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REFLEXÕES
SOBRE A CULTURA BIOCÊNTRICA
Cezar Wagner de Lima Góis*
Diante do quadro atual da ciência, da mística
e dos problemas humanos e sociais, dentro do enfoque
da complexidade, do cotidiano e do amor, como
podemos falar da Cultura? Como ficamos nós
diante do nosso dia-a-dia consigo mesmo, com os
outros e com a Natureza?
Para contribuir com essas reflexões pretendo
expor aqui algumas questões relativas ao
tema da Cultura Biocêntrica, como a visão
antropocêntrica, a visão biocêntrica,
o sentir-se vivo, o dançar a vida e o dançar
com os outros. São questões que
entendo essenciais para a mudança cultural
numa perspectiva biocêntrica ou referenciada
na vida.
É claro que a cultura atual leva em consideração
a vida em todas as suas manifestações,
mas a grande questão é o lugar que
o ser humano se encontra para estar com ele mesmo
e com todas as outras manifestações
da vida.
Introdução
O processo civilizatório nos trouxe até
aqui, um momento de profundos sentimentos e reflexões
coletivas sobre a vida social, o conhecimento,
a tecnologia e, mesmo, sobre a própria
cultura. Avançamos, iluminamos cada vez
mais o nosso caminhar, fazendo estradas e indo
a lugares insuspeitados, por dentro e por fora
de nós mesmos. Nada nos detém, nem
mesmo a Natureza com a sua energia vital que,
em muitos instantes, assinala de forma poderosa
e dramática a sua presença no cenário
social do mundo urbano e do mundo rural, como
se viu recentemente nas imagens televisivas do
Tsunami no Oceano Índico, dos furacões
na Flórida, do terremoto no Paquistão
e da seca na Amazônia.
Somos capazes de produzir alimentos, viajar, curar
doenças, construir abrigos, proteger-se,
aumentar a população, educar nossos
filhos, fazer satélites, aviões,
bombas, vacinas, músicas, poemas, esculturas
e tantas obras de arte. Somos capazes de amar,
de se enternecer com o vôo do pássaro
e com o sorriso da criança. Podemos até
pensar que a Natureza está fora de nós,
que somos os senhores de si mesmos e de tudo que
existe, vindo nós ao mundo para reinar
sobre todas as criaturas. Somos capazes de controlar
e de criar, somos senhores de Cronos e do planeta
Terra.
Do pequeno osso usado como instrumento e dos primeiros
sons articulados aos satélites espaciais,
computadores e internet, percorremos um longo
caminho de 07 milhões de anos, em contínuas
bifurcações ou ramificações,
onde um só caminhar prevaleceu e se mantém
até hoje – o do homo sapiens ao homem
moderno.
Do rosto voltado para o chão, depois para
as distâncias, estamos hoje com o rosto
voltado para as estrelas e para a nossa própria
sutileza e refinamento interiores. Para onde estamos
indo, se é que estamos indo para algum
lugar? O que nos atrai, o que nos impulsiona pela
roda do tempo nesses espaços dobrados e
desdobrados de coisas e de vazios chamado Universo?
O poder da vida e o poder de viver do homo sapiens
são obras fascinantes de uma realidade
poderosa, incomensurável, sagrada, bela
e profundamente sutil, presente mais precioso
dos pais aos filhos e filhas, o misterioso processo
da divisão e integração celulares
que, em pouco tempo, multiplicando e enlaçando
as células por dentro de algo maior (um
embrião, um feto, um recém-nascido,
um ser humano) amarra o mundo interno ao mundo
externo, até por fim gerar a consciência,
a cultura e a infinita possibilidade de realização
humana.
A consciência é uma fantástica
dobradura biológica, é a vida passando
a se ver, a vida se pensando, o sentir que sente,
o comer que come, o tocar que toca, o andar que
anda, o olhar que olhar, o falar que fala.
Diante de tal quadro da realidade humana o ser
humano pode ser levado a se perceber e a se sentir
privilegiado, filho de um Pai Criador nascido
para reinar no mundo. Apaixonado por si mesmo
muitas vezes vai deixando de lado o vínculo
natural que a tudo une em uma profunda e sensível
dança da Natureza. Passa a representar
a si mesmo como o Filho de Deus e se posta em
um trono devastador das riquezas naturais, inclusive
da vida que há em si mesmo (estilo de adoecer).
O homo sapiens sobreviveu, faz história,
faz cultura e se afasta cada vez mais de sua antiga
caverna, dos animais, dos elementos naturais,
do seu corpo, de sua espontaneidade, do prazer
que incendeia a mente e da convivência com
o selvagem interior e abismal. Olha ele muitas
vezes, com nostalgia, para o eterno e prometido
paraíso, mas sabe, pela sensibilidade e
consciência, que a flecha do tempo, voraz,
continua seu trajeto cultural. Afastar-se da cultura
não é possível sob pena de
desaparecer; tampouco seguir pela mesma trajetória
garantiria a repotencialização da
nossa energia vital que, de tão bloqueada
e deformada, gera doenças de civilização.
O que fazer, se o caminhar antropocêntrico
assinala seu esgotamento e limitação
frente às novas exigências humanas,
sociais e naturais?
Visão Antropocêntrica
A visão antropocêntrica nos legou
extraordinários avanços no campo
da ciência, da técnica e da organização
social, construiu as bases da cultura moderna,
iniciadas na Renascença e consolidadas
no século XX. O Iluminismo francês,
o Idealismo alemão, a grandeza da razão
humana e seus métodos de pensar, controlar
e atuar, foram em geral aplaudidos e reverenciados
como o caminho pelo qual se faria a redenção
humana, o novo homem e o estágio positivo
da sociedade. A relação sujeito-objeto,
no mundo ocidental, tornou-se a condição
primeira, quem sabe a única, para o ato
de conhecer.
Séculos se passaram desde Galileu e Descartes,
levando a mente racional por caminhos de construção
de modelos lógicos cada vez mais avançados
no afã de conhecer, porém baseados
em fragmentações e reducionismos
da realidade; tecendo caminhos de linearidades
e descontinuidades que marcaram o avanço
da Ciência, da Técnica e da organização
do Estado e da vida social.
Adentramos ao Século XXI com toda a robustez
de um conhecimento, de uma tecnologia e de uma
sociedade legislada, marcando a nossa entrada
com novos conhecimentos e novas leis, porém
trazendo à tona algumas outras perguntas
essenciais à vida humana, em geral, relacionadas
a um tema vital - o vínculo que estabelecemos,
na trajetória da cultura moderna, para
consigo mesmo, com os outros e com a Natureza,
e suas conseqüências para a Natureza,
para cada um de nós e para a sociedade
nesse começar do novo século.
Seguir sendo o filho de Deus (teocentrismo) ou
mesmo sendo o próprio Deus (antropocentrismo),
talvez não seja uma saída, pois
esses caminhos ao longo do tempo se fragilizaram
ou, até mesmo, se esgotaram.
Não quero com isso negar a Ciência
nem a Religião, quero somente dizer da
necessidade de um novo reposicionamento do homo
sapiens com relação à Natureza
e à Cultura, e mesmo com relação
à presença de seus Deuses em suas
vidas e em todas as coisas que existem.
A cultura muda continuamente, mas em quais direções
se dão essas mudanças? Quais os
parâmetros ou paradigmas que orientam essas
mudanças? Urge novos olhares, um novo (e
antigo) sentir, outros parâmetros, não
apenas ideológicos, mas sim profundamente
marcados por uma nova sensibilidade frente à
vida. Novas maneiras de sentir e perceber, uma
nova visão da vida.
Visão Biocêntrica
Considero essa percepção uma visão
da vida na qual o universo aparece como um fabuloso
espaço de matéria visível
e escura (fechado ou aberto não o sabemos),
que se organiza (autopoiesis) no sentido da vida
e que aumenta de complexidade através de
sua própria diversidade e conectividade
cósmicas. Evolui por si mesmo mediante
azar e caos, e relações pouco conhecidas,
principalmente entre suas forças fundamentais
- gravitação, eletromagnetismo,
força nuclear forte e força nuclear
fraca - possibilitando, em última análise,
a coerência universal - dança de
determinações e indeterminações
de fluxos que fazem um Universo altamente instável,
evolutivo, irreversível e auto-organizado.
Se Deus não joga os dados ou se Deus joga
os dados, isso não é o principal,
pois as duas questões são faces
da mesma moeda, da mesma complexidade. Concordo
com Raul Terrén quando diz que "Deus
joga os dados e sempre ganha".
A compreensão de um Universo que se organiza
como sistema vivo mediante uma dança de
caos e harmonia, pode parecer sem sentido ou mesmo
ambiciosa, porém estudos recentes (voltados
para uma Ciência da Vida) apontam na direção
de uma visão mais profunda da vida, como
algo mais complexo, sistêmico, auto-regulável
e capaz de manifestar-se como um planeta vivo
(Gaia).
A percepção da Terra ou do Universo,
como algo vivo é antiga, vem dos Pré-Sumerianos.
Ciência e Religião trataram o tema
de maneira diferente depois de Galileu, porém
na fase atual do conhecimento científico
e do resgate da antiga religiosidade (Tradição),
nos encontramos frente a profundas convergências
entre elas acerca do macro e do microcosmo.
Hoje posso dizer que a noção de
vida como algo de dimensão planetária
ou cósmica está presente na Ciência,
nas experiências místicas e na vida
comum de qualquer pessoa sensível. Investigar
e vivenciar essa presença da vida como
estrutura-guia é o grande desafio que,
inevitavelmente, nos deslocará para novos
paradigmas da existência, a uma visão
biocêntrica, a qual ultrapassa o panorama
holístico (a tendência do todo se
manifestar na diversidade, e esta, por conseguinte,
revelar em sua potencialidade o todo) e se manifesta
em um sentimento sagrado da Vida e do Universo,
de todas as coisas existentes, sentimento este
que tem como origem a vivência biocêntrica.
A compreensão de que isto é assim
ultrapassa os limites das formas atuais de pensar
e se aprofunda na vivência mesma do ser
como corporeidade amorosa em sua viagem pelo mundo
de si mesmo, no qual se revela a unicidade do
espaço interior com o espaço exterior
(Campbell, 1991). Tal clareza vem da epifania
da vivência da identidade, do si-mesmo,
do ato simples do viver.
Sentir-se Vivo
A visão biocêntrica não se
confunde com a idéia de um Deus antropomórfico.
Ela surge da vivência do sentir-se vivo,
do sentir-se como parte da criação,
como expressão da auto-poiesis cósmica.
O sentir-se vivo é o alicerce, é
o que vincula, nutre, fortalece e revela o homo
sapiens moderno. É a expressão natural,
espontânea e cultural da vida como singularidade,
como auto-poiesis particular da auto-poiesis cósmica.
Do sentir-se vivo é que surge a percepção
do si-mesmo, de um sentimento de vida, o qual
vem da Biologia em direção a Psicologia,
da transformação do animal em espírito
enraizado, ou corporeidade vivida. É a
mudança do selvagem em linguagem e sua
volta a um lugar anterior e fonte de sua aparição
em um mundo natural e espontâneo - a vida
animal. Ao voltar à fonte animal, à
Natureza, conecta-se a uma verdadeira conspiração
pelo ato de viver. Por isso, o Mestre é
a Natureza em nós.
Sinto com profundidade a conspiração
pelo ato de viver, a existência de uma essência
humana libertária, em algo vital que impulsiona
o ser à vida e a algum lugar do infinito,
cuja origem não está na consciência
ou em qualquer forma de representação
mental, e sim em nosso sentir, em nossa raiz animal
e selvagem, mundo bruto e indiviso. Encontro aí
a vida como possibilidade singular, potencialidade
muitas vezes bloqueada, reprimida, negada, porém
sempre presente. Só desaparece com a destruição
do ser.
O ser humano surge dessa realidade bruta e indivisa,
em um determinado instante, como uma onda no oceano,
construindo-se na dança de caos e harmonia,
em íntimos processos de fusão e
diferenciação, e sendo capaz de
sentir e perceber isso. Essa conexão profunda,
que alimenta e constitui a natureza humana, é
o húmus interior que nos faz vivos, instintivos,
corporais e íntimos do Cosmos.
Dançar a Vida é
Participar da Vida
É mergulhar em um paradoxo misterioso que
se impõe frente ao conhecimento e ao próprio
espírito humano, mas que tem profunda ressonância
no coração. É permitir-se
como um participante de uma grande dança
a dançar o sagrado no cotidiano, na forma
de conhecimento (Ciência), beleza (Arte),
mistério (Mística) e vínculo
(Amor). Dançar sendo plenamente o movimento
das vísceras e dos nossos líquidos,
o movimento geral do corpo no espaço desenhando
no ar a forma da criação e da liberdade;
dançar sendo o movimento desdobrado do
movimento da vida, do Cosmos, desdobrado da dança
das energias/partículas, da dança
do pólen, das estrelas e dos animais, dança
de determinações e incertezas, harmonia
que germina o caos e este, como pai, germina a
mãe que o gerou.
Dançar é tecer a vida, conspirar
pelo ato de viver no leito natural da realidade,
da cultura, na flecha do tempo, em uma estranha
rota de caos e harmonia. Tecer a vida é,
a cada dia, celebrar o ato criador, sentir-se
brotando por dentro e por fora, perceber-se possuidor
de um potencial de vida capaz de projetar-se em
múltiplas possibilidades de realização
e singularidade.
Ao falar de dançar a vida estou falando
de participar da vida, de cultivá-la, de
ser criatura e criador dessa dança cósmica
revelada humana e dançada como história
e cultura. Participar é estar aqui consigo
mesmo, com a humanidade e com o Universo, sentindo
o coração da Natureza pulsando em
nossos próprios rios interiores, cujas
nascentes e deságües estão
no infinito. Participar da vida é nascer
e renascer a cada instante, a cada dia, de um
útero, pintando na tela da realidade a
existência, bem antes de conhecê-la.
Participar é fazer do seu gesto um ato
permanente de educar, que liberta da fusão
as sementes que pulsam e anseiam naturalmente
germinar. Somos sementes como as sementes, conectadas
por uma rede de relações vitais,
fios de natureza que nos conectam entre si e ao
infinito, chamando-nos a dançar com autonomia
e plenitude essa grande dança de comunicação
e encontro. Nada pode deter esse chamado, a não
ser a própria vida em sua força
auto-organizadora e auto-transcendente.
Cada ser vivo é uma semente que vibra e
se expande conduzida por uma trajetória
instável de bilhões de anos. Não
há na cultura algo tão complexo,
incerto, neguentrópico e belo. Somos sementes
como a própria semente, buscamos vínculo,
nutrição e crescimento. Ao jardineiro
cabe somente cuidar com amor, protegendo e nutrindo,
pois os seus caminhos farão por conta própria,
seguindo seus fios de natureza em direção
a algum lugar da vida.
Por isso a dança, o gesto espontâneo
e amoroso do jardineiro, a dança como ato
de educar - ato de amor, uma dança amorosa
de germinação e não um caminho
estreito de valores e ideologias de um grupo dominante
ou de uma só cultura.
Enfim, dançar a vida é construir
um cotidiano de vínculo, um trabalho com
sentido, com prazer, abrir-se ao encontro com
as pessoas e lutar contra a opressão e
exploração simplesmente por amar
ao outro e à vida. É aceitar e estimular
a expressão dos corpos-combativos, dos
corpos-estrelas, dos corpos-apaixonados, em todas
as idades, em casa e nas ruas. Dançar a
vida é cultivar o amor, alicerce da cultura
biocêntrica.
Conclusão
Para onde nos leva a dança da vida, o participar
do mundo de hoje, da sociedade? Nos leva é
certo a muitos caminhos, mas urge um principal
- o da cultura biocêntrica, o de contribuir
com uma sociedade amante, democrática e
transcendente.
Sei que, para muita gente, isso é apenas
mais uma das utopias, mas para outros o sentido
da vida social está aí. Por isso
seguem, caminhando e cantando a canção
que diz que "somos todos iguais, braços
dados ou não, nas escolas, nas ruas, campos
e construções, caminhando e cantando
e seguindo a canção" (Vandré,
1968).
Aos poucos, (é a nossa esperança
e a nossa luta), um novo (e antigo) sentimento
do humano e da vida poderá prevalecer sobre
a cultura do individualismo e do consumismo, se
tornando mais presentes nos corações
e nas mentes das novas gerações.
Este cultivo de sentimentos e de sentidos já
começou, embora saibamos da existência
de graves obstáculos à sua semeadura
e colheita, tais como o antropocentrismo, a ideologia
masculina, o individualismo, o autoritarismo,
a xenofobia, o fascismo, o fetiche do capital,
a exclusão social e o desamor.
O mundo histórico-social de hoje continua
sendo, também, um mundo cheio de contrastes
perversos (desigualdades sociais e dominação),
apesar de contar com sofisticados sistemas de
conhecimento, de direito, de produção,
de transportes e de comunicação.
Mesmo assim é um mundo vivo, real e próprio
à humanização e à
natureza, um terreno fértil para a construção
de uma grande roda de culturas em meio à
Natureza - uma roda de amor, de aceitação
e de integração das diferenças.
Isso ainda é uma utopia, mas a integração
entre as culturas é possível, desde
que participemos amorosamente da tecitura de valores
pró-vida por meio de uma educação
biocêntrica. Este grande sonho já
sonhado por muitos que já morreram e por
muitos que estão lutando por ele, em todos
os lugares do nosso querido Planeta Terra, nossa
morada de hoje, um dia poderá ser realidade.
Não precisamos temer. É preciso
coragem para perceber o nosso próprio brilho
interior e querer construir uma cultura biocêntrica,
um mundo com amor e prazer, portanto, vinculado
à Vida.
Um sonho como esse nasce do olhar e do gesto generoso
e simples de quem ama, do diálogo, de uma
nova (e antiga) sensibilidade que permite captar
a beleza da vida se fazendo em cada rosto, em
cada ser vivo, em cada partícula do Universo.
É preciso não se dispersar, não
perder de vista o sonho da Cultura Biocêntrica.
*Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona
Prof. de Psicologia da Universi-dade Federal do
Ceará
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