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ARTE
- IDENTIDADE
Cezar Wagner de Lima Góis
Dr. em Psicologia pela Universidade de Barcelona
Prof. de Psicologia da Universidade Federal do
Ceará
INTRODUÇÃO
Adotei a expressão Arte-Identidade em 1990,
a partir dos trabalhos de criatividade que realizava
em Biodança, como a Coragem de Criar e
a Dança das Máscaras.
Baseando-se na obra de Nise da Silveira (Museu
do Inconsciente), Jung, Rolando Toro e outros
trabalhos na área de Arte-Terapia, vi que,
de fato, a arte realizada sob determinadas condições
pedagógicas e terapêuticas, tem o
poder de atuar positivamente sobre o mundo arquetípico
e primal do indivíduo, favorecendo processos
de regulação da mente e da existência.
Ademais, influi positivamente sobre a expressão
do si-mesmo que, aqui, denominamos de Identidade
Pessoal.
Para nós, do ponto de vista da Psicologia
e da Biodança, a arte é um importante
caminho de expressão e recriação
da identidade pessoal e da própria mente
humana. Marca o momento da grande mudança,
quando o “homo” não só
representava em sua mente o que via e vivenciava,
mas passou a traduzir isso externamente na forma
de desenho nas cavernas. Aí se revela com
todo o seu poder a imaginação humana.
Nesse momento o “homo sapiens” deu
o salto em direção ao humano atual.
Enquanto isso outro “homo” desaparecia
- o Homem de Neanderthal.
Podemos dizer que três grandes momentos
nos fizeram: a descida das árvores, o uso
do fogo e a pintura nas cavernas – a arte.
A imaginação surge com o gesto tosco
de riscar e este riscar vira pintura, que recria
a imaginação que transborda como
arte, como expressão do si-mesmo em sua
forma primitiva nascente e vinculada ao mundo
circundante.
Esse é o ponto de partida para entendermos
a arte como expressão da identidade pessoal
e coletiva, por isso a proposta da Arte-Identidade,
uma proposta ao mesmo tempo pedagógica
e terapêutica de expressão, recriação
e fortalecimento da identidade pessoal e coletiva.
IDENTIDADE
Fica claro, em meu entender, que, a partir da
vida nas cavernas, o ser humano traz consigo um
potencial de vida capaz de projetá-lo em
múltiplas possibilidades de realização
e singularidade. Somos sementes do Cosmos, palpitando,
vibrando, unidos por uma rede de relações,
fios de natureza que nos une entre si e ao infinito,
e que, por sua vez, nos chama a dançar
com autonomia e plenitude o movimento eterno.
Nada pode deter essa comunicação
e chamado, a não ser a própria vida
em seu fluxo auto-organizador, em sua sabedoria.
Cada ser vivo é uma semente que vibra e
se expande conduzida por uma experiência
de bilhões de anos. Não há
na cultura algo mais sábio e preciso.
Somos sementes como a própria semente,
buscamos nutrição, vínculo
e crescimento. Ao jardineiro cabe nada mais que
cuidá-las com amor, atendendo-as nos caminhos
que fazem para algum lugar do infinito, revolvendo
a terra e adubando-a, regando e podando com cuidado,
estando presente, amando-as. As próprias
sementes saberão fazer os seus caminhos,
seguindo seus fios de natureza.
Cuidar da manifestação da vida é
cuidar do amor. Não é um caminho
fácil, é preciso sentir o coração
da Natureza e perceber a profunda realidade da
vida acontecendo, cada vez mais, com maior complexidade,
sutileza e diversidade.
O sentir a vida, o sentir-se vivo, revela a identidade
como presença, como expressão natural
e espontânea da vida, acontecendo como singularidade,
como auto-poieses particular (si¬mesmo) da
auto-poieses Universal. Do sentir-se vivo é
que surge a percepção do si-mesmo,
de um sentimento de vida, do qual emerge um processo
antigo de desdobramento da vida em sensações
corpóreas, sentimentos e reflexões.
A identidade vem daí, da Biologia em direção
à Psicologia, da transformação
do animal em espírito enraizado ou corporeidade
vivida, do desdobramento do selvagem em linguagem
e o seu retorno a um lugar antigo, primal, fonte
de sua aparição e concretude em
um mundo natural e espontâneo – a
vida animal.
Ao retornar ao movimento primordial, à
vida instintiva, nos conectamos a uma verdadeira
conspiração pelo ato de viver, pelo
despertar de nossas potencialidades, possível
em um mundo sensível de movimento, nutrição
e amor. O movimento primordial é o gerador
primeiro de nossa essência singular e libertária,
semente original que pulsa e impulsiona o ser
à vida, que se inclina a florescer em dimensões
cada vez mais plenas de um ser criatura e criador.
Sinto profundamente a existência de uma
essência humana libertária, de algo
interior que impulsiona o ser à vida e
a algum lugar do infinito, cuja origem não
reside na consciência ou em qualquer forma
de representação mental, mas sim,
em nossa raiz animal e selvagem, natural, mundo
bruto e indiviso. Aí encontramos a Vida
como possibilidade singular, potencialidade muitas
vezes bloqueada, reprimida, negada, porém
sempre presente. Só desaparece com a destruição
do ser (Rogers, 1986). Para conectar-se com ela
é necessário “o retorno às
origens da própria reflexão e descobrir
seu solo anterior à atividade reflexiva
e responsável por ela“. (Chauí,
Merleau-Ponty, Coleção Os Pensadores,
1984:VIII).
A vida presentificada como identidade é
algo em construção, que se faz permanentemente
como singularidade, portanto, ela é única
e, ao mesmo tempo, variável, invariável,
contínua, descontínua, próxima
ao equilíbrio e afastada do equilíbrio.
Reconheço a identidade como metamorfose
(Ciampa, 1987), como processo dialético
histórico-cultural, construindo-se como
ação e contradição
em um cotidiano social e determinado. Entretanto
isto não nega a sua raiz antiga e natural
No estudo de Severina, realizado por Ciampa (1987),
o que surge de revelador é o processo contraditório
de desvinculação (violência,
fome, miséria, exploração
e loucura) e de vinculação (aceitação,
amor, apoio e trabalho). Em todo momento, Severina
sentia que era preciso viver, a vida lhe impulsionava,
lhe dava forças para se realizar. Seu projeto
de vingança era aparente, se revelava frágil
diante de todas as situações de
amor que encontrou. O sentimento de vida, anulado
em boa parte de sua vida, a manteve, ainda assim,
capaz de buscar e encontrar o caminho do vínculo.
Por mais deteriorada que estivesse sua tendência
à vida e à realização
do si-mesmo, foi capaz de emergir ante a presença
de situações de vínculo e
amor.
Ciampa (1987) enfocou a identidade como metamorfose,
como fenômeno histórico-cultural,
mas em seu estudo há algo de fundo que
é a fonte mesma da identidade, algo configurado
em um código genético e originado
no movimento de auto-poiese do Universo, movimento
primordial de um mundo sensível, instável
e auto-organizado. Assim, considero a identidade
em sua historicidade a partir de sua realidade
biológica e natural.
O problema da identidade é discutido há
muito tempo e, ainda hoje, se encontra em meio
a controvérsias. Para Platão, a
identidade se constitui como o que é idêntico
a si mesmo. Uma coisa não pode ser igual
a ela mesma, a igualdade inexiste. A não
pode ser igual a A, A é A, ou seja, é
o que é. A identidade é algo próprio
de uma individualidade que define o ser, jamais
reproduzida em outra. Para Aristóteles,
A é A (Princípio da Identidade)
e A não pode ser não-A (Princípio
da Exclusão).
Heidegger (1981) situa o problema da identidade
no sentido de sua unicidade e presença
no mundo, mas não a situa como negação
de si mesma. Esta a encontro tanto em Piaget (1968),
quando fala da identidade como sendo a mesma e
em permanente mudança, ou seja, A é
A e também Não – A; como em
Buber (1977), quando diz que A só é
A em presença de Tu, quer dizer, existe
a necessidade de um diálogo profundo, íntimo,
com o mundo (Tu, qualquer coisa, Deus), para a
identidade revelar-se plena, única e, mais
ainda, grandiosa, emergência do sagrado
e expressão de um diálogo com o
Tu Eterno (Deus), a totalidade Eu-Tu (uma relação
e não uma unidade ou fusão). Além
de situar a experiência (Eu-Isso) como básica
Buber enfatiza o transcendente na identidade,
o Tu Eterno da relação Eu e Tu.
Toro (1988) compreende a identidade a partir da
vivência do estar-vivo, uma intimidade com
a vida essencialmente visceral. A identidade emergindo
da diferenciação genética
(seleção natural e evolução
biológica), e primariamente voltada para
a conservação da unidade e da sobrevivência
do indivíduo (auto-regulação
visceral, homeostase, correlação
intra-orgânica e proteção
imunológica).
A vivência fundamental da identidade surge
como expressão endógena do estar
vivo. A vivência primordial do estar vivo
é a mais comovedora e intensa de todas
as vivências (...).
A vivência de estar vivo estaria afetada
constantemente pelo humor corporal e pelos estímulos
externos, entretanto, sua gênesis seria
visceral. A vivência do estar vivo daria
origem a dois estados diferenciados: as primeiras
noções sobre o próprio corpo
e as primeiras noções de ser diferente
(Toro, 1991: 271- e 272).
Entendo que a identidade é um fenômeno
antes de tudo biológico e relacional, surge
das sensações endógenas,
necessita do outro e se constitui como paradoxo:
a. Venho mudando, porém sou o mesmo; b.
Só me faço presente na presença
do Tu. A identidade é visível (corporal)
e inacessível à interpretação,
por ser expressiva e estética.
Tomando como ponto de partida as reflexões
anteriores, compreendo a identidade como “o
mesmo“ (Parmênides), ou melhor, a
capacidade de se sentir como centro de percepção
de si e do mundo, em um profundo sentimento de
estar-vivo, sentimento este que é corporal,
comovedor e conectado a tudo o mais. Isso implica
que o ponto de partida estruturador da identidade
é o sentir-se vivo, instante de transmutação
da corporeidade vivida em mais presença
e vínculo com o mundo.
Por esse caminho vejo a identidade como expressão
de uma totalidade e não de partes de si
mesmo, só possível de se realizar
na imediaticidade do viver, portanto na vivência
e não na consciência.
A identidade, como presença, não
se pensa, se vive no aqui-agora - Presente Eterno.
Ela é inacessível a qualquer forma
de compreensão e visível frente
ao outro. É acessível ao outro e
à própria pessoa somente na vivência.
Só em seus aspectos parciais se constitui
como significado ou noções de si
mesmo, como história e cultura. A identidade
é a vida acontecendo singular-mente, a
vida se revelando em sua imediaticidade e beleza.
O ser humano é incapaz de compreender a
identidade (ou o si-mesmo no mundo), mas é
capaz de senti-la, intuí-la e viver a liberdade
nela presente, principalmente na forma de movimento
e expressão.
Pulsando em metamorfose, a identidade se faz presente,
sendo ao mesmo tempo pequenez e grandiosidade,
particularidade e totalidade, concretização
da vida acontecendo como singula¬ridade, imediaticidade
e universalidade - corporeidade vivida.
Desse modo, não podemos encontrar a transcendência
fora dos afazeres da vida diária, nem tampouco
estes sem a transcendência, sob pena de
nos debilitarmos ou destruirmos a nós mesmos.
A vida em sua simplicidade e plenitude é
imediata e cotidiana; pulsando, transforma-se
em mais vida.
Não podemos falar de vivência imanente
ou de vivência transcendente. Elas constituem
um único fluxo ou expressão da identidade,
presente em cada vivência e fazendo-a expressão
inteira e conectiva do ser no aqui-agora. Nesse
sentido a identidade evolui como identidade-amor,
ou seja, o amor como expressão de uma corporeidade
vivida (identidade presentificada), conectiva,
em uma relação de totalidade com
outra identidade, uma pessoa inteira com outra
pessoa inteira. (Simmel, 1993).
Em cada vivência biocêntrica há
um caminho para a construção da
identidade-amor, expressão mais elevada
do animal feito espírito, desdobrado do
instante em espírito enraizado, em comoção,
comovido. Desse modo o ser se faz sentido, pois
avança na direção do amor,
a mesma direção da evolução
da ética que, enraizada na vida instintiva,
segue o rumo da evolução do espírito,
o qual, em outro tempo foi e ainda hoje e por
toda a vida do ser será um antigo animal
comovido pelo instante. A expressão da
identidade é a condição primeira
para que o ser se torne amor, condição
essa natural e biológica, anterior à
historicidade e necessitando dela.
O amor é algo que ultrapassa os limites
dos sentimentos e das emoções, é
a expressão maior do encontro, como propõe
Buber (1977). Não pode ser encontrado como
algo parcial de uma relação, e sim
sendo a própria relação,
só possível mediante nossa presença
no mundo.
As vivências biocêntricas (imanentes-transcendentes),
quando surgem, levam o ser a uma maior complexidade
existencial (pulsação-metamorfose),
a mais autonomia - presença abrangente
no mundo e abarcada pelo encontro. As vivências
biocêntricas geram o Ser-Amor. Enquanto
o Ser-Objeto se encontra no ser que experimenta
as coisas (Eu-Isso), o Ser-Amor é o ser
que vivencia a vida (Eu-Tu), só possível
em uma relação de totalidade e não
em uma relação com objetos. A vivência
da vida é uma relação de
encontro - de Amor.
Nada fundamental
Emergem
Do húmus, do vazio fértil
Do longo canal até a luz
Os contrários...
Sem ser
Sou eu
Um nascer
Uma corporeidade amorosa
Suave brisa efêmera da Vida
No templo das chamas
Construída no chão do útero
E aberta por rios interiores
Que desagua no oceano de estrelas
Sem ser
Sou eu
Uma dança... um sentimento de vida
Sem começo e nem fim
Nada fundamental
Como vida e como morte
Um é dois e quatro
Particular Universal
Presença eterna
Sou eu
Sem ser
(Cezar Wagner, Taíba, 29.11.92 )
ARTE
Quando falo de arte estou falando de sensibilidade,
de estética, de harmonia, do belo, da composição
poética, da dança; estou falando
especialmente da expressão pessoal corriqueira
com a qual lidamos diariamente na forma de trabalho,
lazer, vida familiar, emoção, sentimentos,
prazer, luta, futuro, etc. É o belo verdadeiro!
Na arte interessa-me que a pessoa possa superar-se
em cada gesto, superar seus medos, vencer suas
angústias, dominar suas ansiedades e aflorar
o seu potencial de vida.
A arte é um caminho essencial e indispensável
da mente humana para a expressão do Si-Mesmo,
caminho pelo qual podemos ser nós mesmos.
Criar é viver. Quem vive, cria. Criar é
instalar o novo, sabendo que nesse instante se
tornou velho. Criar é pegar o velho e explicá-lo
de novas maneiras. Criar é transcender
o novo e o velho.
Criar é ir fundo dentro de si mesmo, aceitar-se
como criatura e movimentar-se como criador.
Nesse sentido a arte antes de tudo é um
processo de recriação. Não
é um fim em si mesmo. Não é
estática. A arte é possibilidade
de ser só e junto. Arte e identidade são
inseparáveis. Quando se trabalha com arte
está-se favorecendo a identidade. Arte
não é uma entidade. Serve como canal
de apropriação de uma dimensão
da realidade que não é muito conhecida
e desenvolvida. A arte consegue penetrar de forma
imediata no mundo sensível¬intuitivo,
integrando-o ao reflexivo.
A experiência que tenho em Biodança
e Psicologia Comunitária, trabalhando com
arte, é algo fabuloso. As pessoas conseguem
se expressar espontaneamente através de
uma colagem, argila ou pintura, e se potencializar
numa dimensão comunitária e universal
de ser igual. Há um processo de identificação
no qual se desenvolve o vínculo individual
entre cada pessoa e no grupo como um todo. O vínculo
fortalece a identidade fazendo com que o indivíduo
se revele em sua força e coragem, assumindo
essa grandeza de si.
Quando as pessoas se juntam para uma criação
coletiva, estão se doando umas às
outras, ao próprio Universo. Nesse momento
há um campo criativo entre as pessoas,
no qual se indiferenciam, se diluem. Na criação
coletiva não tem partes, ou seja, ninguém
individualmente está preso a um determinado
ponto. Nesse processo de indiferenciação
cada um se perde no outro e no material de trabalho,
vivendo um consentimento mútuo, ou melhor,
uma cumplicidade universal que não pertence
a eles próprios.
A vida nesse instante emerge autônoma, espontânea,
já que as pessoas não se intitulam
como referenciais máximos ou mesmo como
proprietárias da vida. Cada pessoa emerge
como força instintiva, criadora do mundo
e de si mesmas. Estão entregues à
totalidade, estão em profunda comunhão
– cada pessoa é a própria
arte. Está em profunda comunicação
consigo mesma, com os outros e com o Universo.
Acontece uma infiltração, uma identificação.
Cada qual se deixa entrar no outro, saindo inteiro
em sua singularidade (Cezar Wagner, Ana Luísa
Menezes e Altamir Aguiar, 1993, 2005).
Argila
Quando as pessoas entram em contato com a argila
ficam meio apreensivas, curiosas. Algumas sentem
logo vontade de botar a mão na massa. Outras
se assustam, têm medo do que a argila pode
fazer com elas... Mas como?! A argila parece tão
inofensiva...
A argila é um deflagrador das emoções
e da verdade interna de cada ser que se deixa
sensibilizar-se. Não precisa de muita técnica
para conectar-se com as emoções
no trabalho com argila. Parece já haver
uma intimidade, um vínculo forte e primitivo
entre o ser humano e o barro. Um vínculo
transcendental que remete às bases primeiras
da espécie humana. Acontece uma forte vivência
arquetípica.
Nessa relação, as pessoas mexem
com a argila e a argila mexe com elas. Um movimento
que é integrado, dinâmico, dialético
e profundamente sensível. A pessoa se transfiguração
em arte, em criação de si mesma.
As esculturas são arquetípicas,
emergem da sensibilidade antiga, da emoção
primordial. São também simbólicas,
pois expressam uma história social, cultural,
e um sentido existencial. Um mesmo símbolo,
uma mesma imagem, pode ter diferentes significados
e, com certeza, formam diversas histórias.
Portanto, são singulares, qualitativos,
únicos, pois a vivência em argila
é única, indescritível, inclusive,
para o indivíduo que a vivencia. As transformações
que ocorrem no indivíduo ultrapassam qualquer
objetivo puro e racional.
Cada vez que o indivíduo toca na argila
e cria algo, está criando a si mesmo. Qualquer
coisa nova surge. Cada escultura é a sua
emoção realizada. A emoção
esculpida torna-se elemento essencial e potente
da objetivaçâo do ser no mundo. A
partir do momento que ele cria, mostra ao mundo
a possibilidade de mudança. A dinâmica
não pára.
As pessoas começam a ter a sensação
de que estão profundamente vivas. Nesse
trabalho não existe projeção,
mas sim transmutação de energia.
Na intimidade com a argila, muitas imagens vão
surgindo, imagens profundas do Universo e da espécie
humana que são muitas vezes negadas pela
cultura e pela própria racionalidade.
A argila tem uma força evolucionária,
pois nega a negação de si mesmo.
Aponta para a transparência da identidade,
possibilita a expressão de si. Quando o
indivíduo se expressa está se colocando
no mundo, dizendo seu verdadeiro nome. Consiste
na liberação aliada à criação.
Quando o indivíduo começa esse processo
de construção de si mesmo no mundo,
fica difícil de parar. Descobre sua força
e percebe que a arte é expressão
do seu próprio ser – se descobre
criatura e criador (Cezar Wagner, Ana Luísa
Menezes e Altamir Aguiar, 1993, 2005).
Dança e Música
O movimento é a propriedade básica
e mais geral da vida, junto com a diversidade
e a integração. Quando nos movemos
temos a expressão mais genuína da
vida acontecendo em nós na forma de gesto
ou dança.
A dança é o movimento do ser visível,
estético e expres¬sivo, capaz de autonomia
e vinculação. Cada gesto, cada expressão,
revela a vida sucedendo como singularidade. Olhar
e ser olhado, abraçar e ser abraçado,
acariciar e ser acariciado, caminhar, saltar,
correr, deitar-se no chão, mover-se com
potência e suavidade, aproximar-se e afastar-se.
Todos esses gestos vêm de muito longe e
é necessário vivê-los.
Cada gesto constitui a vida humana emergindo desdobrada
do movimento geral do Universo, da dança,
das energias/par¬tículas, da dança
do pólen e das estrelas – dança
de determinações e indeterminações
- dança da harmonia gerando o caos e este,
como Pai, germinando a Mãe que o gerou.
Quando cessa o movimento, cessa o calor, a vida,
vem o frio e a rigidez. A depressão, como
qualquer doença, caminha neste sentido
da degradação da vida e do ser.
Ao contrário, quando nos movemos espontaneamente,
sentimos nossa abundância interior em cada
gesto - sentimos a vida plena.
Mover-se é pintar na tela da realidade
a existência, bem antes de conhecê-la.
Os gestos em Biodança são plenos
de expressões de vínculo e vivencialmente
mobilizadores. Estão integrados à
música cultural, principalmente acústica,
e à musicalidade da natureza.
Esses gestos estão no cotidiano de qualquer
pessoa ou qualquer povo, em qualquer época
ou lugar. Revelam a profunda intimidade entre
o sagrado e o profano (Eliade, 1992). Não
derivam de uma cultura, senão que surgem
dentro dela como expressão de profundos
sentimentos individuais e da espécie. Tomam
muitas vezes formas culturais, tais como nos ritos,
na arte, na religião, nos costumes, na
técnica e no ato simples de uma pessoa
em seu dia-a-dia.
Emergem através das culturas, mas não
são produções culturais,
são manifestações da sensibilidade
frente à vida nas formas as mais variadas,
do movimento ao símbolo, da ação
ao pensamento. Revelam profundos sentimentos da
espécie humana frente à vida.
Em qualquer gesto humano, em qualquer cultura,
a espécie se faz presente -matriz biológica
do gesto, estrutura estruturante.
Nem todos os gestos, mesmo sendo eles originados
na vida, estão voltados para a vida. Muitos
decorrem de concepções do mundo
originadas em um rigor intelectual desprovido
de sua raiz sensível e inocente, sem vinculação
com a vida mesma, como é o caso dos gestos
fascistas de uma pessoa, de um grupo ou de uma
sociedade e podem, também, provir de um
ser em degradação.
O movimento humano está integrado à
musicalidade cultural e à musicalidade
de todo o Universo. O movimento é dança
e, também, música (Fux, 1983).
A dança é a expressão mais
extrema do Eros Primordial, gerador de vida.
Entregar-se à dança é um
ato prazeroso e terrível de participação
nos grandes enigmas de transformação
cósmica; é participar na essência
da criação, fazendo surgir o movimento
da milenar aprendizagem do contato, do trabalho
e da brincadeira.
A dança é não só temerário
ato de vinculação ontocosmológica,
senão também a celebração
da comunidade entre os homens. Tem dupla origem,
portanto, uma origem sagrada e uma profana, um
elemento de eternidade e um de fugacidade.
Na comovedora vivência da dança todas
as fronteiras são derrubadas. O externo
e o interno, o espiritual e o corporal, o transcendente
e o imanente, são aspectos de uma só
e única realidade. Ali no movimento inseparável
dos corpos, misturam-se as energias do coração
com as que chegam do Cosmos, do vento e das estrelas.
Da inocência, da dança surge a mais
avassaladora sensualidade, porque os batidos da
vida são sempre um impulso do contato.
Os corpos possuídos pelo ímpeto
da dança reproduzem, as tempestades do
mar e tremor das flores ao vento (Toro, 1991,
p.487).
A música sobrevive aos tempos, acompanhando
a humanidade em sua evolução. Em
sua forma inicial, antes do humano, era música
do Cosmos, som da Natureza; aos poucos a música
se desdobrou em grunhidos, sons fragmentados,
sons articulados, onomatopéicos, canto
e depois em fonética.
A voz humana surgiu como som da Natureza e depois
como som cultural, primeiramente a partir de um
estado emo¬cional, de uma comoção;
depois, como canto, coro, mantra, lin¬guagem
e música, levando o ser humano cada vez
mais para dentro de si mesmo – o Ser musical.
Construindo-se na musicalidade do Universo e no
próprio som de sua espécie, o ser
humano é ritmo, vínculo com a pulsação
da totalidade, é melodia, na intimidade
da relação com o outro; é
harmonia, no silêncio e quietude do si-mesmo.
Vincula-se com a totalidade, com a espécie
e consigo mesmo por meio de pautas musicais. A
música tem a propriedade de tocar imediata
e profun¬damente o ser humano como a outros
animais. Altera todo o corpo, desde as sensações
mais elementares até as estruturas emocionais
crônicas resistentes a outras artes e técnicas
terapêuticas.
Os estudos sobre a música e sua influência
nas pessoas revelam a capacidade terapêutica
contida nas pautas musicais. Podemos afirmar que
o ser humano necessita da música, como
da água, do alimento, da dança e
do outro.
Dançar...
É tecer a Vida Encontrar cores Na terra
molhada, na água de chuva No sol da manhã
entre as nuvens No pássaro que pousa na
árvore Próximo ao seu ninho
Viver...
Encontrar-te na chuva, no sol Nessas manhãs
de verão, em noite de luar Nas estrelas
Ver-te olhar o mundo No infinito mistério
da união Celebrar a vida em suave canto
Bela, voraz, voluptuosa Brotando em seiva nos
corpos desnudos Desmanchar-se em fornalha Incendiando
o instante De te ver, de fundir corpos E renascer
abraçados, abrasados
Dançar...
É estar ao teu lado Construindo a cidadania
Defendendo a vida da opressão É
ouvir atento vindo dos teus lábios O canto
de justiça e liberdade Sofrer por ti e
por quem não se conhece Lutar por ti e
por quem não se conhece Participar da vida...
Viver...
Olhar a noite escura E de pé, de rosto
para as estrelas Ser viagem, tornar-se luz De
muito longe, de todos os lugares Homem-Estrela
Adormecer na noite Silêncio de Sábio
Quietude de recém-nascido Viajar em tempos
e espaços dobrados De magia e estórias
sem fim Sem temer planícies e abismos Navegar
e ser criança Andar e voar por montanhas
contigo E tanto mais Enfrentar o sombrio lago,
mar tenebroso Das fantasias, do terror, do poder
E brincar com inocência e arte
Dançar a Vida...
Encontrar-me brotando No amor que fracassa e que
floresce No amigo que encontro Na cidade que construo
contigo Nos filhos que me ensinam O que não
consegui ensinar-lhes Na passagem dos anos No
tempo e no não-tempo Do amar. (Cezar Wagner,
For, 03/08/92)
Dramatização
Vem do grego (drama = ação). Moreno
propõe a ação como base da
existência.
Moreno nunca trabalhou ao estilo psicológico
de escutar horas intermináveis seus pacientes,
numa atitude mais passiva do que ativa. Sempre
foi muito atuante. Nunca admitiu a possibilidade
de sucesso diante de uma conduta passiva. Tal
modo de pensar evidencia uma personalidade expansiva,
ágil e fortemente extrovertida. Anzieu,
referindo-se a Moreno, atribui-lhe o lema de que
o homem está no que faz e não no
que oculta. Tem aversão ao divã
psicanalítico, onde o paciente fica preso,
estático. Há necessidade de espaço
para o movimento e atuação do paciente.
Não aceita o consultório médico
como um confessionário; há necessidade
da participação e da interação
de outras pessoas. A teoria moreniana é
basicamente dialógica. Nunca o Eu poderá
encontrar-se através de si mesmo, só
poderá encontrar-se através de um
outro, do 'tu” (Fonseca Filho, 1988, p.6).
O jogo dramático é um meio de retomar
vivências gravadas na história individual
e coletiva, trazê-las ao presente como vivência
do presente e não do passado, facilitando
ao participante a condição de protagonista
e espectador, com outros, de si mesmo. Cria o
distanciamento necessário à manifestação
da consciência do vivido, onde o material
psíquico acumulado por repressões
é transformado em instante vivido e elaborado
como realidade presente.
O uso da dramatização (como técnica
psicodramática ou como teatro popular),
requer um preparo do facilitador para lidar com
a atividade psíquica revelada como drama
pessoal e político, individual e coletivo.
No meio comunitário, visa aos participantes
lidarem com a sua história pessoal e comunitária
construída na realidade em que vivem e
onde o drama de suas vidas se desenrola, sempre
numa perspectiva de construção do
indivíduo que se faz sujeito de seu mundo
em busca de um mundo novo. Não é
estimulada a situação psicoterápica,
mas, em alguns momentos, há de se lidar
com ela. O sentido da dramatização,
em Psicologia Comunitária, é o jogo
da espontaneidade, da criatividade e da consciência
(Moreno, 1990), em um contexto dialógico,
transformador e libertário, revelador da
opressão e da anulação (Boal,
1980) e, ao mesmo tempo, impulsor da construção
da identidade e de um novo modo de vida comunitário.
Os moradores interpretam papéis de seu
cotidiano, trazendo à cena o modo de vida
do lugar, seus problemas e dificuldades, seus
êxitos e encontros, suas lutas, danças,
festas, brincadeiras e sátiras, suas buscas
e esperanças. Interpretam a vida de oprimido
(Boal, 1980) e de sujeitos em construção
- identidade como metamorfose (Ciampa, 1987).
Teatro de Rua (Junio Santos)
É a origem mais genuína e popular
do teatro que expressa com graça e brilho
a dureza cotidiana do homem comum, refletindo
e apontando caminhos para superar os desajustes
sócio¬políticos da vida atual.
A origem do teatro de rua se confunde com a própria
história do homem, tendo como fonte primitiva
os rituais tribais, onde o homem procurava dramatizar
as experiências cotidianas da caça.
Outras fontes do teatro de rua podem ser consideradas
os ditirambos gregos, o culto ao deus Dionísio
e os espetáculos religiosos da idade média,
na Europa. A partir desse momento e mais adiante,
com a comédia Del'Art, o teatro livre de
rua, com seus famosos atores mambembes, passaram
a ocupar as praças e feiras das cidades
e lugarejos, levando ao povo sua mais antiga forma
de expressão.
O teatro de rua trabalha em seus atores, além
do prazer pelo fazer teatral, a satisfação
política de torná-lo instrumento
eficaz de transformação do mundo
presente. É comum o teatro de rua ser praticado
por jovens, crianças, sindicalistas e movimentos
populares em todo o território nacional.
Porém, hoje, a prática desse fazer
teatral é mais evidente no nordeste brasileiro,
especialmente nos estados do Sergipe, Rio Grande
do Norte, Ceará e Maranhão.
Em meados dos anos '60 a Bahia iniciou forte movimento
chamado Teatro Livre da Bahia, que influenciou
artistas sergipanos propiciando a criação
do Grupo Imbuaça de Aracaju, o Mambembe
entre outros.
No Rio Grande do Norte surgiu, além da
grande Cia. Alegria Alegria, o maior movimento
independente de teatro de rua da América
Latina, o Escambo Teatral de Rua, que conta com
a adesão de 40 grupos do Rio Grande do
Norte, Ceará e Maranhão, multiplicando
a vontade de brincar de teatro entre atores e
cidades inteiras.
Além desse forte e jovem movimento, o teatro
de rua brasileiro dispõe de um elenco de
grupos e companhias do mais alto nível
de renome nacional e internacional como o Tá
na Rua do Rio de Janeiro, o Galpão de Belo
Horizonte, a Turma da Aldeia do Rio Grande do
Sul, entre outros, que gozam de uma vasta experiência
acumulada de vários anos de luta.
Em Icapuí -Ceará, cidade de 13.665
habitantes, o teatro assume um papel de extrema
importância político-pedagógica,
quando procura atingir todos os níveis
e faixas etárias da população,
trabalhando vários temas de interesse social
e político. O teatro de rua se revela para
a história do povo icapuiense como uma
sonda que perfura e aponta para todas as direções,
perpassando as consciências do homem praiano,
no sentido de construir uma nova mentalidade,
mais humana e solidária (Junio Santos e
Ray Lima, 1994).
CONCLUSÃO
Criar significa, entre outras coisas, transformar,
inovar, crescer, mudar a si e ao mundo, com o
mesmo gesto, no mesmo ato.
Fala-se de adaptação equivocadamente,
visto que o que ocorre de fato é um processo
de transformação recíproca
entre indivíduo e realidade objetiva, no
qual o mais evidente não é uma ação,
e sim uma interação, ainda que seja
entre sujeito e objeto. O mundo se subjetiva e
se torna realidade interna e particular do ser,
enquanto este se objetiva no mundo como singularidade,
como expressividade, como arte. Por outro lado,
o objeto transformado se torna símbolo,
ganha significação, se faz sensibilidade,
se faz, também, arte.
O animal explorador se orienta por sinais, investiga
o ambiente para se proteger, habitar, alimentar-se
e procriar. Ao passar à condição
humana, torna-se curioso e apaixonado, manipula
objetos e faz arte, quer conhecer o mundo e construir
seu próprio caminho. Expressa realidades
internas singulares na forma de gesto, símbolo
ou ação. Torna-se espírito
enraizado em permanente recriação
existencial.
O processo criativo se dá desde o Universo
em evolução (nebulosas galáxias,
estrelas, planetas), passa pela divisão,
renovação e integração
celulares e se estende até as formas mais
sensíveis e complexas da criação
humana como uma sonata, uma pintura ou, inclusive,
um conhecimento ou uma tecnologia. Autopoiese
particular de uma autopoiese Universal.
Desse modo entendemos a Arte-Identidade, uma abordagem
pedagógica e terapêutica que toma
como ponto de partida a arte como mediadora da
relação indivíduo-indivíduo¬mundo,
como facilitadora da expressão do potencial
de vida inerente a todo ser humano, o qual, por
muitos caminhos anseia expressar-se, fazer-se
singularidade amorosa.
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