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EDUCAÇÃO
BIOCÊNTRICA:
POR UMA EDUCAÇÃO CENTRADA NA VIDA
Feliciano Edi Vieira Flores(*)
Educação hoje
A Educação institucionalizada que
vigora predominan-temente nas sociedades atuais
consiste em um processo de enquadramento da pessoa
a um modelo determinado pela cultura; objetiva
levar o “educando” à adaptação
a padrões de convivência considerados
adequados para aquela sociedade.
Este enquadramento é orientado por modelos
e esquemas de conduta, que prevêem e estabelecem
como deverá ser o comportamento da pessoa
no seu meio social, e por modelos e esquemas de
conhecimentos, isto é, estabelecendo a
priori o que é importante saber e que conhecimentos
têm valor para aquela sociedade.
Assim sendo, a Educação institucionalizada,
com suas normas de comportamento e seus programas
de conteúdos, é um processo que
atua de fora para dentro, sem considerar –
e mesmo desrespeitando – a individualidade,
a identidade pessoal.
Nas palavras de Rolando Toro Araneda, eminente
psicólogo e antropólogo chileno,
criador do Sistema Biodanza®:
“A Educação contemporânea,
em quase todo o Ocidente, não cumpre sua
tarefa de entregar ao indivíduo pautas
internas de desenvolvimento. Não desperta
nele os germens naturais de vitalidade, nem os
valores do íntimo. Não desenvolve
os potenciais criativos, a liberdade intelectual,
nem a singularidade das aptidões. Não
fomenta o esplendor das relações
humanas. A Educação atual tende
a produzir a adaptação servil ao
establishment”. (Toro, 1991).
A estrutura do sistema escolar é fundamentalmente
influenciada por conceitos religiosos/militaristas
de autoridade e hierarquia e por conceitos desportivos
na sua pior acepção de competição
e superação do adversário.
Os alunos sentam-se em fileiras, um olhando a
nuca do outro, em “posição
de sentido”, enquanto o “sargento-professor”,
freqüentemente sobre um plano mais elevado,
dá as ordens do que aprender e de como
se comportar.
No caso destas ordens não serem cumpridas,
terá que fazer “flexões”
de constrangimento na Orientação
Pedagógica ou ir para a “solitária”
na sala da Direção. A pena maior
é a “prisão” naquele
nível letivo por mais um ano.
A modalidade desportiva consiste nos “saltos
de obstáculos” das provas, testes
e exames, na “conquista” das notas
e na “vitória” de passar de
ano.
Nas escolas, em geral, se pratica o mais nefasto
darwinismo social: a luta pela vida e a predominância
do mais forte. Tudo isto justificado pela pretensa
preparação do aluno para ter sucesso
futuro na livre e sadia competição
no mercado de trabalho.
Cabe aqui citar a expressão de Humberto
Maturana (1997), em seu livro Emociones y Lenguaje
en Educación y Politica:
“A competição não é
e nem pode ser sadia porque se constitui na negação
do outro”
E a negação do outro é a
negação da própria humanidade,
enquanto espécie, enquanto comunidade,
enquanto irmandade.
O trabalho cooperativo é raramente considerado:
o meu “colega-adversário” será
um outro “competidor” no Vestibular
e na exigente arena do citado mercado de trabalho.
Os movimentos instintivos de associação,
cooperação, divisão de tarefas
e integração, típicos dos
organismos e comunidades vivos, são absolutamente
negados na escola como reflexo do que ocorre na
sociedade.
Neste particular, temos que admitir que a escola
não poderia ser outra na sociedade em que
vivemos.
Por outro lado, é precisamente na escola
que a transformação da sociedade
pode ter início.
Por uma Educação centrada na Vida
Buscando apresentar uma alternativa a esta visão
pragmatista da Educação atual, queremos
aqui propor uma Educação centrada
na vida, isto é, uma Educação
que tenha a vida como supremo valor, como o valor
mais importante a ser considerado.
Ao propormos uma Educação centrada
na vida, torna-se necessário esclarecer
o que se pretende com cada termo utilizado.
O conceito de Educação pode ser
examinado a partir das origens da palavra.
Libâneo (2002) recorre à opinião
de outros autores para apontar a origem latina
de duas expressões: educatio, significando
alimentar, cuidar, criar, referido tanto às
plantas, aos animais, como às crianças;
e educere, com o sentido de tirar para fora de,
conduzir para, modificar um estado.
O sentido que usamos, que equivale ao segundo
termo citado, resulta de uma interpretação
das raízes etimológicas da palavra:
ex = para fora; ducere = conduzir, tirar. Assim,
entendemos que Educação é
o processo de possibilitar e incentivar o ser
humano a “sair para fora”, expressar
todas as suas potencialidades, tirar de dentro
tudo aquilo que o revela como “ser humano”.
Quanto à idéia de vida que pretendemos
apresentar aqui, esclarecemos:
Em primeiro lugar, vida, no contexto que a tomamos,
não significa apenas a experiência
do cotidiano no sentido da “vida que a gente
leva”. No entanto, ao dizermos que “não
significa apenas”, queremos assegurar que
significa também o “viver de cada
dia”. Este viver passa a ter um significado
especial, mais saboroso e nobre, quando o vivemos
impregnados de um sentido mais profundo de vida.
Em segundo lugar, vida, no sentido que a entendemos,
não se limita, também, apenas às
propriedades biológicas dos chamados seres
vivos. Não obstante, consideramos que este
aspecto, o biológico, não está
fora da concepção de vida que queremos
apresentar.
Quando usamos, no título acima, o termo
Vida, com letra maiúscula, como centro
de um processo educativo, queremos significar
“vida como expressão existencial”.
Sem pretender entrar no campo filosófico,
entendemos que existimos porque estamos vivos,
somos porque nos damos conta da manifestação
da vida em nós. E a vida em nós
é o que realmente podemos chamar de milagre.
Façamos a seguinte reflexão:
A Física, através das Leis da Termodinâmica,
afirma que a tendência do universo é
para a desagregação, para o aumento
irreversível da entropia, no caminho da
ordem para o caos, em direção ao
inexoráv el “entropic doom”,
quando alcançaria o equilíbrio térmico.
A vida, no entanto, é um processo organizador,
que tende a aumentar sua complexidade “desviando”
a entropia, caracterizando-se como uma “estrutura
dissipativa”, e mantendo-se num estado de
não-equilíbrio (Prigogine&Stengers,
1991). Para alguns autores a vida é um
processo neguentrópico, termo decorrente
da expressão “entropia negativa”
usada por Erwin Schrödinger (1887~1961) para
significar que a evolução vai no
sentido contrário ao do aumento da desorganização
que ocorre no seu entorno (Freire-Maia, 1988).
A partir de moléculas em desordem, o processo
evolutivo da vida deu origem a organismos simples
que culminaram em um ser capaz de ter consciência
de si mesmo, o ser humano.
E, uma vez desencadeado este processo vital, não
houve, até agora, nenhuma interrupção.
Cada ser vivo passa a vida a seus descendentes,
seja através da simples divisão
celular, seja por meio do surpreendente, sábio
e prazeroso encontro sexual.
Cada um de nós, em particular, é
o resultado de milhares ou milhões de encontros
entre pares humanos que se reconheceram e, muito
provavelmente, se amaram. De cada encontro se
originaram outros seres humanos que novamente
se encontraram, se amaram e deram continuidade
à procriação de outros pares,
até chegarem aos nossos pais. Estes, a
partir de células vivas provenientes de
seus corpos, possibilitaram a formação
de nosso corpo vivo. Somos, então, biologicamente,
a continuidade, sem interrupção,
de fusões e multiplicações
celulares, cuja origem se perde na origem da própria
vida sobre a Terra.
Quanto aos encontros originários, podemos
quase garantir que, se um deles – e apenas
um – não tivesse ocorrido, certamente
não estaríamos aqui agora. Somos,
portanto, cada um de nós, o milagre dos
encontros que se deram na forma que se deram.
Somos, também, cada um de nós, formados
por um corpo constituído de um aglomerado
de células, cujo conteúdo vem passando,
sem interrupção, de dois corpos
para um outro, através das gerações.
Assim, graças a esta teia de relações
que nos precede, somos todos parentes, somos todos
irmãos.
Assumindo que a Vida em nós é o
milagre dos encontros que nos precederam, nos
sentimos impelidos a reverenciá-la como
a manifestação do Sagrado. A Vida
é, portanto, uma Hierofania.
Uma Educação centrada na vida, então,
seria aquela que reverencia a Vida, assumindo-a
com profunda devoção e respeito,
e comungando com ela num ritual de cuidado extremo
e paixão desmedida. A esta é que
denominamos Educação Biocêntrica.
Pressupostos para uma Educação Biocêntrica
A Educação Biocêntrica visa
a conexão com a Vida. No entanto, enquanto
processo de aprendizagem, uma Educação
Biocêntrica pressupõe certas concepções
que antecedem e devem fundamentar as atitudes
do educador em sua participação
incentivadora, indutora e mesmo condutora –
no sentido de indicar um caminho – no movimento
do educando de conexão com a Vida.
Estar conectado com a Vida significa experienciar
cada instante como único e intransferível
no tempo e no espaço, é captar a
profundidade do “aqui-agora”, é
perceber-se na inserção congruente
com o Todo.
Esta experiência plena e integral da realidade
se expressa no conceito de Vivência (Erlebnis),
proposto por Wilhem Dilthey (1833~1911), “em
substituição à experiência
mutilada da realidade, oferecida pelo sujeito
cognoscente da filosofia tradicional do conhecimento”
(Amaral, 1987).
Dilthey salienta, em seu Tratado da Realidade
(1890), que a vivência, ao encerrar a própria
vida, constitui a zona limite do conhecimento,
isto é, o último fundamento do conhecimento.
A partir daí podemos afirmar, com Maturana&Varela
(2001), que viver é conhecer e conhecer
é viver.
Se concebemos a Vida como expressão existencial,
como uma Hierofania, como Vivência suprema,
conhecer é manifestar, tornar existente
esta Vida. É fazer agir a Autopoiese, para
usarmos o termo criado por Maturana&Varela
(1995).
Conhecer, então, é experienciar
a sensação extraordinária
da pulsação da vida em nós,
o prazer indescritível do “estar
vivo”.
Sendo assim, não podemos conceber um processo
educativo em que a aprendizagem seja imposta e
no qual o envolvimento com o conhecimento não
se constitua em uma vivência prazerosa.
A satisfação que nos dá o
adquirir de um novo conhecimento, o prazer que
é o buscar uma resposta e encontrá-la,
a nutrição da curiosidade com informações
agradáveis, a memória que temos
de coisas que aprendemos e nunca mais esquecemos,
tudo isto indica que aprendemos o que gostamos,
buscamos saber aquilo que nos delicia.
Entre os diversos pressupostos da Educação
Biocêntrica, vamos destacar alguns que julgamos
imprescindíveis. Este poderia ser considerado
o primeiro pressuposto de uma Educação
Biocêntrica:
processo de aprendizagem só se dá
efetivamente se for alimentado pelo prazer do
aprender e pelo sabor do saber.
A Educação Biocêntrica objetiva
possibilitar ao educando uma aprendizagem reflexivo-vivencial,
isto é, uma aprendizagem que, sem menosprezar
o intelecto, leva-o a um envolvimento visceral
com o que está sendo aprendido.
Assumindo a concepção de Maturana&Varela
(1995), o conhecimento, resultando do “acoplamento
estrutural” do ser aprendente com seu meio,
torna-se um conhecimento autopoiético,
integrado ao próprio processo do viver.
O sabor da autodescoberta e o prazer do conhecimento
integrado à própria vida são
os caminhos a serem percorridos neste processo
de aprendizagem.
A relação do ser aprendente com
o meio que o cerca envolve também, e necessariamente,
os semelhantes mais próximos: os demais
seres aprendentes, seus colegas, e, em particular,
o ser ensinante, o mestre, o educador.
Este envolvimento não é paralelo,
mas convergente. Também aí está
manifesto o “acoplamento estrutural”.
Estes seres são meio ambiente uns para
os outros, integram-se na convivência, emocionam-se
no conhecer, são cúmplices na aprendizagem.
A presença do outro que me reconhece e
identifica enquanto ser aprendente e partilha
comigo desta aprendizagem, amplia o meu prazer
de aprender e tempera o sabor do conhecimento.
Um segundo pressuposto de uma Educação
Biocêntrica seria:
As estruturas cognitivas são fortemente
impulsionadas quando se estabelece o vínculo
entre os protagonistas da aprendizagem (educador
e educando).
O vínculo surge quando duas pessoas dão
início ao diálogo da afetividade;
quando a presença de um passa a ter significado
para o outro e vice-versa; quando a relação
de convivência se consolida no amor mútuo.
A afetividade é esta capacidade que possuímos
de sermos “afetados” pela presença
do outro. Quando nos aproximamos de alguém
se instaura, mesmo involuntariamente, um “diálogo
psicotônico”: nossos músculos
se contraem ou distendem, nossa consciência
muda de foco, nosso metabolismo se altera, nossa
fisiologia se modifica, todo o nosso ser se predispõe
à aproximação ou ao afastamento.
Geralmente identificamos a afetividade com o afeto,
com o movimento de aproximação (hemisfério
cerebral esquerdo?) com o outro. No entanto, a
afetividade, ou a percepção de como
o outro nos afeta, pode também envolver
o movimento de afastamento (hemisfério
cerebral direito?), quando temos bem desenvolvida
em nós a capacidade de seleção,
de escolha, de preferência. Tentamos nos
afastar daquilo que pode nos ser prejudicial,
atendendo ao instinto de luta ou fuga. Buscamos
a aproximação daquilo que nos é
agradável, levados pelos instintos gregário,
de nutrição, de proteção,
de acolhimento.
O desenvolvimento da afetividade é imprescindível
para o nosso crescimento pessoal.
Neste sentido, Rolando Toro propõe o desenvolvimento
de uma Inteligência Afetiva, não
como um tipo especial de inteligência, mas
como uma fonte comum de todas as formas diferenciadas
de inteligência. Ou seja, nossa(s) inteligência(s)
é(são) movida(s) pelo que nos afeta.
Nas palavras de Toro (s.d.), “a inteligência
seria a capacidade afetiva de estabelecer conexões
com a vida (o espaço, o significado, ...)
e relacionar a identidade pessoal com a identidade
do universo”.
A afetividade abrange emoções, sentimentos
e desejos. As emoções têm
raízes instintivas e se expressam através
de reações orgânicas e modificações
fisiológicas perceptíveis no sistema
neurovegetativo. A afetividade pode ser evocada
a partir de emoções vividas e sentimentos
cultivados. Não se expressa, necessariamente,
por alterações corporais evidentes.
O desenvolvimento da Inteligência Afetiva
tem, portanto, como ponto de partida, as forças
instintivas que garantem a sobrevivência.
O instinto tem sido estudado tanto do ponto de
vista psicológico como, mais recentemente,
do ponto de vista etológico.
Freud (Ges. Werke) considera o instinto como “...a
representação psíquica de
uma fonte de estímulos endo-somáticos
(...)” ou como “...exigência
somática sobre a vida mental.” (Cunha,
1978).
Teixeira (1996) apresenta a definição
de Allan Kardec: “O instinto é uma
inteligência rudimentar que difere da inteligência
propriamente dita por serem quase sempre espontâneas
as suas manifestações (...)”.
Mesmo que não comunguemos das concepções
do autor, a idéia de uma inteligência
rudimentar, mais somática do que mental,
parece vir ao encontro das concepções
de autopoiese e de evolução neguentrópica,
com auto-regulação e aumento de
complexidade.
Para Rof Carballo (1961), o instinto é
identificado com “...algo que procura a
todo custo a conservação da espécie.”
Assim, os instintos constituem uma pulsão
de caráter inteligente, oriundo da própria
natureza do ser vivo, garantindo a manutenção
e propagação do fenômeno vida.
Estas forças naturais devem ser consideradas
e resgatadas no processo educativo, no sentido
de valorização e cuidado com a vida.
Este pode ser considerado um terceiro pressuposto
para uma Educação Biocêntrica.
Uma educação integrada deve incluir
o cultivo das forças instintivas que são
organizadoras e conservadoras da vida;
Podemos admitir, portanto, que o ser vivo busca,
instintivamente, a conservação de
sua vida, cuidando de sua sobrevivência,
evitando o que pode lhe causar algum dano.
A manutenção da homeostase, dentro
de um equilíbrio que poderíamos
denominar como padrão autopoiético,
se expressa no que identificamos como saúde.
Em termos gerais, a noção de saúde
é relacionada a um organismo, um corpo,
funcionando dentro da normalidade, isto é,
na ausência de qualquer disfunção
ou doença. E isto é válido
para qualquer ser vivo.
Para o ser humano, no entanto, a saúde
abrange muito mais que “as funções
normais” do corpo. Jung considerava saúde
como a integração entre a razão,
a sensação, o sentimento e a intuição.
Portanto, aquilo que denominamos como “aspectos
psíquicos” também está
incluído no sentido que nós, seres
humanos, damos à saúde.
Um corpo em pleno funcionamento expressa saúde.
Mas, como afirmava W. Reich, o corpo é
o inconsciente visível. Nossa saúde
é, então, uma expressão existencial.
Do soma e da psiqué. Não dicotomizados,
mas integrados.
Uma educação centrada na vida deve
ter como preocupação esta expressão
existencial somato-psíquica. A pessoa saudável
é aquela que expressa, através de
seus movimentos no mundo, uma corporeidade vivida
com intensidade.
O movimento é uma das principais características
dos sistemas vivos. Ele aparece já nas
circunvoluções dos conteúdos
protoplasmáticos, evidencia-se nas alterações
de forma das amebas e manifesta-se elegantemente
nos deslocamentos, desde a natação
dos protozoários caudados até o
caminhar dos grandes mamíferos.
Nos seres humanos os movimentos se expressam em
impulsos emocionais, em gestos voluntários
resultantes da aprendizagem, em coordenações
automáticas com raízes genéticas
– como andar, respirar, piscar – e
nas ondulações sensuais das danças
espontâneas.
A dança é a expressão mais
visceral, emocional e graciosa do ser humano.
Como afirma Roger Garaudy em seu livro Dançar
a Vida: “A dança é um modo
de existir”. (...) “Dançar
é, antes de tudo, estabelecer uma relação
ativa entre o homem e a natureza, é participar
do movimento cósmico...” (Garaudy,
1980).
Em Moraes (1997) lemos: “Se o processo educativo
é um sistema aberto, vivo, podemos inferir
que tanto o planejamento quanto a prática
pedagógica (...) necessitam incluir o movimento,
que pode ser compreendido como forma de expressão
dos processos de interação e reflexão”.
A corporeidade, por sua vez, compreende toda a
nossa fisiologia, desde o pleno funcionamento
visceral até a livre expressão de
nossas emoções e sentimentos. A
corporeidade envolve também toda nossa
percepção e acoplamento ao mundo
que nos rodeia através de nossas experiências
sensoriais. Ver, tocar, ouvir, degustar, cheirar
o mundo com plena consciência, intensidade
e entrega, significa o que chamamos corporeidade
vivida.
Por isto, consideramos que:
O processo de desenvolvimento individual deve
assumir a corporeidade como ponto de partida e
o movimento humano pleno de sentido como expressão
de presença no mundo;
Este seria um quarto pressuposto para uma Educação
Biocêntrica.
A expressão de presença no mundo
se torna possível quando nos sentimos conscientes
do que somos, isto é, quando tomamos consciência
de nossa Identidade. Este é um dos processos
evolutivos que mais caracteriza o ser humano:
a consciência de si e a comovedora vivência
de estar vivo.
A consciência da Identidade se dá
quando nos reconhecemos e somos reconhecidos como
singularidade entre os demais, quando percebemos
o significado de ser um indivíduo distinto
entre semelhantes, e quando nos identificamos
exatamente por nossas diferenças e similaridades.
Nossa identidade, então, se estrutura na
medida em que conseguimos nos consubstanciar como
indivíduos, como um ser em si, através
da construção de nossa Autonomia.
Ser autônomo é constituir-se como
unidade diferenciada dentro da unidade do sistema
a que pertencemos, ou seja, dentro do sistema
vivo. Do ponto de vista biológico podemos
dizer que Autonomia “seria a organização
de um sistema independente dentro de um sistema
maior conservando uma perfeita integração
com o sistema maior” (Toro, s.d.).
A consciência da Identidade é concomitante
e congruente com a construção da
Autonomia.
Enquanto a Educação institucionalizada,
atuando de fora para dentro, massifica e enquadra
o educando em fórmulas pré-estabelecidas,
a Educação Biocêntrica, propondo,
de certa forma, uma inversão paradigmática,
tem como objetivo a expressão da Identidade
e a construção da Autonomia através
de um processo de dentro para fora.
Por isto, o quinto pressuposto da Educação
Biocêntrica seria:
Uma educação plena deve visar a
construção da Autonomia e a expressão
e fortalecimento da Identidade;
A Educação Biocêntrica considera
que a expressão da Identidade do educando
se dá na relação com o outro
e com o mundo. Ao ser reconhecido pelo outro e
ao reconhecê-lo como semelhante mas distinto,
o educando se identifica como ser único
e singular ao mesmo tempo em que se sente integrado
e pertencente a este mundo de semelhantes. Ao
se inserir e integrar ao mundo, passa a fazer
parte dele e do Todo. Como um holograma vivo,
ele vivenciará a percepção
de ser parte e todo no Universo.
Aquele que se percebe pertencente ao mundo dos
humanos consegue mais facilmente conectar-se com
uma ética instintiva que o orienta a relacionar-se
adequadamente com este mundo.
Ao “reconhecer o outro como legítimo
outro” (Maturana, 1999), a conduta pessoal
passa a ser espontânea e inspirada pelas
raízes biológicas do amor (Maturana&Varela,
2001) e pelas vantagens gregárias da convivência.
Esta ética instintiva não se coaduna
com condutas impostas ou com a competição
individualista.
Então, reconhecer o outro implica muito
mais do que uma atitude moral de “respeito
humano”: significa desenvolver pelo outro
uma relação emocional que se exprime
na afetividade, no amor incondicional aos semelhantes,
na relação fraterna, solidária
e altruísta.
A Identidade e a Autonomia se constroem a partir
das potencialidades do ser humano, daquilo que
cada um é como indivíduo, daquilo
que recebeu como herança genética.
Quando, mais acima, buscávamos um conceito
na etimologia, concluímos que Educação
é o processo de possibilitar e incentivar
o ser humano a expressar todas as suas potencialidades.
Possibilitar a expressão destas potencialidades
hereditárias, que já estão
inscritas no nosso código genético,
consiste exatamente em ex ducere, em “tirar
para fora” aquilo que a pessoa já
é. Esta é a tarefa do educador.
Este é o sexto pressuposto da Educação
Biocêntrica:
O Educador é aquele que promove a expressividade
dos potenciais genéticos do educando possibilitando
sua manifestação como valorização
e amor pela vida em geral, como descoberta do
sabor do saber e do prazer do viver, como curiosidade
permanente e exaltação criativa,
como afetividade e solidariedade, e como integração
com o mundo em que vive.
Ao estruturar o Sistema Biodanza®, Rolando
Toro efetuou uma série de estudos com diferentes
grupos de pessoas buscando correspondências
entre a expressão dos potenciais genéticos
e as principais aspirações humanas
(Toro, 2002).
Utilizando o método fenomenológico,
Toro reuniu resultados a partir dos quais pôde
identificar cinco grupos que pareciam representar
as aspirações comuns a todos os
entrevistados.
A partir disso, Toro lançou a hipótese
de que cada um dos cinco grupos estaria referenciado
a uma forma de expressão das potencialidades
genéticas. Buscou, igualmente, excluir
as motivações culturais, tais como
a necessidade de poder, definindo cada grupo com
um termo que representasse o resumo das respectivas
aspirações humanas.
Assim:
- as aspirações por saúde,
pela sensação eufórica de
estar vivo e pelo ímpeto vital que nos
faz estar-no-mundo com coragem, alegria e entusiasmo,
foram identificadas com o potencial de VITALIDADE.
Este potencial tem como raízes os instintos
de sobrevivência biológica e conservação
da vida.
- as aspirações de prazer sensorial
ao nos relacionarmos com o mundo e com os outros
manifestando nossa capacidade de desejar, buscar
e desfrutar as coisas boas da vida, foram identificadas
com o potencial de SEXUALIDADE. Este potencial
se fundamenta no instinto sexual de perpetuação
da espécie e de busca de prazer sensorial.
- as aspirações de ser capaz de
criar coisas novas, de participar na transformação
do mundo, de expressar-nos pela arte, foram identificadas
com o potencial de CRIATIVIDADE. Este potencial
está ligado aos instintos exploratório,
de curiosidade e de impulso para a inovação.
- os desejos de alegria da relação
afetiva, de amizade, de amor, de vínculo
com os semelhantes, de solidariedade e altruísmo,
foram identificados com o potencial de AFETIVIDADE.
Este potencial tem como base nosso instinto gregário
de nutrição, proteção,
acolhimento, de solidariedade entre as espécies.
- os anseios de ir além daquilo que Dilthey
denominou “experiência mutilada da
realidade”, de viver uma experiência
mística, a busca de uma harmonia existencial
e de uma integração à humanidade
e ao universo, representam a manifestação
de um potencial de TRANSCENDÊNCIA. Este
potencial também tem raízes instintivas
nos fenômenos de ressonância biológica
e acoplamento estrutural que mantêm a integração
dos organismos e dos sistemas ecológicos.
A Educação Biocêntrica visa
o desenvolvimento otimizado destes potenciais
de vida e a expressão de uma identidade
relacional e amorosa. Por esta razão utiliza
o Sistema Biodanza® como instrumento mediador
no processo educativo.
Os pressupostos acima apresentados se colocam
não apenas como objetivos a serem alcançados
mas, e principalmente, como antecedentes paradigmáticos
necessários na concepção
de um projeto educativo centrado na Vida.
A prática da Educação Biocêntrica,
portanto, exige uma mudança existencial
de paradigmas e uma nova maneira de ver o mundo.
Devemos abandonar o antigo paradigma antropocêntrico
e assumir como fundamento de vida um Princípio
Biocêntrico, que considera a Vida como valor
supremo e como manifestação hierofânica
do Sagrado.
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