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AS
LINHAS DE VIVÊNCIA
Sanclair Lemos
RESUMO
O presente artigo nos mostra como a Biodanza é
um caminho vivencial para o desenvolvimento humano.
Desde que o ser humano nasce tem todo o potencial
genético único qual sua expressão
diferenciada se permitida através do desenvolvimento
das linhas de vivência. A linha de vitalidade
relacionada com o ímpeto vital, que têm
como base o instinto de sobrevivência. E
nos permite colocarmos no mundo como ser humano
responsável por seu momento e por suas
ações. A linha da sexualidade se
reflete na capacidade de sentir desejo e expressar
o prazer através dos sentidos, a sensualidade
e erotismo que envolvem a chave do contato e a
carícia. Na linha de criatividade surge
a nossa capacidade inata de exploração
de procurar estar no movimento de vida criando-nos
a nós mesmo, auto-poyeses. Na linha da
afetividade é a força ou energia
que nos conecta e vincula com todos os seres humanos.
A emoção básica de essa rede
de vínculos é o autor. A linha da
transcendência que é capacidade sentir-se
parte de um todo maior, uma unidade psicossomática
que tem a capacidade de incluir em si unidades
maiores e dentro dessa diversidade, permanecem
como uma unidade. Outro ponto são os ecofatores
o estímulo externos que podem estimular
o inibir e desorganizam a expressão do
potencial. Estas linhas de vivência se movimenta
em uma pulsão polarizada de expansão
e recolhimento que o ser se expresse. A expressão
e integração das linhas no movimento
integrado de expansão e recolhimento, permite
ter acesso ao êxtase, a vivência de
sentir a vida por inteiro desdobrando-se no inefável
eterno momento presente.
PALAVRAS-CHAVE
Linhas de vivência; vitalidade, se-xualidade,
criatividade, afetividade e transcendência;
ecofatores, pulsação da identidade
êxtases de vida.
PALAVRAS INICIAIS
Somos os herdeiros da história evolutiva
da humanidade e do desenvolvimento da nossa espécie.
O desenvolvimento físico, o desenvolvimento
motor, o desenvolvimento psicológico e
o desenvolvimento social, além dos padrões
filogenéticos de comportamento. No ato
da fecundação recebemos, como um
presente, todo o potencial de desenvolvimento
da humanidade. Como uma dádiva, surgimos
na existência a partir mesmo de todo o potencial
e todas as conquistas da humanidade.
Esse potencial, impresso em nossas célula,
em nossos genes, começa a se expressar
a realidade (vivida) a partir do nascimento (e
talvez antes). Cada um traz em si uma nuance,
uma combinação única e particular
desse potencial humano, cada ser humano é
expressão diferenciada e única dessa
totalidade a qual podemos chamar de potencial
humano ou humanidade.
Essa humanidade se expressa então, na realidade
particular de cada um através do que R.
Toro chamou de linhas de vivência.
A primeira linha de vivência é a
Vitalidade, está relacionada com o ímpeto
vital, desenvolve-se a partir da organização
biológica e do instinto de sobrevivência.
O desenvolvimento dessa linha de vivência
relaciona-se diretamente com as primeiras experiências
da criança no que diz respeito à
sua expressão através das experiências
de movimento. O movimento é a expressão
básica da vida e surge inicialmente em
função da necessidade de sobrevivência
do organismo, brota do instinto de sobrevivência,
que leva o organismo a mover-se no sentido de
permanecer vivo. A criança se deixada à
vontade em um ambiente nutritivo e estimulante,
buscará a satisfação e a
expressão de si mesma através do
movimento. A presença ou não de
movimento como protovivência, que são
as primeiras vivências que experimenta o
organismo e lançam as bases para a conseqüente
organização e desenvolvimento vivencial,
é que vai estimular ou inibir a expressão
do organismo como vitalidade e ímpeto vital.
A Vitalidade relaciona-se à alimentação
e ao desenvolvimento da seletividade alimentar.
O organismos saudável alimenta-se daquilo
que nutre e cura, alimentos ricos em sabor e nutrição,
e ingere a quantidade necessária vê
suficiente de alimentos saudáveis e nutritivos.
Quando integrado a partir do movimento vital e
da alimentação, organismo pouco
ou nada necessitará tomar de remédios.
A alimentação adequada e a alternância
entre trabalho e repouso são as expressões
básicas de vitalidade do organismo humano,
ou seja, da pessoa. Com a vitalidade equilibrada,
o ser humano como quando tem fome, bebe (água)
quando tem sede, dorme quando tem sono e busca
a satisfação dessas necessidades
naturais de maneira instintiva, natural. A cultura,
no entanto, promove regularmente alterações
nesse movimento equilibrado. À criança,
por exemplo, é ensinado que deve comer
o que não gosta, em horas determinadas
e não quando sente fome. Aos poucos, ela
já não sabe mais o que quer, vai
perdendo a organização e a capacidade
seletiva, sente dificuldade em realizar uma escolha
ou em tomar uma decisão. Lembremo-nos que
essa criança pode ser cada um e todos nós.
Vitalidade é a capacidade de colocar-se
no mundo como ser humano autônomo, responsável
por seu movimento e por suas ações.
A segunda linha de vivência que se desenvolve
do potencial humano é a Sexualidade, que
se refere à capacidade de sentir desejo,
ser capaz de sentir e expressar o prazer (dos
sentidos), a sensualidade e o erotismo. Essa linha
de vivência evolui a partir do contato e
das carícias que a criança recebe
desde o nascimento.
Estímulos prazerosos aos sentidos (sensuais)
são também fatores significativos
para o desenvolvimento da linha de vivência
da sexualidade – comer uma fruta, tomar
chuva, mergulhar nas águas do mar, andar
descalço, rolar na terra, caminhar em meio
a flores...
Essas sensações prazerosas, o contato
corporal sensual com a mãe durante o ato
de mamar ou durante o banho, permitem que a criança
se perceba como um organismo inteiro, completo,
capaz de sentir, sentindo sensações
que significam a percepção de si
e do mundo como fonte de prazer (e organização).
Muitas mães e pais sentem medo e desconforto
frente à sensualidade e ao erotismo dos
filhos. Afastando-se e negando e vivência
prazerosa e sensual, esses pais e mães
negam à criança o acesso (a vivência)
à percepção e compreensão
de si mesmo como um ser corpóreo, sensual,
e erótico. A criança vai, então,
descobrindo a sexualidade nas ruas de maneira
inadequada, ou na escola de maneira mecânica
e racional. Sob uma frágil capa de liberdade
sexual, a cultura, a sociedade, aceita e reprime
a pornografia, a exploração sexual
precoce desordenada, fruto da repressão,
do preconceito, da ignorância e da falsa
moral dita religiosa.
A carícia tem a capacidade de regular o
sistema neurovegetativo e de organizar o funcionamento
dos órgãos. A carícia e o
afeto são reguladores do sistema vivente,
seja na aprendizagem escolar ou do movimento,
além de promoverem a integração
das demais linhas de vivência.
A energia da vida expressa-se também, nos
diz Rolando Toro, como uma busca pelo novo, como
uma busca pelo novo, como Criatividade, que é
a linha de vivência que surge da capacidade
inata d exploração que tem á
criança. O ato de explorar está
intimamente ligado ao ato de movimentar-se, mover-se
na realidade vivida. A criatividade conecta-se
assim, de maneira indissociável com a vitalidade.
Criatividade é o ato de criar a si próprio,
enquanto ser que vive e existe no mundo, a cada
momento mover-se no novo, modificando-se no fluxo
do mundo que se modifica constantemente. Como
um rio, o movimento da vida (cotidiana mesmo)
renova-se eternamente. Nosso existir se dá
nesse fluxo de transformação, de
autocriação e autoorganização.
As formas que percebemos, inclusive a nossa própria
forma corporal, não são estáticas,
mas o estado atual de um fluxo de energia e movimento.
Nós somos em expressão e movimento;
a criatividade é, também, nossa
natureza. Então, na medida em que nos identificamos
com uma certa idéia, uma certa forma de
ser, diminuímos a possibilidade de ser
fluídos na renovada expressão daquilo
que se é. A criatividade pode expressar-se
de muitas maneiras – a poesia, o trabalho
científico, a música, o canto, a
dança...
É certo que nem todas as pessoas cantam,
tocam um instrumento ou pintam. Estariam essas
fadadas à não criatividade? A essência
da criatividade é criar-se a si mesmo,
auto-poyese de H. Maturana e F. Varela. A expressão
desse ser-criativo-por-natureza vai depender,
em larga escala, do meio e do ambiente em que
cada um vive. Se o meio físico e o ambiente
afetivo – emocional permitem, a criança
poderá “aprender” a ser criativo
através de estímulo para a exploração
e para a expressão, seja pela voz, pela
palavra, pelo desenho, pela escrita, por um instrumento
musical, ou pelo próprio movimento corporal.
A criatividade se desenvolve, naquele que é
capaz de sentir e eu expressa o que sente, pois
no ato de expressar-se a pessoa se modifica modificando
e criando.
O instinto de exploração de busca
de novos estímulos, novas sensações
e vivências nos levam a sentir e, de alguma
maneira possível expressar a maravilha
que sentimos frente ao universo. Se somos capazes
de sentir-expressar (sentir evoca movimento, que
já é em si, expressão) de
maneira presente já estamos nos modificando,
movendo-nos e criando com o mundo.
O potencial pleno da vida, inscrito no potencial
genético do ser humano, se expressa também
como Afetividade. Afetividade é a força
ou energia que nos conecta e vincula com todos
os seres. A essa emoção de conexão
e vinculação com os outros membros
da espécie ou com a totalidade da vida
chamamos amor. O amor nasce em situações
de harmonia, segurança, confiança
e respeito. Considerar o outro como um ser íntegro,
respeitá-lo pelo que é, mesmo em
sua singularidade e em sua diferença. É
verdade que conviver com alguma diferença
seja difícil, o desconforto com a singularidade
do outro revela nossa limitação
e nosso preconceito. Aprendemos que o “diferente”
significa “errado” e conseqüentemente
“mal”. Do “mal” nos defendemos,
pois a diferença que não compreendemos
nos causa medo. Para manter nossa “segurança”
agredimos, então, a fonte do desconforto,
o diferente, aquele que nos revela nossa limitação
e a quem tememos, simplesmente por não
ser como nós próprios – em
aparência, idéias, maneiras, raça,
etc.
Se não somos capazes de conviver, ou melhor
ainda, vincular-nos em meio às diferenças,
então não somos capazes de amar.
O amor pelo que é igual a nós próprios
é o amor por nós próprios.
O amor como sentimento indiferenciado de vinculação
fortalece nossa própria singularidade de
seres diferenciados e únicos dentro da
unidade do todo e do semelhante.
Aqueles que trabalham com crianças devem
atentar para o fato de que o fundamental para
a criação de uma relação
pedagógica, uma verdadeira relação
de ensino-aprendizagem, é o amor. O afeto,
a relação afetiva (respeito e contato)
é a aprendizagem a todos os envolvidos
na relação. Quem sabe, a única
maneira de se ensinar algo (para crianças
ou adultos) seja estabelecer uma relação
de segurança, de confiança e de
amizade com o aluno em um ambiente estimulante,
lúdico e criativo.
A partir da sensação básica
de confiança, pode se desenvolver a amizade
e o afeto verdadeiro, mediador das relações
de ensino e aprendizagem a que chamamos relação
pedagógica. Surge aí também,
dessa sensação básica de
segurança (afetiva) e confiança,
várias sensações e emoções
relacionadas à percepção
do outro como um ser pleno, e à nutrição
e estímulo desse outro. A essas sensações
damos o nome de amor, a possibilidade de conexão
nutritiva entre indivíduos. Mas além
de existir entre indivíduos da mesma espécie,
o amor é a força que vincula todos
os “portadores de vida”. Todos os
seres vivos merecem a mesma consideração,
respeito e amor. Pode parecer difícil considerar
os seres vivos sem a lente deformante da ideologia
ou da hierarquia, mas como nos ensina Rolando
Toro; “e necessário uma cons –
consciência ampla e amorosa para perceber
que somos primos das rãs“. H. Maturana,
neurofisiólogo, estudioso da estrutura
e funcionamento dos organismos vivos, diz que
a consciência de uma ameba é da mesma
qualidade da consciência de um homem. Obviamente,
expressa a partir da estrutura e da organização
de uma ameba. Sua proposta é que a vida
se expressa e percebe a realidade em que vive
e existe, de acordo com a estrutura e organização
dos organismos que expressam essa vida. São
várias as maneiras diferentes de perceber
e expressar a vida – ameba, o gato, o cavalo,
a árvore, o homem.
Os organismos são diferentes em estrutura
e organização, mas essencialmente
a vida que os anima é uma só.
Finalmente, Rolando Toro propõe que do
potencial humano que brota do organismo biológico
surge a capacidade de sentir Transcendência.
Que é a capacidade de sentir-se parte de
um todo maior, parte de unidades que se expandem
e se organizam em sistemas cada vez mais amplos.
Sentir-se como uma unidade indivisível,
não uma mente que anima o corpo, mas uma
unidade psicossomática que tem a capacidade
de incluir em si unidades maiores e, dentro dessa
diversidade, permanecer como uma unidade.
“Desiderata” é um poema encontrado
em uma antiga catedral em Baltimore – USA.
Um de seus versos diz que somos “filhos
das estrelas e temos o direito de estar aqui”.
Sabemos eu os átomos que formam as estrelas,
as galáxias ou as folhas das relva são
os mesmos átomos que compõem o nosso
organismo. Quando o organismo se decompõe
ou se transforma, esses mesmos átomos irão
se reorganizar de outra maneira e assim pela eternidade
verdadeiramente somos filhos da terra, filhos
do universo, filhos das estrelas.
Essa é a vivência de transcendência,
é necessário ampliar a percepção
e a compreensão das coisas, ampliar nossa
penetração vivencial para percebemos
que a vida é mais ampla, complexa e maravilhosa
do que estarmos acostumados e talvez prepararmos
para perceber e sentir.
ECOFATORES
O modelo teórico de Biodanza propõe
então, em seu eixo vertical, a existência
de um potencial humano comum que se expressa na
realidade através dos cinco canais de expressão
chamados linhas de vivência. Esse potencial
pode tornar-se expressão na realidade a
partir do nascimento, ou até antes, a partir
da concepção, se o organismo encontrar
determinadas circunstâncias e fatores que
permitam, estimulem e facilitem sua expressão.
Alguns desses fatores são internos ao organismo,
sua dotação biológica, condições
alimentar, organização neurofisiológica,
e são chamados cofatores. Outros são
“externos” ao organismo, são
fatores de seu ambiente que podem facilitar e
estimular ou inibir e desorganizar a expressão
do potencial.
Esses fatores do ambiente quando estimulam e facilitam
a expressão das linhas de vivência
(que são a maneira da própria vida
se expressar) são chamados ecofatores positivos.
Os fatores do ambiente, que de alguma maneira
impedem ou distorcem a expressão da vida
são chamados de ecofatores negativos.
Cada um de nós pode ter a compreensão
daquilo que o organiza, que o integra e o faz
mais leve, pleno e feliz; e também daquilo
que o oprime, envenena e desorganiza, podendo
eventualmente conduzir o organismo à doença
e à morte; a poluição generalizada,
o cigarro, a raiva, a inveja, etc.
Os ecofatores positivos e negativos são,
então, parte do ambiente daqueles que convivem
conosco. Como é a nossa relação
com tudo aquilo que nos envolve? Em relação
aos outros seres somos nós ecofatores positivos,
estimulantes, ou somos ecofatores negativos, críticos,
exigentes, tóxicos? O ecofator negativo
tende a impedir ou alterar o desenvolvimento das
linhas de vivência como um todo ou de alguma
delas em particular. O ser humano é pleno
e saudável quando as cinco linhas de vivência
se desenvolvem de maneira harmônica e equilibrada.
A PULSAÇÃO
DA IDENTIDADE
As ideologias, as crenças, os dogmas, podem
exercer tal influência sobre a vida das
pessoas a ponto de obstruírem a expressão
desses potenciais inatos.
A Biodanza propõe que o desenvolvimento
vivencial deve abranger todos os aspectos do ser
humano, ou seja, a vitalidade, a sexualidade,
a criatividade, a afetividade e a transcendência,
pois todas elas se influenciam e potencializam
mutuamente.
É certo que não sabemos até
onde o potencial humano pode ser desenvolvido,
mas isso não nos preocupa; o que nos ocupa
é a vivência de cada momento presente
em sua plenitude. Aí sentimos que o processo
de integração e desenvolvimento
é infinito, como a própria existência.
Cada um de nós, seres humanos, tem nas
próprias mãos seu processo evolutivo.
Vale dizer cada um é responsável
por si e por sua vivência frente ao mundo.
O facilitador de Biodanza não se coloca
como agente de desenvolvimento. O agente de desenvolvimento
é a vivência e esta ao pode ser transferida.
A função do facilitador é
criar situações que desafiem o participante
e que permitam que ele experimente o limite de
sua capacidade vivencial em uma situação
positiva, acolhedora e afetiva. Na sessão
de Biodanza criamos jatos de ecofatores positivos
e os dirigimos diretamente para as linhas de vivência.
A vivência de cada participante do grupo
surge então a partir de seu momento existencial
atual.
Nos grupos iniciais buscamos uma postura geral
de integração dentro do grupo que
envolve o estímulo de todas as linhas de
vivência. Na vitalidade experimentamos o
ritmo, o ímpeto vital, a alegria; na sexualidade
experimentamos o contato, a carícia, a
sensualidade e o erotismo; como criatividade vivenciamos
a capacidade de renovação de nosso
próprio movimento, não há
um modelo de uniformidade a ser seguido; a afetividade
está presente a todo momento permeado as
relações interpessoais dentro do
grupo; a transcendência está diluída
na capacidade de abertura e entrega, a si, ao
outro, à vivência e na percepção
de que cada um é o grupo. Quando nos encontramos
com uma pessoa e logo em seguida com outra, levamos
a qualidade do primeiro encontro para nosso encontro
seguinte. Somos aí a integração
de todas as pessoas com as quais nos encontramos
e podemos levar toda essa riqueza a cada pessoa
com a qual nos encontramos – na sessão
de Biodanza ou fora dela.
Envolvendo esse turbilhão de energia que
é a expressão das linhas de vivência,
existe uma pulsação polarizada de
expressão do ser, ou melhor dizendo, da
expressão das linhas de vivência
como energia de vida. Essa pulsação
se dá de acordo com a polaridade de expansão
e recolhimento.
Em sua polaridade de expansão nos sentimos
como um “centro de percepção”
do mundo. Somos o que somos e nos movemos na realidade
diferenciados do mundo, com os limites corporais
nítidos, temos aí a “consciência
intensificada” de sermos nós próprios,
o sistema biológico, através da
estimulação do sistema nervoso autônomo
simpático, encontra-se pronto para a ação,
seja ela o trabalho, a luta ou a fuga.
Essa pulsação de expansão
e recolhimento, ou yin-yang como a denominara
os taoistas chineses, parece ser a maneira de
expressão do universo, a alternância
das polaridades complementares. Logo podemos,
por um ato da vontade ou da consciência
penetrarmos em um estado que chamamos de regressão,
no sentido de retornar à origem ou à
essência. Nessa polaridade nos sentimos
parte de um todo, nosso limite corporal não
é tão nítido, o organismo
(pelo estímulo do sistema nervoso autônomo
parassimpático) volta-se para estados de
reparação dos tecidos e órgãos
e de nutrição. Essa vivência
pode aprofundar-se até a percepção
da unidade e a fusão que pode ser uma vivência
de percepção sensível de
si próprio, com o outro ou o êxtase
com a beleza e força da natureza. Somos
então seres que existem nessa polaridade,
em determinado momento somos o que somos –
diferenciados do mundo, em outro momento somos
o que somos unidos, diluídos, fusionados
parte do todo ou da unidade, somos o mundo.
A Biodanza, ao mesmo tempo em que estimula as
linhas de vivência, fortalece a vivência
de ser diferenciado do mundo, uma Identidade que
tem consciência intensificada de ser diferenciada
do mundo e induz estados de regressão que,
podemos dizer, é um estado de consciência
intensificada de ser fusionado, ou parte do mundo.
Através das vivências de regressão
podemos atingir o que chamamos estados de transe,
um trânsito, uma modificação
no estado do organismo como um todo, que nos leva
á vivência de transcendência.
O caminho para a transcendência são
os estados regressivos e o estado de transe que
é o aprofundamento daquele. No equilíbrio
dinâmico dessa pulsação nos
colocamos no mundo com vigor e coragem e nos abandonamos
(nos abrimos) ao mundo com confiança e
amor. Esse equilíbrio possui conotação
psicológica além de fisiológica
(no funcionamento do sistema neuro-vegetativo),
revelando o dinamismo do sistema vivente humano.
De acordo com nossa percepção, o
ser humano é uma Identidade, uma unidade
diferenciada cuja essência é a própria
vida, mas, que por diferentes motivos não
se relaciona com a realidade (realidade cotidiana,
realidade vivida) a partir do que é, mas
sim a partir da imagem que tem de si mesmo, do
que pensa ser ou da imagem idealizada para si,
o que gostaria de ser.
O ÊXTASE DE VIVER
Por vias que nos são alheias perdemos o
acesso ao êxtase, à vivência
de sentir a vida por inteiro desdobrando-se no
inefável e terno momento presente. O sentido
da verdadeira vitalidade se esconde por detrás
da mecanização dos movimentos e
da exarcebada competitividade ou da passiva aceitação
da vida em ímpeto do cotidiano. Os momentos
plenos demasiado rapidamente se tornam memória
e fantasia, a intensidade de viver exige energia
e plenitude para que possamos perceber a imensa
inteireza daquilo que nos toca viver no momento
presente.
Podemos ir além dos mandatos parentais
e da cultura que nos ensinaram que somos separados
do outro e do mundo, reorganizar nossa percepção,
perceber e sentir a unidade do movimento harmônico
do todo em nosso cotidiano.
Somos parte da grande harmonia cósmica
e é esse o movimento que conduz e organiza
nosso existir como seres humanos. Se vivermos
com tal integridade (inteireza) nossos movimentos
se tornam parte da grande dança cósmica,
nosso cotidiano se transforma em expressão
arquetípica e a vida uma eterna possibilidade
de aprendizagem, de vivência e de enriquecimento
da consciência.
Aqui, nesse momento, sentimos e recobramos o sabor
e o êxtase de viver.
BIBLIOGRAFÍA
MATURANA, H.; VARELLA, F. Elárbol del conescimiento.
Santiago de Chile: Editora Universitária,
1990.
PRIGOGINE , I; STANGERS. Entre o tempo e a eternidade.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
TORO, Rolando. Teoria da Biodanza -– Coletânea
de Textos. Fortaleza: ALAB, 1991.
_______. Biodanza. São Paulo: Editora Olavobras/Escola
Paulista de Biodanza, 2002.
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