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EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA E A EDUCAÇÃO
PARA O “BOM SELVAGEM”
Marinalva Lopes Ribeiro,
Ph.D, professora adjunta do Departamento de Educação
da UEFS.
RESUMO
Este artigo objetiva articular o pensamento de
Jean-Jacques Rousseau, filósofo francês
que viveu no século XVIII, com o pensamento
de Rolando Toro, antropólogo e psicólogo
chileno da atualidade, criador do Sistema Biodanza
e inspirador da Educação Biocêntrica.
Identificamos diversas características
da educação selvagem (Educação
Biocêntrica) que são similares à
educação do “bom selvagem”.
Palavras-chave: Educação
biocêntrica, bom selvagem, princípio
biocêntrico, Rousseau.
Evidentemente, não podemos considerar Toro
nem Rousseau como educadores no sentido de terem
desenvolvido técnicas pedagógicas
precisas. Na obra dos dois estudiosos, não
encontramos todos os pormenores, mas princípios
gerais sobre a educação. O propósito
deste artigo é apresentar traços
da educação selvagem proposta por
Toro (biocêntrica) que estão presentes
na educação do “bom selvagem”
de Rousseau. Vejamos alguns desses princípios
e em que esses pensadores se aproximam.
Rolando Toro, antropólogo e psicólogo
chileno, criador do sistema Biodança, em
seus trabalhos, tem criticado o paradigma sobre
o qual está pautada a educação
atual: o paradigma conservador. Segundo ele, o
currículo praticado na escola é
intelectualista. Cobra-se do aprendiz a memorização
de regras, conceitos e fatos que são vomitados
em provas e testes sem que esse conteúdo
livresco tenha algum sentido para a vida do ser
em formação. Ao examinar “Émile”,
obra de Rousseau dedicada à educação,
percebemos que, de modo semelhante, ele critica
a educação livresca chegando a radicalizar
a negação do livro em favor da conservação
da tradição: “A leitura é
o flagelo das crianças e quase a única
ocupação que sabem dar-lhes”
(ROUSSEAU, 1973, P. 109). E ainda:
Detesto os livros; só ensinam a falar do
que não se sabe. Dizem que Hermes gravou
em colunas os elementos das ciências para
pôr suas descobertas ao abrigo de um dilúvio.
Se os tivesse gravado na cabeça dos homens,
aí se teriam conservado por tradição”
(ROUSSEAU, 1973, p. 197).
O filósofo francês em destaque também
critica a memorização de conceitos,
nome de reis, datas, termos de heráldica,
de geometria, etc., sem que tenham utilidade e
sentido para a criança: “Emílio
nunca aprenderá nada de cor, nem mesmo
fábulas, nem mesmo as de La Fontaine, por
ingênuas e encantadoras que sejam”
(ROUSSEAU, 1973, p. 104).
A escola que está aí, segundo Toro
é arcaica e refratária à
mudança. Os ensinamentos que são
veiculados por essa instituição
não dão conta das demandas do homem
contemporâneo, nem das suas necessidades
em relação à intimidade com
a natureza, à confiança em si mesmo,
à mudança e à aprendizagem
do amor.
Desse modo, Toro propõe a “educação
selvagem”, a qual constitui uma verdadeira
revolução nos paradigmas que fundamentam
a educação escolar, a fim de que
o aprendiz possa cultivar seus potenciais genéticos
(TORO, 1991). A educação selvagem
é uma forma de devolver o instinto à
natureza humana e propiciar a preservação
da vida mediante a reaprendizagem de suas funções
originais. Toro (2002) considera que a finalidade
biológica dos instintos é a adaptação
ao meio para a sobrevivência da espécie.
No entanto, “a cultura obstrui, desorganiza
e perverte os instintos, dando origem à
patologia social e individual” (TORO, 1999b,
p. 41) O termo educação selvagem,
no entanto, polemizado no meio educacional, foi
substituído por Educação
Biocêntrica.
Partindo do sentimento de sacralização
da vida, do gozo de viver, da integração
do sujeito com seu semelhante e com a natureza,
a Educação Biocêntrica objetiva
a conexão com a vida mediante o estímulo
dos potenciais genéticos (instintos, protovivências
e vivências) que constituem a estrutura
básica da identidade biológica e
que, segundo Toro, se encontram inibidos. Em Rousseau
também encontramos a valorização
da alegria, do gozo e dos instintos:
Amai a infância; favorecei seus jogos, seus
prazeres, seu amável instinto [...] Por
que arrancar desses pequenos inocentes o gozo
de um tempo tão curto que lhes escapa,
de um bem tão precioso de que não
podem abusar? [...] fazei com que dele gozem;
fazei com que, a qualquer hora que Deus as chame,
não morram sem ter gozado a vida (ROUSSEAU,
1973, p. 61).
Na educação biocêntrica muda-se
radicalmente os componentes do currículo
para a construção do conhecimento
sobre o viver. Nesse sentido, o centro das disciplinas
passa a ser a relação do indivíduo
consigo, com o outro e com a natureza. De semelhante
forma, Rousseau questiona os conteúdos
curriculares propostos pela escola de sua época,
sugerindo que eles fossem pautados no seguinte
questionamento: “Para que serve isto?”
(ROUSSEAU, 1973, p. 190). O ensino de história,
por exemplo, baseada em fatos, não parece
ter sentido:
Acredita-se que o verdadeiro conhecimento dos
acontecimentos seja separável do de sua
causa, de seus efeitos, e que o histórico
se prenda tão pouco ao moral que se possa
conhecer um sem o outro? Se não vedes nas
ações dos homens senão movimentos
exteriores e puramente físicos, que é
que aprendeis na história? Absolutamente
nada; e tal estudo desprovido de interesse não
vos dá mais prazer que instrução”
(ROUSSEAU, 1973, p. 101).
Nos escritos rousseaunianos a natureza chega a
se confundir com o seu próprio método:
“Supondo, portanto que meu método
seja o da natureza e que eu não me tenha
enganado na aplicação...”
(ROUSSEAU, 1973, p. 164). Segundo Château
(1978) e Santiago (2004), Rousseau objetivava
uma sociedade racional e respeitosa da natureza,
entendida em sentido mais largo e mais espiritual,
mediante uma filosofia de vida que desenvolvesse
a essência interior do ser humano. Em Toro,
observamos que o homem é um ser ecológico,
cuja relação com a natureza é
essencial para o desenvolvimento da consciência
ecológica (TORO, 1999b).
A Educação Biocêntrica introduz
a dimensão que tem sido negligenciada ao
longo dos séculos: a afetividade. A esperança
de Toro está depositada na conexão
afetiva, na mensagem que vem do coração
de maneira não intelectualizada, mas vivencial
para que a vida possa ser encarada de uma maneira
mais sensível e humana. A educação
rousseauniana está longe de fomentar o
vínculo afetivo entre as pessoas. No entanto,
o sentimento é a faculdade mais elevada,
mediante a qual se atinge a interioridade e se
cultivam valores que constituem a humanidade como:
a verdade, a bondade, a piedade: “Para tornar-se
sensível e piedoso, é preciso que
a criança saiba que há seres semelhantes
a ela que sofrem o que ela sofreu, que sentem
as dores que sentiu, e outras de que deve ter
idéia como as podendo sentir também”
(ROUSSEAU, 1973, p. 245).
A escola idealizada por Toro é fundamentada
no princípio biocêntrico, de acordo
com o qual, o universo é um gigantesco
holograma vivo. “O princípio biocêntrico
se inspira na intuição de um universo
organizado em função da vida”
(TORO, 1999a, p. 12). A vida existe antes do universo
e guia a sua construção devendo,
por isso, ser sacralizada. Desse modo, tendo como
prioridade ações que permitam a
potencialização da vida e a expressão
de seus poderes evolutivos, o princípio
biocêntrico exige do indivíduo a
posição política de defendê-la,
de promovê-la e de lutar contra todos os
mecanismos de exploração, de morte
biológica, de morte social e existencial
e pelo gozo de viver, pelo direito ao amor e ao
contato (TORO, 1999b).
Para Toro, a vida é ampla e abarca tudo
o que existe: desde as bactérias, os microorganismos,
os vírus, o código genético,
até os pensamentos mais sutis. Nesse sentido,
“toda expressão, todo movimento,
toda dança, é uma linguagem vivente”
(TORO, 1999a,
p. 13). Ao examinar “Émile”,
percebemos também que a preocupação
é estudar a própria vida e conservá-la:
“logo que Emílio souber o que seja
a vida, meu cuidado consistirá em ensinar-lhe
a conservá-la” (ROUSSEAU, 1973, p.
210), pois seu aluno está em contato direto
com a natureza, com a qual aprende: “toma
lições da natureza e não
dos homens” (Idem, p. 113).
Como vimos anteriormente, Toro critica a educação
intelectualista e em seu lugar propõe que
a educação seja pautada numa metodologia
vivencial. Rousseau parece concordar com essa
idéia ao defender a aprendizagem mediante
a experiência, o próprio viver. Com
efeito, “a experiência adianta-se
às lições; [...] não
deis a vosso aluno nenhuma espécie de lição
verbal; só da experiência ele as
deve receber” (ROUSSEAU, 1973, p. 42; 78).
Para Rousseau, o século XVIII, no qual
viveu, era agitado. Nesse sentido, considerava
insensata a forma de educar a criança trancada
no quarto. Ao contrário, ela deveria desenvolver-se
em pleno contato com a natureza e de forma integral,
quer dizer, usando todos os seus sentidos, para
que pudesse viver plenamente. Viver, para esse
filósofo francês seria:
Fazer uso de nossos órgãos, de nossos
sentidos, de nossas faculdades, de todas as partes
de nós mesmos que nos dão o sentimento
de nossa existência. O homem que mais vive
não é aquele que conta maior número
de anos e sim o que mais sente a vida” (ROUSSEAU,
1973, p. 16).
Se por um lado, Toro critica a nossa cultura,
Rousseau, por outro lado, chega a considerar,
segundo Château (1978), que a integração
do ser humano na sociedade é o equivalente
do pecado original: “tudo degenera nas mãos
do homem. Ele obriga uma terra a nutrir as produções
de outra, uma árvore a dar frutos de outra;
mistura e confunde os climas, as estações
[...] não quer nada como o fez a natureza
(ROUSSEAU, 1973, p. 9). Mas, como não é
possível confinar o homem a uma vida solitária,
uma redenção seria possível
dentro da própria sociedade: responder
à voz divina, cabendo ao próprio
homem encarregar-se do seu destino e da assunção
da sociabilidade. Portanto, o selvagem a que se
refere Rousseau, foi feito para habitar as cidades,
pois a vida social é necessária:
“Emílio não é um selvagem
a ser largado no deserto, é um selvagem
feito para viver na cidade” (ROUSSEAU, 1973,
p. 225). Embora reconheça que a cidade
é portadora de valores desumanizadores,
o homem não pode viver distante dela: “Adeus,
pois, Paris, cidade célebre, cidade de
barulho, de fumaça e de lama [...] Adeus,
Paris; procuramos o amor, a felicidade, a inocência;
nunca estaremos suficientemente longe de ti”
(Idem., p. 413).
Outro ponto de encontro entre os teóricos
que estamos examinando neste trabalho é
a ênfase no movimento corporal. Jogar, correr,
pular, dançar são reconhecidos como
atividades naturais da criança. Na Educação
Biocêntrica, entretanto, trabalha¬se
com o centro afetivo que integra a motricidade,
de modo que os jogos e gestos arquetípicos,
realizados com músicas especialmente selecionadas,
tornam-se danças e são propostos
com a função de vínculo (TORO,
2002).
Finalmente, destacamos a liberdade como característica
da educação do “bom selvagem”.
Para Rousseau, ser livre é conservar seu
lugar no mundo mediante o uso de forças
naturais. Nesse sentido, o educador deve cercá-lo
de meios favoráveis para desenvolver-se
em liberdade, mesmo que ela seja, na opinião
de Château, uma liberdade “muito regrada”
(CHÂTEAU, 1978, p. 206). Se a criança
é deixada em liberdade, ela torna-se viva,
leve, bem disposta, alegre, com ar de contentamento
e serenidade, com uma fisionomia aberta e sorridente,
tornando-se, no momento oportuno, auto-suficiente
e sem angústia. (ROUSSEAU, 1973, p.168).
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Ao longo deste texto, comparamos a educação
selvagem, proposta por Toro com a educação
para o bom selvagem, proposta por Rousseau. Mostramos
que as obras desses pensadores, que tanto dignificam
a educação, se entrelaçam
e se atualizam, embora Rousseau tenha vivido há
mais de dois séculos e meio.
Observamos que esses dois idealistas criticam
os paradigmas da educação vigentes
em sua época, que se caracterizam, respectivamente,
pela intimidação moral, castigo
físico e intelectualismo. Eles apresentam
propostas inovadoras para o currículo escolar
no que diz respeito à liberdade, ao movimento
humano, ao prazer, à alegria, à
vivência e ao cultivo de valores que possam
gerar, respeitar e celebrar a vida do universo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANTIAGO, Gabriel Lomba. A concepção
de felicidade no
pensamento de J.-J. Rousseau. Revista Reflexão,
Campinas, nº
85/86, p. 11-27, jan./dez., 2004.
CHÂTEAU, Jean. Os grandes pedagogistas.
São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1978.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da educação.
São Paulo :
Difusão européia do livro, 1973.
TORO, Rolando.Teoria da Biodanza. Coletânea
de textos, v. 1 e
2. Fortaleza, Ceará: Alab, 1991.
______. Definicion y principio biocentrico. Curso
de formación
docente de Biodanza. Santiago de Chile, 1999a.
______. Educacion biocentrica. Santiago: Escuela
modelo de
Biodanza, 1999b.
______. Biodanza. São Paulo: Olavobrás,
2002.
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