| |
|
PROTOVIVÊNCIA
E VINCULAÇÃO ARQUETÍPICA
EM BIODANZA
Nilza Solange Almeida de Quadros
A partir da monografia que realizei com vistas
a titulação em Biodanza escrevo
este pequeno artigo sobre o tema e a partir dele,
porque continuo a acreditar que as protovivências
são determinantes na vida de um ser humano.
E, só a partir de uma mudança social
de respeito e seriedade para o cuidado da gestação
e com as nossas crianças é que poderemos
vislumbrar um mundo sem violência. Porque,
pergunto –o que têm gravado na memória
de sua infância, estas pessoas que hoje
estão mergulhadas na violência e
no mundo do crime?
Protovivências são as primeiras vivências
de uma pessoa, fundamentais e determinantes na
sua vida. O primeiro minuto é o mais importante
da vida, o segundo minuto é o segundo mais
importante e assim por diante. Toda a vida de
um ser humano poderá ser determinada nos
seus primeiros anos.
Segundo o Modelo Teórico de Biodanza, as
protovivências estão localizadas
logo a seguir do código genético
e, o trabalho em Biodanza pode influir nestas
diretamente e atuar, para que o potencial do ser
individual se expresse. E, assim mesmo com as
influências negativas do meio, as pessoas
podem ser mais felizes.
São as protovivências determinantes
na expressão do nosso potencial de amor
e da nossa capacidade de sermos felizes?
Pela definição de Biodanza, segundo
Rolando Toro: “Bio-danza é um sistema
de integração afetiva, renovação
orgânica e re-aprendizagem das funções
originárias da vida.” (TORO, 1991,
p.3)
A integração afetiva seria, então,
restabelecida de uma unidade perdida entre percepção,
motricidade, afetividade e funções
vicerais. E, onde perdemos esta unidade? Será
que a perdemos ou não a tivemos? Devido
ao modo como nascemos e vivemos nossos primeiros
anos de vida e socialização (ou
aculturação), será possível
pelo menos nos aproximarmos desta unidade?
É loucura pensar e sonhar que a vida das
pessoas seria melhor caso elas fossem desejadas
e amadas desde antes de nascer?
O milagre da concepção é
um momento único para um ser único
que cria e se recria no universo.
“Nossas vidas não estão lançadas
ao acaso, como meteoritos, andando no espaço
côncavo. Nossas vidas surgem da sabedoria
milenar do grande pulsador da vida, o útero
cósmico, que se nutre e respira nas afinidades
e no amor dos elementos. Na luz da origem, na
enxurrada paradisíaca da realidade, nós
nos buscamos uns aos outros”. (TORO, 1991,
p.36)
Segundo o Princípio Biocêntrico a
vida é o centro, o universo está
vivo, como um organismo.
E, o que é a vida?
Para a Biodanza, os seres vivos têm um princípio
universal e a vida pode ser muito bem definida
por princípios biológicos. O mundo
existe, porque há vida, mas a precisão
com que os seres são construídos
ainda é um mistério. As estruturas
se auto organizam de acordo com um plano invisível.
Existe uma força organizadora e desorganizadora,
que não conseguimos dominar.
Em palestra para a Escola Gaúcha de Biodanza,
em janeiro de 1995, Rolando Toro faz afirmações
que citamos abaixo, uma vez que reafirmam nossas
convicções sobre o assunto aqui
tratado:
- “Outros fazem parte de mim, assim como
eu sou parte dos outros, e do universo, numa integração
cósmica.
Biodanza é um sistema de integração
com a vida (consigo mesmo, com o outro e com o
universo).
A teoria de Biodanza é completa, como um
diamante está em relação
holográfica, em toda parte da Biodanza
está a totalidade. Na criança, está
a totalidade do adulto, nela está contida
toda a sua capacidade de amar, de ser feliz. O
organismo funciona como uma totalidade, um holograma,
a ciência está descobrindo hoje,
o que confirma esta hipótese. O ser humano
é sagrado, porque tem o impulso de crescer,
de ser melhor”.
A Biodanza propõe como prioridade o Princípio
Biocêntrico, sobre qualquer concepção
antropocêntrica ou biográfica. Ela
possui como referencial imediato os sistemas viventes,
segundo as leis do universo, que conservam e permitem
a evolução da vida. O reforço
da identidade se dá através da re-vinculação
dos instintos e do estímulo ao desenvolvimento
dos potenciais genéticos.
Segundo o Modelo Teórico da Biodanza, o
código genético está numa
relação direta com o Princípio
Biocêntrico, como estrutura básica
de evolução dos seres vivos. Ele
é um conjunto de caracteres codificados
das características de uma espécie,
transmitida através de gerações
e contém em si toda a informação
do que poderá vir a ser, contém
a semente da vida.
Duas metades inteiras de mundo, o óvulo
e o espermatozóide se encontram numa fusão
tão energética, quanto uma explosão
atômica e se juntam. E desta união
surge um mundo, uma nova vida, um novo ser, que
é igual e é diferente, porque é
único.
A finalidade última do encontro é
a fusão, e, é assim que, como numa
explosão cósmica, ressurge a vida,
o óvulo fecundado.
“A experiência suprema do encontro
é a fusão”. Através
da fusão no orgasmo, o casal humano se
transforma em par cósmico, ingressando
na totalidade”.(TORO, 1991, p.580).
A gestação é o transe da
vida em si. A gravidez é algo do maravilhoso.
O corpo como fonte de prazer e de luz relaciona-se
com a expressão “dar a luz”.
É a árvore que vira semente e a
semente que germina, que cresce e cresce. É
o invisível medo e prazer do desconhecido,
e conhecido, porque é a intimidade de todas
as intimidades. A gravidez contém um fio,
o elo das gerações. Você se
tornará mãe da filha que será
mãe, que será avó um dia,
mas o concreto está ali dentro da barriga.
O fio que liga.
É o corpo em transformação,
é a formação de um outro
corpo dentro desse corpo. A atividade do corpo
é essencialmente feminina.
Segundo Verny, a criança na vida intra-uterina
já vive provavelmente num estado especial
de consciência e já estabelece comunicação,
através de sua mãe, com o mundo
de fora.
O corpo da futura mãe é um mundo
em transformação. Há dois
seres em mutação: um que se forma
e se transforma num contínuo veloz e dinâmico
e outro que se transforma e forma são as
características da gravidez.
A gestação mais do que um estado
interessante é um estado muito importante
na vida de duas pessoas: a mãe e o feto.
E hoje, pode-se também falar em relação
ao pai, este 3o personagem tão importante,
e, normalmente, esquecido.
Atualmente, sabemos que a criança antes
de nascer já é um ser humano consciente
e capaz de reações, inclusive, desde
o sexto mês e, talvez, até antes,
o feto tem vida afetiva.
A relação com um homem carinhoso
e sensível proporciona à mulher
um apoio afetivo necessário e importante
durante esses nove meses essenciais.
O feto pode ver, entender, tocar, degustar e mesmo,
a um nível muito primitivo, aprender inútero
(dentro do útero), antes do nascimento.
Mais importante, ele é capaz de sentimentos
menos elaborados que dos adultos, mas bem reais.
A mãe, se desejar, pode ser uma força
positiva. E, uma mulher grávida, ou em
vias de estar, dispõe hoje de meios que
lhe permitem exercer uma influência positiva
no desenvolvimento afetivo de sua criança,
como Biodanza, por exemplo. A criança é
capaz de aprender dentro do útero. A partir
de estudos sobre associação entre
movimento e vibração, constatou-se
que a criança é capaz de mover-se
ao sentir a vibração provocada.
Está comprovado que no quarto e quinto
mês o feto reage claramente à música,
inclusive manifestando o seu gosto. Por exemplo,
a música de Vivaldi acalma o bebê,
e a de Bethoven o deixa inquieto. Portanto, uma
gestante que escuta determinado tipo de música
todos os dias poderá fazer com que a criança
fique calma e mais relaxada. Isto também
na prática já seria proporcionar
à criança a oportunidade dela adquirir
gosto pela música.
Todavia, não se deve ter uma visão
determinista, a vida não é estática,
mas, certamente, o que acontece no decorrer dos
primeiros anos tem a ver com as principais experiências,
porque o feto não tem a capacidade de filtrar,
e essa é a razão pela qual as emoções
da mãe gravam-se tão profundamente
e seus efeitos continuam a se fazer sentir com
tanta força ao longo da vida. Segundo Verny,
se a mente da criança é marcada
pelo otimismo antes do nascimento, são
necessárias muitas adversidades para que
esta característica se apague, e o contrário
também pode ser verdadeiro.
Há a hipótese de que a intensidade
do movimento do feto é um reflexo do estado
de ansiedade da mãe. E, através
de experiências foi constatado que os bebês
mais ativos no útero se revelam crianças
mais inquietas e ansiosas, e principalmente sentem-se
desconfortáveis em situações
sociais e à vontade, quando sozinhas. Provavelmente,
também, em situações de conflito,
se refugiarão e evitarão encontros
de toda maneira.
Grande parte das mulheres grávidas não
pensa nos seus bebês como seres reais e
sequer pensam neles, na maioria das vezes. Elas
pensam em tudo, inclusive no que diz respeito
às coisas que fazem parte do preparo para
aguardá-lo, porém, quase nunca,
na criança que esperam. O feto tem necessidade
urgente de ser amado e desejado e não ignorado,
como é o que acontece na maioria das vezes.
E ignorá-lo é como deixar uma pessoa
fechada, sozinha, em um quarto, percebendo que
coisas acontecem lá fora das quais ele
não participa.
O abandono pode acontecer ainda na vida intra-uterina
e já foram, inclusive, estudados casos
em que os filhos de mães doentes mentais,
impossibilitadas de comunicarem-se com seu bebê,
nasceram com traços profundos de abandono.
Estes podem apresentar mais problemas físicos
e afetivos do que filhos de mulheres mentalmente
sadias.Pensamos que numa extrema rejeição
o que pode restar é a morte. E perguntamos,
parafraseando Verny: Como poderá essa criança
deixar de ser profundamente influenciada pela
sua mãe?
Se as comunicações são freqüentes,
ricas e satisfatórias no plano afetivo,
a criança tem todas as chances de ser robusta,
ter saúde e ser feliz. Para a Biodanza
uma chuva de estímulos positivos torna-nos
saudáveis.
Criando um meio afetivo no útero, a mãe
pode exercer uma influência decisiva sobre
tudo o que a criança sente, espera, sonha,
pensa e faz no decurso de sua existência.
E, neste contexto, o pai precisa estar presente.
Não há nada mais perigoso para o
feto do que um pai que brutaliza ou negligencia
a mãe. A ligação pai/criança
é essencial, pois permite ao homem participar
em profundidade e com mais intensidade na vida
da criança desde o início, desde
a concepção. Quanto mais cedo essa
participação começa, mais
o futuro filho ou filha se beneficiará.
As emoções são sentidas pelo
feto de maneira genuína, sem filtro, de
modo que as emoções da mãe
podem interferir como ecofatores positivos ou
negativos da formação da identidade
deste novo ser.
Pode-se dizer que as protovivências se iniciam
antes do nascimento e, sendo mais avançado,
desde a concepção, quando a mulher
grávida pensa sobre o seu bebê.
As necessidades do feto são as mais primitivas,
são instinto puro. A psicanálise
acrescenta à teoria da evolução
a idéia de que, assim como o embrião
no útero da mãe repete em seu crescimento
certos estágios da vida animal, também
a criança pequena, o feto, recapitula estágios
importantes da história da humanidade.
Há a necessidade de ser amado e desejado.
Há casos desastrosos de morte dentro do
útero de fetos extremamente rejeitados
ou recém nascidos como descrito anteriormente.
O importante na comunicação mãe
e filho é a qualidade da mesma, o que ela
quer, o que ela sente e comunica ao feto. A mãe
começa a modelar a vida afetiva do seu
filho desde quando ele está em suas entranhas.
Por outro lado, o papel do pai também é
muito importante, porque ele participa da vida
afetiva da mãe, o que influencia o feto
por conseqüência.
O batimento cardíaco da mãe também
tem efeito sobre o bebê, esse é um
som que ele reconhece desde a vida intra-útero.
É o ritmo seguro.
Estudos situam o começo da consciência
entre a vigésima oitava e trigésima
semana. De acordo com o desenvolvimento cerebral,
nesta altura os circuitos do cérebro estão
tão desenvolvidos quanto os de um recém
nascido. É aí que as mensagens são
reveladas pelo cérebro e depois distribuídas
pelo corpo todo.
Neste mesmo período o córtex geral
atinge um desenvolvimento suficiente para ajudar
a consciência. É o córtex
a parte mais complexa do cérebro humano.
Após a trigésima semana as ondas
cerebrais do feto são perceptíveis
e pode-se saber se o mesmo dorme ou está
acordado. Após a trigésima segunda
semana, o registro das ondas cerebrais começa
a mostrar a aparição das fases do
sono, que são traduzidas por movimentos
oculares rápidos e correspondem no adulto
aos períodos de sonho.
É impossível dizer se um fe to sonha,
como um adulto concebe o sonho. Há pesquisas
a respeito que supõem que essas emissões
cerebrais sejam um treinamento do cérebro
para o desenvolvimento.
Os primeiros tênues filamentos de memória
começam a se entrecruzar no cérebro
desde o sexto mês de seu desenvolvimento,
não tendo-se a certeza do momento exato.
Há pesquisadores que afirmam que a criança
é capaz de ter lembranças a partir
do sexto mês, outros dizem do oitavo. Porém,
uma coisa é certa - a criança antes
do nascimento guarda lembranças e, é
capaz de conservá-las. Estas são
as mais primitivas vivências, ou protovivências
mais genuínas.
Está comprovado, também, que os
hormônios da mãe afetam o feto na
sua neutralidade, tornando-o mais receptivo.
Em relação aos sentimentos da mãe
e situações de stress, o que importa
é o amor, porque, quando a criança
percebe esse amor, forma-se ao seu redor uma espécie
de anel que reduz e consegue mesmo neutralizar,
em certos casos, os efeitos das tensões
externas. O importante é a atitude da mãe
sobre quem vai nascer.
E, o segundo fator em importância, após
a atitude da mãe em relação
à maternidade, seria a relação
da gestante com o seu par, o pai. A relação
dos pais pode influir na medida em que ele a faz
sentir-se segura e feliz esperando a criança.
Em toda essa relação neuro-endócrina,
fisiológica e emocional se define grande
parte da identidade do novo ser. “O útero
define as esferas da criança”.(VERNY,
1989)
AS PROTOVIVÊNCIAS
As potencialidades genéticas do indivíduo
podem manifestar-se através das linhas
de vivências em Biodanza. A diferenciação
destas linhas originou-se das protovivências
ou vivências marcantes da primeira infância,
as quais são oriundas da “vivência
primal” ou “vivência oceânica”,
que é a vivência uterina.
O arquétipo da Grande Mãe, tão
desvinculado do nosso meio, dito civilizado, vem
expressar-se neste período de gestação,
reforçando a maternidade como primordial
no estudo das protovivências.
Dentro do útero, o novo ser que se desenvolve
já tem percepções primárias,
ou primitivas do mundo externo, porque o embrião
já está imbuído de sua carga
genética e começa a receber de sua
mãe informações fisiológicas
a nível de sistemas neuro-endócrino-imunológicos.
Por isso, não se pode falar em protovivências,
sem falar numa fase da vida da mulher, que se
pode comparar a um transe. Pois a gestação
é o período no qual ela deixa de
ser “somente” mulher para se tornar
mãe. Pode-se comparar, portanto, a fase
gestacional a um transe.
A mulher, quando se percebe grávida mergulha
num período regressivo, que se identifica
com a sonolência interna que sente no início
da gestação. Sobre esse tempo do
feminino diz Soifer:
“A regressão em si tem origem na
percepção inconsciente das mudanças
orgânicas e hormonais , e na sensação
de incógnita”. (SOIFER, 1980)
Desse momento, o corpo continua a transformar-se,
numa pulsação de períodos
de equilíbrio e reequilíbrio neuro-endócrino
imunológico, mãe/feto até
atingir finalmente o período também
regressivo final, próximo do nascimento
ou o parto, definido do ponto de vista de um,
ou de outro, mãe/filho.
Na fase final do parto, quando se completa a dilatação,
o vir ao mundo é favorecido pelo preparo
adequado, aceitação e desejo pelo
filho. A mulher ao se sentir protegida, nesse
momento tende novamente à regressão,
numa nova identificação com o feto.
O nascimento se dá num ato do acontecer,
divino, mágico, porque a mãe sabe
do inevitável, e a criança por certo
também o perceberá.
E a maneira como a criança nasce determina
em grande parte a pessoa que ela será e
como perceberá o mundo que a cerca.
O nascimento é a primeira protovivência
explícita que participamos com o mundo
exterior. É quando o ser começa,
ou continua a sua vivência ontológica,
e passa da vivência amniótica e animal
para a vida histórica e social, expressa
através das linhas de vivências a
sua própria identidade.
As protovivências de movimento, contato,
expressão e harmonia do novo ser começam,
então, a se delinearem, num entrelaçamento
do mundo instintivo e emocional com o mundo cultural,
que servem para estruturar a “vida interior
em conformidade com um determinado e organizado
mundo social e adulto”. (GÓIS, 1995,
p.82)
Estas primeiras vivências funcionam também
como limitação ou impedimento à
expressão do potencial evolutivo em seu
vigor e frescura natural.
Os instintos são impulsos inatos, são
padrões organizados de conduta para a expressão
do potencial genético. E, para Rolando
Toro, os instintos são verdadeiros mandatos
bio-cósmicos que dão origem ás
motivações bio-sociais do comportamento
humano.
Há teorias em que o comportamento é
modulado pela aprendizagem e influenciado culturalmente,
e esta é uma visão antropocêntrica.
A posição biocêntrica que
trata o Sistema Biodanza não se traduz
a um reducionismo biológico, onde tudo
é explicado pela biologia, porém
é uma visão onde não se inclui
somente o homem, e sim todos os sistemas viventes.
Os impulsos inatos, ou instintos estruturam o
desenvolvi-mento nos sistemas viventes e, através
deles, expressam-se os potenciais humanos. O instinto
de conservação, por exemplo, se
expressa como conduta inata através do
movimento.
O movimento do feto na fase intra-uterina é
percebido pela mãe e revela-lhe a vida
dentro de si. A linha de expressão desse
momento é a própria vida, é
a vitalidade. E, segundo TORO, as emoções
e os sentimentos que se geram nessa linha são
alegria, ímpeto, entusiasmo, raiva, medo
e beatitude, que vem a totalizar-se na experiência
mutante de coragem de viver.
Este movimento amplia-se cada vez mais com as
contrações uterinas para acontecer
o parto, o nascimento. O recém nascido
move-se ativamente, braços, pernas, cabeça,
músculos faciais (choro), a respiração,
o intestino (expulsão de mecônio),
a boca (a procura da boca da mãe). E depois
o acompanhar objetos com os olhos, o agarrar,
o engatinhar, o correr, o soltar, a brincadeira.
O mundo de relação se amplia cada
vez mais, aumentando suas experiências junto
ao mundo concreto. E, conforme TORO, “se
uma criança é levada nos braços
pela mãe, nos ombros, embalada, começa
a desenvolver nessa protovivência, o ímpeto
vital. “Não basta o amor, é
necessário também o movimento”
(TORO, 1991, p.189) diz o mestre, pai da Biodanza.
No entanto, na nossa sociedade, era comum a recomendação
que encontra-se em um Manual de Assistência
Médica Empresarial, em nota de rodapé
em cor destacada: “Não acostume seu
filho no colo. Mantenha-o no berço, em
quarto arejado, sem luz intensa, afastado das
visitas.” Parece que o manual citado não
considera a natureza humana e suas necessidades
básicas de contato e estímulos.
Sob o ponto de vista da Biodanza, a criança
tem estas primeiras experiências, ou protovivências,
em relação ao mundo primitivo; ou
do instinto, onde o jogo do córtex cerebral
ainda não é dominante, como no adulto.
A evolução cognitivo-afetiva deve-se
dar de maneira solidária, e os avanços
ou paradas em um destes domínios repercute
no outro e reciprocamente. Pode-se traçar
um paralelo à função do grupo,
pois em vivência de Biodanza, desenvolve-se
o princípio de reculturação.
Não se trata apenas de reparentalizar,
mas de substituir os mandatos parentais introjetados
na infância.
Na medida em que se desenvolve a maturação
do córtex pela aquisição
progressiva de circuitos mais elaborados e mais
flexíveis, o tônus e o desenvolvimento
dos órgãos vão tornando-se
mais refinados. A maturação dos
órgãos dos sentidos acelera-se,
desde o nascimento sob a influência de numerosos
estímulos do meio, e estes vão aumentar
a riqueza das experiências motoras-sensíveis
da criança.
As protovivências são percepções
em bloco na criança, e começam a
distinguir-se, quando se dá o desenvolvimento,
num processo de maturação do córtex.
As vivências neste início são
“imprinting”, impressos na criança
na sua relação com o mundo.
A vinculação da mãe com seu
bebê é motivada pelos cuidados maternais,
é de origem instintiva; não apenas
adquirida. Esta protovivência se expressa
principalmente através do contato, pelo
qual o bebê recebe carícias, sejam
elas oriundas da amamentação ou
do toque, que fortalece o vínculo mãe/filho.
O instinto sexual é, então, despertado,
manifestando-se através do contato corporal
mãe e bebê como protovivência
originária da linha da sexualidade. As
funções despertadas são de
sensualidade, carícias, erotismo e genitalidade
com sentimentos e emoção do desejo,
prazer, voluptuosidade e gozo supremo. A experiência
mutante é a fusão orgástica.
A criança não representa para a
mãe o congênere com um valor de lar,
mas é um elemento primário de assistência.
Em todos os mamíferos, os animais jovens
emitem sinais que libertam um comportamento de
carinho. As mães reconhecem seus filhos,
isto se aplica às mães que carregam
seus filhos principalmente.
Os cuidados do recém-nascido e da criança
lactente, até mais ou menos o 3o ano de
vida, são determinantes no futuro do ser
humano. Nesta fase o tocar do corpinho da criança
é fundamental.
E se esta carência ocorrer nos primeiros
anos de vida, torna-se condição
importante para a formação de personalidades
doentias.
A falta do toque torna os bebês sujeitos
a infeções do tipo crosta láctea,
doenças de pele, resfriados, etc., baixando
a imunidade, tornando-os predispostos a viroses
e outras doenças. Os bebês criam
mecanismos de defesa para suprirem suas necessidades
afetivas, podendo ir do choro, agressividade,
ranço alimentar, passividade, vômito,
diarréia até febre.
Os terapeutas infantis tentam explicar a relação
existente entre carência de contato (carícia)
e as perturbações do desenvolvimento
da personalidade infantil. Baseados em experiências
com animais e o efeito de carícia e de
contato em relação ao stress, foi
observado que quanto mais rico for o universo
do jovem animal em estimulações
cutâneas, melhores serão suas possibilidades
de adaptação emocional às
situações novas. E a falta de contato
poderia causar então perturbações
do desenvolvimento da personalidade infantil e
consequentemente do adulto. O contato tem muitas
funções: proteção
e segurança, maturação da
sexualidade, desenvolvimento da sensibilidade,
estabelecimento de limites corporais. Sobre a
importância da carícia comenta Toro:
“Se uma criança é acariciada,
sua protossexualidade está sendo estimulada,
completamente diferente da criança reprimida.
Para que se desenvolva é necessário
que os pais compreendam que a criança tem
sexualidade. (...) Tocar é o gesto mais
profundo por mais superficial que seja o toque.
Implica sempre numa forma de comunicação,
sendo que aquele que toca também é
tocado, implicando em transferência de energia
através da pele. (...) Carícia é
a expressão afetiva do toque com comprometimento
corporal”. (TORO, 1991, p.189)
Sobre essa questão Góis afirma:
“Um corpo que é tocado e acariciado
encontra caminhos do crescimento saudável,
é um corpo vivo.” (GÓIS, q1995,
p.20)
Muito carinho e contato devem ser dados ao bebê
continuamente, sua falta pode levar à depressão
e até à psicose.
Sob este ponto de vista, a linha de sexualidade
em Biodanza mescla-se com a afetividade e com
todas as outras: vitalidades, criatividade, transcendência,
que estão muito mescladas, principal-mente
nesta fase, mais instintiva.
Rolando Toro diz que a afetividade já se
manifesta na fecundação para dar
origem a uma nova identidade. E quando os pais
falam com o feto, este já recebe os primeiros
impulsos afetivos. Também salienta o autor
a importância da paternidade, e do papel
do pai ao dizer: “a paternidade é
o que há de mais grandioso na vida de um
homem. Para a mulher o exercício da maternidade
é um ato cósmico”
Outro aspecto a considerar é o relacionamento
entre o casal, porque o feto sente quando a mãe
é ignorada, ou abandonada, ou sofre violência
de seu companheiro, numa situação
conflituosa mais profunda. Da mesma forma, uma
relação harmoniosa entre o casal
favorece o desenvolvimento do feto.
Todos os filhotes requerem segurança e
proteção dos adultos de sua espécie
para sobreviverem. Para o ser humano não
é diferente, é especialmente diferente
porque o bebê não é capaz
por si de buscar sua própria alimentação,
e seu corpo, sem nu, não o protege dos
augúrios naturais do clima. E a criança
leva algum tempo nesta maturação
de desenvolvimento em busca da autonomia, para
adquirir o próprio alimento e defender-se.
E desde que nasce, enquanto pequeno, precisa de
um ambiente que seja seguro, restaurador, tranqüilo
e harmônico. O bebê precisa do peito
caloroso e aconchegante da mãe, precisa
do colo e do embalo do pai.
O grupo, em Biodanza, relaciona-se com a família
biológica nutritiva. O encontro, o vínculo,
a amizade e a solidariedade são funções
primordiais do instinto gregário, nele
se expressam as emoções e sentimentos
de ternura, saudade, carinho, tristeza, íntase,
êxtase e iluminação. A experiência
mutante é a entrega. Este instinto tem
como protovivência a harmonia que pode expressar-se
através da linha da afetividade.
Segundo C. Wagner, a protovivência de harmonia
também poderia ser chamada de “protovivência
amniótica” e ainda afirma o autor:
“A integração seria o processo
de crescimento em que os potenciais genéticos
altamente diferenciados se organizam em sistemas
cada vez mais amplos no nível orgânico,
com a espécie humana e com o cosmos. Este
processo de desenvolvimento não é
necessariamente coerente com os padrões
culturais e com a infra-estrutura de valores.
É, principalmente, uma sintonização
cada vez mais perfeita com a umidade cosmobiológica.”
(GÓIS, 1995, p.80)
A amamentação por certo é
um restaurador desta protovivência de harmonia,
porque nela a criança sente-se imersa em
um pleno sentido de ser, num aspecto funcional
consigo mesmo, com outro (a mãe) que ela
não tem diferente de si e com o cosmos.
“O ato de mamar parece ser uma experiência
tão sensual, que a criança sente
o prazer pelo corpo todo. Tanto que crianças
podem, instintivamente levar suas mãos
aos órgãos genitais, para aumentar
o prazer e também amassar o seio da mãe.
É natural e normal que a criança
usufrua destas sensações tão
agradáveis.” (SOIFER, 1980)
Amamentar é um ato de amor e proteção
ao recém-nascido, e pode propiciar a uma
vivência de harmonia favorecendo um desenvolvimento
integrado e saudável. A criança
bem amamentada, certamente, move-se bem, sem medos
inadequados, é alimentada, protegida, seu
corpo é acariciado e tem o sono garantido
por adultos apaixonados pela vida.
Em palestras às mamães, orientando
quanto a amamentação sempre enfatizei,
que a mesma colocasse seu bebê junto ao
seu peito para que ele ouvisse seu coração
e ao mesmo tempo, a mãe o tocasse e dissesse
para ele palavras carinhosas olhando-o. Notei,
então, que muitas mamães se emocionaram
ao fazer isso.
A protovivência de expressão vinculada
ao instinto exploratório regula as funções
de nutrição, fantasia, imaginação
e transformação explodindo na vivência
de criatividade. Para o ser humano, a sua própria
vida, exaltando a existência, se emocionando
com a estética antropológica é
uma experiência mutante, é a própria
renovação da existência.
A criança se expressa no mundo, olha, toca,
pega, larga, move-se de um lado para o outro,
pula, salta, chora, sorri, ocupa espaços,
interage com objetos, com outras crianças,
adultos, animais. Ela é naturalmente expressiva
e espontânea como todo o mundo natural.
Sobre esse aspecto Rolando Toro afirma:
“Se a criança aprender nos primeiros
momentos a desenvolver sua expressividade e não
é mantida na imobilidade, desenvolve potencialmente
a criatividade”.(TORO, 1991, p.190)
As protovivências vão se transformando
em vivências no desenvolvimento ontogenético
do indivíduo e transformando o mundo simbólico,
semântico e ideológico. Esta interiorização,
que é cultural, vai fazer com que o movimento
se expresse ou não como vivência
de vitalidade, o contato como vivência de
sexualidade, a expressão como vivência
de criatividade e a harmonia como vivência
de afetividade.
“As vivências são expressões
da vida instintiva, entrelaçadas ao mundo
valorativo-simbólico; são próprias
do humano e necessitam da realidade histórica
social para acontecer” (GÓIS, 1995,
p.84)
E, o bloqueio desta transformação
só seria possível na ausência
da cultura. Portanto, a expressão do humano
em nós pode ser desvirtuada, enfraquecida,
despotencializada com os valores antivida de nossa
cultura, mas nunca totalmente bloqueados.
Esse contato do bebê com o mundo externo,
real e cultural se dá através da
mãe, principalmente, ou de alguém
que a substituía. A mãe é
o adulto que exerce a maior influência emocional
sobre a criança, conduzindo-a na realidade
social imediata através de um processo
de socialização primária,
que vai tornando-a membro de uma determinada sociedade,
com valores simbólicos e ideológicos,
os quais ela mesma já interiorizou ao longo
de sua vida. E, a mãe influencia muito
mais através de seus gestos, de seu toque,
do que através da fala. Mas o que emerge,
apesar da cultura são as protovivências,
que são a expressão da espécie
em um mundo de diversidades.
“As protovivências são pré-condições
de concretização do ser, podem permanecer
assim ou tornarem-se vivências quando encontram
uma realidade histórico-social. O ser-no-mundo,
terreno propício a sua aparição
e realização. Realização
essa que se dá através da transformação
das protovivências em vivências, mediante
processos complicados de socialização
primária e secundária, em geral
mediados por adulto”.(GÓIS, 1995,
p.85)
|
|