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EDUCAÇÃO
BIOCÊNTRICA:
TECENDO UMA COMPREENSÃO
Ana Maria Borges de Sousa
É possível compreender a Educação
Biocêntrica como uma poética da cognição
que vislumbra a formação de um ser
humano cósmico, comprometido de modo incondicional
com a paz e o reconhecimento teórico-prático
da vida. Do mesmo modo, como uma concepção
que problematiza a inteligência organizadora
da vida, para compreender de onde provém
a ordem fisiológica que se manifesta como
uma forma específica, animal ou vegetal.
E ainda, como uma prática que considera
que o sistema vivo possui uma ordem orgânica
perfeitamente programada e que se transforma a
todo o momento, não como uma máquina
computadorizada, mas como um holograma vivo, cujas
mudanças abarcam a totalidade.
Conforme Maturana e Varela (1991), a cognição
é a atividade mesma da autogeração
e da autoperpetuação da vida e não
se refere somente a processos mentais e da consciência.
Para a cognição não é
necessário o cérebro ou o sistema
nervoso. A cognição é um
processo que se dá em todos os seres vivos,
inclusive em suas formas mais elementares (ameba,
vírus, por exemplo). A cognição,
para estes autores, seria a interação
entre os organismos e seu ambiente. A base do
processo cognitivo seria o acoplamento estrutural
com o ambiente. Cognição, portanto,
é sinônimo de vida.
I – Construindo referenciais...
A Educação Biocêntrica necessi-ta
ter uma intencio-nalidade: promover a (re)educação
afeti-va de homens e um-lheres, para que estes
possam resga-tar sua sensorialida-de viva e requerer,
em comunhão com os seus semelhantes e com
a natureza, a construção de uma
sociedade altruísta. Somente (re)educados
afetivamente, esses adultos aprenderão
a importância de educar as suas crianças
para a auto-aceitação e o auto-respeito,
condições indispensáveis
para que elas aceitem a diversidade da vida, respeitem
todas as manifestações que pulsam
no universo, se tornem adultos livres e com responsabilidade
social.
Aninhado nesse sentido, Marcos Cavalcante (2001:
93) afirma que podemos reconhecer a Educação
Biocêntrica como uma tendência evolucionária
que visa à integração do
indivíduo, orientado por sua autoconsciência
e constituído em suas relações
altruístas, o que cria as possibilidades
para o seu desenvolvimento e para a expressão
de suas potencialidades instintivas. Para o autor,
a Educação Biocêntrica estimula,
no indivíduo, a vinculação
com a vida e isso acontece a partir da relação
consigo, com o outro e com o meio. Ao acordar
o seu SER adormecido, ativamos seus instintos
originais e gregários determinados biologicamente,
notadamente sufocados e condicionados pela cultura
da dissimulação, do disfarce dos
sentimentos e dissociação do corpo,
identificadas nas relações dicotômicas
vividas na era moderna.
Ou seja, a Educação Biocêntrica,
enquanto uma prática pedagógica
traz como referencial imediato, a vida em todas
as suas dimensões e assume que é
o Princípio Biocêntrico (Rolando
Toro, 2005) o seu paradigma fundamental, porque
este se inspira nas leis universais existentes
para conservar os sistemas vivos e tornar possível
a sua evolução. Nessa concepção,
o Universo é constituído por uma
abrangência relacional que abraça
a totalidade da vida, por isso, o universo existe
porque existe a vida, e não o contrário.
Para mim, a Educação Biocêntrica
é um PORTAL de recuperação
de nossa humanidade, hoje desconfigurada pelo
estilo de viver patológico e que está
latente em cada fio do tecido social. Como um
PORTAL, penso que a Educação Biocêntrica
não quer se apresentar como um modelo substitutivo
às demais práticas educativas, mas
como um paradigma teórico-prático
evolucionário. E como tal, se inspira numa
radicalidade ético-estética, cujo
fundamento é a defesa incondicional da
vida em todas as suas expressões. Isso
me convida a intuir então, que a Educação
Biocêntrica é um paradigma do cuidado
e pode promover a cura (no sentido proposto por
Heidegger, 2005) das práticas educativas,
como mediação pedagógica
fundante de um novo modo de ser-estar-no-mundo
(Mafessoli, 1996), em comunhão com a vida.
Estou sempre a me lembrar que as nossas condutas
não são inatas, elas são
moduladas pelos processos de convivência
que teceram em cada um de nós experiências
e iniciações culturais, das quais
somos ensinadores e aprendizes. Ou como enfatiza
Maffesoli (1996), o microcosmo humano é
assim compreendido como estando aninhado no macrocosmo
em seu todo, isto é, somos também
o modo como fomos educados por nossos pais e mães,
pela escola, pela religião, pelo bairro
onde crescemos, pelas relações que
conquistamos em nosso viver. São numerosos
artefatos cotidianos que transfiguram as culturas
onde estamos inseridos e essa transfiguração
é coerente com as proxemias que ligam o
ser individual e a coletividade, o estranho e
o familiar, o oportuno e o promíscuo, o
sagrado e o profano, o sapiens e o demens que
enredam nossas vidas. É indispensável
que sejamos (re)educados afetivamente para que
possamos (re)aprender a ser-estar-no-mundo de
frente e imersos em seus enigmas e visibilidades.
Heidegger , para quem o ato de cuidar tem uma
compreensão filosófica, lembra que
este é entrelaçado ao ser e ao tempo
porque somos os únicos seres que se preocupam
com o futuro e com as possibilidades que a vida
pode nos ofertar. Assim, se cada um de nós
toma o cuidado como princípio guia da existência,
esta será a confirmação de
nosso modo de ser-estar-em-relação
com a vida e com o mundo. Cada um de nossos atos
como seres cuidadosos, então, será
de a-tenção para consigo, para com
o outro, o meio e as subjetividades que vão
interceder neste encontro.
Sinto que a Educação Biocêntrica,
como uma pedagogia do cuidado vai pedir para nos
ocuparmos previamente da própria existência-em-relação,
para inventarmos o tempo indispensável
ao desvelo e para reduzirmos a energia dedicada
aos problemas, às patologias que afligem
nosso ser, porque ele vai estar curado. Essa inspiração
me faz novamente intuir que há uma “gestão
do cuidado” presente na metodologia vivencial
da Educação Biocêntrica e
que está vinculada a um sentido prático,
transubstanciado para o campo das ações,
capaz de germinar no espaço da convivência
maneiras-de-ser gerativas de um estar-junto solidário
(Maffesoli, 1996).
É no campo desta solidariedade, portanto,
que o outro jamais me é indiferente e tudo
que a ele acontece, converte-se em extensão
do meu próprio ser. Por isso, tanto a dor,
quanto a alegria de alguém se transforma
na minha dor e na minha alegria, como sujeito
cuidador. É essa atitude ética,
e sensivelmente estética, creio eu, que
pode impulsionar as manifestações
de cura desta dor e potencializa esta alegria.
O cuidado, quase sempre esteve vinculado ao sentido
de “cuidado de si”, possibilitando
à pessoa uma reflexão procedente
sobre o seu estilo de viver. Mas isso não
significa uma ausência de cuidado para com
o outro. Só podemos nos reconhecer em nossa
humanidade, na presença de um outro ser
humano, meu semelhante e diferente. É este
outro que autoriza o meu auto-reconhecimento,
que desperta o sentido de uma convivialidade cooperativa
e situada no contexto sócio-cultural.
A Educação Biocêntrica e a
Biodanza® podem proporcionar às instituições
aprendizagens coletivas de mudanças de
seus destinos, desenvolvendo nos grupos o sentido
prático e o significado educativo do cuidado.
Aprender juntos a cuidar da vida pode transformar
as relações convencionais em encontros
emocionados, e estes, não dispensam a ética,
articulada ao campo de uma estética sugestiva
que vai orientar as pessoas para que possam abandonar
a esfera tirânica dos decretos, fazendo
uma escolha vivencial pelas tramas de uma educação
do gosto e da sensibilidade (Restrepo, 1998: 10).
Isso faz com que o CUIDADO com o outro se inscreva
numa matriz congruente (Maturana, 1998), numa
atitude prévia, que se antecipa na e pela
convivialidade através da alegria do bem-fazer.
Essa é uma experiência salutar para
promover a cura, a que Heidegger sabiamente nomeou
como o próprio ser do ser-aí, da
existência, que congrega a infinitude dinâmica
de nossa plasticidade ontológica, enquanto
seres imersos no mundo. A Educação
Biocêntrica, desse modo, se revela como
um PORTAL equilibrado “nos mistérios
do sem-fim”, como sugere Cecília
Meireles, e que traz como possibilidades:
- alterar os referenciais presentes nos relacionamentos
interpessoais, em sua maioria, pautados em modelos
bélicos que constituem, no cotidiano, as
expressões contínuas de prontidão
para lutar, para con-vencer, combater, resistir,
contrapor, batalhar, argüir, contestar...
(Maturana, 2004). Fomos educados numa cultura
de guerra para escolher algumas pessoas como iguais
e excluir todas as demais consideradas adversárias
à minha existência. Os saberes de
guerra nos impedem de reconhecer a legitimidade
do outro como um semelhante, ainda que diferente;
nos con-vencem de que os recursos da vida estão
a serviço exclusivo do ser humano, portanto,
tudo pode ser devastado para o bem-estar de poucos;
desenvolvem em nós maneiras de convivência
competitivas, que vampirizam as singularidades
e produzem neuroses múltiplas.
- Recuperar o convívio integrado entre
o ser humano e a natureza, incluindo a sua natureza.
O surgimento do nomadismo impulsionou a migração
dos primeiros hominídeos das florestas
nutritivas para as savanas, áreas consideradas
hostis pela carência de recursos naturais.
Essa experiência, aos poucos nos distanciou
dos princípios matrísticos de convivência
e forjou os primeiros pilares da cultura patriarcal,
do estilo machista de ser-estar no mundo. Deixamos
de compartilhar alimentos e abrigo e aprendemos
a caçar, a competir com outros animais;
a possuir com ferocidade a Terra; a negociar com
ganância os seus frutos; a matar para sobreviver.
Perdemos a sensorialidade como referência
do estar-juntos, especialmente no convívio
com as crianças e, progressivamente consolidamos
a separação entre natureza e cultura,
humanidade e natureza. E como fala Restrepo (1998:84),
para nos sentirmos seres de ternura, para retornarmos
a uma convivência sem agressões,
é preciso entender que não somos
o centro hierárquico do ecossistema, pois,
ao depender biológica e afetivamente, nos
descentramos, admitindo que o eixo ordenador passa
por seres ao mesmo tempo diferentes e distantes
de nós.
- Identificar as marcas das relações
patriarcais entre os componentes de um grupo,
nos espaços onde temos a oportunidade de
dançar a Educação Biocêntrica.
Este é um desafio formidável. Em
geral, essas marcas se traduzem nos preconceitos
visíveis e sutis que constroem as falas;
no estilo do con-tato, cada vez mais veloz porque
a intimidade e a aproximação corporal
são insuportáveis para muitos; nos
discursos viciados que querem, a qualquer custo,
con-vencer os demais e impor seus pontos de vista;
nos racismos anunciados sobres os pobres, os negros,
os deficientes, as mulheres, os homossexuais,
os não escolarizados...; nos machismos
revelados através de estereótipos
clássicos (isso é coisa de homem,
vocês são brancos que se entendam,
homem não chora...); nos jogos de cumplicidade
para competir com os demais; nas hierarquias instituídas;
nos padrões de favorecimentos de uns, e
da perseguição de outros... Oportunizar,
então, que o grupo possa dançar
outras experiências de convivência,
por isso, os exercícios da Linha da Afetividade
são tão relevantes.
- Compartilhar com educadores e educadoras que
trabalham com a Educação Infantil
e com as séries iniciais do Ensino Fundamental,
a importância de conservar, na convivência
com as crianças, a relação
materno-infantil. Para Maturana (2004), esta relação
é imprescindível entre um adulto
e uma criança, e se realiza através
da confiança mútua que constrói
o vínculo entre ambos. A criança,
para conservar a dimensão materno-infantil
precisa encontrar espaço de aceitação
e respeito na existência do adulto, através
da qualificação de seu SER e da
educação de seu FAZER. A essa conduta
relacional Maturana chama de AMOR, o fundamento
social básico para uma convivência
guiada pela ternura e pelo cuidado.
- Reconhecer que pertencemos a uma linhagem neotênica
(Maturana, 2000: 70), que se define pela conservação
da expansão progressiva de características
da infância no decorrer da vida adulta.
Ou seja, os humanos conservaram a capacidade de
brincar, o jogo, as atividades lúdicas
que, para os demais mamíferos, só
ocorre na infância e com o sentido de ensinar-aprender.
Por isso somos dependentes do amor, da carícia
e do contato corporal durante toda a nossa vida.
A ausência dessas características
neotênicas reduz a nossa vida a padrões
de automatismos orgânicos para permanecermos
“vivos” e insensíveis às
nossas necessidades instintivas. Em contextos
de carências extremas, especialmente na
infância, morremos de fome neotênica,
o que talvez Rolando Toro tenha nomeado como “desnutrição
afetiva”.
- Reconhecer ainda que a neotênia possibilita,
para o adulto, a expansão da sensualidade
e da ternura como características da relação
materno-infantil. Esta sensualidade, alerta Matura
(2000: 71), tem a ver com a abertura sensorial,
enquanto a ternura, está relacionada ao
comportamento de cuidado em relação
com os outros. Através de vivências
criativas de afetividade, a Educação
Biocêntrica pode contribuir para despertar
a sensualidade e a ternura adormecidas, porque
elas estão em nós e são constitutivas
de nossa humanidade.
- Restaurar a compreensão sensível
de que a expansão da sexualidade da fêmea,
uma característica da conservação
neotênica em nossa espécie, teve
como decorrência a ampliação
coerente da sensualidade, da ternura e da sexualidade,
que contribuíram e ainda hoje, para a coexistência
familiar, para gerar os fundamentos de uma convivência
em cooperação. Maturana (2000: 72)
ressalta que a cooperação só
é possível em relações
guiadas pelo AMOR, pois elas exigem confiança
e aceitação mútuas e inventam
um ambiente relacional distinto do espaço
da obediência, que se concretiza quando
estão presentes a sujeição
e a dominação. No âmbito desta
convivialidade está a abertura para a intimidade,
onde adultos, crianças e jovens podem conviver
na aceitação mútua e na proximidade
corporal. É nesse ambiente que se aprende
a empatia: a colocar-se no lugar do outro para
percebê-lo como extensão de SI mesmo,
para construir a capacidade de “sentir em
comum” a vida como um movimento entrelaçado
em SI e em TUDO que existe.
- Restaurar, então, o sentido pleno de
viver em comunidade: VIVER + COM = EU + o OUTRO
em UNIDADE. O fundamento para esta reeducação
afetiva é a convivência baseada na
empatia. É por meio desta experiência
que podemos compreender o sentido e o significado
do ato de colocar-se no lugar do outro, para reafirmar
que a identidade de cada um se fortalece na aceitação
da alteridade e pela vivência da diversidade.
Aceitar que somos apenas o que “damos”
conta de ser a cada instante, porque SOMOS na
presença e na aceitação do
outro um movimento inesgotável de outras
possibilidades. No sentimento pleno de comunidade
redescobrimos nosso inacabamento e nossa incompletude,
dois enigmas que forjam a GRAÇA de nossa
humanização e que enfeitam a nossa
ontogênese para que ela dance num folguedo
espiral ascendente e infinito. Essa extraordinária
dança está inscrita no Modelo Teórico
da Biodanza®.
- Assumir a premência da corporeidade viva
(totalidade do que nos constitui), como base epistemológica
e vivencial de todas as práticas educativas.
Conforme Restrepo (1998: 109), não existe
um corpo puramente natural, tampouco um corpo
simples que se decifra com o primeiro olhar. O
corpo é um recinto de passagens das nossas
experiências, das mais viscerais às
mais imediatas, das mais conhecidas às
mais inéditas e algumas permanecem por
muitos anos, enquanto outras são efêmeras.
Desse modo, nossa corporeidade abriga a “realidade
dos códigos” culturais e se banha
na encruzilhada dos discursos que todos os dias
lhe dizem o que É, ainda que raramente
lhe ensinem o que PODE SER.
Um dos nossos desafios na Educação
Biocêntrica é construir outros referenciais
para o corpo, que incluam a nossa extraordinária
capacidade de co-criar-nos a nós mesmos,
no movimento genuíno de criação
da nossa existência, aninhados nos braços
da vida que pulsa no Universo. Ou seja, que nos
deixem voltar a nós mesmos, como hologramas
vivos, com a maravilhosa plasticidade para reescrevermos
o enredo da nossa história pessoal e coletiva.
Somo seres multidimensionais, somos uma totalidade
viva que é, simultaneamente, bio-antropo-sócio-histórico-afetivo-cultural...
(Morin, 2002a). Somos, a um só tempo sapiens
e demens. Somos indecifráveis inteiramente
em nossa complexidade viva.
II – Uma Educação
que se dança, uma aprendizagem vivencial
Os deuses criam-nos muitas surpresas:
o esperado não se cumpre,
e ao inesperado um deus abre caminho.
Eurípides
Embora a metodologia da Educação
Biocêntrica se inspire nos referenciais
que Rolando Toro criou para a Biodanza®, estimulado
pelos autores que mobilizaram seu pensamento genial,
elas não são sinônimos. Uma
e outra guardam consigo especificidades em seus
campos teórico-vivencial, ainda que sejam
complementares. Podemos conhecer bem os fundamentos
da Biodança, mas, como facilitadores e
facilitadoras, se não conhecermos os fundamentos
principais da Educação corremos
o risco de simplificar um processo complexo e
que atravessa a vida de todos os seres humanos.
Eis porque é no Princípio Biocêntrico
que estão os aportes onde a Educação
Biocêntrica e a Biodanza® se encontram,
já que ambas se inspiram na VIDA como fundamento
ético-estético das relações.
A Educação Biocêntrica, como
destaquei no item I desse texto, cria os campos
de possibilidades para uma transformação
cultural progressiva, capaz de afetar o conjunto
da sociedade. Na Biodanza®, dançamos
semanalmente, participamos de maratonas, fazemos
minotauros e essa continuidade “acelera”
o processo de (re)educação afetiva.
Nas empresas, nas escolas, nas comunidades onde
queremos trabalhar com um processo educativo distinto
do convencional, quase sempre oferecemos alguns
encontros esporádicos e isso faz a diferença.
É preciso conhecer como as pessoas aprendem,
como os educadores ensinam, como as instituições
estruturam suas lógicas de funcionamento,
como as hierarquias criam os seus códigos
de conveniências, como os adultos se relacionam
com as crianças, como os homens se relacionam
com as mulheres, os jovens com os mais velhos,
entre outros, para que o nosso trabalho evoque
a uma reflexão profunda e provoque a mudança.
Não podemos esquecer que cada um traz consigo
estruturas de pensamento enraizadas, conceitos
e pré-conceitos formados internamente durante
muitos anos.
O privilegiamento de uma metodologia vivencial
deve-se à compreensão de que a vivência
antecede a consciência. No lugar da lógica
cartesiana que historicamente pregou o ensinamento
do “penso, logo existo”, pela dança
(re)aprendemos a beleza que é: sinto, por
isso estou vivo. É porque sinto que posso
conhecer, e então, atribuir significados,
configurar o que vivencio como linguagem, transformar
em teoria, construir argumentos que expliquem...
A vivência daquilo que se aprende de modo
integrado proporciona às pessoas entrarem
em conexão consigo, sentir a si mesmas
para então caminharem com progressiva transformação,
ao mesmo tempo em que conservam a sua essência
primordial.
Uma educação que se dança
através de uma metodologia que se vivencia,
só pode ter sentido se baseada no amor
e no reconhecimento do outro como um legítimo
outro na convivência. É pela convivência
que os participantes podem reconhecer o grupo
como matriz de renascimento de todos os integrantes,
como um espaço indispensável para
ampliar o potencial criativo de cada um e fortalecer
suas identidades.
A Educação Biocêntrica valoriza
a multidimensionalidade humana e estimula práticas
vivenciais que a potencializem. Rolando Toro diz
que as pessoas podem estabelecer uma conexão
altamente precisa com todas as manifestações
de vida que lhes rodeiam. Uma espécie de
sabedoria milenar orienta os seres vivos para
as fontes nutritivas do mundo; a percepção
se dirige para aquilo que gera nelas vida e mais
vida. É isso que a Educação
Biocêntrica quer enfatizar, tecendo uma
outra compreensão prática e dialógica
da educação, do ensino, da aprendizagem,
das relações entre humanos e natureza.
Sabemos que milhares de pessoas têm perdido
a capacidade potencial de conectar-se com a vida,
em conseqüência do processo de degradação
instintiva que atrofiou a sua vinculação
com as experiências primordiais. Por isso
Rolando propõe como "objetivo desesperado"
o resgate da nossa arcaica capacidade de conectar-se
à vida, conectando-se conosco, com nossos
semelhantes e, fundamentalmente, “com as
forças vivas do universo”. A dissociação
entre o ser humano e a natureza é visível,
por exemplo, nas escolas formais. Enquanto instituições
erguidas a partir do paradigma exclusivamente
racional, ao longo de seu percurso elas perderam
a leveza e o encantamento, à medida que
reforçaram as concepções
e práticas discriminatórias e excludentes,
valorizaram o resultado e não o processo,
incutiram verdades de guerra e certeza inquestionáveis.
Com essa conduta contribuíram para imprimir
nas crianças e adolescentes crenças
que, para muitos, jamais foram transmutadas. Forjaram
sentimentos de incapacidade, deixaram o fracasso
como uma responsabilidade que declina apenas sobre
os estudantes. As relações rígidas
e autoritárias fundaram diversas patologias
nos educandos e educadores e estas são
identificadas desde uma dor de cabeça,
até situações de suicídio.
Esse modelo criou nas práticas escolares
a síndrome da descontinuidade (Sousa, 2002),
provocando em muitos profissionais a desistência
de si e a perda de sua autoria pedagógica,
os estados depressivos, a intolerância às
diferenças, a baixa-estima pessoal e profissional.
Construiu um processo educativo dissociado e adoecedor.
Fomentou a síndrome Burnaut por meio de
um estado profundo de sofrimento psicofísico.
Doentes e descrentes, os educadores e as educadoras
buscam alternativas possíveis para escaparem
da armadilha estrutural, pedem readaptação
de funções, aceitam trabalhar com
atividades incompatíveis com a sua formação,
são afastados por licenças médicas
e ainda assim são taxados de preguiçosos,
desinteressados, acomodados. A escola e o ensino,
ao longo do tempo foram transformados num neg-ócio,
à medida que negaram aos profissionais
o tempo e o espaço para a experiência
do ócio criativo. O que prevalece é
a produção, não a do conhecimento,
mas a da acumulação das tarefas
e obrigações.
Nesse modelo a escola vivencia o drama da obrigação,
e com isso, raramente incentiva a liberdade de
criar e criar-se. Com seu pensamento lógico,
enquadra a apreensão do mundo em classificações
e seriações. É essa a inteligência
que é valorizada, enquanto a inteligência
afetiva vai sendo atrofiada em parceria com suas
expressões: lingüística, espacial,
musical, cenestésica, emocional, corporal...
Orientados por essas concepções
e práticas, os conteúdos ensinados
sofrem antes uma profunda assepsia: são
higienizados, despolitizados, dessexualizados,
deshistoricisados, desintegrados, desvivenciados,
descomunitários.
Isso é incongruente como o nosso ser porque
nos dissocia do nicho vital (Assmann, 1999), onde
a nossa dimensão homo-mamífero revela
a sua necessidade de contato, de cultivar ninhos
para se sentir aconchegada, fortalecendo o sentimento
de proteção. A proibição
do prazer neste modelo de escola é coerente
com o esquecimento de que a sua sensação
advém do toque, portanto, aprender não
é uma experiência puramente cortical,
ela é fundamentalmente tátil e sensível.
Ao sermos tocados, nosso organismo produz o hormônio
do prazer conhecido como serotonina, que tem a
função de anular a ação
do hormônio de alarme produzido pelas glândulas
supra-renais, conhecido como adrenalina. Esse
hormônio é importante no processo
de reconhecimento de uma situação
adversa, de perigo eminente. As glândulas
supra-renais secretam a adrenalina que causa vaso-constrição
periférica, privilegiando assim a circulação
sangüínea e a conseqüente oxigenação
de órgãos mais nobres do nosso corpo
como, por exemplo, o coração, os
rins, os pulmões, o fígado e o cérebro.
Com muita freqüência ouvimos dizer
que os professores vivem “adrenados”.
Essa afirmativa refere-se à constante exposição
destes aos efeitos da adrenalina.
Na maioria das escolas, os educadores e as educadoras
convivem, diariamente e de forma simbólica,
com a sensação de que serão
atacados pelos diversos embates para os quais
não dispõem de ferramentas ou armas
para se defender. Esse mentiroso “alarme
de ataque” provoca desprazer, porque bloqueia
a ação dos hormônios da alegria
como as endorfinas, as dopaminas e as serotoninas.
Essas substâncias são secretadas
mediante estímulos audíveis, visuais,
olfativos, mas, sobretudo, táteis e sensíveis.
Através do toque afetivo qualificador,
através da carícia o corpo reage
e se coloca disponível, mesmo com os conflitos
internos que a mudança de relação
gera.
Na escola, as relações entre os
profissionais, quase sempre, privilegiam o plano
cortical. Podemos presumir então que as
relações de afeto, no sentido da
qualificação interpessoal, pouco
se materializam. Com isso, muitas pessoas se sentem
sozinhas e procuram, gradativamente o isolamento.
As exposições constantes a fatores
supostamente de risco podem criar um padrão
de condicionamento orgânico capaz de naturalizar
a entropia, isto é, de neutralizar o processo
neguentrópico, levando à morte do
organismo.
Mas, como nos ensina Leonardo Boff (2000) , quando
pensamos que estamos a fazer uma leitura do mundo,
na verdade estamos fazendo uma (re)leitura para
que possamos compreender e interpretar as nossas
experiências. Assim, o nosso ponto de vista
é apenas a vista de um ponto. Cada um interpreta
a realidade a partir de onde os pés pisam
e os meus, durante vinte anos pisaram amorosamente
o chão das escolas públicas. Com
sua sensibilidade, Boff nos diz que, para que
possamos entender como alguém lê
a paisagem, é indispensável saber
como são os seus olhos e qual é
a sua visão de mundo, porque não
há verdades absolutas e regras imutáveis.
Para tanto é importante conhecer o “lugar
social” do sujeito que mira a paisagem e
seus cenários, como ele vive, com quem
ele convive em seu cotidiano, que experiências
guarda consigo, qual a sua profissão, que
desejos ele alimenta em sua existência,
como assume os dramas e as alegrias da vida e
da morte, quais as esperanças que o animam.
A Educação Biocêntrica não
pode desconhecer os lugares sociais onde quer
plantar suas sementes, a terra que vai acolhê-la
e deixá-la germinar. Ela precisa conhecer
também as sementes e a história
cultural que habita o seu interior.
A Educação Biocêntrica tem
aportes que lhe permite apresentar-se como uma
proposição vivencial para trazer
a importância do presente e do instante,
da sacralização que celebra cada
momento e recupera o sagrado que está contido
na vida. Pode assumir então, como objetivo
pedagógico e ontológico, criar situações
educativas ecológicas, onde as pessoas
possam compreender que a vida se auto-organiza
e se desenvolve fomentada pela qualidade das nossas
relações, pela luminosidade das
energias em movimento, pela alegria que cada novo
amanhecer desperta em todos os filhos da Terra
onde as sementes estão sendo lançadas.
Promover, com isso, uma inversão epistemológica,
ensinar que a aprendizagem se realiza através
dos laços de amorosidade, das vivências
individuais e em grupo, da vinculação
ecológica com a natureza, consigo mesmo,
com os outros, com o cosmos. E disso derivam-se
os conteúdos, a metodologia de ensino,
os procedimentos de avaliação e
os objetivos, quando o lugar de sua efetivação
for a escola, por exemplo.
Na escola, a Educação Biocêntrica
vai contribuir para fortalecer o vínculo
entre ela e a comunidade, estimulando formas distintas
de participação de todos nos tempos
e espaços do ensinar e do aprender. Para
estimular a participação, sugere
a organização de eventos variados
que possibilitem a cada um integrar-se com aquilo
que tem maior afinidade, experimentando trocas
e constituindo-se em aprendiz que ensina e em
educador que aprende. Dar ênfase às
cerimônias de celebração,
como mecanismo de fortalecimento dos vínculos,
da partilha de experiências significadas
pelo grupo (os aniversários, as datas comemorativas
importantes, a prática de esportes cooperativos
na natureza, entre outras). Sugere que as disciplinas
tenham seus conteúdos integrados à
multidimensionalidade humana e situados política,
social e culturalmente. Essa inspiração
pode estar vinculada aos temas mais urgentes que
são propostos nas Linhas de Vivência.
A formação escolar em ciclos de
aprendizagem, vinculada aos potenciais do desenvolvimento
humano, pode incentivar práticas inovadoras
e devolver a aprendizagem o sentido perdido. Podemos
propor às escolas um projeto de média
duração que contemple a formação
continuada dos educadores e da comunidade, através
de uma educação que se dança
e de uma aprendizagem que se vivencia.
Como facilitadores é indispensável
que o nosso trabalho possa colocar a educação
em geral no âmbito da complexidade, para
permitir à escola e outras instituições
um reeditar de conceitos cristalizados e de práticas
repetitivas; para que possam privilegiar as explicações
dinâmicas das realidades, construir sinergismos
entre os conceitos, localizar os antagonismos
complementares, transitar pelas distinções
associativas, reconhecer quais as emergências
que dançam no movimento onde o conhecimento
se encontra com a vida. O paradigma biocêntrico
nos possibilita entender a aprendizagem como uma
rede de conectividade que dá sentido a
existência e, com isso, a nossa inclusão
crítica nessa rede para ampliar a conduta
ético-estética na relação
com a vida.
O que desejamos é compartilhar com os grupos
este movimento sinuoso que transversaliza o conhecer,
o ensinar, o estar-junto, o ser cuidadoso na presença
do outro para refutar a ordem excessiva que torna
as aprendizagens patológicas quando paralisa
o que é dinâmico. Orquestrar experiências
educativas que retirem as pessoas da rotina diária,
para que elas possam adentrar em relação
com mundos possíveis, às vezes invisíveis
ao não iniciado, para que possam abrir-se
ao estremecimento da criação e à
surpresa do milagre, é o que nos sugere
Restrepo (1998: 93).
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Uma contribuição de:
Ana Maria Borges de Sousa – “Ana Baiana”
Professora do Centro de Ciências da Educação
Universidade Federal de Santa Catarina
anabaiana@ced.ufsc.br e anabaiana@brturbo.com.br
FONES: (48) 3234-3200 Residência 3331-9557
UFSC 9602-1345 |
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