| |
|
UM OLHAR BIOCÊNTRICO SOBRE O BRINCAR
Gastón Andino
Resumo
Este texto é o começo de uma reflexão
sobre o brincar na perspectiva biocêntrica,
dentro da metodologia da Biodanza e na Educação
Biocêntrica.
Encontrar justificativas teóricas sobre
o brincar, sua importância para o desenvolvimento
da criança e também o que pode significar
no mundo do adulto. Qual deve de ser a atitude
do facilitador diante do brincar.
Palavras chaves - Brincadeira, jogo, lúdico,
desenvolvimento inte-grado.
Por que brincar?
“Desde o tempo das cavernas, o homem
já manifesta sua humanização
através do brincar. Tal ato pode
ser visto em suas pinturas rupestres, em
suas danças, em suas manifestações
de alegria”
(Lima Marilene, 2004:6).
Dentro de esta proposta da vida como centro,
podemos observar que quando trabalhamos com grupos
de crianças, seja com a metodologia da
Biodanza ou na Educação Biocêntrica
percebemos que a maioria das vivencias devem ter
um sentido lúdico, de brincadeiras, pois
elas entendem melhor e aceitam mais as propostas
vivencias desta maneira, podendo assim ter uma
melhor participação na aula.
Já há muito tempo Rolando Toro nos
chama a atenção para esta questão
de brincar dentro do trabalho com biodanza para
crianças: “e importante utilizar
as tendências lúdicas das crianças,
seu gosto pelos exercícios de equilíbrio
e destreza em danças com saltos, corridas
e ímpeto. Há muitos jogos durante
a aula”.(Toro Rolando, 1991:640).
Brincar é fundamental no universo da criança.
É assim que ela se descobre e descobre
o mundo que a rodeia. Ela vai se apropriando de
um conhecimento profundamente vivido. E por isto
que ela “aprende”, ela agarra para
sua vida aquilo que nesse momento é fundamental.
Esta forma de aprendizagem é uma aprendizagem
muito concreta e real. “Brincar é
essencial à saúde física,
emocional e intelectual do ser humano. Brincar
é coisa séria, porque na brincadeira
a criança se re-equilibra, recicla suas
emoções e sacia suas necessidades
de conhecer e reinventar a realidade” (Lima
Marilene, 2004:5).
Na metodologia da Educação Biocêntrica
permite-se tam-bém o uso de jogos, no sentido
de cooperação e não de competição.
Faz-se importante destacar a diferença
entre brincar e jogar. A brincadeira se bem tenha
certas normas, regras, elas não são
tão rígidas, como no jogo. Neste,
elas são fundamentais para sua existência.
“O jogo é uma atividade espontânea,
realizada por uma ou mais pessoas, regido através
de regras que determinam que o vencerá.
Delimitam-se regras, tempo de duração,
o que é permitido e proibido e indicadores
como terminar a partida” (Cássia
Regina, 2003: 128).
E interessante que, se surgir à necessidade
de que o grupo queira jogar, propor para que eles
mesmos criem as regras como parte da atividade.
A brincadeira está mais aberta a improvisações,
é mais espontânea e ela pode ser
um caminho a vivências profundas.
“A vivência que trabalha com o lúdico
atua diretamente sobre o humor endógeno
no inconsciente vital” Rolando Toro
Significa que as brincadeiras atuam diretamente
sobre toda a nossa existência e são
um estimulo à nossa identidade, reforçan-do
a auto-estima e auto-imagem. Podem dar uma possibilidade
nova de percepção de si e do mundo
que nos rodeia, e ser profun-damente transformadoras
na vida da criança.
“Tal como a personalidade dos adultos se
desenvolve através de suas experiências
da vida, assim as das crianças evolvem
por intermédio de suas próprias
brincadeiras feitos por outras crianças
e adultos. Ao enriquecerem-se, as crianças
ampliam gradualmente sua capacidade de ampliar
a riqueza do mundo externamente real. A brincadeira
é a prova evidente e constante da capacidade
criadora, que quer dizer vivência”
(Winnicott, 1982: 163).
Brincar é fundamental na construção
da Identidade da criança, uma Identidade
que se constrói na relação
profunda com estas vivencias estruturantes na
vida da criança.
A brincadeira dentro da proposta da Biodanza e
na Educação Biocêntrica
Dentro da teoria da Biodanza e da Educação
Biocêntrica, encontramos as chamadas “Líneas
de vivencia”, ou canais biológicos
por onde a vida se expressa. (TORO, Rolando. 2002)
São os potenciais de vida, latentes dentro
de nós, e que por uma cultura antivida
não se permite que se manifestem em todo
seu esplendor; ou se manifestem de maneira dissociada.
Na brincadeira observamos que se integram as cinco
líneas de vivenciais que a biodanza propõe:
a) A Vitalidade porque necessita da presença
ativa do participante e do outro; a alegria e
disposição para brincar estão
muito presentes. São as fontes propulsoras
da vida, da vontade de viver, do agir no mundo.
“A forca, o ímpeto, a energia vital,
o vigor e a consistência biológica
e existencial são manifestações
da vitalidade” (Wagner Cezar, 2002:89).
Algumas brincadeiras são mais ativas –
enérgicas e outras mais calmas –
tranqüilizadoras.
Como por exemplo, das mais ativas:
O chefe manda, na qual um componente do grupo
vai ao meio e faz um movimento no ritmo da musica
e o resto do grupo o acompanha fazendo de maneira
similar.
Ou das mais calmas:
O espelho em pares (mímica em pares),
onde primeiro um faz o movimento na melodia da
musica e outro acompanha fazendo similar. Também
pode ser o leque chinês onde entre os dedos
das mãos vamos encontrando o olhar dos
colegas e vinculando afetivamente com todo o grupo.
Estas são mais harmonizadoras.
Existem outras tantas vivências dentro
da metodologia da Biodanza nesta polaridade de
ativação e harmonização.
Na polaridade do modelo teórico entre consciência
aumentada de si mesmo e regressão.
b) A Sexualidade porque nos remete ao prazer de
brincar, de estar presente no que se faz. Traz-nos
diferentes sensações corporais agradáveis
que decorrem das brincadeiras de contato e vinculo
afetivo.
“As crianças tem prazer de brincadeiras
físicas e emocionais” (Winnicott,
1982:161).
Tenho observado em meu trabalho com crianças
em situação de risco que elas têm
integrado esta questão do contato e do
prazer em suas brincadeiras de uma forma mais
natural e espontânea, onde o riso, o contato
físico se dá livremente. Isto pode
acontecer pela falta de brinquedos industrializados
que muitas vezes motiva o jogo individual o a
competição. Da mesma forma ocorre
quando eles estão presentes, o brincar
perde a criatividade e espontaneidade.
As crianças que tem acesso à tecnologia
e aos brinquedos têm mais dificuldade de
brincar corporalmente, atrapalhando-se. Muitas
apresentam dificuldades motoras de sinergismo,
coordenação e pouca resistência
física ao esforço.
Percebo que os computadores deixam as crianças
sempre em um lugar mais receptivo, onde as funções
mentais de raciocínio e lógica se
dão mais frequentemente, passando o corpo
e o movimento a um segundo plano. Por isto acredito
que essa serie de dificuldades corporais de movimento
e contato, que são percebidos, tenham a
ver em parte com isto: uma vida muito sedentária.
c) A Criatividade é a linha de vivência
donde se encontra a brincadeira, permitindo a
manifestação de diversas variantes:
da improvisação, do ridículo,
do inesperado.
“Criar significa entre outras coisas, transformar,
inovar, crescer, mudar a si e ao mundo, com o
mesmo gesto, no mesmo ato” (Wagner Cezar.
2002: 90).
Na maioria das vivencias propostas em Biodanza,
diferen-temente da Educação Biocêntrica,
não se utilizam objetos como intermediários
da brincadeira, porque permite que entre em cena
a imaginação. Quando não
existe o brinquedo, temos que imaginar esse objeto.
A nossa capacidade de imaginar fica muito mais
ampla, pois podemos criar o objeto com tamanho,
forma, cor e cheiro que nós queiramos.
“Todos sabemos que as brincadeiras infantis
manifestam a ação do impulso criativo
humano. Muitas envolvem um alto grau de imaginação.
A facilidade com que a criança faz de conta
indica que seu mundo é em grande parte,
subjetivo, com muitos sentimen-tos armazenados,
prontos para se usados. Como ela está relativa-mente
livre de pressões e responsabilidades,
a imaginação conse-gue transformar
a realidade num mundo de fadas com oportuni-dades
ilimitadas para a auto-expressão e o prazer”
(Alexandre Lowen, 1984:15).
d) Pelo fato que muitas delas requerem a presença
do outro como uma possibilidade para que a brincadeira
aconteça, a Afetividade, o vinculo que
se gera pode ser muito profundo, engendrando mais
necessidade de vincular-se para poder brincar,
olhar olho no olho. Isto nos permite trabalhar
algumas questões como: cuidar do objeto,
do outro, como cuido de um brinquedo que gosto
muito. Também como alguém se relaciona
com os objetos com os quais brinca, nas vivencias
sempre existe a troca: ora um, ora ou outro, o
que requere mais atenção na atitude
que eu tenho quando brinco, como trato ao outro,
as coisas em geral na mia vida.
“É a fonte da ética, o caminho
pelo qual o ser humano pode construir coletivamente
uma sociedade democrática e amorosa –
de cidadãos” (Wagner Cezar. 2002:
92). A brincadeira pode possibilitar momentos
de profunda empatia amorosa entre os participantes
das brincadeiras - vivências.
“A brincadeira fornece uma organização
para a iniciação das relações
emocionais e assim propicia o desenvolvimento
de contato social” (Winnicott,1982:163)
A afetividade permite que no brincar a criança
comece a vivenciar sua capacidade de Amar aquilo
que faz. Anos mais tarde poderá ser o aspeto
profissional que ela exercerá, e que lhe
dará sentido à sua existência.
e) A Transcendência está sempre presente
porque na brincadeira, muitas vezes esquecemos
o tempo, o espaço e até a proposta
da brincadeira. Transcender e ir além de
algo que nos limita, de nossas possibilidades
que até agora conhecíamos, ou de
nosso ego.
“Acreditamos que transcendência é
o caminho de humani-zação do homem
e talvez a única eficaz no combate á
pobreza (qualquer tipo) que ameaça a espécie
humana, isto porque favorece a superação
das limitações, permitindo o acesso
a novos degraus na fronteira evolutiva”
(Spode, Clezar, 2006:54).
Ela e uma ponte entre o universo interno da criança
e o mundo que o rodeia, no qual ela está
inserida.
“Pode-se facilmente ver que as brincadeiras
servem de elo entre, por um lado, a relação
do individuo com a realidade interior, e por outro
lado, a relação externa ou compartilhada”
(Winnicoot, 1986:164)
O Facilitador que brinca!
O facilitador que trabalha com crianças
é um facilitador que brinca o tempo todo,
sabendo também na brincadeira dar o limite
necessário si o grupo o alguém no
respeita a proposta que se pede. Sabe também
adequar a consigna ao grupo, de maneira poética,
lúdica e simples, como um convite a participar
sempre das brincadeiras.
Alguma vez pode chegar a fantasiar-se de palhaço,
ou utilizar algum elemento temático para
sua proposta de aula desse dia, sem medo de sentir-se
ridículo.
O facilitador é um Mago do afeto e da espontaneidade.
O adulto que brinca!!!
Também podemos utilizar esta proposta nos
grupos de adultos, já que muitos “tomam
a vida demasiada a serio”, perdendo a naturalidade,
a espontaneidade que a vida nos traz, a cada momento.
Temos que saber adequar-nos, ter a fluidez necessária,
sim perder-nos nos papeis sociais que vivemos
no cotidiano. Tudo tem um tempo e para cada coisa
ou situação tem um começo,
um meio e um fim. A vida acontece no momento presente
e requer de cada um de nós a nossa maior
atenção. Logo esse momento fará
parte do passado. A criança sabe, por isso
vive intensamente cada brincadeira.
“A criança adquire experiência
brincando. A brincadeira é uma parcela
importante de sua vida”. (Winnicott, 1982:161)
Quando o adulto brinca se está vinculando
com o Arquétipo da Criança Divina,
a fonte da vida, se dará o resgate de sua
inocência e espontaneidade.
O arquétipo é uma imagem inconsciente,
com um forte conteúdo emocional, é
a historia da humanidade dentro de nos. Este arquétipo
é um caminho para a saúde e a integração
existencial.
Brincando é que se aprende!
Em um mundo tão bélico, violento,
consumista e adulto, não temos tempo para
“brincadeiras”. Tudo tem que ter um
resultado (lucro), o tempo é ouro, brincar
não é coisa séria! Assim
há mil e um pretextos para o adulto estressado
não permitir que espontaneidade e o lazer,
caminhos necessários para a criatividade
e a saúde possam se expressar em seu cotidiano.
Assim vai matando a Criança Divina que
existe dentro dele. Ela é uma janela para
uma vida mais integrada e saudável. Por
isso é tão difícil ao adulto
perceber o mundo da criança, suas necessidades
de brincar, de lazer, de estar sempre inventando
brincadeiras novas.
Dentro de este contexto, a educação
atua dentro de uma cultura adulta, repressiva,
antivida. Na escola e na sociedade não
se tem tempo ou existem lugares específicos
e horas adequadas para a criança “brincar”.
“A Educação contemporânea,
em quase todo Ocidente, não cumpre sua
tarefa de entregar ao individuo pautas internas
de desenvolvimento. Não desperta neles
os germens naturais de vitalidade, nem os valores
do intimo. Não desenvolve os potencias
criativos, a liberdade intelectual, nem a singularidade
das aptidões. Não fomenta o esplendor
das relações humanas. A Educação
atual tende a produzir a adaptação
servil ao establishment” (Toro Arañeda,
1991).
Assim, neste mundo tão doente, a criança
se encontra inserida, onde suas necessidades e
desejos são pouco satisfeitos, quando,
não cheios de tecnologia e brinquedos industrializados;
que muitas vezes pretendem preencher lagunas afetivas.
Isto limita que a criança possa brincar,
criar, ser.
A brincadeira dentro da um olhar biocêntrico
é um caminho de profundas vivencias integradoras.
Elas trabalham as cinco linhas de vivencia, possibilitando
sua expressão, sua potencia-lizacão
e integração. “As vivencias
são expressões do entrelaça-mento
da vida instintiva com o mundo valorativo - simbólico;
são próprias do humano e necessitam
da realidade histórico-social para acontecer”
(Wagner Cezar, 2002:80).
Sem sombra de duvidas o brincar da Biodanza e
da Educação Biocêntrica dão
uma profundidade a esta atividade, pois nele acontecem
varias aprendizagem. Essencialmente o corpo, o
movimento e o contato vinculado com a presença
do outro é parte da brincadeira. Quando
o “outro” é o brinquedo então
nos permite vivenciar diferentes situações:
a possibilidade de poder brincar com alguém,
vinculado pelo olhar, pelo tato, pelo afeto. Ter
que se vincular e cuidar do “brinquedo”,
perceber e ser percebido por alguém, isto
sem duvida permitirá que a criança
tenha uma vivencia profunda de valores e de ética
sobre o cuidado da vida. Vivenciar a possibilidade
de que o outro possa brincar conosco, entregar-nos
a essa relação tão particular
de ser um objeto e gente da brincadeira, permite
sair do meu mundo, de meu ego para me entregar
a uma relação de igual a igual,
a uma relação profundamente humana.
“É brincando que a criança
vai interiorizando o mundo que a cerca; na troca
com o outro vai se constituindo sujeito humano,
posto que simboliza o resultado socialmente acumulado,
pela capacidade de estar em momento de ócio,
livre do que é do negócio, do negociável,
ou tudo aquilo que nega o ócio” (Lima
Marilene, 2004:6)
Ao trabalhar em esta perspectiva lúdica,
estaremos também trabalhando elementos
da motricidade, como ritmo, equilíbrio,
fluidez, agilidade e outros. Permitindo que se
manifestem integradamente. Se existe alguém
com alguma dificuldade motora possa ir trabalhando-a
de maneira lúdica.
O trabalhar com criança e uma aposta na
vida, na crença que: fortalecendo nos primeiros
anos de vida do individuo, lograremos ter jovens
e adultos mais saudáveis, mais integrados
com a vida, com o todo. “Evitar a catástrofe
psicológica, fortale-cendo a saúde
integral durante a infância, é uma
das tarefas de maior rendimento terapêutico,
da mais imperiosa necessidade” (Toro Rolando,
1991:639).
A brincadeira, então, é uma das
ferramentas importantes para este tipo de trabalho:
um brincar profundamente humano e sensível,
que permite que nesse processo de viver nos construamos
integradamente e percebamos ser parte de uma grande
rede onde o centro seja sempre o cuidado com todo
o vivente.
Bibliografia
GÓIS,Cezar Wagner de lima. Biodanca-Identidade
e vivência 2 edição em brasileiro,
fortaleza, 2002
Winnicott, W. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1982.
LIMA Marilene. Revista do professor, Porto Alegre
– 20(78) 5 – 7 Abril/Junho 2004
CÁSSIA Regina. Educação Biocêntrica
- Vivenciando o desenvolvimento organizacional.
Fortaleza-Banco do Nordeste-2003.
CAVALCANTE, Ruth. Abraçando a Educação
Biocêntrica, Cadernos de Biodanca, n 5,
Porto Alegre, escola gaúcha de Biodanca,
(1997)
LOWEN, Alexandre. Prazer: uma abordagem criativa
da vida. São Paulo, Summus,1984
SPODE Schleder, Eni A. Reeducação
afetiva. Porto Alegre: Imagens da Terra, 2006.
TORO Rolando. Teoria da Biodanca. Coletânea
de textos. Fortaleza: Editora ALAB, 1991.
TORO, Rolando. Biodanza. São Paulo: Editora
Olobras/EPB. 2002. |
|