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AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ESTUDANTES
DE PEDAGOGIA DA UEFS SOBRE A VIDA
Marinalva Lopes Ribeiro*
Elisa Carneiro S. Almeida **
Ponho-me a brincar com a vida e uma
estranha metamorfose acontece: deixo de
ser velho. Sou criança de novo...
Roberto Frost
Introdução
O mundo atual está marcado por um grande
desenvolvimento científico-tecnológico
propiciado pela visão cartesiana-newtoniana,
que se tornou a base de todas as ciências.
No entanto, essa visão tem sido questionada
pelo seu caráter reducionista, por focalizar
as partes em detrimento da totalidade, por valorizar
os aspectos externos das experiências ignorando
os aspectos internos e por focalizar exacerbadamente
a razão sem considerar a arte, as emoções
e os sentimentos.
Como conseqüência, o ser humano dissociou-se
de se mesmo, dos outros e da natureza. Apesar
de usufruir do grande conforto material gerado
pelo desenvolvimento tecnológico, a sociedade
vive numa crise de valores sem precedentes, na
qual predominam a competição e o
individualismo (CUNHA, 2005) Na educação,
por exemplo, o pensamento cartesiano-newtoniano
influenciou a supervalorização de
disciplinas que desenvolvem o raciocínio
lógico-matemático, oferecendo uma
educação desconectada da realidade
da vida do estudante, de suas emoções
e sentimentos, intuições, sensações
(MORAES,1997).
Só recentemente, esse paradigma que contribuiu
para o agravamento de problemas educacionais,
como por exemplo, o fracasso escolar, vem perdendo
força, exigindo uma nova postura dos educadores,
a fim de responder, de forma articulada, aos desafios
do mundo contemporâneo.
Nesse sentido, foi oferecida a disciplina optativa
Educação Biocêntrica ao curso
de Licenciatura em Pedagogia, a qual propõe
oportunizar aos licenciados o desenvolvimento
dos aspectos sócio-afetivos e de respeito
à vida de forma vivencial e integrada com
as demais dimensões do ser humano.
A disciplina Educação Biocêntrica
pretende proporcionar aos estudantes uma revisão
dos padrões voltados para o viver, mediante
os quais o educando vai aprendendo, não
somente pelo cognitivo, mas também pela
percepção, pelo sensorial, pela
intuição, pelo vivencial, pois o
instante vivido tem uma força de realidade
que compromete todo o corpo.
Este artigo visa apresentar os resultados de uma
investigação realizada nessa disciplina,
cujo objetivo geral foi compreender se a Educação
Biocêntrica interfere no modo de sentir
e de pensar dos estudantes sobre a vida e sobre
os seus próprios comportamentos diante
dela. A pesquisa teve como objetivo específico
conhecer a possível existência de
uma representação social de vida
entre os estudantes de Licenciatura em Pedagogia
que participaram, na UEFS, da disciplina optativa
Educação Biocêntrica durante
o semestre 2005.1.
Os conceitos de vida e de representações
sociais constituíram as bases teóricas
que orientaram a coleta de dados e sua análise.
O conceito de vida
O conceito de vida pode ser compreendido sob diversos
aspectos. Para Schrödinger (1997), Prigogine
(1996), Capra (1996), Magulis & Sagan, Maturana
& Varela (1997), Capra (1996, 2002), Moraes
(2003), por exemplo, podemos destacar que a vida
é um sistema aberto, complexo, longe do
equilíbrio, que está em processo
de mutação e evolução,
que se produz autopoieticamente, se reproduz e
que depende de constantes interações
com o meio ambiente, sinalizando, de acordo com
Moraes (2003), o seu caráter dinâmico
e relacional. A abordagem da vida neste trabalho
será fundamentada nas pesquisas desenvolvidas
por esses autores, em especial no Princípio
Biocêntrico criado por Toro (2002).
Capra (1996, 2002) considera essencial para explicar
a vida a idéia de padrão de organização.
Em suas próprias palavras é “alguma
coisa a mais na vida, alguma coisa não-material
e irredutível – um padrão
de organização” (CAPRA, 1996,
p. 77). Para estudar a forma os padrões
devem ser levantados a partir do mapeamento de
uma configuração de relações.
Em todos os organismos vivos, de acordo com Capra
(1996), há um padrão comum de organização
da vida que é um padrão de rede:
“Sempre que olhamos para a vida, olhamos
para redes” (CAPRA, 1996, p. 78). Elas se
estendem em todas as direções e
podem gerar laços de realimentação,
devido a sua capacidade de não-linearidade
e de auto-regulação. Em síntese,
o padrão de organização comum
de todos os sistemas vivos é um padrão
de rede capaz de auto-organização,
a – autopoiese (autocriação).
“ Trata-se de uma rede de processos de produção,
nos quais a função de cada componente
consiste em participar da produção
ou da transformação de outros componentes
da rede. Desse modo, os seres vivos se caracterizam
por ´produzirem-se continuamente a si mesmos`
numa organização autopoiética
(MATURANA e VARELA 1997, p. 84). Para Capra (1996)
os sistemas vivos obedecem a três critérios
fundamentais: padrão de organização,
estrutura e processo vital. O padrão de
organização é a configuração
de relações que determina as características
essenciais do sistema. Por exemplo, se o padrão
de organização de um vírus
for o de uma rede autopoiética, o sistema
é vivo. A estrutura, por sua vez, é
a incorporação física do
padrão de organização do
sistema. Por fim, o processo vital - a “cognição”
- é a atividade envolvida na incorporação
contínua do padrão de organização
do sistema.Toro (2002) propôs o termo “inconsciente
vital” para se referir a esse processo cognitivo.
A atividade mental – o processo de conhecer
-, portanto, passa a ser a atividade organizadora
dos sistemas vivos, em todos os níveis
da vida e se confunde com a própria vida:
“a mente é a essência do estar
vivo” (BATESON apud CAPRA, 1996, p. 145).
Já o cérebro é desnecessário
à existência da mente. Desse modo,
uma bactéria não tem cérebro,
mais tem mente, pois é capaz de percepção,
isto é de cognição. Trata-se
de uma concepção, segundo Capra
(1996), mais ampla do que a concepção
do pensar: “A cognição envolve
percepção, emoção
e ação – todo o processo da
vida” (ibid., p. 145).
Encontramos pontos de convergência nas concepções
de vida discutidas até aqui e a concepção
de Toro. Embora não seja ainda defensável
no meio científico, ele comunga com Capra
(1996) a suposição que o cosmos
é vivo ou que “a vida provavelmente
está presente em grande abundância
por todo o cosmos” (ibid., p. 176). Toro
(2002) defende a teoria evolucionista, segundo
a qual o universo está em plena evolução
e é compreendido como um sistema vivo organizado
e estruturado em função da vida.
Nesse sentido, o ser humano resulta da evolução
de seus ancestrais tanto humanos quanto antepassados
que recuam no tempo mais de 3 bilhões de
anos.
Toro (2002) formulou o princípio biocêntrico
que tem como referência a vida e se inspira
nas leis universais que conservam os sistemas
vivos e permitem a sua evolução.
A referência existencial para o princípio
de conservação e evolução
dos sistemas viventes, de acordo com Toro (2002),
é a vivência do sentir-se vivo, sentir-se
parte da criação e expressão
da autopoiesis cósmica. Sentir-se vivo
implica o ato de tecer a nossa própria
vida, como pessoa amante, ativa, expressiva e
presente no mundo; pessoa que celebra, participa
e cultiva a cada dia o ato do Criador; que como
semente busca vínculo, nutrição
e crescimento (Góes, 2002).
O Princípio Biocêntrico se contrapõe
com o que aprendemos com o cristianismo a respeito
do universo e da vida. Ensinam-nos que primeiro
formou-se o universo: a luz, a água, a
terra, os vegetais, depois a vida animal e, por
fim, os seres humanos. Para Toro (2002), ao contrário,
existiu primeiro a vida. O universo, em constante
evolução, se estrutura a partir
da própria vida.
Há teorias que defendem que Deus está
no centro, outras, chamadas antropocêntricas,
consideram que o homem é o centro da vida.
No entanto, teóricos a exemplo de Capra
(1996) e Toro (2002) compreendem a vida como algo
maior, mais complexo e profundo, a estrutura guia
da construção do universo.
A vida da forma que é compreendida por
Capra (1996) está entrelaçada, isto
é, todas as coisas estão interconectadas,
são interdependentes e o ser humano é
parte integral da teia da vida. Baseado nas descobertas
da física quântica o autor observa
que não há partes, em absoluto,
mas padrões numa teia inseparável
de relações. Compreendidos dessa
maneira, os sistemas vivos são visualizados
como redes que interagem à maneira de rede
com outros sistemas vivos (redes). Assim, o estilo
de vida do homem interfere na vida do universo
e vice-versa. Com efeito, segundo uma reportagem
da revista Veja (2005), o aquecimento global está
causando a diminuição das grandes
geleiras. Os oceanos estão se aquecendo
e os animais têm mudado suas rotas migratórias,
fazendo com que as previsões sobre o futuro
da vida no planeta sejam catastróficas.
Nesse sentido, Toro (2002) e Capra (1996) responsabilizam
o homem e as ciências do futuro na estruturação
de novas percepções, a fim de criar
condições para gerar e proteger
a vida, isto é, cuidar de toda a natureza
viva. Góes (2002) e Moraes (2003) concordam
com as idéias de Toro propondo que o desafio
de qualquer pessoa sensível é vivenciar
a presença da vida como estrutura guia,
de modo a sacralizá-la em todas as suas
manifestações e celebrá-la
em toda a sua grandeza e beleza.
Moraes (2003) acrescenta que viver a teia da vida
implica em aprender a conviver com o outro, a
escutá-lo, a aceitá-lo, a respeitá-lo,
a compartilhar cuidado, carinho, atenção
e afeto; implica, por fim, viver junto a potencialidade,
a beleza, o encantamento e a magia que o universo
nos oferece.
Essa discussão sobre a vida começa
a ser introduzida no meio educacional, pois se
percebe, agora, que a educação precisa
estar intimamente conectada com o processo de
viver. Se a escola incorpora a nova percepção
do paradigma que emerge na atualidade em substituição
ao paradigma newtoniano-catesiano, provavelmente
se revitalizará e terá condições
de articular a razão com a emoção,
o sentir com o pensar, o mundo do sujeito com
o mundo do objeto, o indivíduo consigo,
com o outro e com o ambiente. Desse modo, a educação
escolar passa a remar a favor da correnteza da
vida, estabelecendo um diálogo em relação
à realidade e ao contexto no qual está
inserida e, conseqüentemente contribuirá
para a evolução e a expressão
de seus ciclos naturais (MORAES, 2003).
O conceito de representações sociais
Ribeiro (2005b), baseada em diversos autores sintetiza
a definição de representações
sociais como:
uma forma de conhecimento, socialmente elaborado
e compartilhado, constituído de informa-ções,
de crenças, de opiniões e de atributos
concer-nentes a um determinado objeto, que permite
ao indivíduo situar-se no grupo ao qual
pertence, compreender e explicar a realidade,
guiar seus comportamentos e práticas e
justificar, a posteriori, as tomadas de posição
e condutas adotadas (RIBEIRO, 2005b, p.3).
Atualmente, a teoria é muito utilizada
para estudar a sociedade, pois leva em conta o
psicológico e o cognitivo do indivíduo.
O estudo das representações sociais
investiga com se forma e como funcionam os sistemas
de referência que utilizamos para classificar
pessoas e grupos e para interpretar acontecimentos
da realidade cotidiana. (ALVES-MAZZOTTI, 1994,
p.60). Dessa forma, permite conhecer a posição
e a escala de valores de um individuo ou de um
grupo, a partir das informações,
crenças, opiniões e atitudes destes,
a depender do interesse da investigação
do pesquisador.
Na pesquisa que embasou este artigo as considerações
e significações que constituem a
teoria das representações sociais
foram úteis à compreensão
do sentido dado pelos estudantes à vida.
Metodologia
A fim de compreender as representações
dos estudantes sobre a vida desenvolvemos a metodologia
que ora descrevemos. Os sujeitos da pesquisa foram
22 alunos, na faixa de 20 anos. Essa turma era
constituída na maior parte de mulheres
(21) e um homem, sendo dois alunos do curso de
Licenciatura em História e os demais do
4º Semestre do Curso de Licenciatura em Pedagogia.
Trata-se de um estudo de abordagem metodológica
qualitativa, exploratória e descritiva,
cuja intenção foi compreender se
a disciplina Educação Biocêntrica
interfere no modo de sentir e de pensar dos estudantes
participantes sobre a vida e sobre os seus próprios
comportamentos diante dela. Os dados foram coletados
mediante duas técnicas: o Grupo de Discussão
e a Associação Livre de Palavras
(APL) a partir do termo indutor “vida”.
Neste artigo vamos nos ocupar apenas com os resultados
da ALP.
O teste de associação livre de palavras
(ALP) foi desenvolvido por Jung nas pesquisas
em Psicologia Clínica e caracteriza-se
por um teste projetivo, cujo objetivo é:
ajudar a localizar as zonas de bloqueamento (entendidas
como detenção súbita e transitória
do curso do pensamento, sem comprometimento intelectual
ou sensorial) e de recalcamento de uma pessoa,
isto é, a exclusão do campo da consciência,
de certas idéias, sentimentos e desejos,
que o indivíduo não quer admitir,
e que, no entanto, continuam a fazer parte da
vida psíquica (BARDIN apud OLIVEIRA, 2005,
p. 574).
O teste de APL tem sido utilizado nas pesquisas
sobre representações sociais desde
a sua adaptação para o campo da
Psicologia Social realizada por Di Giacomo, passando
a ser utilizada como técnica de coleta
de dados em pesquisas científicas por se
tratar de um método de investigação
aberta que permite evidenciar universos semânticos
de forma rápida e objetiva.
Por estar situada no âmbito das representações
sociais nossa pesquisa utilizou-se da ALP para
conseguir o maior número de palavras ou
expressões dos sujeitos, respeitando a
ordem de hierarquização dos termos
produzidos.
Análise dos dados provenientes das evocações
A técnica Associação livre
de palavras (ALP) fez emergir um dicionário
composto por 106 palavras. No entanto, para este
estudo consideramos apenas aqueles termos que
apareceram com uma freqüência igual
ou superior a 5.
No intuito de captar o conteúdo e evidenciar
a estrutura das representações de
vida, consideramos tanto a freqüência
quanto a ordem de evocação dos termos
produzidos pelos sujeitos da pesquisa, por acreditar,
como Ribeiro (2005a) e Vergès (1989, 1992)
que aqueles termos que atendem ao critério
freqüência e ordem prioritária
de evocação, seriam os mais importantes
para eles. Com base nas informações
produzidas, construímos o “quadro
de quatro casas” (quadro 1).
Quadro 1. Ordem média de evocação
referente ao termo "vida".
No quadrante superior esquerdo situam-se as palavras
amor (f 11) e alegria (f 10), supostamente aquelas
que constituem o núcleo central da representação;
no quadrante superior direito posicionou-se a
palavra natureza (f 9) que pode constituir a primeira
periferia da representação de vida;
o termo família (f 5) está situado
no quadrante inferior esquerdo constituindo-se
no elemento de contraste; por fim, os termos paz
(f 6) e amizade (f 5) seriam aqueles elementos
da segunda periferia da representação
em apreço.
Analisando os termos evocados pelos sujeitos,
percebemos que as representações
parecem se adequar ao processo de transição
para o novo paradigma que está tomando
corpo na atualidade e, conseqüentemente,
na educação, isto é, uma
forma de compreender a prática educativa
associada à própria vida e à
realidade existencial dos estudantes. Estes, sujeitos
ativos, constroem a aprendizagem de forma integrada
usando tanto o lado racional, lógico, reflexivo
quanto o lado criativo, emocional e sentimental.
Nesse sentido, são práticas que
consideram o corpo, a mente e o espírito
do sujeito da aprendizagem, de modo a resgatar
os potenciais humanos que se encontram adormecidos
e integrar o sujeito consigo mesmo, com os outros
e com a natureza. É assim que os participantes
desta pesquisa evocaram um termo tão temido
e distante do ambiente universitário, o
qual encontrava-se circunscrito apenas ao vocabulário
dos apaixonados, dos poetas, da família
e de alguns filósofos: amor.
Evidentemente, ao se entrelaçar com cada
um desses domínios, o termo amor vai recebendo
significados múltiplos, díspares
e contrastantes, pois como afirma Humberto Maturana,
“amor é uma palavra perigosa”
(MATURANA, 1999, p. 183). Por exemplo, pode significar
a relação intersexual entre duas
pessoas que se elegeram mutuamente; pode significar
uma gama de relações interpessoais
quando se refere ao amor entre pais e filhos,
entre amigos e cônjuges entre si; pode significar
amor à comunidade ou entes coletivos como
à pátria; pode significar também
amor ao próximo e a Deus.
Consideramos relevante o fato de a alegria estar
diretamente relacionada à vida nas representações
dos estudantes participantes desta pesquisa, principalmente
num país em que grande parte da população
está condenada ao sofrimento advindo: da
doença, do desemprego e dos salários
aviltantes; da falta de moradia e de terra para
o cultivo; da falta de educação
de qualidade; do vício em drogas lícitas
e ilícitas; do desrespeito à sua
dignidade; da falta de um tratamento amoroso,
etc. Além disso, vivemos num país
em que a esmagadora maioria confessa praticar
algum dos ramos da religião cristã,
cujo símbolo é a cruz, isto é
um instrumento de suplício, de aflição,
de infortúnio. Nesse sentido, é
notável que os estudantes, ao representar
vida, tenham evocado o termo alegria, porque nela
está embutida a esperança de que
os seres humanos, indistintamente, possam usufruir
a satisfação em abundância.
O termo alegria pode estar relacionado ao jogo
das idéias, do pensamento, à imaginação,
à satisfação que dá
envolver-se na aventura do conhecimento e crescer
com ele, atingir o sucesso, fortalecer a confiança
em si mesmo e na vida; pode ainda relacionar-se
a algo leve, sutil, ligado ao sentimento de sentir-se
integrado aos outros seres humanos, à natureza,
desfrutar aqui e agora da grandeza da vida e sentir
que vale a pena viver (SNYDERS, 1988).
Natureza foi o termo, cuja freqüência
9 e ordem média de evocação
maior que 4 garantiu o status de elemento periférico
mais importante das representações
de vida. A natureza parece ser uma das formas
de concretização do amor. Ora, se
os estudantes evocam natureza pode significar
que eles estão pensando no cuidado global
com o planeta terra e, particularmente, com o
nosso nicho ecológico, isto é, a
responsabilidade de cada um de nós com
a vida da terra e com o ambiente no qual habitamos,
com o sentir-se parte desse planeta e dessa natureza.
A representação dos sujeitos parece
sintonizada com o princípio biocêntrico,
o qual representa a possibilidade de conexão
do indivíduo com as leis que conservam
e permitem a evolução da vida, o
gozo de viver. Estar conectado com o princípio
biocêntrico possibilita ao indivíduo,
mediante a vivência e a compreensão
dos sistemas viventes, sentir-se parte da criação,
da totalidade: das estrelas, dos rios, dos mares,
da humanidade. Relacionar vida à natureza
pode ter uma dimensão muito mais ampla:
Descobrir-se como parte do ecossistema local e
da comunidade biótica, seja em seu aspecto
de natureza, seja em sua dimensão de cultura.
[...] conhecer os irmãos e irmãs
que compartem da mesma atmosfera, da mesma paisagem,
do mesmo solo, dos mesmos mananciais, das mesmas
fontes de nutrientes; [...] conhecer o tipo de
plantas, animais e microorganismos que convivem
naquele nicho ecológico comum; [...] conhecer
a história daquelas paisagens, visitar
aqueles rios e montanhas, freqüentar aquelas
cascatas e cavernas (BOFF, 1999, p. 135).
Estar centrado no amor e na alegria é estar
capacitado a cuidar, a estabelecer vínculos,
a proteger, a promover e a comprometer-se com
a vida do universo.
O termo família constitui-se o elemento
de contraste das representações
em apreço. A família tem sido, ao
longo de séculos, a base para a constituição
das subjetividades e representa um papel particularmente
importante na construção das representações
dos indivíduos. No entanto, é notório
que essa instituição está
em crise devido a diversos fatores como, por exemplo,
a desestruturação do patriarcalismo,
a emancipação feminina e, em especial,
a invasão da televisão, a qual tem
se constituído no mais poderoso instrumento
de geração de imaginários
coletivos (FREITAS, 2000).
Embora algumas pessoas acreditem na falência
do núcleo familiar, notamos que ele ainda
permanece firme nas representações
dos estudantes. Tanto é verdade que durante
o semestre duas estudantes contraíram núpcias,
trouxeram fotos para mostrar à turma e
partilharam a alegria daquela celebração.
Abrir-se ao matrimônio é tomar uma
decisão de abertura para o outro, identificar-se
com o outro, querer a sua bem-aventurança,
estar disposto a comprometer-se; é, enfim
ter no amor o sentido para a vida, pois a família
consiste em relações afetivas e
humanas.
Amizade é uma forma de amor que, segundo
o significado aristotélico (ABBAGNANO,
1962) está unido à benevolência,
que quer dizer querer o bem de quem se ama. A
amizade está ligada à estima de
alguém pela pessoa amada, isto é,
amá-la como a si próprio. Essa relação
direta do amor com a amizade permitiu perceber
que as representações dos estudantes
sujeitos desta pesquisa estão centradas
em relações afetivas sólidas
que buscam qualificar os outros, reconhecê-los
e valorizá-los como seres humanos complexos
e únicos, que podem se unir para transformar
a cultura individualista e solitária na
qual vivemos.
O termo Paz, presente nas representações
em estudo, pode representar a grande aspiração
dos sujeitos desta pesquisa diante do clima de
miséria e violência tanto no plano
social quanto ambiental que ameaça a vida
cotidiana. Evidentemente, a paz, hoje, não
é entendida apenas como ausência
de conflitos ou de guerras. Mais do que isso,
paz representa a ausência de violência,
seja ela velada ou explícita e a presença
da justiça, da igualdade entre as pessoas,
da fraternidade, do respeito à vida pessoal
e ambiental e da liberdade ((MORAES; TORRES, 2004).
Para compreendê-la dessa forma ampla, é
necessário uma ampliação
da consciência dos sujeitos. Nas representações,
a paz compõe com os termos alegria e amor,
revelando um estado de harmonia e de plenitude
em relação à vida.
Considerações
finais
Com este estudo foi possível conhecer as
representações sociais de vida entre
os estudantes do Curso de Licenciatura em Pedagogia
que participaram da disciplina optativa Educação
Biocêntrica na Universidade Estadual de
Feira de Santana. Tais representações
sociais estão centradas em amor e em alegria,
dois aspectos importantes do princípio
biocêntrico, que tem a vida como centro
de tudo o que existe.
Estar centrado em amor sugere que os sujeitos
de nosso estudo estão com a percepção
aberta para conectar-se consigo, com os outros
e com o universo e, como sujeitos sensíveis
a atitudes que geram e conservam a vida como um
todo, estão predispostos a vivê-la
plenamente, de forma transbordante de alegria,
de forma transgressiva, como o próprio
significado latino da palavra a-more indica: negação
da lei, da norma. Estar centrado no amor sugere
também que as representações
dos estudantes expressam cuidado com o futuro
da humanidade, que continua ameaçado pela
aventura da autodestruição. Estar
centrado no amor sugere estar avesso à
racionalização que obedece a um
modelo mecanicista, determinista, norteado pela
razão, cujo poder é supremo. Centrar-se
no amor é estar disponível para
o diálogo com a vida irracional, com a
subjetividade, com a arte, com o diferente, com
os oprimidos, com os sentimentos e as emoções.
Por fim, estar centrado no amor é ser mediador
entre duas polaridades: a liberdade e a prisão;
a força e a fragilidade; o vazio e a plenitude;
a pobreza e a riqueza; o sagrado e o profano.
Se por um lado amar é a manifestação
inequívoca do lado carnal e instintivo
do ser humano, por um lado, amar é viver
experiências de prazer e gozo ou cultivar
sentimentos de amizade, de solidariedade, de confiança,
de respeito mútuo, de partilha, de acolhimento,
de ternura, de fraternidade e de cordialidade
nas interações com os outros seres,
em particular, ou com o cosmos de forma ampla
e irrestrita.
É possível também concluir
que as representações dos estudantes
retratam preocupação com a preservação
do meio ambiente através da evocação
da palavra natureza. Ora, se cada pessoa constrói
suas representações a partir do
conjunto de idéias, opiniões, informações
e crenças presentes no seu contexto sociocultural,
as representações dos estudantes
e, conseqüentemente seu modo de viver e de
encarar a vida, podem ter sofrido influências
da disciplina Educação Biocêntrica.
Com efeito, tal disciplina tem por objetivo desenvolver,
através da vivência, do instante
vivido, os potenciais genéticos de vitalidade,
sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência,
contribuindo para o funcionamento equilibrado
do organismo de cada indivíduo. Por fim,
as representações em estudo demonstram
estar em sintonia com o princípio biocêntrico,
isto é, com a vida da natureza, com o amor,
com a amizade, com a alegria e com a paz
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1992.
*Profª Drª do Departamento de Educação
da Universidade Estadual de Feira de Santana –
UEFS, facilitadora de Biodanza.
** Graduanda do Curso de Licenciatura em Pedagogia
da Universidade Estadual de Feira de Santana e
bolsista de Iniciação Científica
(PROBIC)
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