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EDUCAÇÃO E AFETIVIDADE EM PAULO
FREIRE: PEDAGOGIA DA AUTONOMIA
Prof. Dr. Agostinho Mario Dalla Vecchia
RESUMO:
Este trabalho tem como tarefa analisar e destacar
o papel da afetividade no processo educativo e
na construção do conhecimento, na
obra Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire. É
uma tarefa de valorização da perspectiva
biocêntrica na educação freireana,
particularmente do papel de destaque que ocupa
a afetividade no processo vivo de construção
de uma educação engajada, politizada,
ética e, portanto, critica. Acompanhamos
cada passo desse livro de sabedoria para perceber
e explicitar a realidade afetiva que permeia todo
o trabalho de Paulo Freire nesta abordagem. Na
próxima edição publicaremos
a segunda parte deste trabalho.
PALAVRAS-CHAVE: Afetividade, Educação,
Autonomia.
INTRODUÇÃO
Este ensaio é um caminhar lado a lado da
reflexão de Freire identificando, em nossa
ótica, a configuração do
seu movimento afetivo na obra Pedagogia da Autonomia.
Ao ler esta obra chama-nos atenção
o fato de ela estar permeada pela afetividade
nas suas dimensões de cuidado, qualificação,
interesse, empatia, amorosidade, amizade, amor
indiferenciado, amor diferenciado, promoção,
nutrição, proteção,
vínculo e todo o desdobramento ético
e estético decorrente da experiência
cara-a-cara com o educando, no processo educativo,
na promoção do potencial humano,
do potencial crítico, político e
criativo existencial do educando.
A nossa abordagem vai traçando um caminho
orientado pelo movimento afetivo que atravessa
a teoria e prática pedagógica de
Paulo Freire na construção da Pedagogia
da Autonomia. A ética e a estética
é a vivência mesma dessa afetividade
nos caminhos da ação pedagógica.
No prefácio de Pedagogia da Autonomia,
Édina Castro de Oliveira, afirma que a
obra trata de uma pedagogia fundada na ética,
no respeito à dignidade e à própria
autonomia do educando.
E um saber, como os demais, que demanda exercício
permanente do educador. “É a convivência
amorosa com seus alunos e na postura curiosa e
aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os
a se assumirem enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais
do ato de conhecer, é que ele pode falar
do respeito à dignidade e autonomia do
educando. [...] A competência técnica
científica e o rigor de que o professor
não deve abrir mão no desenvolvimento
do seu trabalho, não são incompatíveis
com a amorosidade necessária às
relações educativas. Essa postura
ajuda a construir o ambiente favorável
à construção do conhecimento
onde o medo do professor e o mito que se cria
em torno de sua pessoa vão sendo desvelados”
(OLIVEIRA, Pedagogia da Autonomia, pág
11).
O ideário neoliberal incorporou a categoria
da autono-mia. Esta ideologia, na prática
pedagógica do sistema, incentiva o individualismo
e a competição. Paulo Freire anuncia
a solidarie-dade como forma de luta capaz de promover
e instaurar a “ética universal do
ser humano”, o que vai permear também
o processo educativo.
Nas “primeiras palavras” após
anunciar a temática central do livro: a
formação docente e a reflexão
da prática educa-tivo-progressiva em favor
da autonomia dos educandos, Paulo Freire ressalta
que formar é muito mais que puramente treinar
o educando no desempenho de destrezas. Seu ponto
de vista é o dos condenados da terra, o
dos excluídos.
Falando da ética universal do ser humano,
Freire é firme em colocar a exigência
ética do trabalho docente, da qual não
podemos escapar. Não se trata da ética
do mercado, e sim da ética que condena
o cinismo, a exploração, a perversão
hipócrita da pureza em puritanismo, a discriminação
da raça, do gênero, da classe, na
atividade pedagógica e social. O melhor
para lutar por ela é vivê-la. Em
nossa prática, testemunhá-la (FREIRE,
1999:12). Como vemos a colocação
originária é, em Paulo Freire, a
dimensão vivencial da prática pedagógica
como testemunho de uma ética universal
e comprometida com a formação humana
dos excluídos. Afirma o dever do preparo
científico situado criticamente também
nessa dimensão ética e sem dissociação
de uma coisa com a outra.
A pratica educativa enquanto prática humana
é absolutamente ética. A razão
afetiva e fundamental de tais atitudes se enraíza
na dimensão metafísica do ser humano.
Segundo Freire trata-se da vocação
ontológica para o “ser mais”
e da sua natureza constituindo-se social e historicamente,
como presença no mundo como algo original
e singular, uma Presença no mundo, com
o mundo e com os outros. Este ser que Freire configura
amorosa-mente traz as seguintes exigências
para o educador:
É no domínio da decisão,
da avaliação, da liberdade, da ruptura,
da opção, que se instaura a necessidade
da ética e se impõe a responsabilidade.
A ética se torna inevitável e sua
transgressão possível, é
um desvalor, jamais uma virtude (FREIRE, 1996:20).
Como presença consciente no mundo não
podemos escapar à responsabilidade ética
no nosso mover-se no mundo. Somos seres condicionados
por fatores genéticos e sociais, mas não
determinados. A ideologia neoliberal tem uma finalidade
imobili-zadora do ser humano, neutralizadora de
seu potencial político.
NÃO HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA.
A reflexão crítica sobre a prática
se torna uma exigência da relação
Teoria/Prática, porque Ensinar é
criar a possibilidade da produção
do conhecimento ou da sua construção.
“Quem forma se forma e re-forma ao formar
e quem é formado forma-se e forma ao ser
formado”. Não há docência
sem discência. Quem ensina aprende ao ensinar
e quem aprende ensina ao aprender.
Ao desenvolver inicialmente esta idéia
Paulo Freire permite compreender que o processo
de conhecer como ato de aprender e de criar, se
fundamenta na metafísica do inacabamento
humano, mas que se realiza, integradamente e com
um comprometimento ético, estético,
afetivo, científico iterativo edcuador-educando.
Do ponto de vista metafísico a compreensão
do homem e da mulher é de seres históricos
e inacabados e sobre o qual se funda a compreensão
do processo de conhecer. Quando nossa prática
é ensinar-aprender participamos de uma
experiência total, diretiva, política,
ideológica, gnosiológica, pedagógica,
e ética em que a estética deve achar-se
de mãos dadas com a decência e com
a seriedade. Quanto mais criticamente se exerça
a capacidade de aprender tanto mais se constrói
e desenvolve a “curiosidade epistemológica”
pela qual alcançamos o conhecimento cabal
do objeto (FREIRE, 1999:25-28).
Se ensinar exige rigorosidade metódica
a exigência ética permeia toda a
atividade educativa, por conseqüência
a afetividade, ensinar dessa forma corresponde
ao compromisso ético e afetivo com o educando
como ser histórico que engendra um conhecimento.
1.2. Ensinar exige pesquisa e isso fala da concretude
do gesto afetivo vivido como prática pedagógica.
Não há ensino sem pesquisa e nem
pesquisa sem ensino. Um está no corpo do
outro. Freire nos coloca que pesquisamos para
constatar, constatando, interviemos, intervindo
educamos e nos educamos. Então, a ultrapassagem
do senso comum exige uma atitude afetiva de respeito
e qualificação da experiência
do educando e o cuidado e desafio à sua
capacidade criadora através da consciência
crítica: “Pensar certo implica o
respeito ao senso comum no processo de sua necessária
superação. Implica o compromisso
do educador com a consciência crítica
do educando, cuja “promoção”
da ingenuidade não se faz automaticamente”
(FREIRE, 1999:32-33).
1.3. Educar exige respeito aos saberes dos educandos.
Respeito é uma dimensão do afeto.
Em palavras mais simplificadas pensar certo exige
respeito aos saberes com os quais os educandos
chegam na escola e também discutir com
eles a razão desses saberes em relação
com o ensino de conteúdos. É valorizar
e qualificar a experiência dos educandos
e aproveitar para discutir os problemas sociais
e ecológicos, a realidade concreta a que
se deva associar a disciplina, estudar as implicações
sociais nefastas do descaso dos mandantes, a ética
de classe embutida nesse descaso (FREIRE, 1999:33-34).
1.4 Quando Ensinar exige criticidade o ingrediente
que possibilita a passagem da ingenuidade para
a criticidade e, portanto da conquista progressiva
da humanização é a afetividade,
a amorosidade pela qual o educador realiza este
processo de estímulo e promoção
da superação do educando através
de suas próprias capacidades criativas.
A criticidade, na visão biocêntrica
ela existe à medida que entro em contato
originário e profundo com a situação
do outro. Em outras palavras a criticidade brota
também do amor profundo que me mobiliza
pelo outro e pela vida.
Para Freire entre a ingenuidade e a criticidade
existe uma ruptura, uma superação.
Quando nos aproximamos cada vez mais de forma
rigorosa do objeto cognoscível, se torna
curiosidade epistemológica. A curiosidade
dos camponeses é a mesma curiosidade com
a qual cientistas e filósofos admiram o
mundo.
Cientistas e filósofos superam porem a
ingenuidade do camponês tornando-se sistematicamente
curiosos. Não haveria criticidade sem a
curiosidade, historicamente construída
e reconstruída. A prática educativo-progressista
promove a passagem da ingenuidade para a criticidade,
sem divinizar ou diabolizar a ciência (FREIRE,
1999:34-35).
15. Ensinar exige estética e ética.Estética
e Ética emergem da mais profunda experiência
afetiva com o outro. Sendo assim, a vivência
afetiva, a raiz da ética e da estética
é também a base estrutural do pensar
certo, é a fonte nutridora da inteligência
afetiva, como diz Rolando Toro. O conhecimento
racional é diretamente ligado ao nosso
instinto afetivo, às emoções
e aos sentimentos de atração, empatia,
etc. “Mas não há pensar certo
à margem de princípios éticos”
(FREIRE, 1999: 36).
O pensar certo implica compromisso com mudança
da ingenuidade à criticidade. Comprometer-se
é uma atitude afetiva que envolve o outro
no processo de conscientização e
de politização. Compromisso é
coisa assumida com liberdade e não como
obrigação. O que apela e se expressa
em nós como uma exigência profunda
é a mobilização irresistível
pelo cuidado com o outro, com a vida do outro
que desabrocha para o reconhecimento real do mundo.
Trata-se do momento originário da ética,
momento do face-a-face diante do oprimido, do
alienado pela ideologia dominante, do dominado
politicamente, do explorado economicamente.
16. Ensinar exige a corporificação
das palavras pelo exemplo. “Pensar certo
é fazer certo” (FREIRE, 1999: 38).
Uma expressão popularizada diz que “as
palavras comovem, mas o exemplo arrasta”.
Paulo Freire sabe muito bem que as palavras que
não ganham corpo são vazias, quase
nada valem. A experiência, por outro lado,
mostra muito bem que a mesma atitude em nível
político se revela ineficaz. Quantos militantes
políticos propalaram um discurso contundente
e até agressivo contra tudo que significasse
o fazer político das classes dominantes,
porém, faltando engajamento no processo
de mudança, ações de cuidado
real com as necessidades fundamentais da população
marginalizada, fica um rastro de desilusão
por uma palavra encantadora, mas estéril
por não estar acompanhada de um efetivo
engajamento ético, pela mobilização
afetiva profunda pela promoção e
defesa dos direitos fundamentais da população.
A formação do pensamento crítico,
conscientizador e libertador não se realizam
porque “não há pensar certo
fora de uma prática testemunhal que o rediz
em lugar de desdizê-lo. Não é
possível ao professor pensar que pensa
certo, mas ao mesmo tempo perguntar ao aluno se
”sabe com quem está falando”
(FREIRE, 1999: 38).
O discurso dissociado do professor, o discurso
não engajado do militante é como
um terreno que não tem nutrientes para
germinar e crescer a vida, a mudança. E
Paulo se refere diretamente à imersão
do pensar certo no universo da afetividade como
generosidade: “Faz parte do pensar certo
o gozo da generosidade que, não negando
a quem tem direito à raiva, a distingue
da raivosidade irrefreada” (FREIRE, 1999:
38). Ressalve-se que raiva tem aqui um sentido
afetivo de indignação e raivosidade
desenfreada seria uma dimensão patológica
do afeto, a destrutividade (TORO:2002).
17. Ensinar exige risco, aceitação
do novo e rejeição a qualquer forma
de discriminação. Essa abordagem
está recheada das dimensões afetivas
do comprometimento ético do professor com
seus alunos. O pensar certo tem como próprio
a disponibilidade ao risco. Assim como o útero
fecundo, a dimensão dialogal de aceitação
do novo é uma atitude nutritiva e afetiva,
mais profundamente ativa que o falar. Sem esquecer
que o velho que preserva sua validade, que encarna
uma tradição ou marca presença
no tempo, continua novo.
“A rejeição decidida a qualquer
forma de discriminação” é
outra explicitação da ética
e do amor em Paulo Freire. A pessoa que tem uma
mentalidade fatalista em relação
aos acontecimentos devastadores, que a globalização
está provocando, está numa atitude
de impotência, falta-lhe a esperança
que nasce da crença profunda na mudança
possível nos pequenos gestos engajados,
crença na capacidade política de
pessoas conscientes participarem da descoberta
de caminhos transformadores. A neutralização
das pessoas interessa sobremaneira aos interesses
neoliberais, ideologicamente articulados pela
mídia e pelo mercado globalizado. Não
há pensar certo sem entendimento, diz Paulo
Freire, e não há entendimento sem
ser uma construção co-participada.
Aqui, novamente, entra o processo afetivo de qualificação
do aluno pela valorização da sua
experiência, dos seus conhecimentos. Na
relação dialogal, também
possível somente em nível afetivo,
o conhecimento não deve ser pré-transmitido,
mas construído conjuntamente (FREIRE, 1999:
38-9).
A valorização da Identidade de cada
um, gesto nutritivo da expressão e desenvolvimento
do aluno, passa pela negação da
prática preconceituosa de raça,
de classe, de gênero as quais ofendem a
substancialidade do ser humano e negam radicalmente
a democracia. Nesta colocação, a
explicitação da democracia passa
justamente pela negação das patologias
do afeto, pela qualificação incondicional
do outro, e indica que a democracia consiste na
valorização da Identidade, da diversidade,
da alteridade de cada um.
Outra dimensão da afetividade é
expressa ao defender que pensar e fazer certo
tem a ver com a humildade. O afeto não
é arrogante. Conhecimento científico
acompanhado de arrogância não tem
espaço para a humildade e comumente o outro
é desvalorizado. Segundo Freire, o pensar
certo e o fazer certo são integrados e
ocorrendo ao mesmo tempo, sem dissociações.
É um ato concomitante. Não há
pensar sem entendimento e o entendimento é
co-participado. Todo entendimento implica comunicabilidade,
a não ser que esteja articulado ideologicamente.
A tarefa coerente do pensador que pensa certo
é desafiar o educando com quem se comunica
para que produza sua compreensão do que
vem sendo comunicado. Não há inteligibilidade
que não seja comunicação
e intercomunicação, que não
se funde na dialogicidade. O pensar certo é
dialógico e não polêmico (FREIRE,
1999: 41-42). Reiteramos aqui que o diálogo
é uma das dimensões mais fundamentais
do processo educativo biocêntrico, centrado
sobre a afetividade.
18. Ensinar exige reflexão crítica
sobre a prática. Quero dize aqui da importância
de destacar que o fundamento da crítica
também é a afetividade, uma vez
que o pensamento crítico é o pensamento
que nasce do contato profundo e vivencial com
a realidade, especialmente do outro como outro.
Pensar crítico tem uma exigência
ética de pensar com coerência e de
forma dialógica fundamentada.
A prática docente crítica, implicante
do pensar certo, envolve o movimento dinâmico,
dialético, entre o fazer e o pensar sobre
o fazer. [...] É fundamental que na prática
da formação docente, o aprendiz
de educador assuma que o indispensável
pensar certo não é presente dos
deuses nem se acha nos guias de professores que
iluminados intelectuais escrevem desde o centro
de poder, mas pelo contrário, o pensar
certo, que supera o ingênuo, tem que ser
pelo próprio aprendiz em comunhão
com o professor formador. [...] Por isso o momento
fundamental é o da reflexão crítica
sobre a prática.(FREIRE, 1999: 43).
Quanto mais assumo como estou sendo mais me torno
capaz de mudar, de promover-me do estado de curiosidade
ingênua para o de curiosidade epistemológica,
diz Freire. A curiosidade fundamenta ambos os
pensamentos. A condição para a mudança
é a abordagem crítica do pensamento
ingênuo. Isso implica no engajamento generoso
do professor que facilita o processo do aluno.
E o autor não esquece que um elemento essencial
na assunção do aluno para o pensamento
crítico é o emocional.
Esta errada a educação que não
reconhece na justa raiva, na raiva que protesta
contra as injustiças, contra a deslealdade,
contra o desamor, contra a exploração
e a violência, um papel altamente formador
(FREIRE, 1999:45).
Esta raiva se caracteriza afetivamente como indignação,
como aquela do Cristo expulsando os vendilhões
do templo. Como falamos acima esta raiva é
uma dimensão afetiva saudável, necessária
na mobilização política da
pessoa. Neste momento fica explícita a
larga referência que Freire faz às
dimensões afetivas do processo educativo
e politizador.
1.9. Ensinar exige o reconhecimento e a assunção
da identidade cultural. Reconhecer a qualidade
do outro é um ato afetivo de qualificação
e de promoção. Facilitar o crescimento,
da mesma forma é um serviço de amor
e de dedicação. Para permitir e
facilitar um processo de formação
do educando é necessário esta mobilização
afetiva sem a qual este processo não acontece.
A capacidade de amar é o fundamento do
processo de assumir e de assumir-se:
Um dos papéis mais importantes da prática
educativo-crítica é propiciar as
condições em que os educandos em
suas relações uns com os outros
e de todos com o professor ou a professora ensaiam
a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se
como ser social e histórico, como ser pensante,
comunicante, transformador, criador, realizador
de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de
amar (FREIRE, 199:46)
Assumir é cuidar, cuidar é amar.
Assumir é responsabilidade e respeito e
não obrigação. “A assunção
de nós mesmos não significa a exclusão
do outro. A questão da identidade cultural,
de que fazem parte a dimensão individual
e de classe dos educandos cujo respeito é
absolutamente fundamental na perspectiva educativa
progressista, é problema que não
pode ser desprezado. Tem a ver diretamente com
a assunção de nós por nós
mesmos” (FREIRE, 199:47). O respeito é
um gesto afetivo que corresponde ao cuidado, ao
permitir, ao reconhecer. O processo de assunção
experimenta o conflito de forças na experiência
histórica, política, cultural e
social dos homens e mulheres que pretendem detê-la.
Reafirmando a dimensão afetiva Freire nos
coloca:
A solidariedade social e política de que
precisamos para construir a sociedade menos feia
e menos arestosa, em que podemos ser mais nós
mesmos, tem na formação democrática
uma prática de real importância.
A aprendizagem da assunção do sujeito
é incompatível com o treinamento
pragmático ou com o elitismo autoritário
dos que se pensam donos da verdade e do saber
articulado.
Às vezes mal se imagina o que pode passar
a representar um simples gesto de um professor.
O que pode um gesto aparentemente insignificante
valer como força formadora ou como contribuição
à do educando por si mesmo (FREIRE, 199:47)
Para Freire pode tratar-se daqueles pequenos
gestos, palavras e olhares de respeito e de qualificação
do professor com seu aluno adolescente. “Este
saber, o da importância desses gestos que
se multiplicam diariamente nas tramas do espaço
escolar, é algo sobre o que teríamos
que refletir seriamente” (FREIRE, 1999:
48). Fala-se quase exclusivamente do ensino de
conteúdos como transferência de saber.
Isso vem de uma compreensão estreita do
que é educação e do que é
aprender. Foi socialmente aprendendo que homens
e mulheres descobriram que é possível
ensinar. Isso atribui a importância às
experiências informais da rua, do recreio,
em que variados gestos se cruzam cheios de significação.
Há uma natureza testemunhal nos espaços.
Imagine-se a significação do “discurso”
formador que faz uma escola respeitada em seu
espaço. Há uma pedagogicidade indiscutível
na materialidade do espaço (FREIRE, 1999:49).
É de grande importância, ao buscarmos
uma fundamentação acadêmica
e científica da afetividade, no processo
educativo, encontrar em um educador como Paulo
Freire a identificação do pensamento
pedagógico biocêntrico, expresso
nas suas palavras abaixo:
O que importa na formação docente
é a compreensão do valor dos sentimentos,
das emoções, do desejo, da insegurança
a ser superada pela segurança, do medo
que, ao ser “educado”, vai gerando
a coragem (FREIRE, 1999:50).
Além do exercício do potencial
humano da criatividade, da promoção
da curiosidade ingênua à curiosidade
epistemológica é fundamental “o
reconhecimento do valor das emoções,
da sensibilidade, da afetividade, da intuição
ou da adivinhação” (FREIRE,
199:51). No desenvolvimento do pensamento sobre
a afetividade como base do conhecimento a Educação
Biocêntrica trabalha com o mesmo pressuposto,
engendrando também a categoria da Inteligência
Afetiva.
QUANDO FREIRE FALA QUE ENSINAR NÃO É
TRANSMITIR CONHECIMENTO.
A obra de Teoria Biocêntrica da Educação
de Dorli Signor “O Concebido”, lembra
insistentemente que ensinar não é
transmitir conhecimento, da mesma e reiterada
forma que o faz Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia.
Ensinar como transmissão de conhecimento
significa que há um conhecimento pronto,
acabado e que a tarefa do educando é simplesmente
absorver e memorizar.
Contudo Freire e Dorli colocam, em primeiro lugar,
a consciência do inacabamento do conhecimento
porque ele corresponde a um processo dialético,
analético e vivo da vida em permanente
movimento e transformação criativa.
Por outro lado, ensinar exige o reconhecimento
do ser condicionado historicamente e também
por potenciais genéticos inseridos em nosso
corpo. Mais radicalmente, ensinar exige respeito
à autonomia do educando no seu processo
de construção do conhecimento e
na construção de sua vida. Por isso
o bom senso deve estar sempre desperto e permitindo
o movimento de fluidez, de percepção
às armadilhas ideológicas das falas
e das atitudes incoerentes. Em respeito à
autonomia e ao processo do educando, o professor
não precisa da arrogância por saber
e sim de humildade de ser inconcluso e que a verdade
se desvela no seu processo. Essa atitude de humildade
significa a espera tolerante do movimento do educando.
O professor situado num campo de participação
ativa deve ser o exemplo primeiro da luta em defesa
dos seus direitos, sendo este testemunho a fonte
de mobilização educativa dos seus
alunos. Para ensinar é preciso apreender
a realidade e incrementar o processo educativo
de alegria e de esperança, convicto de
que a mudança é possível
e realizada em cada ato seu, despertando cada
vez mais a curiosidade do educando de um nível
de ingenuidade para um nível crítico
epistemológico.
De que forma a afetividade perpassa esse
processo vivo e engajado de construção
do conhecimento?
2.1. Ensinar exige consciência de incabamento.
O pressuposto aqui é o inacabamento do
ser humano. O inacabamento do ser ou sua inconclusão
é próprio da experiência vital.
A frase lapidar é que “onde existe
vida, há incabamento”. Na visão
biocêntrica se compreende que a vida é
um permanente movimento criativo e transformador,
evolutivo. Por conseqüência a verdade
é um permanente revelar-se. Nunca o conhecimento
está acabado. Assim como nós podemos
evoluir ao infinito no desenvolvimento dos nossos
potenciais (toro), da mesma forma, o acesso à
verdade será sempre um processo vivo, inacabado,
em um caminhar peregrino ao encontro da verdade,
do saber.
Paulo Freire destaca que o inacabamento se tornou
consciente nos homens e nas mulheres, por isso
a experiência muda de qualidade em relação
à dos animais. Quanto mais se vinculou
a relação entre mente e mãos
o suporte (ambiente) foi se tornando mundo e a
vida se tornando existência. Isso na proporção
que o corpo humano se torna corpo consciente,
captador, apreendedor, transformador, criador
de beleza e não “espaço”
vazio a ser cheio de conteúdos (FREIRE,
1999:56).
A invenção da existência envolve
a linguagem, a cultura, a comunicação
a níveis mais profundos e complexos, a
“espiritualização” do
mundo, a possibilidade de embelezar ou de enfear
o mundo, tudo isso inscreveria mulheres e homens
como seres éticos.
capazes de intervir no mundo, de comparar, de
ajuizar, de decidir, de romper, de escolher, capazes
de grandes ações, de dignificantes
testemunhos, mas capazes também de impensáveis
exemplos de baixeza e de indignidade. Só
os seres que se tornaram éticos são
capazes de romperem com a ética (FREIRE,
1999:57).
Quando os homens passaram a dar nomes às
coisas que faziam, já não foi mais
possível existir sem assumir o direito
e o dever de optar, decidir, de lutar, de fazer
política. Isso traz a imperiosidade da
prática formadora, de natureza eminentemente
ética. E isso tudo traz de novo a radicalidade
da esperança. E então Freire afirma
o seu gosto de ser homem, de ser gente, porque
sabe que sua passagem pelo mundo não é
predertiminada, preestabelecida. Que seu destino
é um alvo que precisa ser feito e de cuja
responsabilidade não pode fugir. Por isso
insiste na problematização do futuro
e recusa sua inexorabilidade.
Entendemos que assim se reafirma o compromisso
ético, por isso afetivo de engajamento
no mundo por ser ele inacabado e em permanente
processo.
2.2. Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado
diz Freire, afirmando que consciente do seu inacabamento
o homem sabe que pode ir para além dele.
É uma diferença profunda entre o
ser condicionado e o ser determinado. “Gosto
de ser gente porque percebo afinal que a construção
de minha presença no mundo, que não
se faz no isolamento, isenta da influência
das forças sociais”. A consciência
disso implica na impossibilidade de minha ausência
na construção da própria
presença. Na ausência renuncio à
minha responsabilidade ética, histórica,
política, social; renuncio a cumprir minha
missão ontológica de intervir no
mundo (FREIRE, 1999:59-60).
Sabendo-se presença engajada no mundo,
como lutador e sujeito da história Freire
afirma:
Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que
as condições materiais, econômicas,
sociais, políticas, culturais e ideológicas
em que nos achamos geram quase sempre barreiras
de difícil superação para
o cumprimento de nossa tarefa histórica
de mudar o mundo, sei também que os obstáculos
não se eternizam (FREIRE, 1999:60).
Comentando o seu apelo para a conscientização
que assumira na década de 60, Freire reafirma
que a conscientização é exigência
humana, caminho para por em prática a curiosidade
epistemológica. A conscientização
é natural ao ser que inacabado se sabe
inacabado. “A inconclusão, repito,
faz parte da natureza do fenômeno vital”
(FREIRE, 1999:61). A inconclusão implica
necessariamente a inserção no permanente
processo social. E aí a curiosidade se
torna fundante da produção do conhecimento.
É também conhecimento e não
só expressão dele.
O inacabamento nos faz responsáveis, daí
a eticidade de nossa presença no mundo.
Eticidade, que não há dúvida,
podemos trair. A capacitação de
homens e mulheres em torno de saberes instrumentais
jamais pode prescindir de sua formação
ética. “A radicalidade desta exigência
é tal que não deveríamos
necessitar sequer de insistir na formação
ética do ser ao falar de sua preparação
técnica e científica” (FREIRE,
1999:62). O educador que ensinando castra a curiosidade
tolhe a liberdade do educando, a sua capacidade
de aventurar-se. Não forma, domestica.
Então, a partir do fundamento de que somos
inacabados surge a exigência da educação
como um processo de desenvolvimento do educando,
motivado pela curiosidade e a necessidade de conhecer.
Sem esse conhecimento, base de sua conscientização
não há liberdade. Assim percebemos
novamente, inserida no processo educativo a necessidade
do cuidado amoroso, afetivo e solidário
do educando.
Então para Freire estar no mundo, para
homens e mulheres é estar com o mundo e
com os outros. É na inconclusão
do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação
como processo permanente. Homens e mulheres se
tornaram educáveis na medida em que se
reconheceram inacabados. A consciência de
sua inconclusão os tornou educáveis.
É na inconclusão, que nos inserta
no movimento permanente de procura, que alicerça
a esperança. “Sou esperançoso
por exigência ontológica” (FREIRE,
1999:64). “O ideal é que na nossa
experiência educativa, educandos, educadores
e educadoras, juntos “convivam” de
tal maneira com este, como com outros saberes
de que falarei que eles vão virando sabedoria”
(FREIRE, 1999:65).
2.3. Ensinar exige respeito à autonomia
do ser do educando.Outro saber necessário
à prática educativa, e que se funda
no inacabamento, é o que fala do respeito
devido à autonomia do ser do educando:
jovem, criança, adulto. O inacabamento
de que nos tornamos conscientes nos fez éticos,
diz Freire. A afetividade como respeito à
autonomia e à dignidade emerge de uma exigência
radical constituída no relacionamento com
o aluno, no encontro com o educando. Diz Freire:
“o respeito à autonomia e à
dignidade de cada um é um imperativo ético,
e não um favor que podemos ou não
conceder uns aos outros. Precisamente, por ser
ético, podemos desrespeitar a rigorosidade
da ética” (FREIRE, 1999:66).
A dimensão doentia da afetividade que leva
a transgredir a ética é desrespeitar
à curiosidade do educando, ao seu gosto
estético, à sua inquietude, à
sua linguagem, ironizar, minimizar, desqualificar,
negar sua rebeldia, não dar limites, não
ensinar, não respeitar a experiência
do aluno, ser autoritário afogando a liberdade
do aluno, amesquinhando a sua curiosidade. Em
Freire se manifesta de forma clara a inquietação
com essas atitudes de desafeto, ao mesmo tempo
em que o autor reafirma o sentido que tem a dialogicidade
verdadeira, em que os sujeitos dialógicos
aprendem e crescem na diferença, sobretudo
no respeito a ela. A potencialização
do ser inacabado do aluno e de suas possibilidades
exige uma radicalidade ética e afetiva.
A transgressão da ética é
ruptura com a decência. Para o mestre ser
machista, racista e classista é ser transgressor
da natureza humana e se constitui numa atitude
afetiva patológica por parte do professor.
Qualquer discriminação é
imoral. A beleza de ser gente está também
nessa possibilidade de lutar. O fundamento da
ética para respeitar a autonomia e a identidade
do educando exige de mim uma prática em
tudo coerente com esse saber (FREIRE, 1999:66-67).
2.4. Ensinar exige bom senso. “A vigilância
do meu bom senso tem uma importância enorme
na avaliação que, a todo instante
devo fazer de minha prática” assim
inicia o autor essa reflexão. Na minha
percepção, o bom senso se constitui
numa dimensão do cuidado no processo educativo.
Pode se traduzir no ato de aceitar um trabalho
atrasado de um aluno que não teve condições
de realizá-lo antes; facilita que na articulação
da minha autoridade, das minhas decisões,
do estabelecimento de tarefas, nas cobranças
eu não seja autoritário. Saber respeitar
a autonomia, a dignidade e a identidade do meu
educando é ter algumas virtudes pelas quais
o meu saber é autêntico e coerente
com o meu agir afetivo.
O bom senso se faz no corpo da curiosidade. No
exercício do bom senso se supera o que
há nele de instintivo na avaliação
que fazemos dos fatos e dos acontecimentos. Não
me permitirá afirmar que a fome e a miséria
é uma fatalidade e que devemos esperar
pacientemente que a realidade mude. Freire dirá
que isso é imoral e exige de minha rigorosidade
científica a afirmação que
é possível mudar. Assim a rigorosidade
científica é perpassada pelo cuidado
amoroso.
O saber da curiosidade ingênua do aluno
deve ser superado pela curiosidade epistemológica
para a qual é estimulado e facilitado no
meu trabalho educativo. Não posso negar
o respeito da dignidade, da autonomia e da identidade
do educando. Se o trabalho do professor é
o trabalho do professor com os alunos, estes devem
participar da avaliação (FREIRE,
1999:72). Somente em dimensão afetiva comprometida
e consciente é possível uma participação
comunitária na avaliação.
Somente nessa condição posso “chamar
atenção” do meu colega: na
condição de estar afetivamente comprometido
com ele. Caso contrário não há
responsabilidade ética e a crítica
que eu fizer será destrutiva porque não
tem uma raiz de cuidado e solidariedade em vista
do projeto educativo.
Esta avaliação crítica da
prática vai mostrar a exigência de
virtudes que permitam a avaliação
e o respeito pelo educando. São indispensáveis
na prática educativa para manter o respeito
à autonomia, à dignidade e à
identidade do aluno. Elas ajudam a diminuir a
distância entre o que dizemos e o que fazemos,
entre o discurso e a prática. Não
há respeito à dignidade se eu ironizo,
discrimino ou inibo o aluno com minha arrogância.
Meu testemunho é da irresponsabilidade!
“A prática docente, especificamente
humana, é profundamente formadora, por
isso, ética” (FREIRE, 1999:72-73).
A responsabilidade amorosa do professor é
sempre grande. A natureza de sua prática
é formadora. A presença do professor
é exemplar na sala de aula. E ninguém
escapa ao juízo dos alunos. “E o
pior juízo é o que considera o professor
uma ausência na sala de aula” (FREIRE,
1999:73).
Sejam quais forem as características do
professor: autoritário, licencioso, competente,
sério, incompetente, irresponsável,
amoroso da vida e das gentes, mal amado, raivoso
do mundo e das pessoas, frio, burocrático,
racionalista, ele sempre deixará marca,
positiva ou negativa. Tudo passa por seus afetos
e por suas conseqüentes atitudes. Ele é
exemplo de lucidez e engajamento ou é irresponsável
e cúmplice de um sistema que mantém
os alunos na alienação. As condições
de adversidade do ambiente, do contexto do espaço
é uma ofensa aos educandos, aos educadores
e à prática pedagógica (FREIRE,
1999:73).
2.5. Ensinar exige humildade, tolerância
e luta em defesa dos direitos dos educadores.
A densidade da fala de Paulo Freire emerge de
suas frases curtas e recheadas de sabedoria e
conhecimento. Um exemplo: “a luta dos professores
em defesa de seus direitos e de sua dignidade
deve ser entendida como um momento importante
de sua prática docente, enquanto prática
ética” (FREIRE, 1999:74). No contexto
atual nós corremos o risco da decepção,
do indiferentismo fatalisticamente cínico
que leva ao cruzamento dos braços.
Como ser educador, se não desenvolvo em
mim a indispensável amorosidade aos educandos
com quem me comprometo e ao próprio processo
formador de que sou parte? Mesmo sendo desrespeitado
pela desqualificação a que é
jogada a prática pedagógica não
tenho direito de desamá-la e aos meus alunos.
A minha resposta à ofensa à educação
é a luta política consciente, crítica
e organizada contra os ofensores. Diante do desrespeito
dos poderes públicos com a educação
eu não posso reduzir a atividade pedagógica
a um bico, rejeitando também a uma prática
afetiva de tios e de tias (FREIRE, 1999:75). Diante
da ineficácia de modalidades de luta como
as greves é preciso reinventar a forma
de lutar.
2.6. Ensinar exige apreensão da realidade.
A raiz da educabilidade do ser humano está
no fato de sua inconclusividade.
Somos seres capazes de aprender. Somos os únicos
em que aprender é uma aventura criadora.
“Aprender, para nós, é construir,
reconstruir, constatar para mudar, o que não
se faz sem abertura ao risco e a aventura do espírito”
(FREIRE, 1999:77). Toda a prática educativa
requer a existência do sujeito, daí
seu cunho gnosiológico: a existência
de objetos; conteúdos a serem ensinados
e aprendidos; envolve o uso de métodos,
de técnicas, de materiais; implica, em
função de seu caráter diretivo,
objetivos, sonhos, utopias. Daí a politicidade,
qualidade que tem a prática educativa de
ser política; de não poder ser neutra(FREIRE,
1999:77). À medida que assumimos a postura
da chamada neutralidade estamos dando nosso atestado
de omissão e de falta de cuidado afetivo;
não assumimos o compromisso com o outro,
sequer com a gente mesmo.
Este mesmo pensamento continua à medida
que Freire considera que especificamente humana
a educação é gnosiológica,
é diretiva, por isso política, é
artística e moral, serve-se de meios, de
técnicas, envolve frustrações,
medos, desejos. Exige uma competência geral,
um saber de sua natureza e saberes especiais,
ligados à nossa atividade docente. Nosso
papel fundamental é contribuir positivamente
para que o educando vá sendo artífice
de sua formação com a ajuda necessária
do educador. Primordialmente nossa posição
tem de ser de respeito à pessoa que queira
mudar ou que não queira mudar. Não
podemos desconhecer o seu direito. Nosso papel
é o de quem testemunha o direito de comparar,
de escolher, de romper, de decidir e estimular
a assunção deste direito por parte
dos educandos (FREIRE, 1999:79-80). Muitas vezes
o professor, para não dizer o educador,
no desejo de defender seu pensamento, tem dificuldade
de incorporar essa atitude afetiva com seus educandos.
2.7. Ensinar exige alegria e esperança.
A alegria é resultado da conexão
com a nossa vitalidade, com o potencial de um
grupo unido numa luta comum, vinculado pelos laços
afetivos. Paulo Freire sempre se envolveu com
alegria em sua prática educativa. Isto
fazia o clima do espaço pedagógico.
“Há uma relação entre
a alegria necessária à pratica educativa
e a esperança. A esperança de que
professor e aluno juntos podemos aprender, ensinar,
inquietar-nos, produzir e, juntos, igualmente
resistir aos obstáculos à nossa
alegria” (FREIRE, 1999:80). A esperança
faz parte da natureza humana. Consciente do inacabamento
estou predisposto a participar do movimento constante
de busca. A esperança é uma espécie
de ímpeto natural possível e necessário,
é um tempero indispensável à
experiência histórica. Sou um ser
de esperança. Uma das nossas brigas como
seres humanos deve ser dada no sentido de diminuir
as razões objetivas para a desesperança
que nos imobiliza (FREIRE, 1999:80-81).
Sem afeto é possível a negação
dos sonhos, das utopias, da esperança.
Freire denuncia que a desproblematização
do futuro numa compreensão mecanicista
da história, de direita ou de esquerda
leva necessariamente à morte ou à
negação autoritária do sonho,
da utopia, da esperança. É uma violenta
ruptura com a natureza humana social e historicamente
constituindo-se.
Paulo Freire, em seus trabalhos com Denílson
Pinto, um jovem educador que vivia nas palavras,
na reflexão e em cada ação
a coerência de sua opção democrática
e popular, caminhavam na periferia de Olinda “com
alma aberta ao mundo, curiosos, receptivos pelas
trilhas de uma favela onde cedo se aprende que
só a custo de muita teimosia se consegue
tecer a vida com a sua quase ausência –
ou ausência -, com carência, com ameaça,
com desespero, com ofensa e dor”. “Tropeçando
na dor humana nós nos perguntávamos
em torno de um sem-número de problemas.
[...] Que precisamos nós, os chamados educadores,
saber para viabilizar os nossos primeiros encontros
com mulheres, homens e crianças cuja humanidade
vem sendo negada e traída?” (FREIRE,
1999:82-83). Este é um interrogar ético,
amoroso radical em relação à
situação dos favelados, despertado
pela sensibilidade humana de ambos.
Depois de considerar que além dos mocambos,
nos depósitos de lixo da prefeitura a população
procurava alimento para matar a fome e conhecendo
o episódio de uma senhora que preparou
o almoço domingueiro com os restos de seios
amputados e jogados no lixo hospitalar, Paulo
Freire reitera que esta realidade não é
inexorável. Está sendo como poderia
ser outra e é para que seja outra que precisamos
lutar. É um domínio onde dificilmente
se poderia falar de opções, de decisão,
de liberdade, de ética. O professor desesperançado
diria e repetiria que se trata de um caso irreversível
e sem solução. Discurso repetido
pelos donos do sistema que encontra nos pobres
os culpados de sua pobreza e miséria. E
Freire afirma com profunda sensibilidade afetiva
e ética:
Tenho direito de ter raiva, de manifestá-la,
como motivação para minha briga
tal qual tenho o direito de amar, de expressar
meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação
de minha briga porque, histórico, vivo
a história como tempo de possibilidade
e não de determinação. [...]
Meu direito à raiva pressupõe que,
na experiência histórica da qual
participo, o amanhã não é
algo pré-dado, mas um desafio, um problema.
A minha raiva, a minha justa ira, se funda em
minha revolta em face da negação
do direito de “ser mais” inscrito
na natureza dos seres humanos (FREIRE, 1999:84)
A manifestação da raiva é
manifestação da indignação,
uma raiva que brota da exigência de mudança,
elemento motivador para o engajamento com os menos
favorecidos. E Freire aceita a condição
de silenciado para bem lutar contra a negação
de si mesmo. A questão da legitimidade
da raiva contra a docilidade fatalista foi tema
da conversa de ambos em toda aquela manhã.
2.8. Ensinar exige a convicção de
que a mudança é possível.
Para Freire se trata de um saber primordial, indispensável
a quem chega na favela e que pretende que sua
vivência se vá tornando convivência,
que seu estar no contexto vá virando estar
com ele, é o saber do futuro como problema
e não como inexorabilidade. É o
saber da história como possibilidade e
não como determinação. No
mundo da história, da cultura, da política,
constato, não para me adaptar, mas para
mudar. Constatando nos tornamos capazes de intervir
na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa
e geradora de novos saberes do que simplesmente
a de nos adaptar a ela. Ninguém pode estar
no mundo, com o mundo e com os outros de forma
neutra, nos mostra o autor (FREIRE, 1999:86).
Constatar e conscientizar-se é condição
de operacionalidade e motivação
afetiva para nossa luta de transformação.
Podemos ter na resistência: a compreensão
do futuro como problema e vocação
para ser mais como expressão da natureza
humana em processo de estar sendo; fundamento
para a nossa rebeldia e não para nossa
resignação em face das ofensas que
nos destroem o ser. A rebeldia nos afirma diante
das injustiças. Esta postura deve nos levar
a uma postura mais radical e crítica: a
revolucionária, fundamentalmente anunciadora,
segundo Freire.
“Mudar é difícil, mas é
possível” é o saber estrutural
para programar nossa ação político-pedagógica.
Lembrava Denílson cujo êxito educativo
se centralizava nessa certeza da mudança
possível. Este saber seria o principio
de ação que abre caminho na criação
e constituição de outros saberes
indispensáveis.
Efetivamente, na verdade, se trata de desafiar
os grupos populares para que percebam, em termos
críticos, a violência e a profunda
injustiça que caracterizam sua situação
concreta. Neste sentido, não podemos aceitar,
impassíveis à política assistencialista
que, anestesiando a consciência oprimida,
prorroga sem fim a necessária mudança
da sociedade. (FREIRE, 1999:782-88-89).
Partindo de que a experiência da miséria
é uma violência e não a expressão
da preguiça popular ou fruto da mestiçagem
ou da vontade punitiva de Deus, violência
contra que devemos lutar tenho, enquanto educador,
de ir me tornando cada vez mais competente sem
o que a luta perderá a eficácia.
É o saber de que falei –mudar é
difícil, mas é possível.
(FREIRE, 1999: 89).
O processo de mudança se inicia no diálogo
“em que se vai desafiando o grupo popular
a pensar sua história social como a experiência
igualmente social de seus membros, vai revelando
a necessidade de superar certos saberes que, desnudados,
vão mostrando sua “incompetência”
para explicar os fatos” (FREIRE, 1999:90-91).
A viabilidade da luta política passa originariamente
pelo diálogo, articulação
de uma dimensão elementar do afeto nas
relações de decisão. No diálogo
permito que o outro seja e se revele como tal
em sua situação.
Um dos equívocos dos militantes políticos
de prática messianicamente autoritária
foi sempre desconhecer totalmente a compreensão
de mundo dos grupos populares. “Uma das
tarefas fundamentais do educador progressista
é, sensível à leitura e à
releitura do grupo, provocá-lo bem como
estimular a generalização da nova
forma de compreensão do contexto”
(FREIRE, 1999:91-92). Assim Paulo Freire continua
com o exemplo de que a alfabetização
numa área de miséria, só
ganha sentido na dimensão humana se realizar
uma espécie de psicanálise histórico-político-social
de que vá extrojetando a culpa indevida,
expulsando o opressor de dentro do oprimido, substituindo-a
por sua autonomia e sua responsabilidade (FREIRE,
1999:91-92).
2.9. Falando que Ensinar exige curiosidade. Para
Freire o exemplo de contra-educação
está nos processos que inibem ou dificultam
a curiosidade do educando. Autoritarismo e paternalismo
são duas formas de negação
da curiosidade dos educandos. Nenhuma curiosidade
se sustenta eticamente no exercício da
negação da outra curiosidade. A
curiosidade que silencia a outra se nega a si
mesma. Novamente Paulo Freire vai ressaltar, nesta
questão a dimensão do afeto:
O bom clima pedagógico-democrático
é o em que o educando é, o que o
educando vai aprendendo à custa de sua
prática mesmo, que sua curiosidade como
sua liberdade deve estar sujeita a limites, mas
em permanente exercício. Limites eticamente
assumidos por ele. Minha curiosidade não
tem o direito de invadir a privacidade do outro
expô-lo aos demais (FREIRE, 1999:95).
Cada professor deveria saber que sem curiosidade
não aprende e nem ensina (FREIRE, 1999:94-95).
Estimular a pergunta, a reflexão crítica
sobre a própria pergunta são formas
de exercício. Enfim, trata-se de um processo
de dialogicidade que para nosso objetivo, recoloca
o tema da afetividade na forma de expressão
dialógica.
A dialogicidade não nega a validade de
momentos explicativos, narrativos em que o professor
expõe ou fala do objeto. O fundamental
é que professor e os alunos saibam que
a postura deles, do professor e dos alunos, é
dialógica, aberta, curiosa, indagadora
e não apassivada, enquanto fala ou enquanto
ouve. O importante é que o professor e
os alunos se assumam epistemologicamente curiosos
(FREIRE, 1999:95).
O bom professor é o que consegue trazer
seu aluno até a intimidade do movimento
de seu pensamento. Sua aula é um desafio,
os alunos cansam, mas não dormem porque
acompanham as idas e vindas de seu pensamento,
surpreendem suas pausas, suas dúvidas,
suas incertezas. A condição é
que o professor se ache repousado no saber que:
a pedra fundamental é a curiosidade do
ser humano. Quando éramos crianças
a inquietante busca de conhecimento do mundo nos
deslumbrava a cada descoberta. Educar é
resgatar pelo cuidado amoroso e ético com
o aluno, a condição natural da curiosidade
pela verdade.
Novamente a referência à sensibilidade
se faz presente quando o autor afirma que o exercício
da curiosidade convoca a imaginação,
à intuição, às emoções,
à capacidade de conjeturar, de comparar.
O mundo da afetividade está em que, satisfeita
uma curiosidade, a capacidade de inquietar-me
e buscar continuam em pé. Não haveria
a existência humana sem a abertura de nosso
ser ao mundo, sem a transitividade de nossa consciência.
Um dos saberes fundamentais à prática
educativo-crítica é o que me adverte
da necessária promoção da
curiosidade ingênua para a curiosidade crítica
(FREIRE, 1999:97-98).
Outro saber importante para a prática educativa
é o de lidarmos em relação
à autoridade-liberdade. Autoridade e liberdade
se articulam diretamente com a postura afetiva
do professor. Na prática educativa percebe-se
que a autoridade se instaura a partir de uma relação
de contato e de vínculo professor-aluno,
uma relação de amizade, de amor
indiferenciado do professor com os educandos,
do respeito dos alunos por seus professores. A
liberdade só existe sobre os fundamentos
do amor. Não há efetivamente liberdade
sem o amor. Nós somos seres livres porque
amamos. Um professor que não ama seus alunos
provavelmente não terá prazer em
trabalhar, não terá facilidade de
se comunicar, terá dificuldade de diálogo,
será mais propenso ao autoritarismo, enfim,
a tudo que uma atitude não amorosa pode
provocar. Freire coloca inclusive que a disciplina
é resultado do equilíbrio entre
a autoridade e a liberdade. Eu questionaria esta
interpretação à medida que
a autoridade não representa limite à
liberdade. Ambas têm a mesma fonte e a liberdade
não fere a autoridade neste caso.
O autoritarismo e a licenciosidade são
a ruptura do equilíbrio entre autoridade
e liberdade, sendo então formas indisciplinadas
de comportamento que negam a vocação
ontológica do ser humano, desaparecendo
ambas. Concordamos neste aspecto que a liberdade
e a disciplina desapareçam sob o autoritarismo
e a licenciosidade, contudo pela falta de amor,
porque o equilíbrio entre autoridade e
liberdade está, parece, pressupondo uma
certa negação um do outro. E Freire
continua que somente nas práticas em que
a autoridade e a liberdade se afirmam e se preservam
é que se pode falar de práticas
disciplinadas como também em práticas
favoráveis à vocação
para ser mais.
Paulo Freire, na visão dialética
em que se fundamenta, entende que o bom seria
que experimentássemos o confronto realmente
tenso entre autoridade e liberdade, medindo-se,
se avaliassem e fossem aprendendo a ser ou a estar
sendo elas mesmas, na produção de
situações dialógicas. Por
isso é necessário que ambas se convertam
cada vez mais ao ideal do respeito comum somente
como podem autenticar-se. É vivendo criticamente
a minha liberdade de aluno que me preparo para
assumir ou refazer o meu exercício de autoridade
de professor.
Ao leitor
Seguiremos no próximo número desta
revista a segunda parte desta abordagem e da nossa
conclusão sobre este trabalho. Por ora
desejamos que cada um possa fazer sua reflexão
e desenvolver sua própria abordagem a respeito.
BIBLIOGRAFIA
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes
Necessários à Prática Educativa.
São Paulo: Paz e Terra, 1999.
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