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BIODANÇA - UMA NOVA LINGUAGEM
Liliana Viotti*
Presenciamos um momento precioso. Simultaneamente
assus-tados e entusiasmados, temos o privilégio
de assistir a uma das maiores mudanças
de consciência da história da humanidade.
A palavra-chave desse momento é paradigma.
Em todos os seg-mentos sociais ouve-se o refrão:
estamos atravessando uma mudança paradigmática,
uma crise de paradigmas Mas como desponta essa
transformação? Que elementos delineiam
o novo modelo? Tudo indica que, nesses momentos
cruciais como des-creve Thomas Khun em seu livro
A Estrutura das Revoluções Científicas,
algumas respostas começam a fugir do esperado,
da expectativa vigente. Indícios despontam,
são percebidos. E se estivermos atentos
aos artistas e aos gênios, vamos vê-los
apontando para algo que ainda não chegou.
Nesse contexto a Biodança deu seus primeiros
passos há trinta anos atrás, fruto
da observação e da experiência
de um antropólo-go, psicólogo, poeta
e pintor chileno, Rolando Toro, na época
res-ponsável pelas Cadeiras de Psicologia
Experimental e Criatividade da Universidade Católica
de Santiago do Chile. Desde seu início,
a Biodança já continha em seu modelo
teórico, em sua forma de conceber a vida,
o embrião dessa nova visão, hoje
já integrada ao cotidiano.
A Biodança parte do princípio biocêntrico,
a vida como centro da percepção
do mundo, como centro da ação e
referência da rea-lidade. Sua Proposta é
proporcionar uma contínua atenção
aos fatores que preservam, estimulam, mantêm
e nutrem a vida Sua formulação parte
de uma observação da natureza –
“nosso Mestre é a natureza",
diz Rolando Toro.
Nesse contexto, a Biodança visa estimular
a saúde, a nossa par-te sã, nossa
excelência, e resgatar os valores que nos
vinculam a nós mesmos, à nossa essência
primordial, que nos vinculam ao outro, dando ao
afeto o lugar de fonte reguladora da nossa exis-tência,
e que nos vinculam ao mundo, à totalidade
à qual perten-cemos. Sua orientação
é a integração; integração
corpo e mente, matéria e espírito,
racional, emocional, intuição, reflexão,
integra-ção eu-tu, eu-mundo, integração
do sentir ao pensar e agir.
Mas, a meu ver, o que vem tornar a Biodança
uma resposta absolutamente coerente com a nossa
época é a linguagem que uti-liza.
Herdeiros que somos do racionalismo cartesiano,
herdeiros que somos do pensamento grego e da civilização
judaico-cristã, nossa via de acesso à
realidade é o pensar, mais especificamente,
a fala, a palavra. Carl Sagan diz que a fala foi
de tal brilhantismo na história da humanidade,
que podemos compará-la ao sol: este não
nos deixa ver as estrelas. No entanto, as estrelas
continuam lá. Contraditoriamente, ao repensarmos
nossa realidade, transforman-do nossos velhos
paradigmas, ainda usamos a mesma velha linguagem.
Para questionar o racionalismo, continuamos usando
a via da razão. A Biodança vem nos
permitir o acesso à realidade por outra
via, por outro canal, por outra linguagem cala
nossa fala para ouvir nosso corpo, instinto e
emoção.
Sua fala é silenciosa: música, gestos,
movimento e olhar. Apreendemos a realidade não
ao pensamos nela, mas ao senti-la. Abrimos espaço
ao corpo sensível num mundo sensível
de que nos fala Merleau Ponty: aprendemos sobre
nós mesmos não através da
consciência, como nos foi passado, mas através
da vivência inversão epistemológica
que nos faz transformar a realidade ao vivê-la.
A aprendizagem, então, se faz no próprio
ato de viver - a vivên-cia é a vida
acontecendo particularmente, singularmente. O
ponto de partida para o olhar o mundo e transformá-lo
é minha própria vida vivida. O ponto
de partida do conhecimento é a expressão
do mundo na pessoa que conhece; é a vivência
como lugar de totalização do ser.
O conhecimento não se dá, portanto,
pela via racional, mas pelo corpo, que nos abre
caminho ao inacessível ao incognoscível,
que nos torna capazes de dialogar com o mundo.
O conhecimento passa a ser um ato de paixão
e não de poder
A Biodança surgiu no momento em que percebemos
que a razão e o conhecimento não
se mostraram suficientes para responder aos problemas
do mundo: que os modelos educacionais e terapêuticos
não têm se mostrado eficazes na construção
de uma sociedade mais justa e humana. Ela instaura
uma nova linguagem e um novo código, que
integra a razão e o coração,
e onde o conhe-cimento se torna indissociável
da vivência, do amor e da compaixão.
Mais do que uma proposta terapêutica, a
atuação da Bio-dança é
pedagógica.
Biodança pode ser definida como um "sistema
de inte-gração afetiva, renovação
orgânica e reaprendizagem das funções
originais da vida". Através de vivências
em grupo, que integram o gesto, a música,
a dança e o canto, estimula o desenvolvimento
de potenciais humanos que geralmente se encontram
reprimidos pela cultura. Baseada no tripé
música, emoção e movimento,
a Biodança, propõe uma revisão
dos valores que fundamentam nossa vida na direção
de valores mais naturais, orgânicos, ligados
aos instintos e às necessidades vitais.
Trata-se de diminuir o abismo criado entre a cultura
da dimensão do imaginário, e o desejo
da dimensão do biológico, abismo
criado por uma civilização que aos
poucos foi transformando o homem da sua essência,
da sua própria natureza.
Da mesma forma que o animal possui instintos fortes
que o costuram ao mundo, que dão certeza
de seus atos, o diferenciam como espécie
e lhe asseguram a sobrevivência, o homem
tem também a chave de sua existência,
que aponta qual porta deve abrir qual caminho
seguir. Essa chave é a sua identidade,
aquilo que nasceu para ser e, portanto, deve ser.
A Biodança é a busca dessa identidade
primordial; é um caminho no processo de
individualização, da construção
do próprio ser. Identidade que, segundo
Rolando Toro, é "experimentar-se como
centro de percep-ção do mundo e
de si mesmo a partir da comovedora experiência
de sen-tir-se vivo". Identidade que se traduz
no sentir a si mesmo e não mais no pensar
a si mesmo, na sensação de ser fiel
a si mesmo, de ser cúmplice de si mesmo.
Uma identidade verdadeira que, quando assumida
no sentido da sua singularidade, conduz o ser
huma-no à solidariedade, ao afeto, pois,
ao levar cada um a se amar melhor, abre o caminho
para melhor amar o outro. É uma aprendizagem
do cuidar, do nutrir, do partilhar, do dar e receber.
É o compromisso interno com uma ética
natural, interiorizada, ética nascida espontaneamente
da mudança de postura diante da vida. Cria-se,
na Biodança, um espaço de convivência
onde a aprendi-zagem se faz no olhar do outro,
na presença do outro, uma revivên-cia
estimulada e protegida por um grupo que se estrutura
na relação de afeto.
Por essa sua característica, de resposta
às necessidades básicas do ser humano,
a Biodança vem sendo utilizada em diver-sas
insti-tuições com extraordinária
eficácia. Nas empresas vem sendo -incorporada
a programas de Desenvolvimento de Equipe, de Qualidade,
de Criatividade e de Prevenção ao
Stress, pois ajuda a restaurar a força,
o ímpeto, a motivação, a
relação com o grupo, a -consciência
de si mesmo, enfim, a alegria de viver. Como diz
seu criador, Rolando Toro, "não pretendemos
melhorar a qualidade de vida. Somos decididamente
mais ambiciosos, pretendemos a -felicidade".
Através da linguagem primitiva da dança
da vida, do gesto que se repete no cotidiano,
através da fala do silêncio e da
música, a Biodança se insere nesse
novo paradigma que nos leva à redescoberta
de valores primordiais. Em sua essência
vem apenas mudar a qualidade de nosso olhar em
direção às coisas mais óbvias,
e às coisas mais simples do ser humano:
assumir quem sou eu, assumir que estou vivo, assumir
que pertenço ao mundo, assumir que preciso
amar. Não são esses afinal, os motores
essenciais da vida!
Administradora de Empresas, Consultora em Desenvolvi-mento
Humano, Didata em Biodança.
BIBLIOGRAFIA
Kuhn,Thomas.A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES
CIENTÍFICAS, Editora Perspectiva
Amartya Sem, SOBRE ÉTICA E ECONOMIA, Cia
das Letras.
Idem, DESENVOLVIMENTO COM LIBERDADE, Cia das Letras.
Fritjof Capra, AS CONEXÕES OCULTAS, Cultrix
Amana-Key Cap A vida e a liderança nas
Organizações, pág. 110 a
139.
Idem, A TEIA DA VIDA, Cultrix Amaná-Key
– Cap. Saber que Sabemos pág.224
a 238.
Willis Harman, UMA TOTAL MUDANÇA DE MENTALIDADE,
Cultrix/pensamento.
Cap. Os valores Enfáticos do Mundo Pós
Moderno.
George Friedmann, O TRABALHO EM MIGALHAS, Ed.
Perspectiva
George Land, Beth Jarman, PONTO DE RUPTURA E TRANSFOR-MAÇÃO,
Cultrix |
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