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CONSTRUÇÃO
DE VÍNCULOS INTER-PESSOAIS
E CONSTITUIÇÃO DE GRUPOS
Liane Keitel
Este trabalho consiste numa revisão teórica
acerca dos processos de construção
de vínculos nas relações
humanas e sua função no desenvolvimento
afetivo dos indivíduos, e como este processo
se correlaciona com a qualidade e quantidade das
relações estabelecidas nos grupos.
A compreensão do processo de desenvolvimento
das relações interpessoais se torna
importante no processo Biodanza, pois segundo
Rolando Toro, a mesma se objetiva justamente a
oferecer vivências de qualidade afetiva
que possibilitem novas formas de contato interpessoal,
fundadas no amor e na ética e, por conseguinte
a médio e longo prazo possibilitar a reparentalização,
reorganizando formas de estabelecer os vínculos
afetivos, que advém de matrizes muito primitivas
de nosso desenvolvimento psicológico.
I - CONSTRUÇÃO
DE VÍNCULOS INTERPESSOAIS
1.1. Contextualização histórica
do Tema
A vinculação humana, segundo Zazzo
(1973), é observado por Bowlby e Harlow
(a partir de 1958), o primeiro observou e estudou
a infância humana e o segundo a infância
animal, de onde surgiu a Teoria da Vinculação
- como um processo que funda as relações
sociais e a afetividade dos homens. Inicia-se
na vinculação mãe-bebê
e trata das relações de ternura
e amor nos homens, como base para seu desenvolvimento.
Anteriormente a isto as idéias dominantes
eram de que a criança passa de um estado
puramente biológico a ser social por aprendizagem.
Miller, Dollard (1941 in Zazzo 1973), e Mussen
e Cogar (1956 in Zazzo 1973), consideram a dependência
emocional do lactente à mãe resultado
de um reforço secundário , provindo
da satisfação da fome e sede. A
dependência física produz pouco a
pouco a dependência psíquica quando
a mãe é associada à satisfação
das necessidades. A satisfação fisiológica
é que produz emocionalmente a necessidade
do outro.
A Teoria Freudiana fundamenta-se no mesmo modelo:
as pulsões têm por objetivo a satisfação,
a redução de uma tensão.
O bebê possui necessidades fisiológicas
de fome e sede que necessita satisfazer, a mãe
é o objeto para atingir o objetivo; o alimento.
Este, ao ser fornecido ao lactente pela mãe
com o tempo a torna objeto de relação,
fundando um vínculo.
Fromm (in Zazzo 1973) entende que estas hipóteses
de Freud acerca da busca primária de prazer
do lactente e do humano é uma construção
produzida a partir de um modelo econômico
e social, e não como algo da natureza humana:
[...] o mesmo assinala o homo sexualis de Freud
a uma variante do Homo economicus clássico.
É o homem isolado [...] que tem de entrar
em relação com outrem a fim de,
reciprocamente, puderem satisfazer as suas necessidades
[...]. Nos dois casos, os indivíduos continuam
essencialmente estranhos uns aos outros apenas
ligados pelo objetivo comum da satisfação
pulsional. (1973, pág 43).
Também Fairbairn e Melanie Klein a partir
da Teoria das Relações Objetais
criticam esta posição freudiana,
colocando que “... a libido é essencialmente
buscadora de objetos e não de prazer...”
(cit in OSÓRIO, 1973, p. 20). Para estes
autores a busca explícita de prazer é
uma deterioração da conduta com
fim apenas de alívio de tensão,
revelando o fracasso em estabelecer uma relação
satisfatória.
Harry Harlow, em experimentos com macacos rhesus,
percebeu a importância do contato corporal
com a mãe macaca, os macacos bebês
diante de privações relacionais
após buscar alimentação que
provinha dos macacos de arame, preferiam o contato
físico com macacos de peluche. Para Harlow
(cit in BOLWBY, 1984), é o contato que
assegura bem-estar, segurança e proteção.
Assim assume-se teoricamente que os vínculos
são necessidades primárias. Estudos
antropológicos em diferentes culturas confirmam
a característica gregária dos humanos,
que desde os primórdios vive em associações,
facilitando a segurança, a reprodução,
a sexualidade e a inibição da agressão
.
1.2. Os vínculos e as Relações
Interpessoais no Desenvol-vimento Ontológico
do Indivíduo Eibesfeld (1973) não
encontrou nenhum grupo étnico em que as
mães não abracem, acariciem e beijem
seus filhos encostando seu rosto no deles. Os
comportamentos de ternura, como o abraço,
o beijo, e o sorriso, desenvolvidos na relação
mãe-filho são observados no trato
entre os adultos. “... em certo modo estamos
pré-programados para o amor ao próximo...”
(EIBESFELDT, 1973, p. 179). Zazzo sintetiza da
seguinte maneira:
[...] os etólogos, pela observação
de pássaros e maníferos, descobrem,
nas origens do comportamento animal, a reação
de vinculação e de ternura, a necessidade
absoluta de amor [...] assim se entrecruzam brutalmente
as imagens do homem e do animal. (1973, p 28).
Bowlby (1984) percebe que já ao nascimento
há uma quantidade grande, mas finita de
sistemas comportamentais estruturados para vinculação
que, através de processos de aprendizagem
e integração, resultam em comportamentos
sociais, que possibilitam a formação
de símbolos e o desenvolvimento cultural
de espantosa variedade e plasticidade.
A vinculação é um processo
que se organiza a partir de pré-competências
inatas no ser humano, de recursos psíquicos
dos fetos e dos bebês contidos no genoma,
para a interação. Estas aparecem
em movimentos pré-organizados na forma
de reflexos, como o sorriso, a sucção,
a ternura, facilitando a proximidade com a mãe.
Este vínculo tem uma função
genética, a de proteção para
a sobrevivência da espécie e desenvolve
as relações que possibilitam o crescimento
e desenvolvimento do indivíduo. Para Sá
(1997) também a beleza dos bebês
possibilita a proximidade, pois estes seduzem
chamando atenção sobre si.
Associando as competências dos bebês
a um ambiente com condições de adaptabilidade
e disponibilidade para interação,
organizam-se segundo Stern (1997), as experiências
em ato das relações mãe -
bebe. As representações que a mãe
tem da maternidade, do bebe e de si mesma agregarão
diferentes qualidades afetivas a estas experiências
relacionais, trazendo para esta nova relação
sua própria história de filiação,
um modelo de vinculação, de parentalização.
Nesta relação o corpo da mãe
funciona como continente, que recebe o corpo do
bebê como conteúdo, ao passo que
o bebê se entrega ao acolhimento. Esta relação
se estabelece em diferentes posturas, ao ser sustentado,
nos balanceios em posição vertical.
É um processo de assimilação
e, sobretudo de acomodação entre
o corpo da mãe e do bebê, onde o
bebê gradualmente passa a usar sinais esperando
uma resposta da mãe, abrindo um espaço
comunicacional, de toques, contato, gritos-choros,
sons olhares, sorrisos, as expressões motoras.
Esta comunicação com reciprocidade
tem o valor de um discurso por haver a decodificação
de sinais (monólogos a dois, diálogo
implícito).
Leboyer apud Rolando Toro coloca que:
Através do contato das mãos a criança
capta tudo: o nervo-sismo ou a calma, a incerteza
ou a insegurança, a ternura ou a vio-lência.
Sabe se as mãos o desejam ou se estão
indiferentes. Ou o que é pior, se o recusam.
Diante de mãos atenciosas, afetuosas, a
criança se abandona, se abre. LEBOYER,
apud TORO, 2002, p 146)
Segundo Bolwby (1984), inicialmente as pré-competências
do bebê para a relação são
comportamentos dirigidos a uma meta pré-fixada,
através de padrões fixos de ação
verificados no sugar, seguir, chorar, sorrir,
focinhar, agarrar. Os mesmos são mediadores
do apego e facilitam a sua organização,
pois são desencadeadores dos comportamentos
maternais da mãe, desempenhando papel importante
nas fases iniciais da interação
social.
Entre os 9 e os 18 meses desenvolvem-se sistemas
comportamentais mais refinados, os padrões
comportamentais corrigidos para a meta. O bebê
já é capaz de utilizar esquemas
cognitivos assimilando informações
e corrigindo as ações para manter
o contato desejado.
Através da interação sócio-afetiva
dos primeiros meses, constrói-se o caminho
para o apego.
[...] os determinantes principais do curso desenvolvido
pelo comportamento de apego de uma pessoa e o
padrão pelo qual ele se torna organizado
são as experiências que a pessoa
teve com suas figuras de apego durante seus anos
de imaturidade, quando bebê, criança,
e adolescente [...] (BOWLBY, in MONTORO, 1994,
p 45).
Mary Ainsworth, (projeto Baltimore, 1978), estudou
díades mãe-filho recrutadas antes
do nascimento e observadas durante todo primeiro
ano de vida e os resultados destas pesquisas,
confirmados por reaplicações, mostram
três padrões típicos de relacionamento
mãe-filho. Cada padrão de relacionamento
pressupõe a internalização
de uma organização ou aquisição
de um modelo mental no bebê de doze meses,
verificando a existência de um campo de
interação mãe-filho com configurações
próprias, uma estrutura interna, e organização
de diferentes comportamentos em distintos contextos,
desenvolvendo as capacidades de relaciona-mento
interpessoal.
Estes modelos de comportamento foram motivos de
estudos longitudinais, que se verificaram estáveis
ao longo do tempo. Sroufe (1983), Matas, Arend,
Sroufe (1978), in Montouro, concluíram
que as qualidades que de início pertencem
a uma relação, e dela emergem com
o passar do tempo se tornam qualidades intrínsecas
do indivíduo (conforme quadro a seguir).
A natureza da figura para a qual o comportamento
de apego é dirigido durante a infância
tem, portanto, numerosos efeitos em longo prazo.

O processo de desenvolvimento dos vínculos,
das relações iniciais funda matrizes
representacionais de si do outro e do mundo, que
funcionam como filtros para o estabelecimento
da relação com os outros e com a
realidade, expressa na afetividade.
Afetividade pode ser definida como um conjunto
de comportamentos e seus processos complexos subjacentes,
que criam e sustentam as relações
sociais individuais, ligando entre si os membros
de uma espécie. O termo afetividade implica
que existam certos fatores comuns entre todos
estes laços de afetividade social, mas
também que cada uma destas afetividades
aja parcialmente segundo variáveis diferentes.
(Zazzo, pág 47)
Harlow (1974), descreve distintas afetividades,
como sistemas de afeto interpessoal que se desenvolvem
a partir vinculação mãe-bebê.

O ambiente, e sua capacidade de prover relações
de qualidade e quantidade é essencial para
o desenvolvimento social afetivo e cognitivo do
indivíduo. A possibilidade materna de prover
calor e receptividade no início da vida
possibilita o desenvolvimento interno de sensações
de confiança básica, denominado
por Melanie Klein de “núcleo de bondade”
do self, ao passo que a falta pode predispor ao
isolamento autístico em idade posterior.
Decorrente para Winnicott (1988): [...] A incapacidade
materna de se adaptar na fase mais inicial não
produz mais que uma aniquilação
do self do bebê [...] (p. 496). Com o desenvolvimento
neuropsicomotor da criança, ela precisa
ser encorajada pelas figuras paternas, a buscar
e explorar o ambiente circundante.
Assim, as relações de apego, desenvolvidas
a partir dos vínculos parentais iniciais
possibilitam o desenvolvimento sócio-afetivo
do ser humano, e também de matrizes de
dificuldades sócio-afetivas.
Segundo Lebovici (1989) vários fatores
podem funcionar como desencadeadores de perturbações
nas relações precoces, o que implica
na internalização de determinadas
matrizes vinculares, que funcionarão como
base para o estabelecimento de novas relações.
Keitel (1998), em estudo realizado acerca das
interações precoces em relações
mãe bebês, onde estes possuíam
atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, verificou
a estruturação de vínculos
que possuem uma qualidade potencializadora do
desenvolvimento, da mesma maneira que em determinadas
configurações relacionais, as mães
não são capazes de mediar adequadamente
a evolução dos potenciais dos seus
filhos.
As relações de apego, desenvolvidas
a partir dos vínculos parentais iniciais,
fundam matrizes para interações
sociais e as distintas formas do homem viver o
coletivo.
1.3. As Relações
Interpessoais e os Grupos
O ser humano é um animal gregário.
Não pode evitar ser membro de um grupo,
ainda naqueles casos em que sua pertinência
ao grupo consista em comportar-se de um modo que
dá a sensação de não
pertencer a grupo algum. As experiências
grupais são as que permitem observar as
características ‘políticas’
do ser humano não porque estas sejam criadas
neste momento, mas sim porque é necessário
que haja um grupo reunido para que estas características
possam se manifestar [...] Bion sustenta o ponto
de vista de que nenhum indivíduo, ainda
que esteja isolado, pode ser considerado como
marginal em relação a um grupo.
(BION, in GRINGBERG, 1973, p 19).
A primeira vivência grupal do indivíduo
acontece em sua família , de onde vêm
os primeiros contatos interpessoais. A qualidade
destes contatos e suas peculiaridades são
de profunda importância para o desenvolvimento
de novas relações. Segundo Bion
(1973), as ansiedades internalizadas a partir
destas vivências podem ser reativadas em
muitas situações adultas através
do contato com grupos. O encontro no grupo significa
confrontar-se com o dilema de evoluir e diferenciar-se
enfrentando os temores desta evolução
e o enfrentamento de ansiedades reativadas.
Bion (1975), ao estudar grupos coloca da necessidade
de um exame mais profundo da estrutura dos grupos,
pelas relações interpessoais estabelecidas,
da ação recíproca das forças
dentro deles, e de sua vida emocional.
No seu livro ‘Experiências com Grupos’
(1975) coloca sobre distintas formas de funcionamento
dos grupos definindo grupos de trabalho e grupos
de supostos básicos.
Qualquer grupo que se reúne assumindo coletivamente
objetivos e viabilizando atividades/tarefas para
a concretização destes objetivos,
Bion denomina grupos de trabalho, os quais funcionam
com “bom espírito de grupo”,
demandam as seguintes características:
Propósito comum em vencer um desafio, defender
e nutrir um ideal ou uma construção
criativa no campo das relações sociais
ou das comunidades físicas.
Reconhecimento comum, por parte dos membros do
grupo, dos limites deste e sua posição
e função em relação
às unidades ou grupos maiores.
Capacidade de absorver novos membros e perder
outros, sem medo de perder a individualidade grupal
o caráter grupal, deve ser flexível.
Liberdade dos subgrupos internos de terem limites
rígidos. Se um subgrupo achar-se presente,
ele não deve ser centrado em nenhum de
seus membros nem em si próprio, tratando
os outros membros do grupo principal como se eles
não fizessem parte da principal barreira
grupal, o valor do subgrupo para o funcionamento
do grupo principal deve ser reconhecido.
Os membros individuais são valorizados
por sua contribuição ao grupo e
possuem liberdade de movimento dentro dele, com
sua liberdade de locomoção sendo
limitada apenas pelas condições
aceitas, esperadas e impostas pelo grupo.
O grupo deve ter a capacidade de enfrentar o descontentamento
dentre o de si e possuir meios de tratar com ele.
O tamanho mínimo de um grupo é três,
dois membros têm relações
pessoais.
Grupos incapazes de enfrentar as tensões
emocionais surgidas, Bion coloca como grupos que
funcionam a partir de uma Mentalidade Grupal definida
por Supostos Básicos. Entende ‘Mentalidade
Grupal’ como uma atividade mental que se
produz quando as pessoas se reúnem em grupos,
fazendo o grupo funcionar em muitas oportunidades
como uma unidade. O interjogo entre a mentalidade
grupal e os desejos do indivíduo, a conduta
dos integrantes do grupo, os papéis que
desempenham, os líderes que atuam, e o
comportamento do grupo como totalidade é
a ‘Cultura de Grupo’.
A organização que o grupo adota
em determinado momento surge do conflito entre
a vontade coletiva anônima e inconsciente
e os desejos e necessidades individuais.
‘Suposto Básico’ é a
qualificação da mentalidade grupal;
o continente de todas as contribuições
feitas pelos membros do grupo, um continente de
emoções intensas e de origem primitiva,
que determina a organização que
o grupo adota e o modo pelo qual encara a tarefa
que deve realizar. As suposições
básicas são inconscientes e muitas
vezes opostas ás opiniões conscientes
e racionais dos membros que compõem o grupo.
O supostos básicos são o equivalente
para o grupo, de fantasias onipotentes a respeito
do modo pelo qual serão resolvidas suas
dificuldades, as técnicas utilizadas para
evitar a frustração são mágicas,
ao invés de criar abertura para o aprendizado
pela experiência que muitas vezes implica
dor, esforço, e contato com a realidade.
“A suposição básica
é que as pessoas se reúnem em grupo
para fins de preservação do grupo”
(Bion, 1975, pág 55), nesta cultura os
grupos utilizam técnicas de autopreservação,
a luta e fuga, e a formação de pares
onde o acasalamento também funciona como
fins da preservação da espécie.
Os supostos básicos funcionam ao redor
de emoções que implicam no temor
de ser destruído ou de ter destruído.
O temor de ser destruído de estar numa
situação de ameaça implica
em uma cultura de grupo com comportamentos sob
o instinto de luta e fuga. Neste suposto básico
existe uma convicção grupal de que
existe um inimigo, que é necessário
atacar ou fugir dele. O objeto mau é externo,
e a única atividade defensiva diante dele
consiste em destruí-lo (ataque) ou evita-lo
(fugir).
O temor de ter destruído se vê cultura
de grupo com atitudes baseadas na dependência
e no acasalamento. No suposto básico de
dependência o grupo sustenta a convicção
de que está reunido para que alguém
proveja a satisfação de todas as
suas necessidades, e de todos os seus desejos,
alguém de quem o grupo depende de uma forma
absoluta, que dê segurança ao grupo.
O suposto básico de acasalamento vive sob
uma crença coletiva e inconsciente, de
que qualquer que sejam os problemas e necessidades
atuais do grupo, um fato futuro ou um ser ainda
por nascer, os resolverá, há esperança.
O importante neste estado emocional é a
idéia de futuro, e não a resolução
do presente. Muitas vezes a esperança é
colocada num par cujo filho ainda não é
concebido, como sendo o salvador do grupo.
Bion coloca que, grupos com funcionamento mental
baseado numa cultura de grupo de suposto básico
organizam-se apresentando futilidade nas suas
conversas, possuem um desempenho quase despido
de conteúdo intelectual, e ainda as suposições
de alguns elementos passam incontestadas, como
declaração dos fatos, e são
aceitas como tal, parece claro que o juízo
crítico acha-se quase inteiramente ausente.

O grupo é essencial para a realização
da vida do homem, e vida mental do grupo é
essencial para a vida integral do indivíduo
inteiramente á parte de qualquer necessidade
temporária ou específica, e que
a satisfação dessa necessidade tem
de ser buscada através da filiação
a um grupo, da mesma maneira que é necessário
procurar As causas do fracasso do grupo em conceder
ao indivíduo uma vida plena. Esta satisfação
dependerá da cultura do grupo.
O grupo é potencialmente capaz de suprir
ao indivíduo com a satisfação
de um certo número de necessidades de sua
vida men-tal que só podem ser fornecidas
por um grupo. (Bion 1975, p 47).
Enquanto que a frustração causada
pelo grupo é tanto maior quanto maior for
a expressão num grupo de impulsos que os
indiví-duos desejam satisfazer anonimamente,
os quais se encontram inconscientemente projetados
na área da Mentalidade de Grupo.
Grupos com funcionamento de “grupos de trabalho”
estabelecem entre si uma relação
continente sendo capazes de operar com paciência
sobre as experiências emocionais de angústia
e sofrimento até chegar a uma nova significação
e, por conseguinte, a novos níveis de integração.
Esta forma de funcionamento se correlaciona com
uma prevalência de matrizes vinculares de
confiança, fundadas na prevalência
do positivo sobre o negativo.
Situações em que a mentalidade do
grupo permanece intoxicada por emoções
desintegradoras, não sendo o grupo capaz
de aliviar os estados de angústias e dar
proteção aos seus objetivos e atividades,
se potencializam estados afetivos, que incapacitam
os indivíduos de dar sentido as experiências
vividas, gerando frustração e ódio,
que se direciona com violência a realidade
interna e externa, dificultando o desenvolvimento
da consciência e o crescimento mental. Esta
forma de funcionamento se correlaciona com a personalidade
psicótica, havendo uma prevalência
de matrizes vinculares fundadas no medo, abandono
e nos objetos maus.
A intensidade com que cada forma de funcionamento
é vivenciada e internalizada definirá
padrões de integração e crescimento
dos grupos. Grupos incapazes de enfrentar tensões
são grupos com continente afetivo frágil
para dar proteção e ser capaz de
dar sentido as vivências.
II. A BIODANZA NUM GRUPO
UNIVERSITÁRIO
2.1. Uma breve discussão a partir da utilização
simultânea de Biodanza e a abordagem de
grupos de Wilfred Bion
Trago aqui algumas questões baseadas em
observações realizadas em 2001/2002,
durante o estágio da Formação
em Biodanza Escola/Espumoso RS, utilizando o sistema
Biodanza nas aulas de Vivências do curso
de Enfermagem da Unochapeco de Chapecó/SC.
A Biodanza busca estimular diferentes maneiras
de convívio, já que necessariamente
trabalha com o grupo, e não é qualquer
grupo, mas um grupo que se encontre no amor, no
resgate da afetividade. No encontro com o outro
fundado no afeto, na ternura, no belo e, portanto,
no ético, Cria-se uma base vincular positiva
para o encontro consigo mesmo e o desenvolvimento
dos potenciais de vitalidade, sexualidade, criatividade,
afetividade e transcendência de cada um.
Para que isto acontece o grupo pode assumir distintas
funções segundo a fase do desenvolvimento
da sessão, a partir da força indutora
da música e a seqüências dos
exercícios.
O encontro “consigo mesmo” a todo
o momento flui para o “encontro com o outro”
e o “encontro com o outro” revela
“o consigo mesmo” em grande emoção
e sensibilidade como a mais linda das canções.
Em sessões de Biodanza o grupo é
levado a se sensibilizar através da música,
do movimento, e situações de encontro
formar um continente afetivo, que recebe e integra
a todos os participantes possibilitando vivências
que funcionem segundo Rolando Toro como uma matriz
de renascimentos, se encontrando e reencontrando
no amor o que nos fundamenta como humanos.
O grupo é um biogerador, um centro gerador
de vida. A concentração de energia
convergente dentro do grupo produz um potencial
maior que a soma das partes. Esta energia biológica
compromete a unidade do organismo. Cria-se um
campo magnético que se refletem e projetam
emoções, desejos e sensações
físicas de grande intensidade, se produz
uma percepção da essência
das outras pessoas, com isso um novo modo de identificação.
A atmosfera que cria quando o grupo alcança
um nível básico de integração,
é de um mundo sem barreiras, em que as
pessoas não representam um limite real
da expressão interior. Esta atmosfera permite
que os corpos se deixem tocar pela presença
e potencial do outro, que manifestem emoções
integradoras de grande intensidade. (TORO, Apostila
da Formação).
As vivências em grupo têm o intuito
de desenvolver a afetividade e pelo desenvolvimento
da afetividade criar novas formas de convívio
em grupo. Rolando Toro coloca que em função
da afetividade se possibilita:
[...] um estado de afinidade profunda frente
aos seres, capaz de originar sentimentos de amor,
amizade, altruísmo, maternidade, paternidade,
companheirismo, e também sentimentos de
raiva, insegurança, medo [...]. Possibilitando
a identificação com outras pessoas,
sendo capaz de compreende-las, amá-las
e protegê-las, no entanto também
rejeitá-las ou agredi-las. (Toro, Apostilas
de Formação em Biodanza).
Para Toro , a afetividade está profundamente
enraizada na Identidade, sendo que as pessoas
com identidade frágil têm dificuldades
de amar, têm medo da diversidade, dos vínculos
com outras pessoas e são defensivas, não
conseguem se identificar com o outro, há
medo da diversidade pela insegurança eliciada
pelos estranhos. O outro não é visto
como semelhante.
Pela patologia da linha da afetividade verificamos
a expansão da destrutividade, da discriminação
social, do racismo, da injustiça, dos impulsos
autodestrutivos, e do relativismo ético.
Outra questão importante que envolve a
afetividade das pessoas é sua capacidade
de vincular-se a tudo que está vivo, possibilitado
por experiências de expansão da consciência.
Uma precária consciência da totalidade
define pessoas que vivem girando em torno de conflitos
miseráveis.
Um terceiro aspecto que têm haver com o
desenvolvimento da afetividade é a qualidade
da comunicação que acompanha as
relações interpessoais. Há
formas de comunicação semântica,
de transmissão dos fatos cotidianos acompanhada
com frases de gentilezas. Também existe
uma comunicação sutil que acompanha
tom de sinceridade, de compreensão íntima
que comunica além das palavras com intensidade,
calor, sensações, que fala com a
alma não com o intelecto. As dificuldades
de expressão dificultam a aproximação.
Segundo Toro , alguns indivíduos podem
se aproximar nas situações de encontro
com uma expressão feliz ou reservada, comunicando-se
através de máscaras e simulações,
ou criando vínculos através do olhar.
A busca deste vínculo pode ser através
de um rosto tenso, indiferente, vazio, ou evasivo,
que busca no alto, no ar, mostrando uma não
presença. Para Toro estão no sorriso
e no olhar as chaves de um vínculo interior.
Além das dificuldades nos encontros enquanto
embotamento afetivo, também a desqualificação
é uma patologia da convivência, assassinando
as possibilidades do ser.
Para Toro a patologia da afetividade define a
destrutividade, a discriminação
social, o racismo, a injustiça, os impulsos
autodestrutivos, o relativismo ético, a
consciência reduzida acerca do mundo, dificuldades
nos encontros entre as pessoas e o estabelecimento
de vínculos de intimidade, com uma comunicação
que reconheça e valorize a presença
do outro. Entendemos que estas formas de funcionamento
implicam a internalização de determinadas
matrizes vinculares a partir de vivências
infantis, que definem reações emocionais
através de funções neuroendócrinas,
num nível orgânico, e tendências
afetivas adultas de amor e ódio internalizadas
através de vivências infantis . Segundo
Toro o contexto social pode desencadear respostas
agressivas nas massas.
Entendemos que nos grupos de supostos básicos
propostos por Bion há uma potencialização
das dificuldades na linha da afetividade conforme
descreve Toro, onde as características
de funcionamento são de dificuldades de
contato, de comunicação nos distintos
níveis, com dificuldades básicas
de integração para que o grupo possa
criar um campo magnético, produzindo emoções,
desejos e sensações que facilitem
uma percepção da essência
das outras pessoas, e com isso um novo modo de
funcionamento. Enquanto que um grupo de trabalho
denota encontros de indivíduos com um adequado
desenvolvimento afetivo, capaz da expressão
de sua identidade através de comunicação
espontânea, sincera e íntima que
reconhece e é capaz de qualificar.
Quando um grupo já vem de uma história
com conflitos mal administrados, mágoas
e decepções não elaboradas
que se constituíram em estereótipos
relacionais, aconteceram muito mais dificuldades
quanto à introdução da abordagem
da Biodanza, verificando a partir do envolvimento
com as atividades propostas, das relações
entre os membros dos grupos e da relação
estabelecida conosco, formas de funcionamento,
nos grupos, com características dos grupos
de suposto básico de Bion, onde acontecem:
- Dificuldades no grupo em enfrentar tensões
emocionais surgidas.
- Ambivalência na realização
das atividades propostas através dos exercícios/vivências.
- Dificuldades dos indivíduos em administrar
o interjogo entre seus desejos pessoais e os desejos
do grupo.
- Fragilidade na atitude reflexiva para resolver
os problemas do grupo.
Os problemas são resolvidos por técnicas
que Bion denomina de autopreservação,
luta, fuga e a formação de pares.
A evitação se verifica nos grupos
quando os membros se afastam através do
silêncio, das saídas, e da falta
de atenção as situações
de aprendizagem e aos outros. Enquanto que o ataque
é visto em atitudes constantes de ataque
as tarefas, a alguma situação e
ou pessoa(s) tanto de sala aula como externos
que se sobrepõem à possibilidade
de lidar com as situações do momento
com abertura para aprender com a experiência.
O diálogo é dificultado, as suposições
sobre fatos, ou de uma pessoa é aceita
como tal, sem maiores questionamentos, diminuindo
a participação da totalidade do
grupo. Viu-se isto em uma das turmas quando quatro
pessoas defendem a posição de que
é completamente desnecessário aulas
para trabalhar o desenvolvi-mento pessoal já
que a turma não teria dificuldades e que
as mesmas são tremenda bobagem, neste dia
a turma não aceita participar de atividades.
Somente em outro encontro quando se coloca a posição
dos demais professoras acerca das dificuldades
de relacionamento dos grupos de estágio
que outros alunos se posicionam e colocam que
há problemas de relações
interpessoais e neste dia todo grupo participa
prontamente das atividades. Em vários momentos
alguma temática específica trazida
por alguém do grupo como algo de todos
se polemiza e dificulta a evolução
para outras atividades.
Verificam-se dificuldades em realizar leituras
de realidade contextualizadas, entender a inter-relação
das coisas. (Claro que isto é conseqüência
da nossa história e educação
positivista).
A expressão de sentimentos acontece com
intensidade nos momentos de ataque a alguém
ou alguma situação, no entanto sentimentos
como ternura, afeto, e choro, são reprimidas.
Quando alguém se emociona geralmente busca
sair da atividade, ou até da sala. Percebe-se
no grupo uma fragilidade em ser continente afetivo
para seus membros.
A atenção é muitas vezes
autocentrada, verificam-se dificuldades em ouvir
os outros, realizar exercícios em dupla,
colocar atenção no movimento conjunto,
e o contato facilmente é rompido, impaciência
diante de atividades que não se centralizam
em seu próprio problema.
O interesse pela discussão das situações,
dos problemas, de necessidades em clima de envolvimento
e tensão emocional é intenso, no
entanto quando surge alguma alternativa/possibilidade
de solução, há grande dificuldade
em se mobilizar para a realização
das ações.
Facilmente cria-se uma expectativa de que algo
externo seja provedor do bem estar dos indivíduos
e ou grupo, mantendo-se com a Instituição
e/ou professores e outros esta expectativa, por
exemplo, diante de situações pessoais
de horários.
Situações em que o grupo consegue
realizar atividades com maior integração
e com qualidade comunicacional, podem ser seguidas
facilmente com um padrão de funcionamento
anterior.
Podemos dizer, baseado em Toro que estas condutas,
são equivalentes da expressão da
patologia da linha da afetividade, com uma preponderância
de acordo com Bion de dificuldades num nível
básico de integração .
Nestes grupos segundo Bion (1975), acontece uma
acentuada incapacidade por parte dos indivíduos
no grupo de acreditar que se tenha possibilidade
de aprender algo de valor com o outro, a expectativa
é de que alguém num patamar superior
possa ter algo a ensinar, não há
fé em aprender pela experiência,
pela vivência, ressaltando um ódio
ao processo de desenvolvimento.
Quando as condutas citadas acima foram com mais
intensidade, torna-se mais delicado em muitos
momentos envolver um grupo na perspectiva da Biodanza
como mediação do desenvolvimento
pessoal. Os exercícios de Biodanza buscam
na troca, no encontro trazer experiências
de desenvolvimento. A partir destas questões
é possível entender o motivo da
desqualificação em alguns momentos
das situações de encontros. Percebendo
que em muitos momentos exercícios individuais,
de contato mais intenso consigo mesmo facilita
a liberdade de viver a experiência, e a
entrega à vivência, enquanto que
exercícios de dupla, de contato com o outro
leva mais facilmente um grupo sair de vivências,
e trazendo o grupo para estereotipias, pela fala
ou por brincadeiras.
Observamos que, o envolvimento nas aulas de Biodanza
está diretamente relacionado com o funcionamento
mental dos grupos. Quanto mais características
de funcionamento mental de suposto básico,
com mecanismos de luta e fuga ou dependência
maior a dificuldade com as atividades.
A Biodanza se traduz em uma perspectiva teórica
metodoló-gica totalmente experiencial vivencial
realizada em grupo que necessita do envolvimento
e da participação de seus membros
para que se alcancem os objetivos de estimulação
dos potenciais humanos. De acordo com Bion (1991),
um grupo capaz de se organizar para alcançar
objetivos comuns assumindo no seu coletivo as
tarefas inerentes, e isto é um grupo que
funciona como grupo de trabalho.
Trabalhar com Biodanza é criar estratégias
que possam levar o coletivo a funcionar como ‘grupo
de trabalho’, assumindo no espaço
coletivo, o crescimento pessoal e grupal através
da construção coletiva, a integração
afetiva das pessoas, o aprender pela experiência.
Entendendo que a Biodanza é uma metodologia
que permite a realização destas
propostas. Para isto é preciso romper com
a cultura universitária, e conceitos de
aprendizagem vigente.
O rompimento destas concepções é
fundamental para que as pessoas consigam se envolver
com qualidade e quantidade numa sessão
de Biodanza, das relações interpessoais,
isto é também romper com um modelo
social e econômico neoliberal vigente. Também
é preciso assumir o envolvimento com uma
proposta de desenvolvimento pessoal, pelas pessoas
e das Instituições como um todo.
Transformar estas concepções nos
grupos de supostos básicos têm haver
com o rompimento das próprias concepções
criadas para a proteção contra os
medos primitivos inconscientes da dor e o dilema
em evoluir e diferenciar-se. Contatar-se e contatar
com o outro é justamente contatar o que
se evita ou se ataca para criar proteção.
Ao passo que a abordagem da Biodanza propõe,
assim como os estudos acerca da vinculação
trazidos anteriormente neste estudo, que a proteção
está na intimidade do colo continente do
outro, num resgate consigo mesmo nesta paz.
Trabalhar com o modelo teórico da Biodanza
com grupos em Instituições que muitas
vezes já tem uma história, e esta
em muitas situações foi história
de desencontros, de mágoas, de impossibilidade
de desenvolvimento criando a confirmação
da falta, é enquanto facilitador, lidar
com o “paradoxo” de possuir em sua
mão uma abordagem teórica metodológica
construída para oferecer as pessoas vivências
que as possibilitem resgatar o desenvolvimento
afetivo, a dimensão do ser e do conviver
pelo afetivo, pelo ser e pelo conviver, exatamente
o que em determinadas “grupos” é
o que mais assusta.
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