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E
FREIRE CONTINUA: ENSINAR É UMA ESPECIFICIDADE
HUMANA
Agostinho Mário Dalla Vecchia
Uma das qualidades essenciais que a autoridade
docente democrática deve revelar em suas
relações com as liberdades dos alunos
é a segurança em si mesma. É
a segurança que se manifesta na firmeza
com que atua, com que decide, com que respeita
as liberdades, com que discute suas próprias
posições, com que aceita rever-se.
Importante é ser seguro de sua autoridade
e exercê-la com sabedoria. Uma autoridade
segura é uma autoridade afetivamente centrada.
O pensamento da afetividade ganha aprofundamento
quando Freire mostra que Ensinar exige segurança,
competência profissional e generosidade.
A segurança com que a autoridade docente
se move implica na sua competência profissional.
É da competência que nasce a segurança.
Um professor que não leva a sério
a sua formação não tem força
moral para coordenar as atividades de sua classe.
Opção e prática democrática
do professor não são determinadas
por sua competência científica. Há
professores preparados e que são autoritários.
A incompetência profissional desqualifica
a autoridade do professor (FREIRE, 1999:103).
Outra dimensão da afetividade destacada
como qualidade indispensável à autoridade
em suas relações com as liberdades
é a generosidade. A mesquinhez inferioriza
a tarefa formadora do professor. Uma dimensão
patológica do afeto é a arrogância
farisaica e malvada com que o professor julga
aos outros e a indulgência macia com que
se julga. A arrogância que nega a generosidade
nega também a humildade. É ofensiva
e se regozija com a humilhação.
Atitudes afetivamente doentias.
E Paulo Freire continua demonstrando que a sua
percepção e prática educativa
estão recheadas de elementos e vivência
afetiva: “O clima de respeito que nasce
de relações justas, sérias,
humildes, generosas, em que a autoridade docente
e as liberdades dos alunos se assumem eticamente,
autentica o caráter formador do espaço
pedagógico” (FREIRE, 1999:103).
A abordagem da autoridade e da liberdade vai enriquecendo
a compreensão sobre a afetividade à
medida que Paulo Freire vai refletindo com densa
sabedoria. A autoridade docente mandonista, não
conta com nenhuma criatividade do educando. “Não
faz parte de sua forma de ser, esperar, sequer,
que o educando revele o gosto de aventurar-se”.
Assim, a autoridade coerentemente democrática,
fundando-se na certeza da importância de
si mesma e da liberdade dos educandos, para construir
um clima de real disciplina, jamais minimiza a
liberdade, convicta de que a verdadeira disciplina
não existe na estagnação,
no silencio dos silenciados, mas no alvoroço
dos inquietos, na dúvida que instiga, na
esperança que desperta (FREIRE, 1999:104).
O pressuposto da afetividade é uma relação
coerentemente ética, o que permite a liberdade,
a ruptura e o risco, mas com responsabilidade.
A autoridade coerentemente democrática,
além de reconhecer a eticidade de nossa
presença no mundo, reconhece também
e necessariamente que não se vive a liberdade
sem eticidade e não se tem liberdade sem
risco. O educando que exercita sua liberdade ficará
tão mais livre quanto mais eticamente vá
assumindo a responsabilidade de suas ações.
Decidir é romper e, para isso, correr o
risco (FREIRE, 1999: 104).
No ensino eu devo ser testemunho de quão
fundamental é respeitar-me e respeitar
o aluno. Paulo Freire nunca separou o ensino da
formação ética do aluno.
Ensinar conteúdo implica o testemunho ético
do professor. A beleza da prática educativa
se compõe do anseio vivo de competência
do docente e dos discentes e de seu sonho ético
diz Freire. O saber da impossibilidade de dissociar
o ensino dos conteúdos da formação
ética dos educandos, é um saber
indispensável à prática docente.
Não se separa prática e teoria,
autoridade e liberdade, ignorância de saber,
respeito ao professor de respeito aos alunos.
“Se não exerço a liberdade,
a autoridade, a ética, não posso
ensinar o que não sei. É concretamente
respeitando o direito do aluno de indagar, de
duvidar, de criticar, que falo desses direitos”
(FREIRE, 1999:107).
Professor deve lutar para que a prática
educativa seja respeitada. O respeito que devemos
como professores aos educandos dificilmente se
cumpre se não somos tratados com dignidade
e decência pela administração
privada e pública da educação.
Não podemos ser professor sem nos pôr
diante dos alunos, sem revelar com facilidade
ou relutância nossa maneira de ser, de pensar
politicamente, nos coloca Paulo Freire ao iniciar
Ensinar exige comprometimento (grifo nosso). Não
escapamos à apreciação dos
alunos, afirma Freire. E a maneira como eles nos
percebem tem importância capital para o
nosso desempenho. Nossa preocupação
deve ser de aproximar cada vez mais o que dizemos
e o que fazemos. Não mentir ao aluno é
fundamental. É uma questão ética.
Se minha opção é prática
progressista não posso ter uma atitude
reacionária, autoritária, elitista.
Não posso discriminar aluno por qualquer
motivo. Devo estar atento da leitura que fazem
de nossa atividade com eles. Precisamos compreender
a significação de um silêncio,
de um sorriso, de uma retirada da sala de aula.
“Quanto mais solidariedade exista entre
educador e educandos, no “trato” deste
espaço, tanto mais possibilidade de aprendizagem
democrática se abrem na escola” (FREIRE,
1999:109).
Nossa presença em aula em si é uma
presença política, continua Freire.
“E não sou neutro. Enquanto presença
não posso ser neutro, ser omisso, mas um
sujeito de opções. Devo revelar
aos alunos a minha capacidade de analisar, de
comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de
romper. Minha capacidade de fazer justiça,
de não falhar à verdade. Ético,
por isso tem que ser meu testemunho” (FREIRE,
1999:110).
Comprometimento ético, presencial, efetivo
é um comprometimento afetivo. Somente com
afetividade e solidariedade nos comprometemos.
Coerente com a perspectiva de abordagem dialética
que Freire adotou nesta reflexão afirma
que Ensinar exige compreender que a educação
é uma forma de intervenção
no mundo.
A educação como uma forma de intervenção
é uma forma especificamente humana e que
implica, ensino de conteúdos, reprodução
da ideologia dominante ou seu desmascaramento.
A educação não é,
não pode e jamais será neutra. Somos
determinados por condicionamentos genéticos,
culturais, sociais, históricos, de classe
que nos marcam. Do ponto de vista dominante a
educação deve ser uma prática
ocultadora e imobilizadora. Jamais poderíamos
imaginar que os grandes proprietários aceitem
a discussão política da Reforma
Agrária. A imoralidade para Paulo Freire
é propor a discussão dos interesses
do mercado acima dos interesses radicalmente humanos.
A transgressão da ética é
uma possibilidade, uma vez que somos inacabados
e éticos, porém jamais podemos aceitar
isso como um direito. Não posso tornar-me
conivente de uma ordem perversa. Aceitar a fome
frente a frente à bastança e ao
desemprego. Nada justifica a minimização
dos seres humanos, nada pode legitimar uma ordem
desordeira em que só minorias do poder
esbanjam e gozam, enquanto a maioria tem dificuldade
até para sobreviver (FREIRE, 1999:111-112).
Freire fala “da resistência, da indignação,
da “justa ira” dos traídos
e dos enganados. Do seu direito e do seu dever
de rebelar-se contra as transgressões éticas
de que são vítimas cada vez mais
sofridas. O operário precisa inventar,
a partir do próprio trabalho, a sua cidadania
que não se constrói apenas com sua
eficácia técnica mas também
com sua luta política em favor da recriação
da sociedade justa, a ceder seu lugar a uma sociedade
menos injusta e mais humana.” (FREIRE, 1999:114).
Os empresários concordam com a formação
técnica do trabalhador, mas não
com sua formação humana, pela sua
presença no mundo. Presença humana,
presença ética, aviltada toda vez
que transformada em pura sombra. Dessa forma navegamos
no oceano da afetividade em suas dimensões
políticas e formas de expressão
efetiva.
Assim, por não ser neutra nossa prática
exige de nós uma definição.
Não podemos ser professores a favor de
um homem ou da humanidade. Isto seria contrastante
com a concretude prática educativa. E Paulo
Freire se torna veemente ao afirmar que é
professor “a favor da decência contra
o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo,
da autoridade contra a licenciosidade, da democracia
contra a ditadura [...] a favor da luta constante
contra qualquer forma de discriminação
[...], contra a dominação econômica
da ordem capitalista vigente, [...] a favor da
esperança que me anima apesar de tudo.
Sou contra o desengano que me consome e me imobiliza
[...] a favor da boniteza da minha própria
prática” (FREIRE, 1999:115-116).
É assim, em formas de erupção
teórica fundamentada que Freire se refere
à dimensão afetiva e ética
da educação.
“Tão importante quanto o ensino dos
conteúdos é a minha coerência
na classe. A coerência entre o que eu digo,
o que escrevo e o que eu faço” (FREIRE,
1999:116). Para isso é preciso integridade
afetiva que sustenta a coerência do meu
trabalho e dos meus objetivos.
Duas dimensões que envolvem a afetividade
são colocadas quando Freire mostra a consciência
de que Ensinar exige liberdade e autoridade. Para
ele não está resolvida a tensão
entre liberdade e autoridade. Ser licencioso seria
permitir que a indisciplina de uma liberdade mal
centrada desequilibrasse o contexto pedagógico,
prejudicando assim o seu funcionamento. A liberdade
sem limite é tão negada quanto a
liberdade asfixiada. O grande problema ao educador
de opção democrática é
como trabalhar tornando possível que a
necessidade de limite seja assumida eticamente
pela liberdade. A liberdade deve ser exercitada
assumindo decisões. A liberdade amadurece
se confrontando com outras liberdades, na defesa
dos direitos em face da autoridade dos pais, do
professor e do Estado. É necessário
que os pais tomem parte das discussões
com os filhos em torno do amanhã. É
decidindo que se aprende a decidir. Não
posso aprender a ser eu mesmo se não decido
nunca.
O que há de pragmático em nossa
existência não pode sobrepor-se ao
imperativo ético de que não podemos
fugir. O filho tem direito de ter aprovada a maluquice
de sua idéia. Mas deve assumir a responsabilidade
de seus atos. A decisão é um processo
responsável. Decidir pressupõe que
a pessoa tenha assumido afetivamente seu propósito.
A participação dos pais deve dar-se,
sobretudo na análise, com os filhos, das
conseqüências possíveis da decisão
a ser tomada. É um papel de assessoria
de enorme importância. Mas é preciso
que o filho assuma eticamente sua decisão,
o que é fundante de sua autonomia. A autonomia
vai se constituindo na experiência de muitas
decisões tomadas. É um direito e
um dever dos filhos constituírem a própria
autonomia.
A autonomia é um processo, um vir-a-ser.
“Uma pedagogia da autonomia tem de estar
centrada em experiências estimuladoras da
decisão e da responsabilidade, vale dizer,
em experiências respeitosas da liberdade”
(FREIRE, 1999:121). Novamente a densidade da afetividade
de Paulo Freire no tratamento de sua atividade
de educador se manifesta de forma clara e sem
rodeios, situada e argumentada.
Jamais tive medo de apostar na liberdade, na seriedade,
na amorosidade, na solidariedade, na luta em favor
das quais aprendi o valor e a importância
da raiva. Jamais receei ser criticado por minha
mulher, por minhas filhas, por meus filhos, assim
como pelos alunos e alunas [...] porque tivesse
apostado demasiadamente na liberdade, na esperança,
na palavra do outro na sua vontade de erguer-se
ou reerguer-se por ter sido mais ingênuo
do que crítico (FREIRE, 1999:121).
Jamais Freire distorceu a liberdade em licenciosidade,
e sim buscou assegurar o respeito entre ambas.
“A posição mais difícil,
indiscutivelmente correta, é a do democrata,
coerente com seu sonho solidário e igualitário,
para quem não é possível
autoridade sem liberdade e esta sem aquela”
(FREIRE, 1999:122).
3.5. A consciência tem seu fundamento na
afetividade, nessa fonte nutridora e sustentadora
de um saber permeado pela ética. Assim
Ensinar exige tomada consciente de decisões.
A partir da questão central “a educação,
especificidade humana, como um ato de intervenção
no mundo” Freire coloca a educação
como intervenção referindo-se tanto
àquela que aspira a mudanças radicais
da sociedade, no campo da economia das relações
humanas, da propriedade, do direito ao trabalho,
à terra, à educação,
à saúde, quanto aquela que reacionariamente
pretende imobilizar a História e manter
a ordem injusta. Às vezes cometemos a incoerência
do nosso discurso progressista e o nosso estilo
elitista. Conforme reiterou Freire muitas vezes,
é preciso a virtude da coerência.
Um exemplo profundamente incoerente é o
discurso progressista e a prática racista.
O racismo é uma das formas, a mais profunda,
de patologia da afetividade.
A chamada politicidade da educação,
onde se situa nosso gesto de decisão, Freire
a identifica na vocação especificamente
humana de endereçar-se até sonhos,
idéias, utopias e objetivos. A qualidade
de ser política é inerente à
sua natureza. É impossível a neutralidade
da educação. A educação
não vira, ela é política.
“A raiz mais profunda da educabilidade da
educação se acha na educabilidade
mesma do ser humano e da qual se tornou consciente.
Inacabado e consciente do seu inacabamento, histórico,
necessariamente o ser humano se faria um ser ético,
um ser de opção, de decisão”
(FREIRE, 1999:124). Voltado para interesses, o
homem tanto pode ser ético como transgredir
a mesma.
Por nos tornarmos éticos criou-se a probabilidade
de violar a ética. Há uma incompatibilidade
total entre o mundo da fala, da percepção,
da inteligibilidade, da comunicabilidade, da ação,
da escolha, da decisão, da ruptura, da
ética e da sua possibilidade de transgressão
e a neutralidade. O que devo pretender é
o respeito a toda a prova, aos educandos, aos
educadores e às educadoras, por parte da
administração pública ou
privada das escolas; o respeito aos educandos
assumido e praticado pelos educadores. Devo lutar
sem descanso pelo direito de ser respeitado, de
ser eu mesmo. Na postura de neutralidade está
o medo de acusar a injustiça. Devo engendrar
um saber que motiva e sustenta essa luta. Se a
educação não pode tudo, alguma
coisa fundamental ela pode. A educação
deve demonstrar que é possível mudar.
E isto reforça nele ou nela a importância
de sua tarefa político-pedagógica.
A professora democrática, coerente, competente,
que testemunha seu gosto de vida, sua esperança
no mundo melhor, que atesta sua capacidade de
luta, seu respeito às diferenças,
sabe cada vez mais o valor que tem para a modificação
da realidade, a maneira consistente que vive sua
presença no mundo, de que sua experiência
na escola é apenas um momento, mas um momento
importante que precisa de ser autenticamente vivido
(FREIRE, 1999:127).
Freire toca diretamente uma questão de
afeto quando pensa que Ensinar exige escutar.
Neste sentido Olgair Garcia, educadora experiente,
pedagoga, dizia a Paulo Freire da importância
de saber escutar. Nesta referência Paulo
Freire coloca um dos aspectos fundamentais do
movimento afetivo das relações.
“Se, na verdade o sonho que nos anima é
democrático e solidário, não
é falando para os outros de cima para baixo,
sobretudo, como se fossemos os portadores da verdade
a ser transmitida aos demais, que aprendemos a
escutar, mas, é escutando que aprendemos
a falar com eles. Somente quem escuta paciente
e criticamente o outro, fala com ele [...]. O
educador que escuta aprende a difícil lição
de transformar o seu discurso, às vezes
necessário, ao aluno, em uma fala com ele”
(FREIRE, 1999:127-128).
Ao mesmo tempo Freire se mostra perplexo pela
insistência com que, em nome da democracia,
da liberdade e da eficácia, se vem asfixiando
a própria liberdade e, por extensão,
a própria criatividade e o gosto da aventura
do espírito. É a asfixia que vem
do poder invisível da domesticação
alienante que alcança a eficiência
extraordinária no que veio chamando burocratização
da mente. A posição de quem entende
a história como determinismo e não
como possibilidade, que assume a posição
de fragilidade de todo poderismo dos fatos. Não
há lugar para a decisão humana,
nem problematização do tempo. Só
há lugar para a acomodação,
baixar a cabeça. Prefiro a rebeldia que
me confirma como gente, acrescenta. A morte da
História é asfixia do sonho e da
utopia. A briga do resgate da utopia é
uma luta da educação. É preciso
resistir contra os métodos silenciadores
com que ela vem sendo realizada (FREIRE, 1999:128-129).
Em seguida Freire nos fala mais longamente do
diálogo, da escuta.
No processo da fala e da escuta a disciplina do
silêncio a ser assumido com rigor e a seu
tempo pelos sujeitos que falam e escutam é
um ”sine quae” da comunicação
dialógica. O primeiro sinal de que o sujeito
que fala sabe escutar é a demonstração
de sua capacidade de controlar não só
a necessidade de dizer a sua própria palavra,
que é um direito, mas também o gosto
pessoal, profundamente respeitável, de
expressá-la. Quem tem o que dizer tem igualmente
o direito e o dever de dizê-lo. É
preciso, porém, que quem tem o que dizer
saiba, sem sombra de dúvida, não
ser o único ou a única a ter o que
dizer. (...) É preciso que quem tenha o
que dizer saiba que, sem escutar o que quem escuta
tem igualmente a dizer, termina por esgotar a
sua capacidade de dizer por muito ter dito sem
nada ou quase nada ter escutado (FREIRE, 1999:131,
132).
Quem tem o que dizer deve assumir o dever de motivar,
de desafiar quem escuta para que diga, fale, responda.
A fala autoritária silencia o aluno. A
fala democrática, dialogal é acolhida
num silêncio receptivo, ativo. No universo
dialogal o silêncio é espaço
importante porque propicia a escuta, a indagação,
a dúvida, a criação de quem
escutou. O escutar o outro é constitutivo,
é um ato ontológico de facilitação
da expressão e crescimento da identidade
do outro. É um ato constitutivo da Identidade
de quem se expressa.
Ao entender o mundo o homem criou a comunicabilidade
do inteligido. Não há inteligência
da realidade sem a possibilidade de ser comunicada.
O mundo passa a existir pela construção
dos significados na subjetividade humana. Sou
tão melhor professor quanto mais conseguir
provocar a curiosidade do aluno e a possibilidade
dele produzir sua inteligência do objeto.
O meu papel é, ao falar com clareza sobre
o objeto, incitar o aluno afim que ele, com os
materiais que ofereço, produza a compreensão
do objeto em lugar de recebê-lo. “Ele
precisa de se apropriar da inteligência
do conteúdo para que a verdadeira relação
de comunicação entre mim e ele se
estabeleça. Ensinar e aprender tem a ver
metodicamente com o esforço crítico
do professor de desvelar a compreensão
de algo e com empenho igualmente crítico
do aluno de ir entrando como sujeito em aprendizagem,
no processo de desvelamento que o professor deve
deflagrar” (FREIRE, 1999:134).
Ensinar não é transferir a inteligência
do objeto ao educando, mas instigá-lo para
que se torne capaz de inteligir e comunicar o
inteligido. Neste sentido se impõe a nós
escutar o educando em suas dúvidas, em
seus receios, em sua incompetência provisória.
Ao escutá-lo aprendo a falar com ele. Reitera-se
aqui que a afetividade é o combustível
que move o motor da vida e que integra o movimento
da inteligibilidade das coisas.
Escutar é obviamente algo que vai além
da possibilidade auditiva de cada um. Escutar
significa disponibilidade permanente por parte
do sujeito que escuta para abertura à fala
do outro, ao gesto do outro, às diferenças
do outro. Não diminui em mim nada do direito
de discordar, de me opor de me posicionar. O bom
escutador fala e diz de sua posição
com desenvoltura. O âmago de todo esse processo
de escutar, de estar disponível, aberto
à fala, ao gesto, ao acontecer do outro
é essencialmente afetivo.
Há uma série de qualidades afetivas
que surgem da prática democrática
de escutar e de exercer a prática pedagógica
verdadeira. Quais são essas qualidades
indispensáveis uma vez que nossa prática
seja democrática?
É preciso que saibamos que sem certas qualidades
e virtudes como a amorosidade, respeito aos outros,
tolerância, humildade, gosto pela alegria,
gosto pela vida, abertura para o novo, disponibilidade
à mudança, persistência na
luta, recusa aos fatalismos, identificação
com a esperança, abertura à justiça,
não é possível a prática
pedagógico-progressista, que não
se faz apenas com ciência e técnica
(FREIRE, 1999:136).(grifos nosssos),
Aceitar e respeitar a diferença é
uma dessas virtudes sem o que a escuta não
se pode dar. Se discrimino o menino ou a menina
pobre, a menina ou menino negro, o menino índio,
a menina rica; se discrimino a mulher, a camponesa,
a operária não posso evidentemente
escutá-las e se não as escuto, não
posso falar com eles, mas a eles de cima para
baixo. Sobretudo me proíbo entendê-los.
Se me sinto superior ao diferente, não
importa quem seja, recuso-me escutá-lo
ou escutá-la. O diferente não é
o outro a merecer respeito é um isto ou
aquilo, destratável ou desprezível
(FREIRE, 1999:136).
Este elenco de qualidades representa a abundância
da presença teórica e prática
do afeto no discurso da pedagogia da autonomia
e da prática exemplar de nosso grande mestre.
Escutar quem fala ou escreve fora dos padrões
da gramática dominante exige humildade,
respeito às diferenças. A falta
de humildade expressa na arrogância e na
falsa superioridade de uma pessoa sobre outra,
de uma raça sobre outra é uma transgressão
da vocação humana do ser mais. O
que a humildade exige de mim, quando não
posso reagir à altura da afronta, é
enfrentá-la com dignidade. A dignidade
do meu silêncio e do meu olhar que transmite
o meu protesto possível. Não devo
amesquinhar-me diante do seu desrespeito e do
seu agravo. Deve ficar assinalando meu protesto.
Caso tenha força física para golpear-me
não terá força para dobrar-me
ao seu arbítrio. Escutar não significa
concordar, mas é a maneira correta que
tem o educador de, com o educando e não
sobre ele, tentar a superação de
uma maneira mais ingênua por outra mais
crítica de inteligir o mundo (FREIRE, 1999:137-138).
A operacionalidade do diálogo e da relação
afetiva com o educando ganha consistência
e realidade na seqüência do que Paulo
Freire expressa abaixo com clareza metodológica.
Respeitar a leitura de mundo do educando significa
tomá-la como ponto de partida para a compreensão
do papel da curiosidade e da criatividade humana
como um dos impulsos fundantes da produção
do conhecimento e diria, na minha compreensão,
como ato inicial de acolhida para facilitar o
processo do outro acontecer. Ao respeitar a leitura
de mundo do educando o educador deixe claro que
a curiosidade fundamental à inteligibilidade
do mundo é histórica e se dá
na história, se aperfeiçoa, muda
qualitativamente, se faz metodicamente rigorosa.
Reconhecer a leitura de mundo do educando é
reconhecer a historicidade do saber, o caráter
histórico da curiosidade, desta forma,
recusando arrogância cientificista, assume
humildade crítica, própria da posição
verdadeiramente científica (FREIRE, 1999:
139). O fundamento da crítica é
o encontro afetivo com outro e o reconhecimento
e acolhida de sua realidade. Escutar a fala do
outro, o pensamento do outro é escutar
o ser do outro.
O ato dialogal é constitutivo também
da identidade da comunidade. A leitura de mundo
revela a inteligência do mundo que vem cultural
e socialmente se constituindo. Revela também
o trabalho individual daquele sujeito no próprio
processo de assimilação da inteligência
do mundo. Uma das tarefas da escola é trabalhar
criticamente a inteligibilidade das coisas e dos
fatos e a sua comunicabilidade. O educando deve
assumir o papel de sujeito da produção
de sua inteligência do mundo e não
apenas o de recebedor da que lhe seja transferida
pelo professor. Não podemos conhecer pelo
aluno. O que posso e devo fazer é desafiá-lo,
é que se vá percebendo na e pela
própria prática, sujeito capaz de
saber. Devemos ajudá-lo a reconhecer-se
como arquiteto de sua própria prática
cognoscitiva. Que a partir de certo momento vá
assumindo a autoria também do conhecimento
do objeto.
O professor autoritário se recusa ouvir
seus alunos, se fecha a essa aventura criadora.
O ensino dos conteúdos, criticamente realizado,
envolve abertura total do professor ou da professora,
à tentativa legítima do educando
para tomar em suas mãos a responsabilidade
de sujeito que conhece. O professor deve estimular
a tentativa do educando. Na perspectiva progressista
devo experimentar a unidade dinâmica entre
o ensino do conteúdo e o ensino de que
é e de como aprender e como ensinar, como
exercer a curiosidade epistemológica indispensável
à produção do conhecimento.
Muitos professores absorveram a idéia de
ideologia simplesmente como algo negativo, como
mecanismo de ocultação de interesses
escusos, enfim, sem uma compreensão da
necessidade de operacionalidade que se faz necessária
no processo de atuação do homem
no mundo em conjunto com seus semelhantes. Paulo
Freire nos mostra que Ensinar exige reconhecer
que a educação é ideológica.
A ideologia supõe um envolvimento afetivo
do educando, do cidadão, inclusive do devoto
de uma crença partidária, pedagógica,
de um credo religioso. A ideologia é o
conjunto de argumentações carregadas
de emoção que tem a finalidade de
envolver e seduzir a pessoa para aderir a um ideal,
a um projeto, a um determinado procedimento.
Ás vezes a força da ideologia é
maior que a força do pensamento. Para seduzir
ela, de certo modo, tem que velar ou esconder
uma dimensão da realidade. Sendo crítica
não teria a força de mobilização
e de adesão. Freire nos fala dessa maneira:
Tendo a ver diretamente com a ocultação
da verdade dos fatos a ideologia nos põe
a cair em suas armadilhas, nos tornando míopes.
É como se algo estivesse metido na penumbra,
mas não divisamos bem. Essa penumbra faz
com que nós aceitemos docilmente um discurso
fatalista, por exemplo: um discurso cinicamente
fatalista que proclama o desemprego no mundo como
uma desgraça do final do milênio.
Ou: os sonhos morreram e o válido é
hoje o pragmatismo pedagógico, é
o treino técnico-científico do educando
e não a sua formação (FREIRE,
1999:141). Não deixa de me chamar atenção
a gravidade da neutralização da
capacidade afetiva de articulação
política no mundo que se cria para quem
não se apercebe dessa armadilha.
A capacidade de nos amaciar que tem a ideologia
pode nos fazer crer que a globalização
da economia é um destino inevitável,
uma quase entidade metafísica. Fala-se
de globalização como um momento
necessário da economia mundial, universalizando-se
um dado do sistema capitalista. E os países
centrais exigem dos países periféricos
que façam aquilo que eles não conseguiram
fazer em épocas semelhantes. A ideologia
quer nos fazer entender a globalização
como algo natural ou quase natural e não
como uma produção histórica
(FREIRE, 1999:141).
O discurso da globalização que fala
da ética esconde que a sua ética
é a do mercado e não a ética
universal do ser humano. Homens e mulheres que
se assumem como homens e mulheres sentem o mal
estar gerado pela face da maldade neoliberal.
“Mal-estar que terminará por consolidar-se
numa rebeldia nova em que a palavra crítica,
o discurso humanista, o compromisso solidário,
a denuncia veemente da negação do
homem e da mulher e o anuncio de um mundo gentificado
serão armas de incalculável valor”
(FREIRE, 1999:145). Esse mesmo caldo afetivo de
motivação deve mobilizar e inspirar
a ação mais eficaz da rebelião
contra essa ameaça à nossa essência
e à nossa liberdade. Isso só é
possível na ética da solidariedade
humana. Assim reflete Paulo Freire que hoje se
fazem necessárias a união e a rebelião
das gentes contra a ameaça que nos atinge,
a da negação de nós mesmos
como seres humanos submetidos à “fereza”
da ética do mercado. Freire reafirma sentir-se
alegre ao ser condicionado, mas capaz de ultrapassar
o próprio condicionamento. “A grande
força sobre a qual se alicerça a
nova rebeldia é a ética universal
do ser humano e não a do mercado. Insensível
a todo reclamo das gentes e apenas aberta à
gulodice do lucro. É a ética da
solidariedade humana” (FREIRE, 1999:145).
Assim é reafirmada a afetividade como elemento
essencial da ética. A adesão e mobilização
inteira da pessoa é que dá realidade
e consistência ética a seu agir e
a seu pensar.
Assumir afetivamente o processo libertário
nos coloca na mira da crítica. Freire prefere
ser criticado e apostar no ser humano. A liberdade
de comércio não pode estar acima
da liberdade do ser humano. A liberdade do comércio
sem limite é a licenciosidade do lucro.
Não importa se isso provoque o colapso
financeiro do proprietário, a expulsão
de milhares de trabalhadores da produção.
“Insisto com a força que tenho e
que posso juntar na minha veemente recusa a determinismos
que reduzem a nossa presença na realidade
histórico-social à pura adaptação
a ela” (FREIRE, 1999:146). O desemprego
no mundo não é uma fatalidade, mas
o resultado de uma globalização
e de uma tecnologia sem uma ética a serviço
do ser humano, mas em função do
lucro de minorias. A liberdade do comércio
é a inversão da liberdade humana
que se alicerça em relações
de vínculo de comprometimento solidário
e não em uma liberdade identificada com
a competição, com a plena licenciosidade.
A liberdade humana somente é possível
num processo de relação amorosa.
Já se noticia que dois por cento da humanidade
detêm em seu poder mais de 50% da riqueza
do mundo. Os mesmos 2% detém em suas mãos
90% dos meios de produção. Segundo
a previsão de Rose Mary Muraro, no ano
2020 estaríamos com 80% da humanidade excluída
do sistema. Seria o nada do sistema.
O progresso científico e tecnológico
que não corresponde fundamentalmente aos
interesses humanos, às necessidades de
nossa existência, perdem sua significação.
A todo o avanço tecnológico que
pusesse em risco a alegria de viver, deveria haver
um empenho real e cotidiano. Não se trata
de inibir a pesquisa e frear os avanços
dos seres humanos. Podemos ser transgressores
de uma ética do ser humano. E o fazemos
em nome de uma ética do mercado e do lucro.
Entre as transgressões de uma ética
universal está aquela da falta de trabalho
que causa desespero e morte em vida a milhares
de pessoas. Sabemos o quão difícil
é a aplicação de uma política
do desenvolvimento humano que privilegie homem
e mulher e não apenas o lucro. Rolando
Toro se refere explicitamente que o problema econômico,
político e cultural da sociedade hoje é
um problema afetivo. Para superar a crise, comenta
Freire, o caminho ético se impõe.
Se não pode haver desenvolvimento sem lucro
esse não pode ser o objetivo do desenvolvimento,
de que o fim último seria o gozo imoral
do investidor. A política para exercer
esta ética jamais poderá ser a autoritária,
de esquerda ou de direita O caminho autoritário
já é em si uma contravenção
à natureza inquietamente indagadora, buscadora,
de homens e mulheres que se perdem ao perderem
a liberdade. Como professor, então, devo
estar advertido do discurso ideológico,
especialmente daquele que mata as ideologias.
A ideologia tem um poder de persuasão indiscutível,
ameaçando anestesiar a mente, confundir
a curiosidade, distorcer a percepção
dos fatos e acontecimentos. E aqui Paulo Freire
faz um elenco de expressões que são
carregados de elementos ideológicos alienantes
(Cf. FREIRE, p.150).
É necessária a resistência
crítica, expor-se às diferenças,
recusar posições dogmáticas,
em permanente disponibilidade de tocar e ser tocado,
a perguntar e a responder, a concordar e a discordar.
Disponibilidade à vida e a seus contratempos.
Estar disponível é estar sensível
aos chamamentos que nos chegam, aos sinais mais
diversos que nos apelam, ao canto do pássaro,
à chuva que cai ou que se anuncia na nuvem
escura, ao riso manso da inocência, à
cara carrancuda da desaprovação,
aos braços que se abrem para acolher, ou
ao corpo que se fecha na recusa. É na minha
disponibilidade permanente à vida que me
entrego de corpo inteiro, pensar crítico,
emoção, curiosidade, desejo, que
vou aprendendo a ser eu mesmo em minha relação
ao contrário de mim. E quanto mais me dou
à experiência de lidar sem medo,
sem preconceito, com as diferenças, tanto
melhor me conheço e construo meu perfil
(FREIRE, 1999: 152).
Afetividade é uma das dimensões
fundamentais da vida que nos dá sensibilidade
aos apelos que nos chegam, seja do canto dos passarinhos,
do semblante inocente e terno, do olhar de desaprovação,
aos braços abertos para acolher ou do corpo
que se fecha para dar limite. Na disponibilidade
atenta à vida que o afeto nos leva à
entrega inteira, ao pensar crítico, à
curiosidade, ao meu desejo através dos
quais aprendo a ser eu mesmo na relação
com o outro. A condição para se
conhecer é lidar sem medo, sem preconceito
com a diferença.
De um modo geral a nossa educação
se articula de maneira autoritária, e os
conhecimentos tem uma mão única.
Não supõe, de modo geral a troca,
a interação. Neste sentido Freire
coloca a compreensão de que Ensinar exige
disponibilidade para o diálogo. O diálogo
é o elemento essencial da pedagogia progressista.
Um dos modos como se opera a afetividade é
o diálogo. Dialogar é antes de qualquer
coisa permitir ao outro ser, se expressar e acontecer.
Isto se dá na medida que sou disponível,
que acolho, e vou facilitando o processo educativo.
A abertura deve ser vivida e refletida. A abertura
é possibilidade de diálogo.
Nas minhas relações com os outros,
que fizeram opções distintas de
mim, não devo partir para conquistá-los,
mas respeitar as diferenças sendo coerente
entre o que eu faço e o que eu digo, que
me encontro com eles ou com elas. É na
minha disponibilidade à realidade que construo
a minha segurança, indispensável
à própria disponibilidade. É
impossível criar a segurança fora
do risco da disponibilidade.
Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade
curiosa à vida, a seus desafios, são
saberes necessários à prática
educativa. Viver a abertura respeitosa aos outros
e, de vez em quando, de acordo com o momento,
tomar a própria prática de abertura
ao outro como objeto de reflexão crítica
deveria fazer parte da aventura docente. A razão
ética da abertura, seu fundamento político,
sua referencia pedagógica, a boniteza que
há nela como viabilidade do diálogo.
A experiência da abertura como experiência
fundante do ser inacabado que terminou por se
saber inacabado. Seria impossível saber-se
inacabado e não se abrir ao mundo e aos
outros à procura de explicação,
de respostas a múltiplas perguntas (FREIRE,
1999: 153).
A abordagem tão densa da articulação
afetiva na educação mostra novamente
a perfeita integração dessa realidade
no processo educativo comentado por Freire: “O
sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura
com seu gesto a relação dialógica
em que se confirma como inquietação
e curiosidade, como inconclusão em permanente
movimento na História” (FREIRE, 1999:
154). Como ensinar, como formar sem estar aberto
ao encontro geográfico, social, dos educandos?
Têm importância fundamental os contornos
ecológicos, sociais e econômicos
em que vivemos, as condições materiais
em que e sob as quais vivem os educandos, que
nos convencionam a compreensão do próprio
mundo, nossa capacidade de aprender, de responder
aos desafios (FREIRE, 1999: 155).
Preciso tornar-me menos estranho e distante deles.
Minha abertura à realidade negadora de
seu projeto de gente é uma questão
de real adesão de minha parte a eles e
a elas, a seu direito de ser. O fundamental é
minha decisão ético-política,
minha vontade nada piegas de intervir no mundo.
No fundo, diminuo a distancia que me separa das
condições malvadas em que vivem
os explorados, quando, aderindo realmente ao sonho
de justiça, luto pela mudança radical
do mundo. Com relação aos meus alunos
diminuo a distância na medida em que os
ajudo a aprender não importa que saber,
o do torneiro ou o do cirurgião, com vistas
à mudança do mundo, à superação
das estruturas injustas, jamais com vistas à
sua imobilização (FREIRE, 1999:
155-156). A clareza do envolvimento afetivo na
construção de um saber de engajamento
e transformação libertadora está
expresso aqui, inclusive para as dimensões
técnicas do ensino prático.
Eticamente nada justifica a exploração
de homens e mulheres por homens e mulheres. É
preciso que este saber seja empurrado por uma
calorosa paixão que o faz quase um saber
arrebatado. É preciso que a ele se somem
saberes outros da realidade concreta, da força
da ideologia; saberes técnicos, em diferentes
áreas, como a da comunicação.
Como desocultar verdades escondidas, como desmistificar
a farsa ideológica, como enfrentar o extraordinário
poder da mídia, da linguagem da televisão
(FREIRE, 1999: 157).
Como educadores e educadoras progressistas não
podemos desconhecer a televisão, mas devemos
usá-la, sobretudo discuti-la. Televisão
e mídia nos colocam o problema da comunicação,
processo impossível de ser neutro. Toda
comunicação é comunicação
de algo, feita de certa maneira em favor ou na
defesa, de algum ideal contra algo ou contra alguém,
nem sempre claramente refletido. A postura crítica
e desperta nos momentos necessários não
pode faltar. É o poder dominante com mais
uma vantagem. Relativisada a TV não é
um monstro e nem tampouco deve ser ignorada.
A afetividade ganha explicita afirmação
como algo essencial no processo de construção
do conhecimento ao qual se encontra integrada.
Para Freire Ensinar exige querer bem aos educandos.
Mais uma vez a afetividade ganha ainda maior clareza
e consistência nas palavras e análises
de Paulo Freire. É sua expressão
que não podemos temer. O autor declara
que a afetividade não o assusta e não
teme expressá-la. É a maneira de
autenticamente selar o compromisso com os educandos,
numa prática específica do ser humano.
É falsa a separação entre
seriedade docente e afetividade. Não sou
melhor professor sendo mais severo, frio, distante
e cinzento. A afetividade não se acha excluída
da cognoscividade. Não posso condicionar
a minha avaliação pelo maior ou
menor vínculo que tenha com meu aluno.
A abertura ao querer bem significa a disponibilidade
à alegria de viver. Justa alegria de viver,
que não permite que me torne um ser adocicado
nem tampouco um ser arestoso e amargo. A atividade
docente é alegre por natureza. Seriedade
docente e alegria não são contraditórias
e inconciliáveis. Quanto mais metodicamente
rigoroso me torno na minha busca e na minha docência,
tanto mais alegre me sinto e esperançoso
também. A alegria chega no encontro do
achado e faz parte do processo da busca. Ensinar
e aprender não podem dar-se fora da procura,
fora da boniteza e da alegria (FREIRE, 1999: 160).
O desrespeito à educação,
aos educandos, aos educadores e às educadoras
deteriora em nós primeiro: a sensibilidade
ou abertura ao bem querer da própria prática
educativa e, de outro: a alegria necessária
ao que-fazer docente. Freire destaca como digno
de nota a capacidade que tem a experiência
pedagógica para despertar, estimular e
desenvolver em nós o gosto de querer bem
e o gosto da alegria sem a qual a prática
educativa perde o sentido. Esta força misteriosa,
às vezes chamada vocação,
que explica a quase devoção com
que a grande maioria do magistério nele
permanece, apesar da imoralidade dos salários.
E não apenas permanece, mas cumpre, como
pode, seu dever. Amorosamente, acrescento (FREIRE,
1999: 161).
É necessário que, cumprindo amorosamente
o meu dever, não deixe de lutar politicamente
pelo direito e pela dignidade da minha tarefa,
pelo zelo devido ao meu espaço pedagógico
em que atuo com meus alunos.
Nessa colocação Paulo Freire revela
o caráter da Educação Biocêntrica:
“A prática educativa vivida com afetividade
e alegria não prescinde da capacitação
científica séria e da clareza política
do educador e da educadora. A prática educativa
é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade
científica, domínio técnico
a serviço da mudança” (FREIRE,
1999: 161).
Paulo Freire continua explicitando a natureza
afetiva da educação, do engajamento
ético, político e social do educador.
A permanência do discurso da “morte
da História” gera um caráter
desesperançoso, fatalista, antiutópico,
com uma ideologia tecnicista que requer um educador
para a acomodação do mundo e não
para sua transformação. A acomodação
e a desesperança assim como a falta de
prazer e de alegria neutraliza o potencial político,
de uma pessoa, de um grupo.
Esse professor será pouco educador e muito
treinador, transferidor, exercitador de destrezas.
É preciso denunciar esta atividade anti-humanista.
O trabalho do educador progressista é uma
especificidade humana, pois a condição
fundante da educação é precisamente
a inconclusão do nosso ser histórico.
Nada que diga respeito ao ser humano, a homens
e mulheres, à possibilidade de seu aperfeiçoamento
físico e moral, sua inteligência
produzida e desafiada, os obstáculos ao
seu crescimento, podem passar desapercebidos do
educador progressista. Não importa se o
trabalho com jovem ou adulto, sim, com gente em
contínuo processo de busca.
A prática docente exige um alto nível
de responsabilidade ética, de que nossa
capacitação científica faz
parte. Não posso negar o direito de sonhar,
negar minha atenção dedicada e amorosa
à problemática mais pessoal deste
ou daquele aluno. Não posso fechar-me ao
seu sofrimento e inquietação. Posso
ter cuidado sem ser seu terapeuta.
Paulo Freire nunca idealizou a prática
educativa, mas sempre teve certeza de que vale
a pena lutar contra os descaminhos que nos obstaculizam
ser mais. A compreensão da História
como possibilidade e não como determinismo
é a compreensão que permite desenvolver
a capacidade de comparar, de analisar, de avaliar,
de decidir, de romper e por isso tudo, a importância
da ética e da política.
Esta percepção de homem e de mulher
“programados, mas para aprender” para
ensinar, para conhecer, para intervir, que faz
entender a prática educativa como um exercício
constante em favor da produção e
do desenvolvimento da autonomia dos educadores
e dos educandos. Educação como prática
estritamente humana é uma experiência
quente, com alma, em que os sentimentos, os sonhos
não devem ser reprimidos pela ditadura
racionalista. Isso não exclui rigor, disciplina
intelectual. O exercício da curiosidade
epistemológica, não me torna amargo
e arrogante. Competência intelectual não
significa rigorosidade científica. Competência
não é causa de arrogância.
Arrogância é um limite afetivo, negador
da simplicidade (FREIRE, 1999: 162).
PALAVRAS FINAIS
Um propósito de mais de cinco anos levou-ME
a buscar um estudo dos processos de integração
de grupo de sala de aula. A preocupação
era compreender como seria possível a formação
de um clima de motivação, criatividade,
integração e mobilização
de grupo em vista da construção
do conhecimento. Compreendendo que a afetividade
seria este elemento estrutural que sustentaria
um processo pedagógico, voltamos nossa
atenção para o estudo de sua origem,
sua natureza, sua dinâmica e significação
no processo de articulação de grupos,
particularmente em sala de aula. Consultas, reflexões,
pesquisa bibliográfica, observações,
entrevistas, vivências e dinâmicas
com os grupos, foram configurando de forma concreta
essa realidade. Inicialmente sentia-me constrangido
com meus próprios preconceitos em relação
à afetividade. Imaginava como tratar do
assunto e promover processos mais específicos
de integração afetiva dos alunos
em ambiente acadêmico de Terceiro Grau,
onde encontramos o predomínio de um modo
racionalizado de investigar o mundo.
De forma progressiva fui percebendo a concretude
desse sentimento no ser humano, sua expressão
viva e corporal, a sua articulação
originária no bebê, sua natureza,
sua dinâmica, suas formas estruturadas nas
relações de grupo e seu significado.
A convicção foi crescendo à
medida que amadureci teoricamente e facilitei
o desencadeamento desse processo com os educandos.
Por essa razão voltei o olhar para Paulo
Freire, especialmente para a obra lida e analisada
neste sentido. Ficou evidente que os processos
de ação educativa nas atividades
educacionais de Paulo Freire eram permeados pela
amorosidade. Contavam com o elemento estrutural
que nutria, igual a uma fonte, a motivação
para o conhecimento, permitia a integração
dialética, analética e biocêntrica
dos alunos e do professor no processo educativo.
Daí a permanente manifestação
do grande pedagogo a respeito da ética
e da estética antropológica necessárias
na educação. A ética que
brota do contato sensível com o educando
e a estética como a percepção
da beleza intrínseca de cada um e do grupo.
Afeto, compreensão e atitude ética,
percepção estética, mobilizam
e dão unidade e consistência ao processo
de grupo em sala de aula. Freire se torna maravilhoso
e inspirador exemplo desta postura que muitos
professores dissociam nas suas relações
com os educandos.
Um processo de integração em rede
afetiva, segundo Capra, permite a um grupo, a
uma organização de qualquer natureza
saudável expandir e potencializar sua capacidade
de reprodução, seu processo criativo
e permite fortalecer o potencial político
de atuação do grupo, além
de dar-lhe consistência e flexibilidade
diante das exigências de mudança
que se apresentam. Na unidade afetiva, na qualificação
de cada um, na valorização dos potenciais
individuais forma-se a real natureza do processo
democrático, tão falado e tão
desconhecido.
A condição para o desencadeamento
de um processo educativo transformador, centrado
na vida, criativo, ético, estético,
promotor da identidade e da autonomia de cada
um dos participantes é a profunda amorosidade
e o comprometimento efetivo do educador. A operacionalidade
do processo educativo integrado e permeado do
autêntico amor nos revela o surpreendente
resultado transformador. E Paulo Freire é
nosso exemplo.
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