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A
AFETIVIDADE E A ESTRUTUA TEÓRICA UNIFICADA
E SISTÊMICA DE FRITJOF CAPRA
Agostinho Mario Dalla Vecchia1
Prof. Dr. e Facilitador
1. INTRODUÇÃO
1.1.PALAVRAS INICIAIS
Na passagem para o Terceiro Milênio estávamos
iniciando o Curso de Pedagogia para Professores
em Serviço, na cidade de Jaguarão,
RS, com um grupo de 120 pessoas atuando nas escolas
daquela cidade e região. Um trabalho conjunto
dos professores do curso permitia que os encontros
fossem preparados em reunião semanal. Buscávamos
a interdisciplinaridade e a integração
das alunas(os)-professoras(es) para um desempenho
melhor das nossas atividades e para estimular
os alunos num ambiente de compreensão,
amizade, contato e vínculo. De certa maneira
vivíamos essa integração
no grupo dos professores através das reuniões
de preparação, na participação
conjunta em sala de aula, nas viagens para aquela
cidade nos fins de semana, nos encontros de lazer
e de descontração. Foi um trabalho
realizado com prazer, com entusiasmo partilhado
por nossas dedicadas alunas na participação
cotidiana com suas experiências, com seus
trabalhos de pesquisa e com os seminários
apresentados nos finais de semestre para toda
a comunidade. Houve um largo processo de renovação
para os participantes e para nós professores.
No interior desse movimento eu, particularmente,
defendia os processos de participação
e de integração utilizando também
vivências, nesta perspectiva. Surgiu muito
forte a necessidade de um aprofundamento no estudo
dos processos de integração possíveis,
particularmente pela formação de
um ambiente articulado afetivamente. Foi então
que iniciei o estudo ao ser proposto que trouxesse
um texto sobre afetividade e integração
para ser discutido na reunião do colegiado.
O fato não veio a se consumar depois, mas
o estudo continuou. Neste momento apresento este
ensaio como resultado desse processo e ofereço
como elemento para discussão e aprofundamento
na instituição. O objetivo é
a produção de uma obra que traga
uma discussão a partir da visão
sistêmica, principalmente no modelo teórico
de Fritjof Capra, aplicando a teoria da Teia da
Vida na abordagem das organizações
sociais.
1.2. AFETIVIDADE
Rolando Toro, criador do Modelo Teórico
Biocêntrico, do Sistema Vivencial e Pedagógico
da Biodanza, do Princípio Biocêntrico
e da Educação Biocêntrica,
define a “Afetividade” como um estado
de afinidade profunda com os outros seres humanos,
capaz de dar origem a sentimentos de amor, amizade,
altruísmo, maternidade, paternidade, solidariedade.
Pode gerar também sentimentos opostos como
a ira, o ciúme, a insegurança e
a inveja também consideradas componentes
desse complexo fenômeno (TORO, 2002:90).
Assim como a amorosidade permeia o universo e
lhe dá integração dinâmica
e criativa, a Afetividade em nós está
presente em todas as dimensões do nosso
ser e da nossa ação. O afeto é
o dinamismo que está na origem, na base,
no processo, nas estruturas e no significado de
tudo que somos e fazemos. É semelhante
à água, que se relaciona a todas
as dimensões do nosso corpo quando estamos
imersos nela. A Afetividade envolve a totalidade
de nosso ser.
Atualmente, a Afetividade está expressando-se
em uma cultura e em uma organização
social profundamente patológica como processo
antivida instaurado em todas as dimensões
pelo modo de ser e de viver competitivo ocidental.
Somos envolvidos pelo afeto no próprio
ato da concepção. Se neste ato os
pais não estão envolvidos pelo amor,
a tendência será uma série
seqüente de situações não-saudáveis
e processos patológicos que podem se desencadear.
As adversidades relacionais de uma família,
contudo, podem desencadear um processo de reação
saudável e de superação dos
limites em uma criança, num adolescente
ou num adulto. No percurso do desenvolvimento
da vida, o afeto é o clima, o solo, o cuidado
protetor e nutritivo que permite e facilita um
desenvolvimento saudável da pessoa. Ressalve-se
que sempre existe possibilidade de qualquer pessoa
adoecer afetivamente por sentimentos de ciúme
exagerado, raiva excessiva, violência, ódio.
Segundo Ronaldo Toro, a dimensão mais patológica
do afeto é a discriminação
racial, onde já se realiza uma dissociação
profunda entre a sensibilidade e a Afetividade.
René Spitz, em longa e minuciosa pesquisa,
estabeleceu a relação entre amor
e desenvolvimento da criança.
[...]o cuidado e a segurança nos primeiros
meses de vida, são cofatores do desenvolvimento.
As crianças que não recebem amor
nessas primeiras etapas, não conseguem
estabelecer, (como dissemos anteriormente), a
ponte córtico-diencefálica que relaciona
o mundo externo com o mundo emocional e visceral
(in APOSTILA DA ESCOLA DE FORMAÇÃO:
23)
E o texto segue:
[..]crianças com carência de afeto
terão um retardo no crescimento, na linguagem
na inteligência. Em casos graves, caem em
depressão analítica e marasmo. Cerca
de 60% das crianças institucionalizadas
que não recebem amor, morrem antes dos
dois anos de idade apesar de estarem bem alimentadas
e com cuidados higiênicos e clínicos
indispensáveis (in APOSTILA DA ESCOLA DE
FORMAÇÃO: 23).
As síndromes clínicas que a carência
afetiva produz na primeira infância foram
estudadas e analisadas por Spitz.
Esse autor “descobriu que as crianças
institucionalizadas, em seus primeiros meses de
vida e com carência de afeto materno, experimentam
danos irreversíveis nos aspectos motores,
afetivos, de linguagem e de desenvolvimento intelectual”
(APOSTILA DA ESCOLA DE FORMAÇÃO:
24). Neste sentido, encontramos fundamentos do
assunto em Ronaldo Toro quando nos fala da linha
da Afetividade em Biodanza. “A gênese
biológica da linha da Afetividade está
relacionada ao instinto de solidariedade dentro
da espécie, à capacidade de empatia
(identificar-se com o outro), aos impulsos gregários,
às tendências altruístas e
aos ritos socializantes” (TORO, 2002:89).
Estudos científicos também indicam
a vigência dessa força agregadora
na natureza. “A biologia celular demonstra
a existência de verdadeiras comunidades
de células que integram algumas operações
bioquímicas de cooperação
entre elas” (TORO, 2002:59)
E acrescenta
Os sistemas vivos são potentes mecanismos
de coerência nos quais funcionaram os princípios
de afinidade, de rejeição, e nas
quais cada parte se coloca a serviço da
unidade biológica (TORO, 2002: 89).
Baseado em Jacob Mexkall, Rolando entende que:
Um indivíduo dissociado da espécie
representa uma doença para a totalidade.
Esses impulsos biológicos (para) de cooperação,
de integração e de solidariedade
culminam, no homem, em sentimentos altruístas,
e constituem a gênese do amor (TORO, 2002:
89).
Pela Afetividade, as pessoas se identificam com
as outras, sendo capazes de compreendê-las,
amá-las, protegê-las ou, também,
rejeitá-las. Segundo J. Ortega Y Gasset
(apud TORO), a Afetividade compreende qualquer
exaltação de ânimo, especialmente
o amor, a ternura e o ódio. Pode haver
a dimensão do “amor diferenciado”,
dirigido a uma só pessoa, e a do “amor
indiferenciado” dirigido à humanidade.
(TORO, 2002:89)
Enquanto a vivência é intensa e fugaz,
a Afetividade é complexa e permanece ao
longo do tempo. Implica a participação
da consciência, da memória e da representação
simbólica (TORO, 2002:89). “A linha
da Afetividade tem na Biodanza a sua expressão
privilegiada no amor. As formas patológicas
da Afetividade se expressam nos impulsos autodestrutivos,
na discriminação social, no racismo,
na injustiça” (TORO, 2002:90).
Assim, podemos dar seqüência a inúmeras
análises das implicações
da afetividade nas relações humanas.
Por ora, desejamos ressaltar a importância
da afetividade no processo educativo como fator
de integração de grupo. A unidade
afetiva de um grupo dá a este as características
de um organismo vivo(CAPRA, 2002). Sem mencionar
esta palavra este cientista nos oferece esta interpretação
ao aplicar a Teoria Sistêmica da Teia da
Vida às organizações sociais.
Assim, nós utilizaremos seu Modelo Teórico
para fazer a abordagem da Afetividade e abrir
espaço para aplicação desta
teoria para a articulação das relações
de sala de aula.
1.3. COMPLEXIDADE
Construir o saber de forma integrada com a vida,
vinculando razão e coração,
conhecimento e sentimento, o saber integrado que
brota de nossas percepções sensíveis,
das vivências emocionadas, da conexão
do nosso coração com as surpresas
da vida, pressupõe integrar o pensamento
linear, novas teorias de aprendizagem, novas estratégias
operacionais para levar um processo aberto e crescente
baseado no erro e na incerteza, como diz Morin,
inspirado no poeta espanhol: “o caminho
se faz caminhando”, obedecendo ao fluxo
da realidade e da vida, a complexidade da vida
e do ser (MORIN, 2003:52-53).. Não se trata
de estabelecer o caos como norma. Trata-se de
encontrar a forma de conhecer como peregrinos
da verdade que nunca se esgota, sendo sempre surpreendente
porque brota da vida e de seus fenômenos.
Conhecemos através da totalidade do nosso
ser, do nosso corpo, da nossa percepção
sensível, da emoção, do sentimento,
da ação concreta e da razão.
Instrumentais metodológicos das ciências,
lógicas e matemáticas, históricas
e sociais, isoladamente, não conseguem
abranger a realidade dos fenômenos da vida
que ultrapassam a racionalidade lógica.
Os pensamentos lineares, mecanicistas, antropocêntricos
não dão expressão sistemática
e teórica às coisas que não
estão ao seu alcance. A dimensão
subjetiva é sistematicamente rejeitada.
Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar
o risco de erro, recalcando toda a afetividade.
De fato o sentimento, a raiva, o amor e a amizade
podem cegar. Mas é preciso dizer que já
no mundo mamífero e, sobretudo no mundo
humano, o desenvolvimento da inteligência
é inseparável do mundo da afetividade,
isto é da curiosidade, da paixão,
que por sua vez são a mola da pesquisa
filosófica ou científica. A afetividade
pode asfixiar o conhecimento, mas pode também
fortalecê-lo (MORIN, 2002:20).
Foi a sensibilidade poética e perceptiva
que levou os cientistas a afirmar os seus limites
com a honestidade ética que lhes cabia.
Maturana e Varela tiveram a grandeza de declarar
os limites de suas pesquisas que pretendiam ficar
na dimensão científica como o desejado.
Eles visualizaram e indicaram a possibilidade
do conhecimento articulado por um processo integrado
e cooperativo nos seres vivos, na microbiologia.
Entenderam e afirmaram com profunda propriedade
que o processo evolutivo da vida no universo é
um processo cooperativo inerente aos seres vivos
(CAPRA, 2002:89).
A visão sistêmica, tendo como pressuposto
o processo de articulação da vida,
processo sempre renovado, surpreendente, faz com
que nos posicionemos num caminho que se faz na
prática. Não é possível
um método prévio para ser aplicado,
mas a humildade de caminhar na investigação,
encontrar a expressão da verdade (MORIN,
2003:51) e explicitá-la como fenômeno
das dimensões reais do ser que, por si
só, pode ser apreendido por um movimento
vivencial e integrado.
O afeto existente na troca de um abraço
só é possível ser conhecido
vivencialmente, apesar das inúmeras considerações
pertinentes que possamos fazer. Analisar os efeitos
físico-químicos e psicológicos
desse ato pode ser possível através
dos recursos das ciências médicas,
recursos laboratoriais, mas, efetivamente, tudo
que acontece num encontro emocionado não
é dizível por nossa linguagem explicativa.
A poesia pode nos dar proximidade sensível
desse conhecimento, nunca a sua totalidade. O
desafio na linguagem sistêmica é
a integração da linguagem científica,
histórico-social, filosófica e poética.
Neste sentido, ao falar sobre os “Sete saberes
necessários à educação
do futuro”, Edgar Morin nos diz:
Acrescentemos que o saber científico [...]
não só é provisório,
mas também desemboca em profundos mistérios
referentes ao Universo, à Vida, ao nascimento
do ser humano. Aqui se abre um indecidivel, no
qual intervém opções filosóficas
e crenças religiosas através de
culturas e civilizações (PRÓLOGO,
1999:13).
Começamos a falar da primeira e grande
característica da vida em nós: a
Afetividade. Deixamos fluir a abordagem e a reflexão
uma vez que delineamos as dimensões epistemológicas
que, segundo F. Capra, têm uma surpreendente
proximidade e distância do esquema teórico
aristotélico da causa formal (causa interna
que cria e sustenta o fenômeno), material
(o resultado constitutivo do fenômeno em
si), a causa eficiente (a que gera o fenômeno
por sua ação) e causa final (a que
gera e determina a ação da causa
eficiente por dar-lhe um sentido, um objetivo).
A integração dinâmica dessas
causas permite a abordagem do fenômeno do
jeito grego.
O distanciamento da abordagem aristotélica
está no fato de essa resultar numa descrição
linear do fenômeno. Esse fundamento filosófico,
do paradigma cosmológico determinista grego
que, retomado pelo movimento de retorno ao modelo
clássico grego-romano, permite delinear
uma visão mecanicista do mundo moderno,
centrada no paradigma antropocêntrico em
cuja gênese vivencial está a experiência
de expansão e conquista da Europa comercial,
burguesa, em diversas direções do
planeta, tendo hoje atingido a globalização
do mercado e da cultura avassaladora. Seus efeitos
sobre o planeta e sobre a humanidade são
profundos e abrangentes.
A diferença da abordagem sistêmica,
da construção da complexidade com
a visão aristotélica é que
essas quatro dimensões estão recheadas
da vida em sua forma, em seu significado. O fluxo
da vida é sempre surpreendente. A vida
se concretiza na materialidade, mas a ultrapassa,
dá-lhe o dinamismo vivo, dá-lhe
o caráter do sagrado, da beleza, do ministério.
Retomando os princípios epistemológicos
delineados por Fritjof Capra, visa-se concretizar
uma caracterização da Afetividade
em cada uma das quatro dimensões: natureza,
processo, estrutura e significado da Afetividade
e enriquecer formas criativas de conhecimento
e de vivência. Este ensaio servirá
para ser lido, refletido, corrigido e enriquecido
com o espírito de cooperação
do leitor. É um processo em construção,
aberto, humilde, profundamente acadêmico.
Senti a oportunidade de nutrir o processo de integração
do grupo com a mediação do Sistema
Vivencial, Teórico e Pedagógico
da Biodanza. Isso iria contribuir para o estabelecimento
de contato e de vínculos, ampliando os
laços na tessitura da teia da vida daquele
grupo.
Estimulado pela vivência de Biodanza e pelo
processo de formação de facilitador,
comecei a estudar os elementos fundamentais do
Modelo Teórico originado na Visão
Biocêntrica, principalmente pelo estudo
da Afetividade como elemento integrador dos outros
potenciais humanos da Identidade. Aos poucos,
percebia que os vínculos afetivos dariam
consistência a esse processo de integração
de grupo.
Hoje podemos compreender a propriedade de um saber
que mostra as origens, processos, dimensões
e o leque das funções fundamentais
da Afetividade. Através da teoria da complexidade,
com interdisciplinaridade, podemos dar lugar à
investigação de componentes do universo
dos instintos, percepção, das emoções,
dos sentimentos e sua integração
estrutural com o desenvolvimento do pensamento
racional.
Os estudos da física quântica, da
matemática, da biologia celular conduziram
os estudiosos a situações-limite
que exigiram a mudança de percepção
da realidade e das dinâmicas do universo.
A convergência de diferentes pesquisas permitiu
que Rolando Toro explicitasse o novo paradigma,
o Paradigma Biocêntrico. Ele ganha clareza
e consistência na percepção
conectada, viva e emocionada de que a vida é
o centro de tudo. A primeira grande característica
da vida, segundo Rolando Toro, é a amorosidade.
Sendo o universo um organismo vivo, a amorosidade
permeia tudo o que existe e se expressa no homem
como Afetividade. Ela estará presente em
todas as dimensões da vida humana.
A reflexão e construção de
conhecimentos em torno da categoria Afetividade
aconteceram porque a participação
no Curso de Pedagogia de Jaguarão, como
afirmei acima, despertou em mim a necessidade
de buscar o aprofundamento crescente sobre o tema,
na vida e na educação. É
necessário conhecer a partir de bases epistemológicas
da teoria da complexidade, dessa nova estratégia
de aprendizagem (MORIN: 2003) e das bases epistemológicas
da teoria sistêmica (CAPRA: 2002).
A produção de um ensaio sobre a
Afetividade, sua natureza, sua dinâmica,
suas estruturas em rede e seu significado é
uma exigência educativa para mim. É
isso que pretendo realizar fluindo no meu caminho.
O desafio servirá para maior conhecimento
integrado ao processo vivencial que procuro oferecer
aos educandos.
O desejo de conhecer e incorporar formas concretas
de articulação de processos integrativos
dos alunos nas salas de aula motivou-me a pesquisar
principalmente a relação da Afetividade
e Educação. Inspirado nos conhecimentos
sobre a nova Visão Biocêntrica, da
Pedagogia Biocêntrica, do Sistema Vivencial
e Pedagógico da Biodanza, nas leituras
e reflexão de F. Capra, nas tendências
pedagógicas convergentes e centradas sobre
a vida, particularmente Paulo Freire, percebi
a viabilidade e a necessidade dessas formas de
integração professor-aluno. As análises
de Capra das organizações como organismos
vivos, oferecem um modelo teórico aqui
utilizado na abordagem da Afetividade que vamos
desenvolver de forma integrada com os outros conhecimentos
indicados.
Ao escrever o livro Conexões Ocultas, Capra
sintetiza a “teoria sistêmica”
ou pensamento não-linear, nos primeiros
capítulos do livro, elaborado até
então, principalmente nas obras O Ponto
de Mutação, Sabedoria incomum e,
principalmente, em A Teia da Vida. A seguir, no
capítulo 3, elabora as bases epistemológicas
para estudo da realidade das organizações
sociais. Uma “estrutura teórica unificada
e sistêmica” para a compreensão
dos fenômenos biológicos e sociais.
2. NAS TRILHAS DE UM MODELO
TEÓRICO
2.1. O CAMINHO SE FAZ CAMINHANDO
O estudo do tema Afetividade será abordado
nas quatro dimensões propostas e deverá
visualizar formas operacionais para o processo
de integração nas salas aulas. De
forma resumida, as características desse
esquema epistemológico, articulado ao fenômeno
da Afetividade, apresentam-se assim:
2.1.1. Raízes na
Terra e no céu.
Começamos pelo padrão de organização,
que se reflete na configuração das
relações entre os outros componentes
do “sistema” (processo, estrutura
e significado) como uma rede auto-organizadora.
O padrão de organização,
segundo Capra, determina o processo das relações
que se estruturam dentro de uma organização
a partir de um sentido identificado como razão
de sua existência. À semelhança
da organização, elementos “imateriais
e orgânicos” determinam nosso comportamento
afetivo, assim como biologicamente o potencial
genético determina a estrutura orgânica
da pessoa, a pigmentação da pele,
a cor dos olhos, a fisionomia, etc. Então,
nós temos pré-condições
para a vivência da afetividade, para formação
de estruturas de relações grupais
concretas com consciência da finalidade
específica dessas vivências. O conhecimento
da Afetividade é, acima de tudo, vivencial
e deve teoricamente ser elaborado. Para isso,
o Modelo Teórico de Capra é um indicativo
para um caminho de investigação
que se fará caminhando.
Em primeiro lugar, o padrão de organização
ou de configuração das redes de
relações afetivas de uma pessoa,
de um grupo, de uma organização
e da espécie tem seu componente original
no código genético. O registro do
passado da trajetória do universo como
um organismo vivo, a configuração
das relações que se estabelecem
no desencadeamento dos contatos e na formação
dos vínculos, tem uma estrutura organizada
no DNA, com a disposição originária
à vivência na medida em que os fatores
internos e externos acionam os instintos humanos,
despertam a percepção deflagrando
a emoção, a formação
dos sentimentos, a constituição
do saber integrado em nossa inteligência
afetiva, em nossa racionalidade cuja fonte originária
é o afeto.
Por analogia podemos indicar a existência
de uma estrutura “cognitiva, de natureza
imaterial, com uma base corporal e orgânica”
(CAPRA, 2002), e que se concretiza em nosso potencial
de afeto articulado a partir de nossas informações
genéticas, sustentadas em bases químicas,
dos nossos sentidos e da sua conseqüente
percepção sensível, da emoção,
dos sentimentos e do conhecimento elaborado por
nossa inteligência afetiva. Por natureza
da própria vida, essa estrutura é
auto-renovável, “auto-poiética”
(MATURANA E VARELA: A árvore do conhecimento:1995)
assim como uma célula viva. Isso significa,
segundo F. Capra, que a vida existe onde existe
uma estrutura material a ela integrada e que lhe
dá caráter de realidade viva (CAPRA,
2002). Assim, a Afetividade tem uma base material,
corporal, orgânica e racional que permite
sua dinâmica e sua expressão carregada
de significado.
No mesmo sentido, Rolando Toro afirma:
A meu ver, de qualquer modo, a Afetividade não
é apenas expressão de um sentimento
individual ou uma forma sutil de comunicação,
mas também a manifestação
de mensagens relacionais pré-existentes
em todos nós que predispõe às
ligações afetivas entre os seres
humanos;
E a idéia da rede é reiterada nas
palavras do fundador do movimento de Biodanza:
Somos, de fato, unidos por múltiplos canais
de conexão, dos quais não somos
conscientes (TORO, 2002:90).
Essas colocações de Rolando Toro
surgem dos seus estudos sobre vivências
de Biodanza nos quais conclui sobre a Afetividade
como potencial pertencente a uma estrutura genética
originária (causa formal, que dá
formato, que dá pré-condição
à forma das relações) e de
todas as pré-condições materiais
e orgânicas para a Afetividade.
Rolando refere-se então, a Julius Fast,
o qual descobre, em relação ao “diálogo
psicotônico”, que: “colocando
sensores de tensão muscular no corpo de
duas pessoas, a simples proximidade entre elas
mudava os níveis de tal tensão.
Isso significa que cada um tem, em relação
ao outro, um efeito relaxante ou tensivo”
(TORO, 2002:90).
Refere-se também aos estudos tomográficos
realizados com casais durante o beijo, a carícia
e o ato sexual evidenciam que mudanças
em todos os níveis neurofisiológicos:
alterações do equilíbrio
neurovegetativo, do níveis de secreção
endócrina e da ação de neurotransmissores,
modificações do metabolismo celular
e repercussões na defesa imunológica
(ROLANDO TORO,2002:90).
Se a presença de uma pessoa provoca modificações
no tônus muscular e em nível neurofisiológico,
Rolando entende que há “continuum
afetivo entre os seres humanos”. E as alterações
revelam distintos níveis de reciprocidade.
E sugere que as percepções do outro
“abarcam a totalidade do organismo, e não
só as emoções. Os seres humanos
são órgãos transmissores
e receptores de Afetividade. Em geral, esse fenômeno
é inconsciente, e é por isso que
as pessoas amam sem saber verdadeiramente por
quê” (TORO, 2002:90).
A experiência clínica em psicopatologia
levou J. J. Lopez Ibor à opinião
de que as “pessoas se instalam nos órgãos”.
A influência recíproca, segundo Rolando,
pode alterar funções orgânicas
quando a pessoa é tóxica. “As
pessoas se instalam, segundo o caso, nas artérias
cerebrais, no coração, no aparelho
digestivo ou nos genitais, assim, para alterar
o funcionamento desses órgãos”.
A rede afetiva está instalada em nível
genético-celular, nível visceral,
em todos os níveis de sistemas orgânicos,
nas emoções, nos sentimentos e em
certas condições de memória
e pensamento (TORO, 2002:90).
E continua afirmando que:
O movimento de amor de um indivíduo para
outro é da mesma natureza do infinito movimento
da energia cósmica que luta para se expressar
em nossas vidas desesperadas, em meio a guerras
fratricidas e formas culturais inadequadas (TORO,
2002: 90-91).
Em linguagem metafórica e poética
Rolando nos diz que:
[...] o significado da vida é implícito,
no ato mesmo de viver, fora de toda teleologia.
Este ato mesmo de viver, o ato de ligar-se, não
é outro senão o passo titubeante
no longo caminho do amar. (TORO, 2002: 90-91).
Assim, podemos afirmar, da mesma forma que Rolando
ao referir-se à linha da transcendência,
“A linha da Afetividade tem uma origem biológica
e uma infra-estrutura instintiva” (TORO,
2002:91).
Essa frase sugere nossa percepção
sobre a dimensão da Afetividade como potencial
originário estabelecido em nosso organismo
inteiro como pré-condição
de desencadeamento, de um processo de relações
que estabelecem redes vivas das mais variadas
estruturas de vínculos em vista do sentido
nutritivo e realizador do afeto na vida de cada
um, do grupo e do universo.
A Afetividade tem também a natureza essencial
do sistema vivo, sendo, no meu ponto de vista,
a essência do sistema vivo das linhas de
vivência do ser humano. Ela tem dimensões
biológicas e imateriais, individuais e
sociais por sua natureza.
Assim, do ponto de vista dos padrões que
a inserem na natureza biológica do nosso
organismo, pela potencialidade genética,
instintiva, a Afetividade apresenta um padrão
de organização em rede de seus componentes.
Em específico, esse padrão de organização
do sistema vivo da Afetividade como a configuração
das relações entre os componentes
do sistema é que determina as características
essenciais (de todo o sistema) da Afetividade
no seu acontecer que organiza “estruturas”
de relacionamentos com um sentido de integração
do ser humano e suas potencialidades.
Esse padrão registrado potencialmente como
cognição na estrutura genética
e mediado no seu processo pela estrutura instintiva
e orgânica vai possibilitar a configuração
das relações afetivas de atração,
empatia, ternura, cuidado, etc, e a estrutura
das relações, ou a incorporação
efetiva dessas relações no complexo
dinamismo de pares, de grupos afetivos de toda
ordem, de famílias e de organizações
(CAPRA, 2002). Nesse complexo social, estão
todos os meios, recursos, formalidades de linguagem,
de signos, de movimentos, de expressões,
de organizações que materializam
as relações.
As expressões “padrão”
e “estrutura” parecem muito rígidas
para serem aplicadas à Afetividade. Contudo,
“o padrão”, neste sentido,
refere-se à disposição orgânica,
instintiva e mental do homem para estas relações.
Estrutura, sempre que se refere ao afeto, é
a organização efetiva das relações
que têm por característica a flexibilidade
e a abertura para o novo e surpreendente. Ninguém
ama por obrigação, mas por compromisso,
ninguém é amigo por qualquer exigência,
ninguém pode manter um grupo de amizade
à força. A natureza dessa relação
é a flexibilidade, a troca, a fluidez.
Pode ocorrer uma tendência à rigidez
quando as relações passam a ser
doentias e tóxicas.
2.1.2. No fluxo do afeto: A segunda dimensão
a examinar é o desencadeamento dos processos
vivos de organização da relação
afetiva em rede, os processos pelos quais a Afetividade
se realiza. É a realização
dinâmica do padrão de organização
na essência viva das relações
de afeto da pessoa consigo mesma, com o outro
e com o cosmo. Nesse sentido, os sistemas vivos
são sistemas cognitivos, nos quais o processo
de cognição está intimamente
ligado ao padrão de autopoiese. É
um sistema cognitivo amplo ligado ao padrão
de autoprodução do ser humano, não
só uma reprodução biológica,
mas de autoprodução da própria
essência desse ser de relações
afetivas, reprodução do grupo. Assim
como os alimentos reproduzem e sustentam a vida
em nosso organismo biológico, a Afetividade
nutre a existência do próprio ser
humano em suas dimensões espirituais e
orgânicas. O padrão em rede em si
mesmo é considerado imaterial (CAPRA, 2002,
99).
Caracterizada, então, teoricamente como
processo, vamos encontrar a dinâmica viva,
presente e relacional da Afetividade sempre que
se dá a conexão com a realidade
no fluxo da vida. A Afetividade viva, vivencial,
emocionada, tornada emoção, sedimentada
nos sentimentos, expressa numa racionalidade afetiva,
é a dimensão mais profundamente
dinâmica do fato da vida. A vida é
movimento aberto, acontecimento que se concretiza
como Afetividade. Criatividade, sexualidade, vitalidade
e transcendência.
Em outras palavras, o dinamismo do afeto perpassa
nossas células, nosso organismo, nossos
sentidos, nossas emoções, nossos
sentimentos e nossa inteligência afetiva.
Ela tem referência a toda realidade pertinente
ao homem, seja no processo criativo existencial,
nos desejos e na satisfação prazerosa
de sua realização, no movimento
vital do organismo integrado com a dança
cósmica plena de sentido, seja na conexão
profunda, emocionada e integral do homem com sua
própria identidade, com a identidade do
outro e com a identidade do universo. No organismo
humano, segundo Rolando Toro, a Afetividade é
a linha de vivência integradora da expressão
e desenvolvimento da criatividade, da sexualidade,
da vitalidade e da transcendência humana
(TORO, 2002:90) Ela é o processo de integração
afetiva, de renovação orgânica
e de resgate das condições originarias
e naturais da vida em nós.
Isso se traduz, segundo César Wagner,
Em "um sistema de integração
afetiva, renovação orgânica
e re-aprendizagem das funções originárias
da vida". (TORO, in GÓIS, 2002:24).
Integração afetiva: significa a
integração sutil e plena entre percepção,
motricidade, Afetividade e funções
viscerais, consideran-do a Afetividade como núcleo
integrador;
Renovação orgânica: manutenção
dos processos de renovação e regulação
das funções biológicas, gerando
mais neguentropia e mais complexidade;
Re-aprendizagem das funções originárias
da vida: expressão e fortalecimento de
um estilo de viver, enraizado nos potenciais genéticos
de vitalidade, sexualidade, criatividade, Afetividade
e transcendência; significa resgatar a vida
instintiva como fluxo propulsor e orientador do
viver (GÓIS: 1999:24).
“Queremos enfatizar que a Biodanza é
uma grande obra poética de um poeta que
ousou revelar a vida como hierofania, presença
do sagrado em todas as coisas do mundo. É
uma poética do encontro humano” (GÓIS,
1999:24). A Biodanza é o processo operacional
para resgatar essas condições de
vida.
Podemos ver como exemplo que, nessa dinâmica
relacional dos seres humanos, a simples presença
de uma pessoa pode provocar em nós modificações
no tônus muscular, o que “indica que
a nível neurofisiológico existe
um continuum afetivo entre os seres humanos”(TORO,
2002:90).
“Algo interessante é que essas alterações
revelam distintos níveis de reciprocidade.
Posso sugerir que a percepção do
outro provoca respostas que abarcam a totalidade
do organismo, e não só as emoções.
Os seres humanos são “órgãos
receptores e emissores de Afetividade”.
Em geral, esse fenômeno é inconsciente,
e é por isso que as pessoas amam sem saber
verdadeiramente o porquê” (TORO, 2002:90).
A Afetividade é a dimensão essencial
da natureza da vida, a primeira característica
que se revela no fato de existir. É o transbordar
de imenso amor que criativamente se expressa num
universo em expansão sempre surpreendente
de beleza, de ritmo, de harmonia, de sagrada voluptuosidade.
É essa amorosidade que permite um processo
de misteriosa organização neguentrópica
da vida, renovando-se, reproduzindo-se. É
a potência agregadora, cooperativa e organizadora
presente desde o caos originário.
É a Afetividade que permeia as relações
dos elementos que materializam cada coisa que
existe no universo, que engendra e assegura um
processo cooperativo de unidade de elementos que
constituem a materialidade do cosmo, que dinamiza
cada tecido, cada célula em estreita coerência
com a outra, com o órgão, com o
organismo biológico.
É a Afetividade expressa no toque, no olhar
e no cuidado da mãe vinculada, terna e
abundante com o bebê que permite a conexão
hormonal do sistema cerebral arcaico com o córtex,
dando configuração à inteligência
afetiva integradora da dimensão emocional
e sentimental do amor com a dimensão da
racionalidade que, segundo Piaget, se desenvolverá
gradativamente, com o nutriente da afetividade.
É o seio terno e delicado da mãe
que dá ao bebê a nutrição
orgânica, nutrição que brota
do olhar amoroso, do toque de caricia, do movimento
delicado e facilita o delineamento, ampliação
e desenvolvimento da capacidade perceptiva e sensível
dos instintos na criança. Ao nascer, o
bebê tem o paladar desenvolvido para degustar
do leite materno e, ao mesmo tempo, já
tem a disposição orgânica
de sucção do seio (SPITZ: 1979).
A visão, o olfato, o tato vão estruturando
o potencial perceptivo inerente ao instinto. Assim,
o amadurecimento orgânico e sensível
do ser humano vai-se dando gradativamente.
É com todo o aparato perceptivo em ação
e em contato com a realidade que, instintivamente
e de forma natural, sentimos atração,
empatia ou repulsa e desprazer em relação
a um objeto conhecido. É a totalidade do
nosso organismo e do nosso ser que desencadeia
a capacidade afetiva em nós e permite a
vivência efetiva dessa dimensão.
2.1.3. Na casa do afeto:
Em terceiro lugar, busca-se identificar
o resultado dessas relações afetivas
em rede, alguns indicados acima, estruturas que
se constituem a partir do potencial afetivo colocado
em ação por diferentes fatores internos
e externos, induzidos pelo sistema de Biodanza
Trata-se de uma rede viva de relações
de afeto que se expressam como modo concreto de
ser e de viver, numa integração
orgânica pessoal, da identidade, dos grupos,
das organizações e das instituições.
Repetimos, é o processo vivo como o processo
contínuo de incorporação
do potencial que se apresenta em nível
genético, instintivo, da sua conseqüente
percepção, da emoção
afetiva, dos sentimentos de amor em geral e da
inteligência afetiva integrada de forma
orgânica a esse padrão em rede.
A realidade material dessa vivência do afeto
materializa-se em redes constitutivas de grupos
de amizade, de famílias, de fraternidades,
de grupos de atividade social, de grupos políticos
vinculados a um processo amoroso de dar vigência
a processos políticos participativos e
qualificadores dos participantes do grupo e da
comunidade. Uma instituição e a
organização da cultura do afeto
origina uma sociedade aberta, nutre e desenvolve
uma sociedade do amor
Segundo Capra (Conexões cultas: 2002),
um grupo de pessoas que estabelece contatos e
cria vínculos dá origem a uma rede
de relacionamento em torno de objetivos comuns,
de processos comunitários e democráticos
de qualificação, formando ali um
novo organismo vivo. Onde há um organismo
vivo e integrado há uma estrutura dissipativa,
uma abertura para o processo evolutivo, uma flexibilidade
para a mudança adaptativa ou de reestruturação,
para a consistência e flexibilidade adaptativa
e evolutiva dinâmica, evitando a fixidez,
a perda de energia e a conexão com os processos
criativos, prazerosos, vitais e de harmonização.
Reitero, o padrão em redes que os sustenta,
considerado em si mesmo, é imaterial (CAPRA,
2002: 101).
Uma organização permeada pela Afetividade
apresenta uma estrutura flexível, uma estrutura
dissipativa, dimensão pela qual é
possível um processo dinâmico, aberto
para a transformação ativa, propiciado
pela natureza das relações de afeto:
estreitamento relacional, proteção,
cuidado, nutrição, acolhimento,
compartilha-mento, alegria que brota da vida e
se manifesta em gestos e cerimoniais comemorativos.
A natureza dos vínculos dá à
organização as características
de um ser vivo: a capacidade de renovação
e de autoprodução criativa, a potencialização
de sua capacidade criativa, a potencialização
da capacidade política de unidade e consistência
do grupo na cumplicidade em torno da qualificação,
da autonomia, da capacidade de ação
potencializada em todas as direções.
Segundo a hipótese de F. Capra (2002),
esses fenômenos ocorrem nas organizações
que se constituem em organismos vivos. De modo
geral, as organizações no Ocidente
tendem à rigidez piramidal, autoritária,
sem vida, que são frágeis às
turbulências da globalização.
A estrutura dissipativa não está
relacionada à desagregação
e, sim à possibilidade aberta de novas
formas de ser, de viver e de se relacionar. Isso
graças a múltiplos elos de realimentação
constitutivos do processo nutritivo do organismo,
do grupo. Isso possibilita a incorporação
dinâmica do novo sem perder a natureza constitutiva
da relação, sendo possível
a mudança, a evolução.
O processo característico das estruturas
dissipativas das organizações, dos
grupos, permite o surgimento espontâneo
de soluções novas e criativas em
momentos de crise e de mobilização
dessas relações e dessas estruturas.
É a potencialização da capacidade
criativa do conhecimento. A reflexão e
a preocupação conjunta permite o
surgimento de novas idéias, assim como
das soluções políticas, da
autonutrição originária desse
espaço de vida intensificado pelo vínculo
afetivo.
Estamos falando da materialização
estrutural do processo vivo das relações
afetivas que se instauram a partir do contato,
do vínculo, da articulação
dos indivíduos e das suas organizações,
dando origem às organizações
como grupos de convívio, grupos de trabalho,
cooperativas, sindicatos e qualquer outra organização
instituída como a família, escola,
etc.
A maior estrutura que materializa essa vivência
entre as pessoas é a formação
da rede viva de relações e que tem
seu suporte, como afirmamos antes, em nossa natureza
orgânica, corporal, visceral, sensível
e racional. Na estrutura genética das nossas
células, situam-se as informações
que dão a formatação para
o estabelecimento de contatos e formação
de vínculos. Nossos sentidos, deflagrados
por ecofatores, dão forma concreta e sensível
à percepção da realidade.
Com esse ingrediente, é deflagrada nossa
emoção e estabelecido o processo
de constituição dos sentimentos
de afeto que terão, por sua vez, influência
direta sobre a formação do pensamento.
A rede viva e concreta de relações
passa pelas expressões do nosso olhar,
do toque, da carícia, do abraço,
do cuidado... que são expressões
materiais dessa realidade imaterial constituída
de emoções, sentimentos, empatia
ou repulsa. Assim se constituem, como dissemos,
os distintos grupos ou organismos vivos que integram
um conjunto de pessoas. Nesta materialização
das relações afetivas, surgem as
distintas formas de pares e grupos.
Diversas formas de Afetividade formam a rede viva
das relações: o contato é
mediação para o vínculo cuja
natureza é o cuidado, a proteção,
a amizade, o amor, a ternura, a qualificação,
a amizade, a empatia, a fraternidade, a solidariedade,
a compaixão, a fraternidade, a maternidade,
o amor diferenciado e o amor indiferenciado envolvendo
a identidade consigo mesma, com a identidade do
outro e com a identidade do cosmo.
Entre o padrão da organização
das relações de afeto e sua incorporação
na estrutura aberta em rede que permitem a sua
vigência, está o processo vivo dos
contatos, dos vínculos, a Afetividade como
acontecimento afetivo nas relações
de pessoas, grupos e organizações
afins. É o processo vital como processo
contínuo dessa incorporação.
É essencial entender que o padrão
de organização da Afetividade no
homem tem forma de uma rede autogeradora. Nossa
capacidade afetiva advém dessa potência
de amar que emana da fonte da vida em nós
e, sempre geradora, se autoproduz.
Se nos sistemas biológicos a estrutura
material de um sistema vivo é uma estrutura
dissipativa, as estruturas que materializam as
relações e vivências das emoções
e dos sentimentos afetivos humanos são,
pela natureza do afeto, essencialmente abertas.
Quando começa um processo de rigidez e
inflexibilidade, as relações passarão
a entrar na esfera patológica. O afeto
é uma relação criadora, renovadora,
reguladora e integradora. Tem a dimensão
do permanentemente novo e surpreendente. O afeto
é cercado de erotismo, sensualidade, criatividade,
vitalidade e realização. Podemos
dizer que as quatro dimensões (forma, matéria,
processo e sentido) da Afetividade, funcionam
por um processo complexo em rede. No exemplo do
metabolismo de uma célula apresentado por
F. Capra, podemos esclarecer esta idéia:
Consiste em uma rede (forma) de reações
químicas (processo), que envolve a produção
dos componentes da própria célula
(matéria) e respondem cognitivamente, ou
seja, através de mudanças estruturais
autodeterminadas (processo) às perturbações
do ambiente. Do mesmo modo, o fenômeno do
surgimento espontâneo é um processo
característico das estruturas dissipativas
(matéria), que envolve múltiplos
elos de realimentação (forma) (CAPRA,
2002:84).
No caso de uma organização social
ou sistema social, segundo este autor, o elemento
central em qualquer análise sistêmica:
[...] é a ‘noção de
organização’ ou ‘padrão
de organização’. Os sistemas
vivos são redes autogeradoras, o que significa
que o seu padrão de organização
é um padrão em rede no qual cada
componente contribui para a formação
dos outros componentes. Essa idéia pode
ser aplicada ao domínio social, desde que
as redes vivas de que estamos falando sejam identificadas
como redes de comunicações (CAPRA,
2002:102)
Capra acrescenta um significado suplementar às
organizações (empresas, organizações
políticas). Os sistemas sociais produzem
estruturas materiais e imateriais, como organogramas
e regras de comportamento que facilitam a tomada
de decisões no exercício do poder
e corporificam o exercício do poder.
Com certeza, não é fácil
compreender a aplicabilidade dessa epistemologia
ao fenômeno da Afetividade. Primeiro, reconhecemos
que, se a Afetividade se expressa como fenômeno
de agrado, cuidado, empatia, compreensão,
solidariedade, respeito, etc., é um fenômeno
que brota de um “padrão de organização”
sistêmica que tem as características
de uma cognição prévia, instaurada
e pré-disposta na estrutura genética,
na rede de instintos que reagem por fatores internos
ou externos a nós. Essa realidade, como
dissemos, tem a forma de uma rede e, diríamos,
de uma fonte, de um manancial de onde surge a
energia que produz e sustenta a rede de relações
por meio do contato e do vínculo conseqüente.
No padrão de organização
do afeto, há estruturas materiais, genéticas,
instintivas, viscerais, orgânicas; portanto,
estruturas imateriais de valores, de certas normas
culturais, e também de sensibilidade, desejos
que são deflagrados em forma de vivência,
de emoção e de sentimentos efetivos
e vigentes de amizade, fraternidade, solidariedade,
compaixão.
Avançando um pouco mais na nossa abordagem,
há formas concretas, organizacionais e
comportamentais que materializam a rede de relações.
Porém a experiência ou a vivência
originária é determinante sobre
a organização e vigência dessas
relações. O processo de incorporação
e atualização do potencial afetivo,
desencadeado e deflagrado pelos fatores presentes,
particularmente os mais potentes como a presença
do outro guarda, incrível possibilidade
do novo, facilitando às relações
pessoais e de grupo infinita possibilidade criativa
de expressão e movimento, mas uma estrutura
aberta e dinâmica, permitindo as mudanças
e uma solidez maior nos vínculos, uma efetiva
mudança na qualidade de vida originária
dessas vivências construtivas, formadoras
e integrativas da identidade pessoal, de grupo
e de organização.
Começando a integrar os quatro elementos
do modelo teórico, vemos que: A dimensão
do significado da vivência da Afetividade,
última dimensão dessa estrutura
complexa de conhecimento é também
a “renovação orgânica
e o resgate das condições originárias
da vida em nós”. As idéias,
valores, saberes, crenças nascidas dessa
vivência constituem estruturas de significado
ou “estruturas semânticas” afetivas.
Essa estrutura semântica e os padrões
de organização da rede afetiva,
Corporificam-se fisicamente em alguma medida no
cérebro dos indivíduos que pertencem
à rede. Podem também se incorporar
em outras estruturas biológicas por meio
de efeitos da mente sobre o corpo [...] (CAPRA,
2002:103).
E o físico acrescenta que:
Descobertas recentes das ciências da cognição
nos dão a entender que, como a mente é
sempre encarnada, ou corporificada, existe uma
interação contínua entre
as estruturas semânticas, as neurais, e
outras estruturas biológicas (CAPRA, 2002:103).
A natureza das relações afetivas
pode gerar novas formas de ser e de viver, uma
nova cultura do amor, com expressão em
todas as dimensões das organizações
sociais e culturais. Claro que a tendência
da ordem cultural é cristalizar-se e perder
a abertura flexível e criativa para o novo
e surpreendente conteúdo da vivência
afetiva. Entrar em contato profundo com a vida
do outro nos mobiliza, além de qualquer
explicação ou justificativa, a um
impulso de amor solidário, fraterno, de
compaixão. É aí o nascedouro
da ética. Essa ética organizada
e incorporada na cultura torna-se moral e pode
perder a dinâmica da vida da qual ela nasceu.
Na maioria das culturas distintas das culturas
indo-européias, viviam-se estruturas sociais
e organizações culturais que se
integravam de forma mais conectada e amorosa com
a vida no planeta, expressavam esse cuidado pela
vida no cuidado com a comunidade, onde não
havia fome, miséria, marginalidade, exclusão.
2.1.4. Um olhar para os horizontes da vida: As
mudan-ças estruturais desse padrão
em rede são compreendidas como processos
cognitivos que, por fim, dão origem à
experiência consciente e ao pensamento conceitual.
Nenhum desses fenômenos cognitivos é
material, mas todos são incorporados, decorrem
num corpo – nascem de um corpo e são
moldados por ele. Isso significa que a vida nunca
está separada da matéria, muito
embora suas características essenciais
– organização, complexidade,
processos, etc –sejam imateriais (CAPRA,
2002:103) Contudo, podemos afirmar que a expressão
da Afetividade passa sempre pela corporeidade.
Um olhar de ternura, de raiva, de ódio;
um toque de cuidado, de carícia, um abraço
com desvelo, um presente, uma fala de qualificação;
um ato de amor, de entrega, de fusão tem
sempre uma expressão corporal, expressão
material.
Por isso também, para Capra, a compreensão
sistêmica da vida, e eu acrescento, da Afetividade,
pode ser aplicada ao domínio social, acrescentando
o ponto de vista do significado aos outros três
pontos de vista. Significado = expressão
sintética do mundo interior da consciência
reflexiva, possui uma multiplicidade de características
inter-relacionadas (CAPRA, 2002:103).
Nessa quarta dimensão de abordagem sistêmica
trata-se de considerar o significado da Afetividade
na vida humana como fator de integração
em todas as dimensões da realidade em que
se expressa dinamicamente. Esse fator de integração
é o afeto. A Afetividade não é
um organismo vivo, mas a primeira e grande característica
da vida, expressa como potencial no ser pessoal
e num grupo humano. A vivência da Afetividade
é momento originário e constitutivo
de relações que tendem a se estabilizar
e formar um modo de ser e de viver, uma cultura
em rede.
No fenômeno social nos deparamos com regras
de comportamento, valores, intenções,
objetivos, estratégias, projetos, relações
de poder que ocorrem praticamente no mundo humano.
Partilham todas de uma característica básica
que nos proporciona um vínculo natural
com a visão sistêmica da vida (CPRA,
2002: 86).
A autoconsciência surgiu na evolução
dos nossos antepassados hominídeos, junto
com a linguagem, o pensamento conceitual, o mundo
social dos relacionamentos organizados e da cultura.
A consciência reflexiva está ligada
à da linguagem e do contexto social desta
e também, a compreensão da realidade
social está inextricavelmente ligada à
da consciência reflexiva. (CPRA, 2002: 86).
Especificamente:
A nossa capacidade de reter imagens mentais de
objetos materiais e acontecimentos parece ser
uma condição fundamental para o
surgimento das características fundamentais
da vida social. A capacidade de reter imagens
mentais nos habilita a escolher entre diversas
alternativas, o que é necessário
para a formulação de valores e de
regras sociais de comportamento. Os conflitos
de interesse baseados na diferença de valores,
estão na origem das relações
de poder. As intenções, a consciência
de uma finalidade e os projetos e estratégias
necessárias para a consecução
de objetivos – todas essas coisas exigem
a projeção de imagens mentais para
o futuro (CPRA, 2002: 86).
O mundo interior dos conceitos, idéias,
imagens e símbolos é uma dimensão
essencial da realidade social e constitui o “caráter
mental dos fenômenos sociais”, “dimensão
hermenêutica” (CAPRA, 2002:86). A
linguagem humana, por ser simbólica, envolve
a comunicação de um significado
e as ações humanas decorrem de um
significado que atribuímos a um ambiente
que nos rodeia. O fator essencial de conhecimento
que nos leva a atribuir um significado a tudo
o que nos rodeia é a Afetividade. Por todas
as coisas pelas quais somos tocados, somos mobilizados
à aceitação, ao agrado, à
empatia ou à rejeição.
Nesta dimensão de significação
consciente e vivencial, aborda-se o sentido da
Afetividade, desse todo vivido, conscientizado,
tornado expressão racional e poético-vivencial.
Um sentido que se efetiva na satisfação
ou crescente ampliação de uma qualidade
de vida, um sentido de abundância e de saciedade
que brota do mais profundo da natureza afetiva
do nosso ser.
Esses são os quatro pilares epistemológicos
para o estudo da realidade da Afetividade, sugeridos
e elaborados por F. Capra para a abordagem das
organizações sociais. Para nosso
entendimento, são assim instrumentos para
uma abordagem sistêmica e complexa do fenômeno
genético-orgânico-vivencial e racional
da Afetividade, uma vez que é ela que dá
o caráter primeiro e integrador de organismo
vivo a qualquer organização permeada
pelo amor.
O significado ou o sentido da Afetividade na vida
e nas redes de relações é
captado pelas exigências naturais internas
do ser afetivo, pela capacidade reflexiva sobre
nossas vivências e experiências, permitindo
perceber que o sentido fundamental é a
Integração Afetiva da Identidade
na ontogênese de nosso ser, através
da expressão e desenvolvimento dos potenciais
humanos de criatividade existencial, de vitalidade,
de conexão dos desejos mais profundos e
da realização prazerosa de nossas
ações. É ainda a realização
das nossas conexões profundas conosco mesmo,
com os outros e com a totalidade da realidade.
Na troca afetiva, a possibilidade da abundância
da vida em plenitude em todas suas dimensões.
3. CONCLUINDO
O desejo de engendrar formas de propiciar processos
de integração de grupo depende essencialmente
de nossa vontade, decisão e criatividade
em realizar nosso objetivo. O essencial é
o sentimento de amorosidade que deve “permear
nossa sala de aula” (Paulo Freire), traduzindo-se
em reiterado movimento de qualificação,
amizade, amor indiferenciado, conexão permanente
com a experiência de cada educando.
Inúmeros depoimentos de educadores indicam
que efetivamente é o processo de integração
afetiva de cuidado, de valorização,
de contato e de vínculo nutritivo que aciona
e torna presente a base estrutural da motivação
para a construção do conhecimento.
Tendo presente que nossos alunos têm em
si mesmos e por natureza um potencial afetivo
inerente à estrutura da identidade, podemos
acreditar no desencadeamento de processo vivo
de relações afetivas em rede. Acionadas
essas potencialidades de relação,
o grupo se torna o organismo vivo que potencializa
suas capacidades criativas, seus potenciais políticos,
de paixão pela pesquisa, sua consciência
critica, sua expressão de organismo vitalizado,
integrado, dando base para o respeito e a verdadeira
autoridade que brota do amor. Podemos inverter
a dinâmica atual do amor pelo poder pelo
poder do amor. O fundamento da autoridade do professor
é a afetividade articulada na relação
com os alunos. A base estrutural do conhecimento
é a afetividade e seu instrumento é
a inteligência afetiva.
Criando-se uma estrutura de relações
incorporadas em sala de aula, num processo dinâmico,
aberto, teremos no horizonte a perspectiva educativa
fundamental que é a expressão e
desenvolvimento integrado dos potenciais humanos
do desejo e do prazer, de saudabilidade do movimento
vital, enfim, de integração profunda
da identidade pessoal e do grupo consigo mesmo,
com o outro e com o cosmo. Em definitivo: a expressão
e integração da identidade humana
pela afetividade.
Ultrapassando esta reflexão, queremos na
seqüência deste trabalho, desenvolver
a temática, fundamentando nossas reflexões
em autores recomendados para o estudo da afetividade:
Wallon, R. Spitz, Vigotsky e Rolando Toro, assim
como tantos outros autores que abordam aspectos
da afetividade como: o cuidado, a ternura, o amor,
etc. Pretendemos estender a investigação
para múltiplas e complexas dimensões
às quais a afetividade faz referência.
4. BIBLIOGRAFIA
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entre Educação Biocêntrica
e a Educação dialógica de
Paulo Freire. Pensamento Biocêntrico, páginas
11-34;
www.pensamentobiocentrico.com.br
AFETIVIDADE. Curso de Formação Docente
em Biodanza –
Sistema Rolando Toro. Interational Biocentric
Fundation.
TORO, Rolando. Biodanza. São Paulo: Editora
Olavobrás / EPB,
2002
GÓIS. Cezar Wagner de L., Biodança:
Identidade e Vivência.
Edições Instituto Paulo Freire do
Ceará: Fortaleza, 2002.
SPITZ, René A. O Priemiro ano de Vida.
São Paulo: Martins
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MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento
complexo. Lisboa,
Instituto Piaget, s.d.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários
à Educação do
Futuro. São Paulo: Cortez, 2002.
MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. A árvore
do conhecimento -As bases biológicas do
entendimento humano.
Campinas, Editorial PSY 11, 1995 (orig. esp. 1985).
CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência
para uma vida
sustentável. São Paulo: Cultrix,
2002
MODELO TEÓRICO. EDUCAÇÃO
BIOCÊNTRICA. Curso de
Formação Docente em Biodanza –
Sistema Rolando Toro.
Interational Biocentric Fundation.
SIGNOR, Dorly. Filosofia e Biodança. Santa
Maria: Editora
Palotti, 2003.
1 Gaduado em Filosofia, Cursos
incompletos em Teologia e Ciências Contábeis,
Especialista em Educação, Mestre
e Doutor em História do Brasil, Facilitador
de Biodanza, professor da Universidade Federal
de Pelotas, Faculdade de Educação
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