, rouquidão,
perda temporária da voz; à postura
corporal – dor nas pernas, dor nas costas,
dor nos braços; à exposição
a pó de giz – espirros freqüentes,
irritação nos olhos, problemas de
pele, tosse freqüente e a problemas psicossomáticos
– cansaço mental, esquecimento, insônia,
nervosismo, problemas digestivos, sonolência
(p.183-212) E esse processo de adoecimento se
comprova também por diagnósticos
médicos, encontrados em inúmeros
estudos, que revelam: calos nas cordas vocais,
esofagite/gastrite, lesões por esforços
repetitivos (LER), sinusite crônica e varizes
em membros inferiores (p. 183-212).
Em razão do que destaquei, nós,
professores, não podemos deixar de questionar:
o que os órgãos governamentais,
as universidades, os diretores das escolas, os
alunos, a comunidade em geral pensam acerca da
antiga/ atual crise do ensino brasileiro? Por
que a atividade docente causa adoecimento? Por
que é tão mal remunerada? Por que
ainda é encarada sob a aura do sacerdócio?
Essas são perguntas muitas vezes sem respostas...
Que tiram o sono (literalmente) de muitos educadores...
Mas que precisam ser feitas.
Para Lopes (1998, p. 206) esse insuportável
no campo educacional se manifesta através
de sintomas, tais como professoras desinteressadas
que adoecem e também alunos indisciplinados
que não aprendem. Por isso, é conveniente
analisar outras concepções que contribuem
para estabelecer patologias afetivas na educação.
Muitas vezes, a escola busca a homogeneidade,
porque as idéias de homogeneização
e de competição são amplamente
apoiadas pelos meios de comunicação,
pelos governantes e pelos diretores de muitas
escolas. Esquece-se de valorizar a singularidade
que cada aluno possui, avalia-se o estudante centrando-se
no “erro”; utiliza-se de autoritarismo,
impõem-se normas, centra-se na memória,
desconsiderando a criatividade dos alunos, entre
outras idiossincrasias, uma vez que há
estereótipos, nas escolas, sobre o “bom
aluno”. Além disso, há uma
distribuição fragmentada de horários,
em que o aluno “deve”, a cada 45 ou
60 minutos, interessar-se por uma matéria
diferente. Também há excelentes
projetos políticos pedagógicos “no
papel”; porque, na prática dos chamados
currículos ocultos, segundo Silva (1999),
muitos educadores perpetuam a ideologia neoliberal,
voltada para a competição e para
a exclusão.
Ao analisar a história da educação
brasileira, percebi que o ambiente escolar, ao
logo dos séculos, esteve permeado por situações
de violência, pois o educador do século
XVI (padre jesuíta) considerava os castigos,
a disciplina, a submissão e o “doutrinamento
dos corpos” como parte fundamental da sua
tarefa; podia inclusive bater nos alunos quando
julgasse necessário.
Hoje em dia, felizmente os castigos são
considerados crime, mas a escola continua sendo
um espaço para o doutrinamento, só
que já não é tão eficaz
como antigamente. E, por mais irônico que
pareça, são, agora, os educadores
que estão ameaçados pela agressividade
que permeia o cotidiano escolar. Além disso,
muitos alunos que freqüentam a escola pública
têm carências profundas, entre as
quais, destacam-se: cuidados de base, alimentação,
limites, afetividade e apoio para a aprendizagem
escolar. E essas carências muitas vezes
se exprimem por meio de comportamentos indesejáveis,
por meio de confronto ou pela indiferença.
Desta maneira, verifico que, hoje em dia, um aluno
perturba a aula, desrespeita professores e colegas,
destrói o patrimônio, mas permanece
na escola e, não raro, seu comportamento
piora. Basta folhear jornais e revistas, ligar
a televisão ou acessar a internet que são
encontrados inúmeros casos de violência
de alunos contra colegas e contra professores.
E, geralmente, o delinqüente fica impune,
afinal a atuação dos Conselhos Tutelares
no ambiente escolar, orientados pelo ECA (Estatuto
da Criança e do Adolescente), em muitos
casos, acaba estabelecendo uma “proteção
equivocada” ao aluno indisciplinado, pois
certos comportamentos interpretados como indisciplina
são manifestações de delinqüência.Desta
forma, o fato de atualmente haver obrigatoriedade
de o aluno permanecer na escola não contribui
para modificar o comportamento agressivo, porque
nas escolas públicas não há
psicólogos, nem assistentes sociais para
ajudar os alunos e/ou os professores.
Ademais, a indiferença dos alunos revela-se
na recusa em fazer as atividades propostas na
sala de aula, na apatia, etc.; já o confronto,
por afetar outras pessoas, é mais criticado,
o que se verifica, por exemplo, em casos de agressões
a colegas e a professores, na depredação
do equipamento escolar, nas mensagens que aparecem
escritas nas carteiras, nos banheiros, nas paredes
e muros da escola. E essas manifestações
são os reflexos dos valores existenciais
e sociais dos alunos, do incômodo, do desconforto
que sentem com a própria situação
de vida ou com os valores que a família
ou a escola, conscientemente ou não, estão
lhes passando.
Os educadores sentem muita dificuldade para lidar
com os conflitos que perpassam o cotidiano. Logo,
é preciso que o professor se guie por um
princípio que promova a integração
afetiva para amenizar esse tipo de situação.
Nesse sentido, Cury (2003) alega que é
preciso educar a emoção com inteligência,
estimulando os estudantes a pensarem antes de
reagir; senão, com relação
ao comportamento dos alunos, poderá haver
pelo menos três resultados patológicos:
(...) Alguns se tornam insensíveis, têm
traços de uma personalidade psicopata.
Eles possuem uma emoção insensível,
e por isso ofendem e machucam os outros, mas não
sentem a dor deles, não pensam nas conseqüências
de seus atos.
Outros, ao contrário, tornam-se hipersensíveis.
Vivem intensamente a dor dos outros, doam-se sem
limites, preocupam-se demais com a crítica
alheia, não têm proteção
emocional. Uma ofensa estraga o dia, o mês,
a vida(...)
Outros, ainda, são alienados, não
ferem os outros, mas não pensam no futuro,
não têm sonhos, metas, deixam a vida
levá-los, vivem um conformismo doentio.
(CURY, 2003, p. 67)
A análise desenvolvida por Cury (2003)
demonstra que a educação atual não
está conseguindo promover uma afetividade
protegida e integrada. A família também,
a cada dia, percebe que formou jovens insensíveis,
hipersensíveis ou alienados.
Cury (2003) também aponta os “sete
pecados” que devem ser eliminados das escolas,
que são: corrigir publicamente, expressar
autoridade com agressividade, ser excessivamente
crítico (ou obstruir a infância da
criança), punir quando estiver irado e
colocar limites sem dar explicações,
ser impaciente e desistir de educar, não
cumprir com a palavra e destruir a esperança
e os sonhos. Esses pecados, infelizmente, são
praticados no cotidiano nas interações
nas escolas e nas famílias. Conscientizar
as pessoas de que é importante valorizar
“o outro” é, pois, a maior
tarefa a ser cumprida pela educação.
Considero imperativo, ainda, reforçar que
do período colonial aos dias de hoje, a
educação de nosso país é
planejada por uma elite intelectual que desconhece
a maioria das dificuldades enfrentadas por um
professor numa “sala de aula real”.
A historicidade e a cultura local do estudante
pouco são valorizadas. Por isso, embora
muitos conteúdos programáticos,
materiais didáticos – como livros
ou “inovadores” projetos de aulas
gravadas em DVD ou até ministradas via-satélite
– sejam definidos como recurso do governo
a fim de combater a crise do ensino; o que, evidentemente,
percebo é que não são eficazes
para todos os alunos do Brasil, devido diversidade
de culturas deste. E, quando se adotam recursos
desse tipo, muitas vezes, a busca patológica
de uma hegemonia cultural, que responde aos interesses
da classe dominante, é perpetuada, pois
se procura insistir em fragmentações
como
a utilização de redes de computadores
no lugar do professor, ou seja, desaparece a relação
e o contato para permanecer apenas a passagem
da informação. Em outras palavras,
elimina-se a emoção que nasce do
contato humano para permanecermos no contato frio
com a tela do computador ou da televisão.
(SANTO, 1998, p. 41)
Os professores do século XXI carecem de
apoio para oferecer qualidade de ensino, tanto
por questões como precariedade das instalações,
falta de recursos materiais ou até mesmo
por serem considerados substituíveis pela
máquina. Reconheço que devem ser
utilizadas novas tecnologias a fim de promover
melhorias ao ensino brasileiro; mas dúvidas
surgem: Como formar um educador que ficará
“aprendendo” sobre educação
sentado a frente de uma tela? O ensino on-line
conseguirá preparar profissionais que lidarão
com pessoas? É fundamental, portanto, que,
nos currículos das universidades (nos cursos
de licenciatura) e nas escolas, haja também
a possibilidade de desenvolver a integração
da dimensão afetiva, visto que as patologias
afetivas analisadas geram conseqüências
negativas não só para os professores,
mas também para os alunos e para o sistema
de ensino.
Finalmente, considero oportuno transcrever parte
de outra reflexão de Buscaglia (2006) sobre
aqueles que pertencem a “profissões
de auxílio” e que sabem como é
difícil encontrar o próprio ser,
conservá-lo e ser capaz de se levantar
e não dizer “eu sou”, e sim
“estou me tornando”:
Não queremos sofrer dores, de modo que
tomamos comprimidos, tomamos medicamentos, ficamos
auridos, ficamos bêbados. Temos medo de
viver, mas temos ainda mais medo de morrer. Culpamos
o passado, adoramos culpar o passado, e gostamos
de culpar todos do passado, mas somos impotentes
para fazer alguma coisa quanto ao presente e ao
futuro. Desconfiamos dos outros, mas acima de
tudo desconfiamos de nós mesmos. Nós
nos esquecemos de escutar as nossas vozes. Somos
incongruentes com o que parte de nós. Sentimos
falta do presente. Deixamos que se vá.
Não sabemos que temos escolha e que podemos
escolher a alegria. Falta-nos um propósito
e não compreendemos bem de que trata a
vida. Nunca nos perguntamos: “o que eu estou
fazendo aqui?” será que o seu papel
aqui é só ocupar lugar. (BUSCAGLIA,
2006, p. 164)
Saudabilidade afetiva na educação:
uma perspectiva biocêntrica
Depois de explorar aspectos patológicos
presentes na educação, pretendo
evidenciar as metodologias que atualmente promovem
a vida no contexto educativo. Por isso, esclareço
que a noção que adoto para saudabilidade
afetiva na educação orienta-se pelo
paradigma biocêntrico, o qual concebe a
vida como centro de tudo no universo.
Reforçar a noção de paradigma
é muito importante. Para Migliori (1998,
p. 17), trata-se do referencial primário,
da estrutura básica de pensamento que irá
determinar a nossa postura perante a realidade.
É algo que antecede a criação
de nossas idéias, pois atua como um determinante
em nossa maneira de pensar. Segundo a autora,
“por trás de tudo o que estamos cansados
de saber, esconde-se tudo o que precisamos descobrir”.
Migliori acrescenta que é necessário
”ver, ouvir, sentir, fazer, pensar, estar
no mundo a partir de uma postura que nos leve
a outros resultados”. Portanto, uma mudança
paradigmática é, em última
análise, uma profunda mudança de
vida.
Sobre a educação
biocêntrica, julgo pertinente acrescentar
a seguinte definição de Dalla Vecchia:
A educação biocêntrica se
propõe a integrar o conhecimento escolar
ao conhecimento da vida, produzindo um homem de
sabedoria e não somente um técnico.
Ela vem articular a superação das
dissociações entre o saber e o viver,
entre instrução e educação,
entre corpo e alma. Ela integra as pedagogias
que mais se concentram sobre a vida. Para isso
ela integra também o estudo da ecologia
humana, investigando as relações
tóxicas ou nutritivas que modulam o desenvolvimento
da existência no ambiente escolar e da sala
de aula(...) (DALLA VECCHIA, 2002, p. 104)
O paradigma biocêntrico pode conduzir a
uma transformação profunda das relações
sociais e das condições de vida
pessoal, facilitando a construção
da identidade pessoal na “ vinculação
com a vida, retratada na sua relação
consigo, com o outro e com o meio.”(DALLA
VECCHIA, 2002 p. 30-31 apud CAVALCANTE, 1999,
p. 66). Embora professor tenha um estilo de dar
aula, devo esclarecer que o princípio biocêntrico
é o critério da ética. Desse
modo, os educadores que são “biocêntricos”
são aqueles os quais acreditam que a defesa
e o cuidado da vida precisam orientar o agir humano
e a organização das instituições
e da cultura. Convém salientar que, atualmente,
muitos educadores já adotam uma perspectiva
biocêntrica, sem, no entanto, terem adotado
exatamente esta denominação.
Acredito que, entre os educadores, é preciso
haver uma profunda reflexão sobre a atual
cultura que valoriza a violência e a guerra
nos processos cotidianos da sociedade e sobre
a necessidade de trabalhar a dimensão afetiva.
Goleman (1995, p. 300) propõe a reorganização
dos espaços educativos, tendo como eixo
a construção de valores, pois “a
alfabetização emocional anda de
mãos dadas com a educação
para ter caráter, desenvolvimento moral
e cidadania. O autor, ainda, ressalta que alguns
professores podem sentir-se muito pouco á
vontade para ensinar esse tipo de matéria,
e todos precisarão de treinamento especial
para fazê-lo.”(p. 295).
Hugo Assmann (1998), comentando sobre a tarefa
de reencantar a educação, considera
que a educação seja, hoje, mais
do que nunca, a mais importante tarefa social
emancipatória. Desta maneira, toda pedagogia
comprometida com a vida, com o estabelecimento
de vínculos estará sendo orientada
pelo princípio biocêntrico.
Buscaglia (2006, p. 161-162), apesar de não
nomear sua concepção de pedagogia,
cita que a educação precisa estimular
o entusiasmo. Exemplifica que ao aluno não
basta ver uma árvore, ele deveria subir
nela, cheirá-la, abraçá-la,
prová-la, experimentá-la de verdade.
É isso que daria magia à aprendizagem,
mas muitos professores continuam com uma metodologia
fragmentária (listando as partes da folha,
do caule, etc.) e, pior, esperando que os alunos
se interessem pelo conteúdo. Isso é
o que Toro (2002) caracteriza como vivência!
Mas percebo que as escolas acabam muitas vezes
passando no “quadro negro” o nome
ou entregando folhas de ofício com gravuras
a fim de “ensinar aos alunos o que é
uma árvore”, isto é, exigir
a memorização. Por que não
mudam a abordagem? É tão mais fácil
aprender com prazer, com alegria... Com vivência.
Cury (2003) apresenta o projeto “escola
da vida”, dá sugestões para
melhorar a qualidade da educação,
e enfatiza que os professores precisam ter hábitos
saudáveis, como, por exemplo, entender
a mente dos alunos, ter paciência, administrar
conflito, acolher, ter sensibilidade. Os professores
devem contribuir para o desenvolvimento da segurança,
da tolerância, da auto-estima, da solidariedade,
da consciência crítica, da capacidade
de questionar, expor e não impor idéias
e estimularem o trabalho em equipe, a superação
da ansiedade, enfim, estabelecer metas no campo
da afetividade. O autor enfatiza que “professores
fascinantes educam para a vida”:
Os mestres fascinantes podem ser desprezados
e ameaçados, mas sua força é
imbatível. Incendiários que inflamam
a sociedade com o calor de sua inteligência,
compaixão e singeleza. São fascinantes
porque são livres, são livres porque
pensam, pensam por que amam solenemente a vida
( p.79).
Uma educação centrada na afetividade,
na saudabilidade permite formar pensadores, por
isso Cury sugere que os professores, além
de desenvolverem hábitos saudáveis,
precisam criar estratégias para melhorar
a interação com os educandos, como:
- utilizar música ambiente em sala de
aula, para aliviar a ansiedade dos alunos, gerar
o prazer de aprender, estabilizar a emoção
e melhorar a concentração;
- sentar em círculo ou em u, para educar
olhando nos olhos, estimular a interação
social, diminuir conversas paralelas ou conflitos
em sala de aula;
- fazer uma exposição interrogada
e a dialogada, para provocar a inteligência,
enriquecer a interpretação de textos
e enunciados, gerar o estresse positivo (a dúvida),
promover o debate de idéias;
- ser contadores de histórias, exercitando
a voz “teatralizada”, os gestos que
as informações lógicas não
conseguem desenvolver a criatividade e humanizar
o conhecimento. (2003, p.119-147 )
Toro enfatiza que é indispensável
estimular os potenciais genéticos que constituem
a estrutura básica da identidade, porque
a “consciência intensificada de si
mesmo frente ao outro induz ao desenvolvimento
saudável da existência”(s.d.,
p. 31). O autor menciona que dois âmbitos
devem ser cultivados:
- aprendizagem para o desenvolvimento do pensamento:
as crianças devem iniciar na escola o processo
de aprendizagem cultural, leitura, escrita, aritmética,
artes, preparação básica
para descobrir os segredos da natureza e penetras
nas disciplinas científicas, tecnológicas
e humanísticas. Este primeiro objetivo
é geralmente realizado pela escola tradicional.
- aprender a viver, a ser feliz e a vincular-se
afetivamente. Este segundo objetivo está
total mente ausente na escola tradicional. Não
existe um programa para desenvolver a inteligência
afetiva e a identidade.
Com relação ao conceito identidade,
Toro (s.d.) postula que “um conjunto de
potenciais genéticos formam a identidade
biológica dos seres humanos” (p.
14). A fim de estimular estes potenciais, a educação
biocêntrica tem em seu conteúdo programático
aulas de Biodanza. Segundo Toro, “ a dança
é um movimento profundo (...) movimento
da vida, de ritmo biológico, ritmo do coração,
da respiração, impulso de vinculação
à espécie. É movimento de
intimidade”(p. 12).
Cavalcante (2001, p. 56-57) defende que a Biodanza
auxilia no processo de socialização,
pois esta metodologia orienta-se pelo “tripé:
música-movimento-emoção”,
buscando uma vivência integradora porque
as atividades são ocorrem em grupo, embora
o ritmo individual seja considerado. O que se
pretende com essa atividade, segundo Toro (s.d.,
p. 44) é estimular:
-o movimento, percepção postural
e integração corporal;
- vivências, “sentir com intensidade
o aqui - agora”;
-a harmonia orgânica, o nível de
saúde, energia e motivação
para a ação, a alegria de viver
e estado de ânimo (vitalidade);
- a capacidade de desfrutar, de ter prazer no
contato com a natureza e com o outro (erotismo);
- a capacidade de inovação, de invenção
e de percepção, o desenvolvimento
criativo e artístico (criatividade),
- a capacidade de empatia e comunhão, de
vivências afetivas, solidariedade e ternura
(afetividade);
- vínculo e percepção da
natureza com os cinco sentidos, consciência
ética (Transcendência).
É importante, ainda, ressaltar outra consideração
de Toro (2002):
A música é uma linguagem universal
e, na Biodanza, tem a função essencial
de evocar vivências. As músicas utilizadas
na Biodanza passam por um estudo de seus conteúdos
emocionais, antes de serem incorporadas ao Sistema,
com a finalidade de avaliar os efeitos orgânicos
que provocam e o tipo de vivência que evocam.
A Biodanza não é praticada individualmente;
ela resulta eficaz dentro de um grupo afetivamente
integrado, que oferece possibilidades diversificadas
de comunicação e proporciona um
“continente protetor” a cada um dos
participantes durante a realização
de vivências. ( p. 33)
Enfatizo que, quando uso músicas em minhas
aulas, o envolvimento dos alunos é maior,
porque, após uma atividade de sensibilização,
é mais fácil exporem suas idéias.
Dinâmicas de grupo aliadas à música,
à criação de movimento e,
também, o uso de filmes e documentários
ou uma estória sobre a vida de um escritor
acabam criando um clima favorável à
integração e à aprendizagem.
Confraternizações, tais como: “almoço-aula”,
“chocolate-quente- vendo- filme”,
bombons ou balas “para adoçar uma
prova” e/ou a instigação da
alegria, da liberdade, do diálogo são
ingredientes para uma aula sem monotonia. O vínculo
é criado à medida que o professor
permite que o aluno participe da aula. Muitos
educadores temem perder (eu já temi!) o
domínio de classe; mas sem afetividade,
sem a admiração de nossos alunos,
os que assistirem às aulas ou será
porque terão medo da reprovação
ou porque querem desafiar o professor, perturbar
o tédio instaurado.
É difícil reconhecer, mas, nós,
professores, temos que reciclar muitas coisas
que acreditávamos que funcionariam. Temos
que ser mais pacientes, pois nossos alunos muitas
vezes querem apenas um pouco de atenção
quando nos “atrapalham”. Às
vezes, uma palavra, um gesto de atenção,
um visto ou um parabéns no caderno fazem
brotar um sorriso, acalmam aquela criança,
adolescente e até mesmo um “homem
feito”.
Lembro ainda, que a educação biocêntrica
é uma tendência evolucionária
da educação. Assim, para uma melhor
compreensão, Cavalcante (2001) sistematizou,
numa construção coletiva com outros
educadores, os pressupostos teóricos que
permeiam esta prática pedagógica.
Desta forma, listarei a síntese proposta
sobre o conteúdo de ensino-aprendizagem
e sobre o relacionamento educador-educando e aos
pressupostos de aprendizagem, para proporcionar
uma melhor compreensão da educação
biocêntrica.
Segundo Cavalcante, deve fazer parte do conteúdo
de ensino-aprendizagem:
- construção do conhecimento orientado
pelo princípio biocêntrico (que supera
o princípio antropocêntrico);
- diferentes saberes a serviço das funções
primordiais da vida;
- apropriação da tecnologia em benefício
da vida;
- corporeidade vivida – memória do
corpo;
-a poesia e a arte em interconectividade com a
Ciência;
- percepção ampliada através
da ecologia profunda;
- reconhecimento e expressão das emoções
legítimas;
- cultivo da afetividade;
- expansão da consciência moral e
ética para a conservação
da vida;
- descoberta progressiva do outro na interconectividade
dos sistemas,
- fortalecimento da espiritualidade orientada
pelo amor. (p. 53-54)
O relacionamento educador educando, em Cavalcante,
é definido da seguinte maneira:
- interação orientada pela consciência
ética;
-relação horizontal, circular e
transdimensional;
- o educador como mediador na construção
do conhecimento e o educando como sujeito da aprendizagem;
- relação dialógica e amorosa;
- cooperação afetiva e aprendizagem
mútua;
- relação empática e cultivo
do vínculo. ( 2001, p. 54-55)
Toro (s.d., p. 42-48) defende que a escola precisa
formar seres humanos que aprendam a viver, através
de um processo de integração da
inteligência e da afetividade que deve integrar
a família e os professores. Para melhor
compreensão deste novo modo de educar,
listo o conteúdo de atividades de uma Escola
Biocêntrica :
- Aprender a ler e a escrever;
- Explorar elementos aritméticos, de História,
de Biologia, de Geografia, de Astronomia e de
Ecologia;
- Educação musical: escutar música,
de diferentes tipos, todos os dias (clássica,
jazz, tango, samba, japonesa, etc.), cantar com
os alunos, tocar instrumentos;
- Excursões: museu de ciências naturais,
museus de história, visitas à natureza(campos,
parques, etc.);
- Aulas de Biodanza: rodas, caminhar rítmico,
dança com ritmos indígenas, etc.;
- Desenvolver a personalidade e cerimônia
da criança protagonista: o objetivo dessa
cerimônia é desenvolver a personalidade
da criança, dando-lhe um espaço
de protagonismo durante uma semana em sala de
aula. Esta atividade inclui a participação
da família. Durante a semana, todas as
atividades especiais serão feitas por ele;
em um dia da semana os colegas farão uma
homenagem para ele e poderão levar um pequeno
presente para ele. No fim da semana, os pais da
criança irão à escola fazer
uma atividade com os companheiros de classe (tocar
um instrumento, cantar, contar um conto, etc.)
- esta atividade deve ser feita por alunos de
6 anos, talvez crianças de 5 anos.
- Desenvolver a visão da sociedade: diálogo
e juízo crítico sobre as guerras,
destruição da natureza, violência
nas escolas, etc.;
- Desenvolver vínculo com a vida: aprender
a fazer pão, cultivar uma pequena horta,
tomar contato com a natureza através de
exercícios de percepção com
os cinco sentidos (audição, tato,
paladar, olfato, visão);
- Criatividade e arte: pintura livre, argila ou
massa de modelar, representação
teatral, fantasias e máscaras, orquestra
primitiva, danças, recortes elaboração
de colagens;
- Hábitos pessoais: aparência pessoal,
hábitos de asseio.
Além do exposto, Toro (s.d.) enfatiza que
cada aluno deve ter uma ficha de acompanhamento
com: nome; curso; nível de linguagem; nível
de desenvolvimento cognitivo – leitura,
escrita, coordenação motora, etc.;
características psicológicas –
tímido, extrovertido, ordenado, desordenado,
constando se tem motivação para
aprender, como é sua relação
com os companheiros e com o professor, seu comportamento
afetivo e, especialmente, a informação
dos pais sobre o seu comportamento em casa e se
é coincidente com o da escola.
Em suma, a educação precisa livrar
educadores e educandos de atividades repetitivas,
uniformizadoras, desintegradoras, excludentes,
as quais se distanciam do papel criativo do ser
humano diante da sua realidade e da realidade
de seu contexto familiar, escolar, comunitário
e social. Uma prática orientada pela educação
biocêntrica, pela ética e pela afetividade
poderia eliminar muitos problemas que permeiam
o contexto educacional e provocar uma mudança
da cultura organizacional.
Um convite desafiador
Nossa cultura instiga um padrão de comportamento
individualista e o trabalho do professor está
se tornando anti-vida; por isso uma sensibilidade
sadia deve fazer parte do ato de aprender, conhecer,
de viver. A esperança de uma educação
mais humanizada e de haver um sentido mais profundo
para a vida faz parte da educação
biocêntrica.
Questionar a ordem paradigmática vigente
é fundamental para que ocorram transformações;
porém discutir educação biocêntrica
é algo bem mais complexo que vivenciá-la,
pois esta não se constrói individualmente.
Além disso, essa nova concepção
de educação ainda encontra um obstáculo:
a resistência das pessoas, uma vez que dificilmente
alguém muda um comportamento com que se
sente seguro há muito tempo.
Embora muitas pessoas não gostem de mudanças,
é unânime a idéia de que a
educação brasileira precisa melhorar.
Então, questiono-me: como operar mudanças
sem que as pessoas mudem? É possível
modificar a postura do educador que ainda insiste
em se guiar pelo paradigma antropocêntrico?Sem
dúvida, é preciso, primeiramente,
que as universidades acreditem nesta nova abordagem.
Isso permitirá que os futuros educadores
assimilem a Pedagogia Biocêntrica, a Pedagogia
do Encontro, conforme propõe Cavalcante.
Essa “tendência evolucionária
em educação” que existe no
Brasil desde 1980, tem por objetivo instaurar
uma reeducação afetiva da vida através
do vinculo, do desenvolvimento da inteligência
afetiva, da aprendizagem reflexiva e vivencial
e do cultivo de energias organizadoras e conservadoras
da vida. Se as instituições de ensino
universitário, hoje, em 2007, começarem
a enfocar o desenvolvimento da inteligência
afetiva, certamente será possível
despertar a afetividade nas pessoas, ampliar sua
percepção e expandir consciência
ética e isso se entenderá a todos
os níveis de ensino.
Penso que todo educador que estiver frustrado,
sofrendo, em razão de seu trabalho não
pode conformar-se. A mudança depende de
cada um, pois é mais fácil escolher
uma postura autoritária ou apática
frente às dificuldades que surgirem, do
que tentar amenizá-las ou resolvê-las.
Logo, somente quando os educadores reconhecerem
o que é saudável no ambiente escolar,
e assumirem um compromisso com a ética,
com a vida, as escolas serão locais de
integração afetiva. Por isso, o
convite desafiador que faço ao leitor é
que procure ler mais sobre a educação
biocêntrica, que comente o que lhe despertou
essa nova proposta pedagógica, porque,
em nosso país, infelizmente, poucas instituições
adotam o biocentrismo com paradigma.
A partir da constatação da ideologia
antropocêntrica que vigora em nossa cultura,
certamente tornam-se mais significativas as definições
referidas sobre o paradigma desenvolvido por Toro
(e adotado por outros autores citados no texto).
Já com relação à grande
quantidade de citações e notas,
creio que são necessárias para tornar
a discussão mais abrangente, visto que
algumas terminologias, especialmente da teoria
desenvolvida por Toro, são bem complexas.
Ademais, aponto possibilidades, exemplificando
práticas orientadas pela visão biocêntrica,
– retiradas de uma bibliografia básica
que poderá ser mais esclarecedora –
para garantir a saudabilidade afetiva no espaço
educativo, o que permite uma reflexão mais
abrangente sobre a possibilidade da construção
de um ensino orientado para a vida, para a vivência.
Neste estudo, procuro também dar a oportunidade
de o leitor refletir criticamente sobre o paradigma
que o orienta, principalmente no caso de ser professor.
Este poderá ampliar sua criticidade, quando
se deparar com situações que estimulem
o egoísmo, a competitividade, a exclusão,
até porque na interação professor-aluno,
na rotina em sala de aula, às vezes, admiração,
solidariedade e respeito são adjetivações
pouco lembradas.
Percebo que, na sociedade atual, alguns governantes
e educadores crêem que pouco se possa fazer
para melhorar os conflitos que permeiam o sistema
educacional. Certamente, ainda muitas inovações
tecnológicas poderão ser propostas
como paliativos, mas o que precisa primordialmente
ser mudado não são apenas a estrutura
física ou o material didático, como
alegam. Nós, professores, precisamos com
urgência acreditar que a criação
de um ambiente que promova a saudabilidade afetiva
garantirá um bom desempenho de nossas atividades.
Sei que não existem “fórmulas
mágicas” para resolver grande parte
dos problemas educacionais. Precisamos ter consciência
do que há inovador em educação,
experimentar formas novas de atuar em sala de
aula, acreditar em nosso potencial e, principalmente,
no potencial de nossos alunos.
Por conseguinte, cabe às instituições
universitárias valorizarem, principalmente
nos cursos de licenciatura, os estudiosos que
se orientam pelo princípio biocêntrico.
Também novos estudos devem ser realizados
nesta área. Uma vez que o meio acadêmico
está vinculado à pesquisa, precisa
reconhecer a importância das novas tendências
pedagógicas para que haja mudanças
eficazes e, ainda, para que se promovam melhorias
na qualidade de ensino e de vida, do educador
e do aluno. Afinal, os professores que se graduarem
orientados pelo biocentrismo terão uma
base mais sólida para explorar a esfera
afetiva, o aspecto relacional.
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