| |
|
REFLEXÕES
DE EDUCADORA:
O ENCONTRO DA ARTE COM A LÍNGUA PORTUGUESA
Adriane de Moura Cony
RESUMO
Este trabalho é a reflexão sistematizada
sobre minha prática pedagógica.
Uma prática em que o ensino-aprendizagem
da língua portuguesa se articula à
arte, contemplando o acesso multidisciplinar de
conhecimentos. A música, o teatro, a poesia,
a literatura e as modalidades visuais fazem o
aluno redescobrir e reconstruir a língua
materna e, através desta reconstrução,
desenvolver suas habilidades e competências
lingüísticas. A vivência das
artes ao lado da língua portuguesa faz
o educando descobrir uma escola mais humana, prazerosa
e sensível. Uma escola, onde se pode vivenciar
experiências, criar projetos, investigar
temas de interesse. Com autonomia, criatividade,
cooperação, liberdade e sensibilidade
os alunos reconhecem e assumem culturas, respeitam
e aceitam as diferenças. Cruzam e ampliam
visões e vivências que dialogam entre
si, trazendo aprendizagens produzidas através
de várias perspectivas. A arte ao lado
da língua portuguesa instiga a construção
e socialização de conhecimentos
úteis e práticos a toda comunidade
escolar.
Palavras- chave:
Construção- Vivências- Autonomia-
Diálogo- Criativi-dade- Arte
INTRODUÇÃO
Trabalhar com crianças e jovens é
uma dádiva; nada nos torna mais vivos do
que estar em contato com eles. O vigor da juventude
faz com que nós educadores busquemos entusiasmo
e estratégias para conquistá-los
e, com isso, fazê-los construir conhecimento.
Vivemos numa sociedade em que a escola é
uma instituição que deveria preparar
para a vida e acaba preparando de forma falha,
pois ela é tida como chata e monótona.
Uma simples entidade que deposita conhecimentos
de forma tradicional sem preocupar-se com o aluno,
ser integral e cheio de potencialidades.
O ensino de língua portuguesa sempre esteve
ligado ao desenvolvimento das quatro habilidades
lingüísticas que são a expressão
oral e escrita e a compreensão oral e escrita.
Porém estas habilidades acabam se distanciando
do educando que apenas decodifica elementos gramaticais
sem importar-se com a essência da língua
e suas múltiplas significações
e utilidades.
É aqui que entra minha prática pedagógica,
que se estrutura na arte em sala de aula, em que
as vivências da poesia, da música,
do teatro e das modalidades visuais buscam a construção
do conhecimento. Estas vivências fazem o
aluno descobrir a alegria do saber, a autonomia,
a crítica e a sensibilidade. Com a arte
articulada à língua portuguesa,
os alunos constatam que a sala de aula pode não
ser monótona; que o conhecimento não
é estagnado, mas reconstruído; que
aprender pode estar ligado ao prazer de descobrir
e descobrir-se.
A arte conectada ao português, é
uma maneira de ligar a razão ao coração,
sem esquecer conteúdos e requisitos exigidos
pela escola. As normas e regras de gramática,
por exemplo, não podem ser abandonadas,
mas quem disse que elas não podem ser interessantes.
O dever do professor é encontrar uma maneira
de apresentar o conteúdo de forma agradável
e instigante ao educando. É como um prato
apetitoso, só comemos se tentados a saboreá-lo
e se bem saboreado, mais o queremos.
Quando o educador segue uma prática pedagógica
atraente e instigante, ele consegue aproximar-se
do educando e com laços afetivos e segurança
no que faz, levá-lo à aprendizagem
autônoma e crítica, com ênfase
na livre expressão do pensamento, na reflexão
de suas ações e na visão
ampla da realidade, em busca da transformação
positiva de si mesmo e da sociedade.
REFLEXÕES TEÓRICAS
O estudo da língua portuguesa sempre foi
metódico, baseado somente em elementos
gramaticais e interpretações repetitivas,
com um texto literário e perguntas sobre
o mesmo. As aulas tornam-se chatas e monótonas;
a alegria em sala de aula é elemento ausente.
Sem entusiasmo e interesse a motivação
se torna inexistente e a aprendizagem fica comprometida,
pois não há construção,
apenas repetições e decodificações.
Quando o professor sente que sua prática
pedagógica está fracassando, deve
procurar meios que a modifiquem e a tornem satisfatória,
só assim poderão surgir oportunidades
de sucesso na aprendizagem. Há uma infinidade
de autores que sugerem a alegria, as sensações,
os sentimentos e os valores humanos como referência
para o sucesso em sala de aula. Refletindo sobre
isso, descobre-se a arte como aliada do português
para a construção do conhecimento.
A conexão entre a arte e o português,
poderá trazer inovações à
prática pedagógica e confiança
à relação professor-aluno.
É importante dizer que a alegria escolar
presente, e sobretudo a alegria escolar diante
das obras-primas, pode e deve começar bem
cedo: ela não está de modo algum
reservada às classes mais adiantadas. Antes
mesmo de entrar na escola, deve existir confiança,
e a intuição de que a experiência
vai ser bonita: poesia, música, o aluno
espera que lhe sejam reveladas as “maravilhas
do céu e da terra”. Essa esperança
se apóia numa decisão infantilmente
cultural, razão pela qual o aluno tem chance
de ser aceito: estávamos decididos a fazer
de cada uma das letras que tínhamos que
traçar uma obra-prima imortal (SNYDERS,
1996, p.16).
Quando Snyders (1996) fala da alegria ao contemplar
uma obra-prima e da beleza de uma experiência
com poesia e música, traz a certeza de
que o ensino de português pode ser marcado
pela música e pela poesia, trazendo emoção
à sala de aula. O educando ao estar em
contato com suas emoções, poderá
então compreender não só
as maravilhas do céu e da terra, mas todo
o conhecimento presente nestes elementos que poderá
ser construído com prazer e ao mesmo tempo
analisado com astúcia e análise
crítica.
Esta construção pode ser difícil
no começo, pois, nós educadores,
freqüentemente, temos medo de ousar e correr
riscos. Porém a coragem de mudar e mexer
com a sala de aula é mais forte para aqueles
que amam ensinar e ao mesmo tempo aprender. De
acordo com Freire (1983, p.96) “a educação
é um ato de amor, por isso um ato de coragem.
Não pode temer o debate. A análise
da realidade. Não pode fugir à discussão
criadora, sob pena de ser uma farsa.”
Quando Freire fala em discussão criadora
nos remete a arte em forma de discussão
e debate. A sala de aula como ambiente de construção
de idéias e opiniões. A língua
materna utilizada para expressar a liberdade de
pensamento, para que se possa analisar e criticar
a realidade e, então, tentar transformá-la
ou recriá-la de forma satisfatória.
A arte dá significado e essência
ao mundo das idéias, fazendo o conhecimento
ser recriado a todo instante por meio de significações
e experiências, onde corpo e mente são
envolvidos, tornando o aluno ser integral e consciente
de suas potencialidades, ou seja, ele sai do mundo
das idéias, vai até os sentimentos
e através da arte, liga os dois a um saber.
Com isso concorda Montessori (1965, p.100) :
A educação dos sentidos, formando
homens observadores, não desempenha tão
somente um trabalho de adaptação
à época presente da civilização,
como ainda prepara, diretamente para a vida prática.
Até o presente, temos tido idéia
muito imperfeita de tudo quanto é necessário
na vida. Temo-nos sempre orientado por aquele
princípio segundo o qual é preciso
partir das idéias para descer às
vias motoras. Assim educar significa ensinar intelectualmente,
para só depois chegar a execução.
Geralmente, ao ensinar, falamos do objeto que
nos interessa, induzindo depois o aluno, que compreendeu,
a executar um trabalho relacionado com o referido
objeto. Mas, não raro, o aluno que compreendera
muito bem as idéias, encontra enormes dificuldades
na execução da tarefa porque faltou-lhe,
em sua educação, um fator de primeira
importância: o aperfeiçoamento das
sensações.
Precisamos de sensações e criatividade
na escola, elementos que poderão acabar
com o marasmo que se vive nos quatro cantos de
uma sala de aula. Somente aquele que sente e cria
pode dar asas à sua liberdade e fazer escolhas
futuras, pois só é livre aquele
que pode escolher, e só não tendo
medo de nossas escolhas é que criamos autonomia
e crítica. O desenvolvimento da auto-expressão
marca indivíduos para sempre, e neste desenvolvimento
está o experimentar, ensaiar, procurar
e encontrar as soluções para problemas
de forma criativa. A respeito da criatividade,
Duarte (1998, p.10) diz que:
A criatividade, sem dúvida, é um
ato proibido. A organização de nosso
mundo é essencialmente estéril e
odeia tudo que possa consumir uma semente de regeneração.
A nova vida fica fora dos limites de seu espaço
se opõe às regras dessa organização:
” em conseqüência o ato criativo
ou criador se desenvolve quase totalmente na clandestinidade”.
O criador é um rebelde: em geral não
se adapta à nossa “bancária”
educação, à mecânica
organização de nosso trabalho e
às leis que regem nossa civilização.
Porque quer o novo. O novo que sua imaginação
gera e que o racionalismo corta. O mundo novo
onde o homem possa, livremente, criar. O mundo
onde a imaginação seja, ela própria,
o fundamento das relações.
A arte está ligada à linguagem e
à escrita, pois quando se escreve uma poesia,
a arte saiu de dentro de nós, transformando
sentimentos em linguagem. A arte articulada à
língua materna traz imaginação
e só o imaginado pode ser construído.
Nesta perspectiva Duarte (1998, p.102) dá
pistas de que:
Através da imaginação o homem
constrói o seu mundo: sua filosofia, sua
ciência, sua arte, sua religião.
Na filosofia e na ciência a imaginação
se autodisciplina, criando normas para que a razão
possa produzir de maneira mais eficaz. Enquanto
na religião e na arte a imaginação
salta o muro que separa o plausível do
imponderável, para afirmar o que não
é acessível à discursividade
da linguagem e da razão. Para criar e compreender
o universo não acessível aos símbolos
lingüísticos e ao pensamento conceitual.
A arte é primordialmente, a concretização
dos sentimentos (não-acessíveis
a linguagem) em formas expressivas. Pela arte
o homem explora aquela região anterior
ao pensamento, onde se dá seu encontro
primeiro com o mundo.
Com a parceria da arte e o ensino de português,
temos a oportunidade de ter acesso a estes sentimentos
que se concretizarão através do
pensamento e da ação. Duarte (1998,
p.103) consegue expressar o que sinto, quando
cita a arte em defesa da expressão oral
e escrita. Diz que: “através da arte
somos levados a conhecer nossas experiências
vividas, que escapam à linearidade da linguagem”.
A arte, junto ao ensino de português, engloba
quatro modalidades: visuais, teatro, música
e dança. Veremos cada uma delas com sua
contribuição e seu enfoque referente
ao ensino da língua materna.
A arte visual ligada ao ensino de português
não está como algo decorativo, mas
para se descobrir uma linguagem que tem características
e estruturas próprias que enfatizam a interpretação
da realidade que se vê, e a criação
de novas realidades desejadas ou sonhadas. Essas
interpretações e criações
dotadas de visão crítica trabalham
o pensamento, a sensibilidade, a percepção
e a intuição, trazendo articulação
à ação.
Através do desenho, gravura, foto, escultura...
pode-se interpretar, falar, ler, escrever, ou
seja, desenvolver as habilidades lingüísticas,
a criatividade e a visão de mundo dos alunos.
As artes visuais desenvolvem habilidades para
a leitura, a escrita e a fala, além de
desenvolverem habilidades espaciais e resgatarem
a representação do mundo cultural
através de significados, criações
e interpretações. Elas expressam
símbolos culturais, desejos, sonhos e sentimentos
dos educandos.
Vivenciando o teatro, o aluno poderá exprimir
sua fantasia ou retratar a realidade. Perceber
e compreender o mundo em que vive, para nele poder
atuar.
No teatro, são oferecidas várias
formas de linguagem e o reconhecimento de seus
usos de acordo com o ambiente e época em
que se está inserido.
Neste processo ainda há a valorização
da literatura e um melhor entendimento do caráter,
sentimentos e atitudes dos personagens, às
vezes de difícil interpretação
nos livros. Personagens que ao ganharem vida no
palco trazem novos significados e expressões
a obra encenada.
A encenação traz ao educando a vivência
de diferentes situações e adaptações
a distintas atitudes. Através do diálogo
e da discussão, desenvolve e incentiva
o trabalho de interação e cooperação
com um grupo. A memória e o raciocínio
são trabalhados em conjunto, além
da improvisação, intuição
e organização lingüística.
O teatro na sala de aula traz significado às
expressões orais e escritas, sendo eficaz
na significação da língua
portuguesa. Ele não desenvolve apenas aspectos
culturais e intelectuais, mas também físicos,
psicológicos, sociais, perceptivos e emocionais,
trazendo sensibilidade e conscientização
a todos os sentidos do corpo (audição,
tato, olfato, gustação e visão).
A música propicia e favorece a percepção,
a atenção, a memória e traz
uma interação com a realidade e
a imaginação. Através dela
podemos retratar o que vemos, sentimos, pensamos
ou sonhamos. Com ela o educando interpreta, analisa,
critica, desestrutura, estrutura, cria e estimula.
A música é uma das formas mais eficazes
de trazer o mundo para dentro da sala de aula
e fazer o sujeito interagir com o seu meio. Ela
constrói expressão e identificação
dos pensamentos e sentimentos do educando que
acaba por reconhecer suas emoções
e idéias.
O modo de sentir e pensar de alguém está
por trás de uma música e nisso está
a construção de significados da
linguagem. Além disso, a música
traz a história de diversas culturas com
suas práticas sociais e cotidianas que
poderão ser objetos de conhecimento, reflexão,
análise e crítica.
Temos também a dança que na verdade,
é uma expressão corporal da vida
dotada de linguagem e sentido. Através
da dança transmitem-se diferentes sentimentos
e concepções. Ela pode retratar
relatos, histórias, tragédias, contos,
poesias e resgatar a linguagem gestual, concretizando
sentimentos, idéias e pensamentos, até
então abstratos.
A vivência da dança desenvolve a
sensibilidade, a percepção, o equilíbrio,
a auto-estima, a coordenação, a
flexibilidade, a interpretação e
a interação social, pois tem que
existir interação para que um grupo
possa realizar uma dança em conjunto e
juntos interpretarem e contextualizarem o que
será representado por ela.
A dança, assim como a música, também
traz o reconhecimento de distintas culturas e
sociedades, podendo ser inserida na observação,
interpretação, análise e
crítica das mesmas. Enfim, a dança
pode ser o meio de dar forma a sonhos, idéias,
anseios e pensamentos, em que só a linguagem
do corpo poderá dar real dimensão
à linguagem oral e escrita.
Ela passa emoções e ações
à alma através do corpo e do gesto.
Por isso interpretações de textos
e poesias pela dança exprimem todo o seu
significado. Através do movimento, se penetra
na essência de uma obra literária,
manifestando o entendimento integral da alma do
educando. Um passo de dança vai além
da palavra ou do conceito.
Com estas quatro modalidades da arte incorporadas
à língua portuguesa e vice-versa,
temos como resultado, a paixão e o entusiasmo
em sala de aula, pois só onde há
paixão pode haver aprendizagem como nos
diz Freire (1998, p.53) “Nenhuma nação
se afirma fora dessa louca paixão pelo
conhecimento, sem que se aventure, plena de emoção,
na reinvenção constante dessa mesma,
sem que se arrisque criadoramente”. Freire
(1998, p. 43) nos dá a certeza que somos
cabeça, mente e coração e
o conhecimento não vem sozinho, ele precisa
da totalidade do ser. Ele expressa que:
O medo, por exemplo, de nossos sentimentos, de
nossas emoções, de nossos desejos,
o medo de que ponham a perder nossa cientificidade.
O que sei, sei com meu corpo inteiro: com minha
mente crítica mas também com meus
sentimentos, com minhas intuições,
com minhas emoções.
Necessitamos de um ensino da língua portuguesa
integral, onde o conhecimento não seja
guardado em gavetas. Os alunos precisam estar
abertos à aprendizagem, o conhecimento
não pode ser adestrador e sim libertador.
Com a arte em sala de aula teremos uma forte aliada
da libertação. Na escola, nossos
alunos não querem ser artistas de algo
e sim da vida.
Von Laban no livro Dançar a Vida de Roger
Garaudy, mostra a importância das artes
na relação homem-mundo, em que o
ser humano se encontra consigo mesmo, reconhece
sua essência criadora, toma consciência
de seu multiculturalismo e busca através
de sua própria experiência pessoal,
relacionar-se de forma dialógica e cooperativista
consigo e com o outro. Reconhece e aceita as diferenças
para contribuir para uma sociedade mais justa.
Neste sentido Laban apud Garaudy (1980, p. 113)
indica que:
O que dá grandeza ao teatro e à
dança não é o fato de ensinarem
uma moral, uma religião ou uma política,
e sim, na medida que nos fazem tomar profundamente
consciência da vida, o fato de despertarem
em nós o sentimento de sermos responsáveis
pelo nosso destino e livres em nossas ações.
Teatro e dança não são cópias
do real que pretendem nos iludir: eles nos introduzem
na realidade da vida interior e das decisões
que dão origem aos valores.
Essa consciência da vida é que nos
torna revolucionários e livres em nossas
criações e como diz Garaudy (1980,
p. 184) “Não existe ato mais revolucionário
do que ensinar um homem a enfrentar o mundo enquanto
criador”. Esta citação mostra
o efeito da criatividade do homem frente ao mundo
e de que somente enfrenta a vida aquele que sabe
construir e reconstruir seu conhecimento, sabendo
usá-lo em suas vivências.
Finalizando com Alves (1984, p.84) “Pois
é com medo ninguém aprende a gostar
de estudar. E é o prazer de estudar, de
investigar, de perguntar, que faz da educação
uma coisa bonita, gostosa, brinquedo, feito empinar
pipa”. Assim como Alves, acredito que o
aluno deve ter alegria ao aprender, que o conhecimento
seja algo gostoso que dê vontade de ter
cada vez mais, sendo desejado e esperado por todos.
E a arte em sala de aula pode trazer esta alegria
e a vontade de aprender, reconstruir e resignificar
conhecimentos.
|
|