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RITOS
A DIONÍSIO: OS MISTÉRIOS DE ELEUSIS*
Terezinha M. Vargas Flores**
"...absorto em Deus, já não
forma senão Um com Ele, como um centro
que coincide com outro centro (...) tal modo
de visão é difícil de
descrever a outro (...) Isto é sem
dúvida o significado da proibição
que se faz nos Mistérios, vedando que
se revele os segredos dos mesmos aos que não
foram iniciados. Como se quer que o divino
seja inefável, prescreve-se que não
se fale disso ao que não haja tido
a ventura de vê-lo". (Plotino,
Sexta Enneada)
INTRODUÇÃO
Os "mistérios" se apresentavam,
na Antigüidade, como verdadeiros festivais,
oportunidades de encontro e peregrinação,
para os quais acorriam pessoas de lugares distantes
em busca de auto-conhecimento. Encontravam-se
consigo mesmos, com os demais, com o universo,
a natureza, as divindades. Remontam às
antigas Escolas de Mistérios do Egito,
organizadas por Tutmós III, avô de
Akenaton, há cerca de 3.300 anos. Tinham
lugar em Luxor e Karnak, depois em Alexandria
e dali expandiram-se para a Grécia, a Itália,
Oriente Médio, o mundo da época.
A palavra "mistério" origina-se
do grego Mysthes, plural Mysthai, reunindo um
conjunto de significados a partir de objetos a
simbolizar, em aproximação ao "insondável,
indizível, inaudível, intocável",
portanto, "misterioso". Essencialmente,
o mysthes se refere à impossibilidade de
abarcar a Vida e a Morte, a abrangência
do que significa nascer e morrer, o que é,
por que, para que e assim por diante.
Portanto, pessoas interessadas nas questões
decisivas para a compreensão de si mesmas,
das relações com os demais, o mundo,
a natureza, o universo, acorriam a determinados
lugares onde lhes era oferecida a oportunidade
de adentrarem os Mysthai. Dependendo do lugar,
portanto, da cultura do contexto, constelavam-se
mitos, formas de apresentação mais
ou menos dramáticas, crenças, situações,
enfim, toda uma ambientação destinada
a tocar fundo na emoção dos iniciandos.
Pode-se, assim, afirmar, que a operacionalização
global dos Mysthai delineava-se como verdadeiras
Iniciações.
Ada D. Albrecht, pesquisadora dos Mistérios
levados a efeito em Eleusis, na Grécia
Antiga, afirma que "os Eleusinos sabiam da
intransmissibilidade desse estado de consciência,
e assim o chamado "voto de silêncio"
era condição sine qua non para lograr
a participação nos Mistérios"
(1994,p.12). E mais adiante, relata o depoimento
deixado por viajantes: ..."viram uma luz
gigantesca, que partia de Eleusis, e uma caravana
de trinta mil homens aproximadamente, que cantavam
em coro o nome sagrado de Iachos, o deus eleusino
– Baco" (...) "Iachos, deus máximo
de Eleusis, junto com a deusa Deméter e
sua filha Koré – Perséfone"
(Idem, 12-13): tal era a constelação
mitológica envolvida na essência
dos Mistérios de Eleusis.
DIONYSOS: A CRIANÇA
NO PEITO
Na citada obra de Ada Albrecht, situamos a origem
de Dionysos como fenícia: Iachos significaria
"a criança no peito". Se o alinhamos
a Baco, o "deus da divina ebriedade",
situado na geografia de Eleusis, torna-se possível
aproximar Iachos a Dionysos, pois a ebriedade
eleusina tinha caráter de Sabedoria ou
estado de EPOPTEIA, estado de consciência
possível de contactar o Saber, o Divino.
Simbolicamente, "a criança no peito"
poderia ser aproximada a Deméter. "Longínquas
tradições orientais costumam falar-nos
da sabedoria do olho e da sabedoria do coração,
insistindo em chamar a esta última de verdadeira
sabedoria, isto é, a que se torna experiência
viva para a alma, além de mera especulação
teorética, discursiva, não doadora
de nenhuma vivência espiritual" (obra
cit. P.14).
Desta forma, Iachos simboliza esta criança
no peito da Grande Mãe Deméter;
Dionysos seria a força de ser oculta no
coração do ser humano e que pode
despertar para a verdadeira sabedoria, se guiado
por outros que já o conseguiram: os guias
iniciáticos. Em Eleusis, duas famílias
se destacaram: os Eumólpidas e os Kerikes.
Os primeiros encarregavam-se dos cultos: Eumolpes
teria recebido sua função da própria
Deméter, que lhe confiara os segredos do
culto. Diodoro de Sicília afirmou que os
eumólpidas derivavam dos sacerdotes egípcios.
Na verdade, encontram-se semelhanças entre
os cultos a Isis e os eleusinos, a Deméter.
Os Kerikes eram encarregados de apresentar os
objetos sagrados, os "hieros". O hierokeris,
ou Heraldo, proclamava os Mistérios, devendo
para isso ter uma voz potente. Parece que os kerikes
derivam em última análise do Heraldo
Divino: Hermes (Ibidem, p.72). Daí também
serem chamados de Hierofantes, os que desvelam
o sagrado. Portanto, muito mais que uma "bela
voz" para dar início aos mysthai,
estavam envolvidos no ofício sagrado de
recitar "palavras de poder", em sua
correta inflexão, remontando aos "Sama
Veda", conhecimentos do canto, dos mantras,
invocando a presença dos deuses. O hierokeryx
custodiavam os objetos sagrados.
Havia ainda sacerdotisas em grau bastante elevado,
como as hierofantidas, dedicadas ao serviço
das deusas mãe e filha; e as panageys,
espécie de monjas, também chamadas
de "abelhas", cuja função
nos mistérios é pouco conhecida
– uma vez que pouco mencionadas, devido
aos votos secretos. Finalmente, citam-se também
os "iachogogos", que acompanhavam a
estátua de Dionysos, desde Atenas até
Eleusis, nas peregrinações; os "hidranos",
encarregados da purificação dos
fiéis e os "daduchos", dos fiéis
comuns.
A partir das escavações feitas em
Eleusis, Picard pode demonstrar suas origens cretenses;
baseado principalmente no hall de Iniciação
do famoso Telesterion eleusino, análogo
as construções cretenses. Afora
tais especulações, nada se tem de
concreto, nem objetos, nem outras provas dos ritos
dionisíacos ali levados a efeito. Pergunta-se
Ada Albrecht: "Como havemos de apreender
o esoterismo do mito eleusino? Como culto agrário,
tão somente? As sagradas epopteias de seus
misthay, simples euforias subministradas por fungos
alucinógenos? (...) Eleusis, de qualquer
modo, parece significar "el lugar del arribo
feliz", vocábulo ao qual se lhe relaciona
com outro de significado ainda mais preclaro:
ELYSON, o "reino do sagrado, do bendito".
Neste lugar, o ser humano chegou a um cume de
desvelação espiritual apenas pressentido
por nós" (pp.18-19).
As origens de Eleusis são baseadas em conjeturas,
porém não o seu final: reconstruída
e ampliada nos tempos de Solon, depois de Pisístrato
e Pericles; dizimada pelo Cristianismo, teve seu
fim definitivo com Juliano o apóstata,
no terceiro século de nossa era; Teodósio,
em fins do séc. IV, proibiu os cultos mistéricos.
No séc. V, a área foi usada como
cemitério. Tudo o que resta desses cultos
e mitos está espalhado pela literatura
greco-romana como depoimentos de viajantes que
por ali passavam e o pouco que os iniciandos comunicaram
boca a ouvido, daquilo que podiam afirmar, sem
ferir seus votos.
HINO A DEMÉTER (fragmentos
da Ilíada, de Homero)
A Deméter, de formosa cabeleira, veneranda
deusa, começo a cantar; a ela e a sua filha
raptada por Aidoneo(...) enquanto brincava com
as filhas do Oceano, e colhia flores, rosas, açafrão,
formosas violetas, jacintos e aquele narciso que
a Terra produziu tão admiravelmente (...)
pela vontade de Zeus para enganar a donzela e
comprazer a Hades(...) Cem capuchos brotaram de
sua raiz, e ao espargir-se o suavíssimo
odor, sorriam o alto céu e a terra inteira,
e a salobra água do mar. Ela estendeu admirada
os braços para colher o formoso brinquedo;
mas então a terra abriu-se...e surgiu o
soberano Polidegmon, filho famoso de Cronos ...arrebatando-a
no seu carro de ouro levou-a chorando e gritando(...)
mas nenhum dos mortais ouviu sua voz, somente
a filha de Perseu, a de ternos pensamentos, desde
sua caverna, Hécate, a de luzente diadema-
e o Sol soberano, filho de Hiperion, quando a
donzela invocava seu pai(...) Foi sua mãe
que ouviu-lhe a voz, sentindo nesta aguda dor
que transpassava o coração, jogou
seu manto sobre os ombros e saiu pressurosa a
indagar por terra e por mar; mas ninguém
quis revelar-lhe a verdade. Durante nove dias
vagou pela terra. Quando a décima Aurora
resplandeceu, Hécate a encontrou, com a
tocha na mão, para dar a notícia.
Ambas dirigem-se com tochas acesas até
o Sol, que saúda a filha de Rea e conta
que Hades a raptou para torná-la sua esposa.
Oferecendo sua carruagem, Deméter segue
até a morada de Celeo, rei da perfumada
Eleusis. Aflita, ela senta-se no poço Partenius,
a sombra de uma oliveira, onde vem buscar água
Calidici, Clisidice, Demo a amável e Calitoe,
a maior delas, todas filhas de Celeo Eleusinida
e se estabelece um diálogo entre elas (...)
Encheram de água seus vasos e regressaram
a casa, contaram a sua mãe o que ouviram
e viram e ela mandou buscar Deméter, oferecendo-lhe
imenso salário. Voltaram e encontrando
Deméter, a conduziram a mansão de
Celeo, aluno de Zeus e a deidade nada falou, não
quis sentar nem descobriu sua cabeça com
o manto que a cobria. Até que Yambe, a
de castos pensamentos, apresentou-lhe uma grande
cadeira, coberta de manto branco. Então
a deusa senta e retira o véu consumida
pela solidão da filha. Yambe falava e contava
anedotas até fazer a deusa rir. Metanira
lhe traz um copo de vinho, e Deméter diz
não ter licença para beber. Preparam
então uma mistura em beberagem, que a deusa
aceita em conformidade aos ritos (aqui se perde
um fragmento do texto de Homero)* e Metanira começou
a dizer: Salve mulher, pois teus pais não
são vis e sim nobres; o pudor e a graça
brilham em teus olhos(...)cria minha criança
que os imortais me deram tardiamente(...)Ao que
Deméter responde: "Salve tu também,
e que os deuses te cumulem de bens. Com gosto
criarei teu filho e que o hipotamno (erva para
beberagens mágicas) nunca lhe cause dano,
pois sei um remédio contra o funesto sortilégio
(hilótomo, antídoto formado por
ervas do bosque)".
O texto da Ilíada termina dizendo que Deméter
criou o filho de Metanira com ambrosia, pois não
o sustentavam os seios maternos. A criança
cresceu sob os cuidados da deusa, porém
um dia Metanira espia o leito da deusa e esta
a amaldiçoa, exigindo para ela um templo,
onde deverá ensinar os mistérios
aos eleusinos. Assim, Deméter reina no
templo onde se originam os Mistérios de
Eleusis.
Segundo Mircea Eliade, em sua obra acerca das
Iniciações Místicas (1986,
187 ss.), o mito de Deméter *** já
era conhecido dos inúmeros peregrinos que
acorriam a Eleusis para a Iniciação.
Com tochas na mão, iniciava-se a primeira
fase, quando reviviam o rapto de Perséfone
e a buscavam pelos arredores. Então, ouviam
a voz do Heraldo, anunciando os Mistérios
e se aproximavam do Telesterion para serem preparados
para a iniciação. Aristóteles
já afirmava que o mysthes conhecia o mito,
porém tinha que fazer alguns gestos e olhar
os objetos a ele apresentados. O que se seguia
ninguém sabe, afirma Eliade, pois no Hino
a Deméter lemos que "um grande pavor
aos deuses lhes contém a voz" e o
coro de Edipo Rei afirma que os Eumolpidas chaveavam
com ouro a língua dos mortais. Clemente
de Alexandria (Proteptico, II, 21, 2) legou-nos
a fórmula falada pelo mysthes: "Jejuei,
bebi o kykeon, recebi a cesta e manipulei os objetos
devolvendo-os à cesta". O kykeon era
uma mescla de cevada, água e pólen,
a mesma oferecida por Metanira a Deméter.
Logo vinha a representação da descida
aos infernos, em busca de Perséfone.****
Eliade mostra as raízes gregas para Iniciação
(telesisthai=ser iniciado) e inferno (teleuthan=morrer),
pois a descida ao Hades significava a morte e
todo o grego sabia disto. "Morrer é
ser iniciado", já dizia Platão.
Receber a cesta significava tornar-se um mysthes
e destapar os objetos era descer aos infernos.
Manipular os objetos era ser adotado pela deusa
e poder seguir os epopteia, tornar-se um epoptes,
"o que vê" (iluminar-se).
Segundo Walter Otto (The meaning of the eleusian
mysteries) não cabe dúvida respeito
à natureza milagrosa do acontecimento:
tanto a espiga de trigo que amadurece sob as bênçãos
de Deméter, quanto os vinhedos em honra
a Dionysos representam em Eleusis a transformação
iniciática. Diz Mircea Eliade que "pecaríamos
em ingenuidade se quiséssemos oferecer
em poucas linhas o que aconteceu durante mais
de um século nos Mistérios Eleusinos.
Pois eles são a herança, como o
dionisianismo e o orfismo, de crenças e
ritos enormemente arcaicos. Nenhum dos cultos
iniciáticos pode ser considerado redutivamente
como criação grega. Suas raízes
fundam-se nas profundidades da proto-história.
Tradições cretenses, asiáticas,
trácias foram recuperadas e integradas
– Eleusis tornou-se o centro dessa tradição.
Descende de rituais agrários de morte e
ressurreição de deuses ligados a
natureza e a sociedades matriarcais arcaicas.
As experiências do iniciando têm natureza
de transmutação, de transcender
a condição humana e alcançar
um modo transcendente de viver. Apuleio relata
que ao iniciar-se nos Mistérios de Isis
acercou-se do reino da morte com o fim de renascer
espiritualmente. Os rituais de Osiris e Isis se
fazem presentes em Eleusis, tanto quanto o da
Grande Mãe frígia. Salustio refere
que os iniciandos frígios eram alimentados
com leite, como recém-nascidos. Os textos
de Mitra estão impregnados da gnoses hermética;
seus rituais incluíam a morte simbólica
do iniciando, que deitava numa tumba "nascendo
pela segunda vez, para a verdadeira vida".
Trata-se sempre de uma regeneração
espiritual, essa palingenesia que envolve mudança
radical do regime existencial do iniciando. Afirma
Eliade: "A divinização do homem
não era em absoluto uma fantasia extravagante
para o mundo antigo tardio" (Op. Cit. P.
192). Cícero escreveu: "Sabe-te pois
que és um deus" (De Republ. VI, 17).
OS MISTÉRIOS MENORES
Adentrando um pouco mais na profundidade dos Mistérios
Eleusinos, Ada Albrecht apresenta-os em dois blocos
ritualísticos: os menores e os maiores.
Os mistérios menores eram requisito para
os maiores. Aconteciam uma vez por ano, no início
da primavera, o anthesterion, em homenagem a Ártemis,
a deusa virgem irmã de Apolo. Eram cerimônias
de purificação, as margens do Ilisio.
Katerine Kanta, na obra "Eleusis" afirma
que havia no grande prédio dedicado a Ártemis,
templos a Deméter e a Perséfone.
A finalidade destes lugares era oferecer aos neófitos
oportunidade para jejuar, como sinal de purificação
– requisito para a vivência de sua
união com a divindade. O Mahabarata hindu
predica que arroz, leite, coalhada e mel são
os alimentos que preparam o candidato ao moksha,
equivalente a epopteia dos gregos.
Os encarregados desses jejuns eram os mistagogos,
sob a supervisão do hierofante. Também
eram prescritos banhos ritualísticos, provavelmente
no próprio Ilisio, assim como o Ganges
e o Jordão servem até hoje como
purificação para hindus e cristãos.
Havia a entoação de hinos sagrados,
sacrifícios as deusas e cerimônias
em recordação ao deus Dionysos.
Ainda que determinados estudiosos neguem a presença
de Dionysos nos Mistérios eleusinos, Ada
Albrecht considera de capital importância
a inclusão desse deus em tais mistérios.
"Sua presença metafísica dá
sentido ao conjunto das peças ritualísticas
dos mistérios eleusinos". Veremos
mais adiante como a invocação a
Iachos era de fundamental importância para
dar início aos Mistérios Maiores.
OS GRAUS INICIÁTICOS
E OS MISTÉRIOS MAIORES
Segundo Teon de Smirna, os Mistérios Eleusinos
compreendiam cinco graus: purificação,
comunhão mística, Epopteia, coroação,
comunhão divina. Plutarco narra a iniciação
de Demetrio Polioirketes desde a purificação
até os epopteia, mas isso não fundamenta
a possibilidade de que houvessem somente três
graus. De fato, os assim chamados Triptolemos,
baseados nas teoria s gregas dos números,
mostram sempre agrupamentos de três blocos
ritualísticos. Ada Albrecht, após
acurado estudo, agrupou em nove (três vezes
o três) as cerimônias dos Mistérios
Maiores, inclusive com as datas: iniciavam no
dia 15 do mês boedromion até o dia
23, assim distribuídas:
1- dia 15 do boedromion: Agyrmos, reunião.
Proclamação
2- 16: Elasis ou Halade Mistay: "Ao mar,
ó iniciados!"
3- 17: Hiereia Deuro: Sacrifício das vítimas
4- 18: Epidauria ou Asclepia
5- 19: Iachos ou Pampa, procissão
6- 20: Telete (mysteriodites Nychtes)
7- 21: Epopteia
8- 22: Plemochoai
9- 23: Epistrofe
PRIMEIRO DIA: AGYRMOS, proclamação
"Aqueles purificados de toda contaminação
(moral) cujas almas se acham conscientes de não
haver cometido atos diabólicos, que tem
vivido moral e justamente, cujas mãos se
encontram limpas (de pecado)...podem participar
dos mistérios eleusinos e participar da
epopteia." Tal era a proclamação.
Os espandódoros, descendentes dos clãs
dos Eumólpidas e dos Kerikes, disseminavam-se
pelas cercanias, fazendo a proclamação,
não excluindo ninguém, nem mulheres,
nem escravos nem sequer crianças: era a
trégua divina, em que todos eram cidadãos
com a possibilidade de vira abrigar a Criança
no Peito, Dionysos em seus corações.
O divino Iachos, a alma ressurrecta, habitaria
a alma dos mortais, divinizando-a.
SEGUNDO DIA: HELADE MYSTHAI! Ao Mar, ó
Iniciados!
Filósofos e homens do povo, mulheres, crianças,
músicos, imperadores e imperatrizes, todos
se igualavam nas fileiras, guiados pelos mistagogos,
carregando um cordeiro nos braços, enquanto
o hierofante os instava: Helade, Mysthai! O sacrifício
dos animais deveria se dar sob adequados rituais
e palavras, arrastando em seu sangue as impurezas
que porventura pudessem macular os sagrados mistérios.
Ensinamentos eram passados pelos mistagogos aos
iniciandos pois, assim como o sangue dos cordeiros
possuíam o dom da purificação,
também a água do mar purificaria
os pecados dos neófitos e era esta a primeira
das transformações para a grande
transmutação dos mistérios.
Durante nove dias fariam estas abluções
na água do mar, nove dias como Deméter
peregrinou pela terra em busca da verdade sobre
o rapto de Koré. Nos hinos órficos,
o Theon Agnesma Megiston, o Oceano, é o
Grande Purificador dos Deuses, uma gigantesca
pia batismal onde o profano se torna sagrado.
TERCEIRO DIA: HIEREIA DEURO,
sacrifício da vítima
Não é certo se neste grau o iniciando
apresentava as deusas seu cordeiro sacrificado
no dia anterior, ou se ele mesmo se apresentava
como vítima a ser transformada em sagrado
ofício. Parece ser, contudo, este o simbolismo
de terceiro dia, uma vez que o número três
é o da manifestação, o fruto
da união do Céu (Koré) com
a Terra (Hades). Há depoimentos, também,
de que nestes ritos terceiros, agradeciam os iniciandos
pelos bens que possuíam e imploravam proteção
aos habitantes da terra.
QUARTO DIA: EPIDAURIA
Fica difícil o entendimento da introdução
das festas a Epidauro em meio a rituais destinados
as deusas Mãe e Filha. Talvez a explicação
resida no fato de que , quando o próprio
Epidauro apresentou-se como neófito aos
grandes mistérios, ele tenha chegado com
um retardo, justamente neste quarto dia, agora,
então, a ele dedicado. De algum modo, ele
foi inserido entre os deuses transmutadores, que
intercedem pela transformação dos
neófitos, através de sua ressurreição,
ou renascimento. Supõe-se, também,
que este tenha sido um dia de descanso, pois encontra-se
justamente no meio dos Mistérios maiores,
necessitando os iniciandos de uma pausa em seus
jejuns e abstinências.
QUINTO DIA: POMPA, procissão
Este era o dia que marcava o regresso dos Hiera
de Atenas de volta a Eleusis. A caravana era formada
por incontáveis peregrinos, coroados de
mirto e já com as vestes ritualísticas.
O centro da procissão era a figura do deus
Iachos, ladeado pelos Iachogogos, os Hieras e
as sacerdotisas da Deusa Mãe. Depois iam
os oficias de estado, os mystai e as carroças
com tudo o que seria necessário ser utilizado
em Eleusis. Havia gestos e cantos a serem manifestos
durante a procissão, onde o nome de Iachos
era repetidamente pronunciado. Determinadas paradas,
como junto a fonte de Kalikoro, onde Deméter
havia também se refrescado em seus nove
dias de busca. Tudo era simbolizado, significado
e reverenciado. O preparo às epopteias
havia já iniciado e era mister levar a
bom termo.
SEXTO DIA: TELETE
Para a maioria dos antigos filósofos, a
união do ser humano com Deus era o cume
da sabedoria. A célebre noite do dia 20
do boedromion era dedicada ás virtudes
purificativas da alma que contempla a Inteligência.
Era, pois, uma concentração em estados
superiores de consciência, frutos dos jejuns
e cerimoniais que precederam . Nesta noite, algo
se mostrava aos neófitos, algo era dito
e algo se consagrava. A bebida de cevada, mel
e pólen estava preparada e, através
dela, se revivia o sofrimento de Deméter,
se chorava pela deusa e a catarse era purificadora.
Teria havido alguma representação,
alguma dramatização, mas tudo isso
é hipotético. Os depoimentos de
quem teria de longe visto alguma figura se movendo,
algum tipo de "aparição milagrosa",
como que apresentando Perséfone de volta
ao seio da Grande Mãe. Contudo, não
foi dado a nenhum historiador, nenhum arqueólogo,
nenhum narrador, desvendar o que, quem, como se
dava a dramatização. Sabe-se, porém,
que se dava.
Os Hiera
Os hiera eram os objetos sagrados, guardados em
cestas especiais atadas com fitas vermelhas, que
na noite do dia 20 seriam levadas custodiadas
pelos hierofantidas até o Eleusinon de
Atenas. Porém, Ada Albrecht discorda que
os Hiera fossem apenas objetos, chamando a atenção
para o simbolismo aí implicado: os ovos,
como gênese da vida; a serpente e o lingam
ou falo, pai da fecundidade e os grãos,
da mesma forma, frutos da comunhão. Contudo,
deve ter havido algo mais além do que o
olho do misthes podia ver, como objeto cotidiano.
"A metamorfose espiritual dos mysthai se
operava em planos supraconscientes, onde os elementos
materiais apenas se figuravam", afirma a
autora (op.cit., p. 107). Dependeria das capacidades
perceptivas do iniciando ir além dos cinco
elementos apresentados no fundo quer dos kalathos
(canastas pequenas) quer dos cistes (canastas
grandes).
SÉTIMO DIA: EPOPTEIA
Diz-se que a Filosofia é filha do assombro
diante de questões como: de onde venho,
quem sou, para onde vou...Um em um milhão
consegue encontrar o caminho e a saída,
como raros são os individuados, que atingiram
o Mistério da união com o Si-Mesmo.
Este sétimo dia era a oportunidade para
que o mysthes encontrasse a si mesmo, fosse um
com a Criança Divina. Em outras palavras,
Epopteia era a vitória sobre o Ego, a total
entrega ao contato com os deuses, Iachos, Deméter,
Koré. Alguns fazem a elucubração
de que Deméter adentrava o Telesterion
onde copularia com Iachos. Outros fazem aproximações
entre a trina divindade; Iachos, Deméter
e Perséfone fariam seu encontro no Telesterion,
frente aos iniciados. A simbologia é clara:
os deuses se manifestam aos Mysthai, sendo Epopteia
realmente a vinculação com as divindades,
o reconhecimento de sagrado em si mesmo. Finalizava-se
a cerimônia com as palavras "Pax, Konkx"
Basta, finalizado, ao que todos responderiam "amen",
uma espécie de reafirmação
espiritual de que houvera participação.
OITAVO DIA: PLEMOCHOAI
Grande significado encerravam os vasos (plemochoai)
que continham certo líquido que era "derramado
abundantemente" em direção
a Leste e a Oeste – simbolizando nascimento
e morte. Ao mesmo tempo, segundo Hipólito,
era pronunciada a palavra hay-kie, flui, derrama-te.
Segundo Proclo, a primeira palavra era pronunciada
em direção ao céu e a segunda
em direção á terra, não
se sabe ao certo se com isso simbolizavam a união
pai-mãe, deuses-homens... Isto é
tudo o que se sabe a respeito do oitavo dia.
NONO DIA: EPISTROFE
Não existem referências seguras sobre
o retorno do deus Iachos a Atenas. Em grupos pequenos,
regressavam os peregrinos a cidade mais central,
encerrando assim o mês do boedromion, tão
pleno de significação para o mundo
grego da época. Eleusis voltava a velar-se
em seus mistérios, enquanto despedia os
visitantes, agora renascidos, levando consigo
as experiências de vinculação
com as divindades.
Marcel Detienne, em seu livro "Dionysos a
céu aberto", nos fala de um deus que
é viajante, em sua barca amarela ou no
dorso dos golfinhos, e por ser viajante, é
um deus estranho aos lugares onde chega, estrangeiro
que chega e parte, como em Eleusis, para onde
é conduzida sua figura em procissão
e de onde deverá partir ao décimo
dia, após presidir os Mistérios.
O autor fala também das homologias entre
Dionysos e Deméter, referentes aos mistérios
de Eleusis. Dionysos ***** como um deus "orthos",
correto e que promove correção,
transforma as bebidas ácidas anteriores
aos seus cultos em vinho de sabor agradável
e efeitos transcendentes; Deméter, que
auxilia a correção da postura, pois
preside aos que andam para baixo (deprimidos)
a ficarem eretos e a olharem a vida de frente.
Tais eram as devidas transformações
e correções que ocorriam nos diferentes
rituais, tanto a Iachos-Dionysos, quanto a Demeter-Perséfone,
durante os nove dias iniciáticos do mês
boedromion.
ENSAIO DE CONCLUSÃO
Obviamente, este é um tema que não
se conclui. Servimo-nos de Robert Graves, em sua
obra "Os dois nascimentos de Dionysos",
na qual ele ensaia uma aproximação
do deus duas vezes nascido, único deus
masculino a tomar parte nos mistérios de
Eleusis – à deusa das colheitas Deméter,
que espalhou ao mundo os segredos de plantar e
colher trigo. O autor defende a hipótese
de que o "soma" bebido pelos neófitos,
nas iniciações eleusinas, era feito
do mesmo fungo do original soma védico,
afirmando, finalmente que "os deuses alimentam-se
de fungos". Da mesma forma como o grão
de trigo desce as profundezas, num processo de
transformação de morte-renascimento
(simbolizando a mitologia da descida de Koré
ao Hades e a sua volta aos braços da Grande
Mãe) – assim também Dionysos
preside aos ritos de morte e renascimento dos
mysthai de Eleusis, sendo o ápice destes
ritos a Epopteia devida a ingestão da mesma
bebida que Deméter tomara num dos nove
dias de busca da verdade sobre o desaparecimento
de Perséfone.
Poder-se-ia estabelecer uma analogia com o processo
de individuação, em suas etapas
de separação (análise) e
reunião (síntese), pelo encontro
com o Si Mesmo. Jung estabeleceu relações
com o processo alquímico "solve et
coagula", completando-se a obra pela Coniunctio,
o hieros gamos, a mesma união com a divindade,
fruto da Epopteia eleusina.
Finalmente, voltamos a citar Mircea Eliade, que
afirma que "a transmutação
ontológica do iniciado se verifica sobretudo
na existência após a morte"
(op. Cit. P. 192. (...) A Iniciação
era, pois, a maneira de obter um status ontológico
sobre-humano, mais ou menos divino e de assegurar-se
a sobrevivência post-mortem, senão
já a imortalidade" (idem ibidem).
Reza o Hino a Deméter: "Ditoso o homem
que, vivendo na terra, viu tais coisas! Quem não
conheceu as sagradas orgias e quem nelas tomou
parte, não terão sobre a morte igual
destino". E Píndaro cantou: "Ditoso
aquele que viu isto antes de baixar à terra.
Conhece o termino da vida, conhece também
o começo". E Sófocles encerra:
"Oh três vezes ditosos os mortais que,
depois de contemplarem estes mistérios,
partam a morada de Hades: somente eles poderão
ali viver; para os demais, tudo será sofrimento".
QUESTÕES FINAIS
* Seria apenas uma infeliz coincidência
que, na Ilíada de Homero, um dos fragmentos
do Hino a Deméter, justamente o que se
refere aos ritos eleusinos, tenha sido perdido?
(p.3)
** Deméter deveria constelar os saberes
da Grande Mãe das sociedades agrárias
matriarcais no que se refere ao "hilótomo"
(antídoto formado por ervas do bosque)
– usado contra os funestos sortilégios
do "hipotamno" (erva para beberagens
mágicas)? (p.3)
*** Deméter tem o mérito de haver
legado ao Ocidente os saberes construídos
pelas sociedades arcaicas (p.4). Não seria
um reducionismo ingênuo considerar a deusa
como vulnerável, motivada por uma necessidade
de participar do mundo dos homens e por isso mesmo
criando os Mistérios? A sua verdadeira
motivação não teria sido
justamente legar ao Ocidente Mistérios
já conhecidos muito anteriormente? Sua
necessidade básica não teria sido,
então, recuperar o verdadeiro Dionysos?
**** Da mesma forma, Perséfone adquire
status como peça chave no simbolismo dos
"hiera" (objetos sagrados, p.5) contidos
nas canastas e manipulados pelos iniciandos. A
deusa filha representa os grãos que descem
ao Hades (Morte) e renascem no tempo da colheita
(Vida).
***** Finalmente, Dionysos, um deus redutivamente
ligado a bacanais desenfreadas, a beberagens e
desvarios; surge na constelação
mitológica de Eleusis como o deus que promove
correção (p.9) no modo de vida do
iniciando, transformando a acidez das bebidas
em vinho suave, promotor também da Epopteia
(iluminação). Analogamente, poderíamos
citar o Cristo, quando diz: "O meu jugo é
manso e o meu peso é leve". E, para
terminar, o Mistério da "trans-substanciação"
da água em vinho (sangue do Cristo) e do
trigo em pão (corpo de Cristo), na missa
– um ritual legado pelos rituais mitraicos...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBRECHT, Ada Dolores, Los Misterios de Eleusis.
Buenos Aires: Editorial Hastinapura, 1994.
DETIENNE, Marcel, Dioniso a Céu Aberto.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
ELIADE, Mircea, Iniciaciones Misticas. Espanha:
Taurus Ediciones S/A, 1986.
GRAVES, Robert, Los Dos Nacimientos de Dioniso.
Barcelona: Biblioteca Breve, 1984.
JUNG, C. Gustav, Os Arquétipos e o Inconsciente
Coletivo. Petrópolis (RJ): Ed. Vozes, 2000.
RUBY, Paulo, As Faces do Humano: estudos de tipologia
junguiana e psicossomática, S.Paulo: Oficina
de Textos, 1998.
TORO, Rolando, Biodanza, S.Paulo: Ed. Olavobrás/EPB,
2002.
* Apresentado no Congresso da Associação
Junguiana do Brasil, Belo Horizonte, 6~9 de setembro
de 2000.
** Doutora em Psicologia
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