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AFETIVIDADE:
CONVERGÊNCIA ENTRE EDUCAÇÃO
BIOCÊNTRICA
E A EDUCAÇÃO DIALÓGICA DE
PAULO FREIRE
Prof. Dr. Agostinho Mario Dalla Vecchia
Resumo
Este é um ensaio sobre a afetividade na
Educação Biocêntrica e na
Educação Dialógica de Paulo
Freire. Será um início de discussão
e reflexão sobre o tema. Para isso destacaremos
inicialmente aspectos introdutórios e conceituais
sobre a afetividade. A seguir, serão abordados
os temas: Educação e Afetividade
na perspectiva da Biodanza e da Educação
Biocêntrica, Afetividade e sua dimensão
biológica, Afetividade como inteligência
da vida no universo, A amorosidade permeando o
universo- a afetividade permeando a vida humana,
A inteligência afetiva.e, por último,
a Tendência Evolucionária da Educação.
Definitivamente começamos a abordar o tema
da Afetividade na Educação Biocêntrica
e na Pedagogia Dialógica de Paulo Freire.
Palavras-chave
Educação; Afetividade; Convergência
Palavras iniciais
Segundo a Educadora e Facilitadora Ruth Cavalcante
(2001: 33), a Educação Biocêntrica
é a Pedagogia do Encontro. Ela faz parte,
juntamente com a tendência Dialógica
de Paulo Freire, da convergência e encontro
de Tendências Pedagógicas que apresentam
uma centralidade na vida, encontro de perspectivas
pedagógicas que trazem uma Tendência
Evolucionária da Educação
nas suas formas de pensar e de desenvolver a ação
pedagógica.
Onde há convergência há elementos
comuns e elementos que se inclinam na mesma perspectiva
de abordagem de uma realidade, no caso, a educação.
Com certeza são muitos os elementos comuns
e elementos que se aproximam no pensamento e na
ação de ambas as tendências
pedagógicas. Nós pretendemos iniciar
uma reflexão que permita destacar um elemento
apenas, com certeza o fundamental para o desenvolvimento
do processo pedagógico: a afetividade
Para isso será realizada uma abordagem
mais ampla sobre a questão da afetividade,
essencialmente baseados em Rolando Toro (Apostilas
das Escolas de Formação) para depois
iniciar o ensaio sobre a convergência das
duas pedagogias, destacando o lugar de centralidade
que o afeto assume como base estrutural do conhecimento,
da educação e seus processos, dinâmicas,
relações educador-educando.
1. Aspectos introdutórios
e conceituais
Empreendemos neste momento a reflexão sobre
a afetividade na educação, e vamos
trabalhar na perspectiva da Educação
Biocêntrica que é originária
da Visão Biocêntrica, se inspira
no Princípio Biocêntrico (na vida,
portanto), e se articula com o Sistema de Biodanza.
Na parte seguinte destacaremos as convergências
entre a Educação Biocêntrica
e Paulo Freire, duas formas de abordagem da educação
que integram a chamada Educação
Evolucionária.
A Biodanza é uma forma de operacionalização
da educação que integra o desenvolvimento
dos potenciais humanos de saúde, expressando
as emoções mais profundas, nos colocando
em contato com o mais originário e natural
da vida em nós, de forma articulada com
a educação formal. O objetivo é
o desenvolvimento integrado de uma saber racional
com o saber vivencial.
A referência é a vida. Um saber racional
integrado ao saber vivencial resgata a potência
de ação política e social
do homem no mundo. O modo operacional para o desenvolvimento
e expressão dos potenciais humanos utiliza
a música, o movimento, a palavra poética
do facilitador em situações de grupo
para que, de forma ritual, se desencadeie a emoção
num processo orgânico que vai possibilitar
a recuperação das condições
originárias da vida.
A aplicação do método de
Biodanza integrado à Educação,
permite atingir nosso mundo instintivo, desencadear
a emoção a ela vinculada, desenvolver
os sentimentos, deflagrar o bombardeio hormonal
que vai atuar sobre o sistema límbico-hipotalâmico
e sobre a estrutura genética, num processo
que possibilita um conhecimento mais consistente.
É um conhecimento sensível, emocional,
vivencial que nos põe em conexão
integral com a realidade, numa percepção
mais abrangente que a fornecida pela razão.
O dado estratégico da Biodanza é
o contato, o instrumento é a vivência.
O objetivo é a criação de
vínculos.
O conhecimento racional tem sua raiz na afetividade.
Rolando Toro fala da inteligência afetiva.
É neste sentido que a Educação
Biocêntrica atua fundamentalmente com a
afetividade. A afetividade é um estado
de afinidade profunda com o ser do outro que origina
sentimentos de amor, amizade, altruísmo,
maternidade, paternidade, fraternidade. É
um sentimento que envolve o outro ser humano,
um sentimento de amor à espécie.
A afetividade nos identifica com as pessoas para
compreendê-las, amá-las, protegê-las,
cuidá-las ou rechaçá-las
e agredi-las (TORO, 1999, 3, Apostila)
A afetividade tem expressão privilegiada
no amor e pode ter as dimensões de amor
diferenciado, orientado a uma pessoa específica
ou pode ter a dimensão de um amor indiferenciado,
como o amor pelos educandos, pela comunidade,
pelo povo, pela humanidade.
Ao mesmo tempo ela é expressão da
Identidade e processa a sua integração.
Quando a Identidade é débil a pessoa
é incapaz de amar, não aceita a
diversidade, cria vínculos defensivos.
É o caso da pessoa racista. Existem também,
por isso, as patologias da Identidade que se expressam
no ciúme exagerado, na raiva, no ódio
e no racismo (TORO, 1999:4).
A vivência da afetividade (propiciada na
Educação integrada à vida)
facilita uma Renovação Biológica.
Isto se consegue através da Regressão
e da Progressão. Nestas vivências
encontramos ressonância permanente com o
originário. Pela rigidez do ego a nossa
cultura bloqueia a expressão da afetividade.
É preciso regredir à condição
de semente, em uma ação anticultural.
Estes tipos de exercício podem ser facilitados
por pessoas habilitadas. Raramente ocorrem naturalmente
nas condições de vida em que vivemos
(TORO, 1999:6).
Quanto à sua natureza a afetividade é
um sentimento porque dura no tempo. É distinta
da emoção embora a envolva. A emoção
é de momentos e de intensidade. Tem uma
base instintiva, que passa pela sensação,
que provoca a emoção, que ao ser
elaborada é significada e se torna sedimentada,
sentimento. O sentimento dura no tempo. A emoção
é fugaz.
Ao desenvolver nossa capacidade de educadores
não exercemos apenas um ofício,
um papel, mas, através da nossa capacidade
de vínculo, de amar, de sermos nutritivos,
de expressar nossa amorosidade por nosso educando,
estamos promovendo o desenvolvimento de sua Identidade,
de sua articulação orgânica
e integrada consigo mesmo, com o outro, com a
comunidade, com o cosmos. A construção
do conhecimento deve estar integrada à
afetividade para o educando desabrochar a consciência
crítica, o engajamento transformador e
criativo, numa Identidade saudável, na
sabedoria que integra o saber racional e o saber
da vida.
2. Educação
e Afetividade na perspectiva
da Biodanza e da Educação Biocêntrica
2.1. Afetividade e sua dimensão biológica
Afetividade é uma exigência da sobrevivência.
Por razão biológica, ao nascer o
homem é o que mais necessita de nutrição
afetiva. Através de milhões de anos
o homem aumentou a massa encefálica. Assim,
para nascer ele nasce ainda em estado fetal. Para
esse pequeno ser crescer e com o tempo construir
Identidade e independência, a afetividade
é uma necessidade intensa. No processo
de desenvolvimento cotidiano o homem precisa da
nutrição afetiva como precisa do
ar, da água, do alimento.
E a afetividade parte do instinto. O amor é
cósmico. A afetividade é a forma
que o amor assume no ser humano. Se a amorosidade
que permeia o universo é o ingrediente
da criação e da expansão
do universo, a afetividade permite ao homem viver,
crescer, criar-se, evoluir em seus potenciais
ao infinito. Sem este elemento nutritivo a vida
não permanece em nós. Qualquer um
de nós morre sem afeto.
O afeto é o mesmo ingrediente que precisa
a educação para ocorrer como processo
de transmissão dos valores culturais, para
a construção do conhecimento científico
e social e, principalmente, para a construção
da Identidade do educando Assim, “a gênese
biológica da afetividade se relaciona com
o instinto de solidariedade intra-espécie,
impulsos gregários, tendências altruísticas
e rituais de vínculo. Exemplos do fato
são mostrados em cardumes, bandos e manadas”
(TORO,1999:8).
A Biologia Celular revela que há verdadeiras
comunidades de células que integram ações
bioquímicas de “cooperação
celular”. Em casos de necessidade chegam
a alterar o comportamento bioquímico. Um
choque afetivo na pessoa, uma perda afetiva profunda
pode causar dissociações orgânicas
e resultar num processo celular cancerígeno.
No homem, os impulsos instintivos culminam em
sentimentos altruístas e constituem a gênese
do amor. A proximidade de uma pessoa pode provocar
uma misteriosa química em nós, mobilizando
nossa mente, o sistema límbico-hipotalâmico,
o sistema endócrino e a produção
de hormônios. Enfim, uma renovação
orgânica e do nosso ânimo. A presença
do educador é importante na vida do educando
especialmente pela forma como se relaciona e da
forma como é e vive.
Educativamente somos sempre afetivos - na linha
do amor ou da raiva e do ódio. A fúria
de uma pessoa é expressão da frustração
do amor. O ciúme, o ódio, a insegurança
tem a ver com a expectativa amorosa. Afeto vem
de afetar. Pode levar-me a compreender ou a rechaçar
alguém. A educação que não
considera o afeto, que não leva à
expressão do afeto, nega e desconsidera
a criatividade. A afetividade está estreitamente
vinculada com a criatividade que tem nela o seu
ingrediente básico. Na Educação
Biocêntrica (centrada na vida) a criatividade
é o recurso para expressar e realizar o
afeto.
O núcleo da educação, portanto
é a afetividade. A Identidade da pessoa
se forma por um processo de identificação
com o outro na afetividade. Uma das percepções
fundamentais de Paulo Freire foi a de que a “amorosidade
deve permear nossa sala de aula”(Pedagogia
da Autonomia). A educação popular
de conscientização e de politização
dos trabalhadores foi possível pela inteira
atitude ética de levar em conta a situação
de alienação do camponês e,
por essa percepção e adesão
amorosa pela sua libertação. O processo
educativo de conscientização, de
mobilização e de resgate da Identidade
foi possível. Na Identidade sólida
e amorosamente integrada se dá a autonomia
tão propalada. A Identidade se faz na relação.
O amor solidário, desprendido e sensível
pela situação do pobre, somado a
uma opção ética de luta pela
sua libertação, deu sucesso essa
pedagogia que se universalizou. Os políticos
e partidários dos movimentos de esquerda
que não tem integrado um discurso de mudança
a uma atitude realmente amorosa, nada conseguem
construir para uma nova sociedade. Por outro lado,
são muitos e visíveis os exemplos
de professores que tem um discurso avançado,
dissociado de uma percepção e de
uma atitude amorosa. Impõe seus discursos
e se contradizem na prática.
É preciso uma educação emocional
porque perdemos nossa capacidade instintiva de
reconhecer a afetividade e suas qualidades em
nós. O amor é o nosso principal
alimento. Nossa cultura é patológica
pela competição, pelo ódio,
pela discriminação e pelo rancor
que a perpassam. É uma cultura da morte
e da destruição. Nossa sociedade
é necrófita, até nas aparentemente
banais fofocas. Se cultivarmos relações
amorosas, inverteremos esse processo de dissociação
profunda que há em nós e na sociedade,
nas instituições, nas ciências,
na filosofia, na religião, na economia,
na política e na educação.
Dissociamos corpo-alma, o conhecer e o saber,
razão e emoção.
Afetivamente precisamos sair do nível da
sobrevivência para o nível do viver,
para a dimensão do viver amoroso, permeando
a nossa existência e a do educando. O cuidado
consigo mesmo e com o outro se dá simultaneamente
na relação amorosa. “Ética
é o cuidado pela vida sob as suas mais
variadas formas” afirma Myrthes Gonzáles
na Apresentação da nossa obra: Ética:
afetividade e cuidado pela vida.
Uma das formas de destruir o outro é a
desqualificação, tão freqüente
nos meios educacionais. Ela vai distorcendo e
destruindo o amor. A baixa auto-estima do professor
o leva a manipular o aluno para ter o seu amor.
O aluno que tem baixa auto-estima também
engendra mecanismos de manipulação
aos quais devemos estar atentos.
2.2. A afetividade é a inteligência
da vida no universo
A afetividade determina a evolução
completa do ser humano, desde a vida intra-uterina
à maturidade. A inteligência tem
sua base estrutural na afetividade. Os processos
de adaptação ao meio, a construção
do mundo se organizam em torno das protovivências
afetivas. Há uma inteligência emocional.
A capacidade de aprender, a memória, as
percepções são condicionadas
pela afetividade. As motivações
existenciais que desenham nossa trajetória
na vida são de natureza emocional. Assim,
a estrutura seletiva, as preferências e
o juízo estético são influenciados
pela afetividade (TORO, 1999:13).
A afetividade é a inteligência cósmica.
A inteligência ética não é
intelectual, mas vivencial. Na Analética
(Método da Filosofia da Educação,
ou a própia filosofia da Libertaçao)
Enrique Dussel também fala do ponto de
partida essencial da ética que é
a percepção do outro na condição
de vítima, na pobreza, na miséria,
na marginalidade, caído e explorado (DUSSEL,
2000). A inteligência ética tem suas
origens na forma de organizar estruturalmente
o mundo e a relação com os outros.
O gênio da espécie não é
a inteligência e sim a afetividade orientada
à tolerância, à compaixão,
à amizade e ao amor. A afetividade é
a raiz nutritiva da vida (TORO, 1999:13).
“Nossa sociedade tem uma patologia afetiva
ostensiva” (TORO, 1999:13). “A aprendizagem
da linguagem, da literatura, da poesia, da arte,
possui uma gênese afetiva” (TORO,
1999:13). Reiteramos a idéia de que é
necessário que a educação
considere a afetividade sadia e trabalhe integralmente
com ela, mas considere também as suas patologias
para atuar de forma pertinente e eficaz. A falta
de amor a si mesmo gera autodestruição.
A segunda forma patológica é a dificuldade
de contato-comunicação. Outra patologia
é a intolerância frente à
diversidade gerando domínio e submissão.
Outra doença do afeto em nossa cultura
é o egocentrismo e o individualismo vinculados
à idéia do ser como ter e como poder.
O maior representante da visão holística
no Brasil, Pierre Weil, afirma que “esses
padrões (sociais) calcados na tendência
à auto-afirmação excessiva,
da sociedade dominada pelo paradigma mecanicista,
implicam poder, controle e dominação
dos outros pela força, numa classe organizada
dominante em posições de poder mantidas
de acordo com hierarquias sexistas e racistas,
na ênfase na competição e
não na cooperação, e no endeusamento
de uma tecnologia que tem como meta o controle
a produção em massa e a padronização”
(Cf. TAVARES, Clotilde, 2000:62).
Essas patologias, umas individuais e outras sociais,
devem ser consideradas na educação.
Ignorá-las é desvincular-se da realidade,
é abrir espaço para um processo
desagregador provocado primeiro pela pessoa que
trabalha em sala de aula e no contato com os colegas.
2.3. A amorosidade permeando o universo.
A afetividade permeando a vida humana
A amorosidade é a força criadora
que organiza o surgimento, a expansão e
a manutenção do universo. É
a vida articulada no processo irreversível
da criação, originando a surpresa
de cada ser como sua expressão. A amorosidade
permeia tudo no universo. Nós perdemos
a sensibilidade e a percepção desta
amorosidade, mergulhados em relações
competitivas, endereçados a uma luta pela
propriedade de bens para o consumo, de poder,
de conhecimento. Nossa postura “objetiva”
e mecanicista diante da realidade nos privaram
da sensibilidade e, conseqüentemente perdemos
o contato com o sagrado de cada manifestação
da vida.
No reconhecimento desta amorosidade como afetividade
no homem, é preciso buscar no processo
educativo as atividades e vivências que
engendrem os vínculos amorosos na escola
e na sociedade. Uma das formas da afetividade
é a amizade. É um dos sentimentos
mais profundos e nobres, combinando a afetividade,
o sentimento estético, a lealdade e a sintonia
da consciência. Para Ronald Laing “um
homem enfermo é quem não tem amigos”.
A amizade é um sentimento que permite ao
outro ser livre. Na amizade há profundo
respeito pelo que o amigo sente. É um sentimento
complexo que se aprofunda com o passar do tempo.
“Amigo é coisa pra se guardar no
lado esquerdo do peito” diz o canto de Milton
Nascimento. Platão expressava o mesmo cuidado
ao afirmar que não se deve deixar crescer
o mal no caminho da amizade. Temos que cuidar
do amigo (TORO, 1999:33).
Na amizade se cria uma rede mental, um código
que só o compreendem os amigos. A fecundação
de cérebros é um fenômeno
real e se manifesta em aspectos intelectuais e
existenciais. A amizade é essencialmente
criadora. “Um homem sem verdadeiros amigos
é efetivamente inconsistente. Ter um amigo
é ter uma bem-aventurança, um maravilhoso
dom da existência” (TORO, 1999:33).
A Biodanza propõe a “dança
do amigo” e a escola deveria se preocupar
de propiciar o surgimento dos sentimentos de simpatia
e afinidade entre os alunos; identificar-se no
olhar o mundo juntos, apesar das diferenças;
permitir o confronto das divergências para
se reconhecerem mutuamente e não se destruírem;
realizar projetos e tarefas juntos, com os mesmos
objetivos; celebrar o sucesso de ações
realizadas em conjunto; escutar o coração
do amigo, identificando-se com os sentimentos
do outro; estimular a conservação
dos sentimentos de amizade e de fidelidade (TORO,
1999:33).
Uma educação que não estimula
a amizade e as relações afetivas
sólidas não prepara o educando com
o ingrediente da transformação,
da mudança das estruturas a partir de relações
solidárias promotoras da qualificação
do outro. O entrelaçamento afetivo, amoroso
e ético entre as pessoas é que sustenta
e garante um mundo melhor. Neste sentido salta
à vista a necessidade de educar para o
tato e o contato, para a carícia e a ternura.
A princípio parece impossível e
o educador pode ruborizar diante desta exigência.
Numa sociedade do conflito, da competição
e da dissociação raramente experimentamos
o abraço que sintetiza essas qualidades.
Inicia-se de forma lenta e progressiva a educação
afetiva. Ela é possível.
A emoção do abraço tem uma
qualidade singular. É a proximidade do
outro, em um ato recíproco, de sustentá-lo
em toda sua humanidade, de assumi-lo corporal
e espiritualmente. O abraço possui um matiz
mais religioso que sexual. O abraço alude
à fraternidade, à comunicação
generosa. Tem sua fonte na certeza de pertencer
a uma irmandade universal. O abraço é
um meio supremo de perceber o outro como um semelhante.
Mediante o abraço é possível
alcançar o transe de fusão de duas
Identidades em uma Identidade maior. O abraço
é o ato político mais radical (TORO,
1999:23).
Atente-se para a importância da educação
afetiva do educando e a promoção
de seu desenvolvimento humano. O abraço
é um ato de encontro de si mesmo e do outro.
Trata-se de um ato sutil de fusão recíproca.
“Para que esto sea posible, é necesario
una atitud permissiva y un sincero deseo de recibir
al otro” (TORO, 1999:33). É fácil
abraçar pessoas íntimas, mas é
difícil faze-lo com um estranho. São
Francisco foi até aos leprosos e os brindou
com seu abraço. É difícil
abraçar um mendigo ou um louco. É
difícil abraçar um colega que se
firma na oposição competitiva e
de busca de poder. Cada pessoa descobre, porém,
em sua capacidade de abraçar, seu nível
de hominização, seu grau de evolução
afetiva (TORO, 1999:23).
Temos presenciado quotidianamente um nível
de sofrimento muito grande em muitos de nossos
educandos. No bojo do processo educativo é
necessário levar em conta não somente
a temática, mas a realidade do sofrimento
e da felicidade na vida humana. No semblante do
educando muitas vezes está estampado o
brilho da felicidade e na maioria das vezes a
névoa do sofrimento. Como não se
mobilizar diante do sofrimento infantil, juvenil
e adulto? O papel, a tarefa, a missão do
educador não se reduz à transmissão
ou construção do conhecimento. É
uma missão que transita do sofrimento à
felicidade.
Rolando Toro disse: “sin embargo, resulta
extraordinaria-mente misterioso el hecho de que
hayamos construido una cultura del sufrimiento”
(TORO, 1999:23). O nível do sofrimento
aumentou nos últimos anos da história
humana. “La cantidad de sufrimiento que
sobrelleva nossa epoca es inimaginable”
(TORO, 1999:26). Em sua autobiografia Rose Mary
Muraro refere-se à globalização
como um processo de extrema concentração
da riqueza e imagina que em duas décadas
80% da humanidade estará excluida do sistema
MURARO, 1997: páginas iniciais).
Reconhecemos hoje que os sistemas sociais incluem
imensos sacrifícios. Sistemas sociais,
na maioria dos países hoje, se mantém
sobre os pressupostos de altos níveis de
sofrimento provocados pelos sistemas de trabalho
e de exploração, pela concepção
belicista, pela discriminação social,
pelos hábitos de exigência em todos
os micro-sistemas de poder, pelas enfermidades
culturais (TORO, 1999:26). Estas e outras formas
de sofrimento geram o “sentimento trágico
da vida” de que fala Miguel Unamuno. Convicções
filosóficas de que há um elemento
trágico na existência humana iniciaram
na Grécia. Os resíduos da fatalidade
mítica continuam no fundo de nossa cultura.
Inúmeros literatos, dramaturgos, poetas
e pensadores são relatores máximos
dessa cultura do sofrimento. Arthur Jores registra
1.500 enfermidades geradas exclusivamente por
nosso estilo de vida (TORO, 1999:26).
Do oriente Buda postula uma serenidade com o amortecimento
dos desejos e das emoções para fugir
do sofrimento. No ocidente o nosso símbolo
religioso é o crucificado.
Teríamos que seguir o rastro dos gênios
que buscaram a trama perdida da felicidade e a
encontraram: nas “Canções
de bilitis”, de Safo; em alguns poemas de
Gracilaso; no “Aleluia” de “O
Messias”, de Haendel; nas Cantatas de Bach;
na maioria das obras de Vivaldi e Corelli; nas
pinturas de Boticelli; na “A Virgem das
Rochas” de Leonarod da Vinci; nas esculturas
Tântricas de Khajuraho; nos poemas de Tagore;
em algumas composições de Gerard
Harison; nas músicas e danças Hawaianas
(TORO, 1999:26).
São alguns gênios que conheceram
a essência da alegria. A maioria flui pelas
vertentes da dor. O movimento Hippie buscou com
inocência a felicidade num mundo sórdido,
para logo ser contaminado e destruído pelo
sistema e as drogas infiltradas pela CIA.
Rolando Toro acredita que a espécie humana
será assinalada por uma essencial modificação
das estruturas que geram sofrimento para ser trocadas
por aquelas que geram felicidade.
A Biodanza é uma metodologia que propõe
introduzir esta variável, modificando os
microssistemas sociais, no sentido de restabelecer
o vínculo originário entre dança,
encontro e felicidade, movimento-alegria, movimento-amor.
Se nos encontramos no espírito da vida
podemos ter a certeza que a felicidade é
uma condição intrínseca da
existência” (TORO, 1999:27).
A fonte mais freqüente do sofrimento é
a perda do amor. A repressão afetiva tem
sua origem mais profunda num pavor metafísico
e não tanto em causas culturais. Os efeitos
imediatos do sofrimento são a desvalorização
de si mesmo, regressão patológica
e depressão impulsos destrutivos e autodestrutivos,
a resignação diante do sofrimento
perante a fatalidade. Ele influi profundamente
em todos os níveis do comportamento. Um
homem ferido tem uma força pavorosa que
o torna perigoso para si mesmo e para os demais.
Os efeitos sobre o equilíbrio neuro-vegetativo
podem baixar o nível imunológico
dando margem a enfermidades psicossomáticas,
infecções virais, surgimento de
neoplasias. O câncer surge freqüentemente
no segundo ou terceiro mês depois da perda
ou do abandono de um ser muito querido.
Já dissemos acima, o sofrimento estampado
no rosto das crianças e dos jovens nas
salas de aula é muito freqüente. As
causas são as mais variadas, principalmente
as familiares onde se aninham todas as seqüelas
de um mundo estruturado de forma injusta e onde
se reúnem os mais variados problemas de
ordem familiar e de relacionamento. O educador
tem que ter presente esta realidade do seu aluno
para desencadear, no contexto, um processo de
educação integradora e competente.
Nestes casos resta-lhe trilhar
“o caminho que vai do sofrimento à
plenitude é diferente:
-depois de uma primeira etapa de desconsolo, o
indivíduo sente certo alívio de
sua angustia. Volta-se a si mesmo juntando as
suas energias, com o que reforça sua Identidade.
-violência criadora: a hostilidade e a raiva,
são conduzidos a fins construtivos pela
criatividade.
-a atividade: em vez de paralizar-se redobra seus
esforços no trabalho
-rebeldia frente às dificuldades: do fundo
do sentimento de fracasso extrai a força
para alcançar a plenitude” (TORO,
1999:28).
Diante da complexidade afetiva, do sofrimento
e da alegria humanas, o desafio ao “gênio”
criativo do professor o invoca para um processo
de construção orgânica de
sua própria plenitude afetiva no processo
de construção da plenitude dos seus
alunos. O projeto pedagógico do educador
da escola centrada na vida visualizará
uma perspectiva de ecologia humana nos seus horizontes.
Ao tratar dos fundamentos da ecologia humana Rolando
Toro afirma que ela se origina na rede de relações
entre seres humanos.
Ao entrecruzarmos as linhas de potencial humano
de vínculo, de prazer, de integração,
de transcender e de criar, podemos provocar a
fecundação recíproca de tais
potenciais ou bloqueá-los e inibi-los.
Depende da relação que facilitamos
nos nossos educandos. As relações
que geramos em aula são de nível
orgânico, vivencial e noético porque
os seres humanos são os ecofatores mais
poderosos que existem. Originariamente os pais
constituem a matriz ecológica dos filhos.
O educador, na linha da ecologia humana, deve
investigar as relações tóxicas
ou nutritivas que modulam o desenvolvimento humano
dos educandos. Cada um tem sua estrutura ecológica
humana (TORO, 1999:29).
Ao educador e facilitador da vida cabe a imensa
responsabilidade de propiciar as condições
desse desenvolvimento. Contudo, as instituições
da família, da escola, das igrejas e das
religiões não se habilitaram para
trabalhar com os potenciais afetivos, sexuais,
vitais, e transcendentes dos filhos, dos fiéis,
dos educandos. A Biodanza foi o primeiro movimento
que teve a ousadia de propor-se um trabalho efetivo
em relação a essas dimensões
mutiladas no dia a dia pela cultura, pelo sistema
social e pelas relações vigentes.
O método criado por Rolando Toro, fundamentado
em impressionante bagagem interdisciplinar de
conhecimento, sistematizou uma maneira de desenvolvimento
dos potenciais que utiliza a música, o
movimento e a linguagem poética para desencadear
vivências que potencializam a capacidade
de amar e de vincular-se, de desfrutar do desejo
e do prazer, de criar, de transcender, de ter
saúde cada vez mais consistente.
A Educação Biocêntrica se
propõe integrar o conhecimento escolar
ao conhecimento da vida, produzindo um homem de
sabedoria e não somente um técnico.
Ela vem articular a superação das
dissociações entre o saber e o viver,
entre instrução e educação,
entre o corpo e a alma. Ela integra as pedagogias
que mais se concentram sobre a vida. Para isso
ela integra também o estudo da ecologia
humana, investigando as relações
tóxicas ou nutritivas que modulam o desenvolvimento
da existência no ambiente escolar e da sala
de aula. Biodanza é um sistema eficaz para
livrar-se da contaminação que geram
as pessoas tóxicas e para estabelecer novas
relações nutritivas.
Com a expressão: “as pessoas se instalam
nos órgãos”, Rolando Toro,
a partir das descrições de Lopez
Ibor sobre a estrutura psicológica das
pessoas tóxicas afirma que a convivência
com as pessoas tóxicas é sempre
prejudicial. A existência se torna catastrófica”
(TORO, 1999:32).
É necessário separar-se de pessoas
tóxicas e buscar pessoas nutritivas. Às
vezes a comunicação se torna tóxica
por diferenças ideológicas ou religiosas.
Os ambientes das instituições de
ensino, por não trabalharem as relações,
por não promover processos de integração
entre as pessoas, por estarem impregnadas pela
competição e pela vontade de poder,
desenvolvem um ambiente tóxico em torno
de questões ideológicas. A intolerância
com o pensamento diferenciado revela uma situação
afetiva doente.
2.4. Sobre a inteligência afetiva
Segundo Rolando Toro, a educação
deve criar mecanismos para desenvolver a Inteligência
afetiva:
Na realidade a inteligência forma parte
de todas as nossas funções e de
toda nossa história existencial. Pensamos
não só com o cérebro, mas
com todo nosso corpo."
"...Penso que o fator permanente que integra
e dá estrutura à inteligência
como função global é a afetividade."
"... A inteligência afetiva não
é um tipo especial de inteligência.
Todas as formas diferenciadas de inteligência:
motora, especial, mecânica, semântica,
social etc, tem uma fonte comum: a afetividade."
(Toro. apostilas do módulo de Educação
Biocêntrica)(Cit. por CAVALCANTE, 2001:44).
A afetividade é um fenômeno mais
amplo que a emoção, abrangendo também
os sentimentos e desejos. Para desenvolver a inteligência
afetiva a Educação Biocêntrica
pretende despertar a afetividade nos educandos,
ampliando sua percepção e expandindo
sua consciência ética. Isto faz com
que não se permita o bloqueio da afetividade,
o controle e a domesticação próprios
de um ambiente competitivo de uma escola atrelada
ao sistema econômico e cultural vigente.
O desenvolvimento da inteligência afetiva
permite a evolução integrada de
todas as formas de inteligência, integra
e organiza a percepção e o pensamento.
Todas as pessoas têm essa capacidade em
potencial. A influência da dissociação
afetiva de nossa sociedade afeta a auto-estima
das pessoas, sua capacidade de resolver conflitos
e principalmente a capacidade de compreensão
e amor. Depois da sexualidade, a afetividade é
uma função psicológica das
mais reprimidas nas relações sociais,
nas relações escolares, nas relações
políticas e econômicas da nossa sociedade.
A afetividade tem uma base instintiva e se manifesta
nas primeiras vivências de fome e saciedade,
de desproteção e proteção,
de cuidado, de contato e vínculo do bebê
com a mãe. Diz Ruth Cavalcante (2001, 46),
"a afetividade está vinculada à
chamada protovivência que é a vivência
inicial da vida humana relacionada à fome,
à nutrição, à necessidade
de proteção por meio de continente
calor humano, assim como pela comunicação
entre as pessoas"
3. Tendência Evolucionária
da Educação
Lais Bezerra, em sua monografia de formação
como Facilitadora, defendida no Encontro Nordestino
de Biodanza em 1992, em Terezina, acrescenta uma
nova tendência de educação
à já conhecida classificação
de José C. Libânio: "Educação
Biocêntrica: uma tendência evolucionária
em educação". Ao lado da Educação
Biocêntrica estariam colocadas a Tendência
Dialógica da Pedagogia de Paulo Freire
juntamente com o Construtivismo e o Holismo. As
quatro tendências têm convergências
que, no conjunto, permitem ser classificadas como
evolucionárias e tem especificidades próprias.
Colocamos a afetividade como ponto de convergência
entre a Pedagogia Biocêntrica, originária
da integração da Biodanza e a Educação
Formal, e a Pedagogia Dialógica de Paulo
Freire. Colocamos, acima, e de forma ampla, os
fundamentos da compreensão Biocêntrica
sobre a afetividade e agora vamos iniciar o exercício
de refletir, a partir dessa referência,
sobre as convergências que integram as duas
perspectivas na Tendência Evolucionária.
A origem dessa denominação tem referência
à idéia de Cultura Evolucionária
de Rolando Toro frente à cultura ocidental.
A sua proposta trazia a permissão para
a expressão das emoções,
da alegria e do prazer, sendo o amor comunitário
a base da consciência comunitária
e da justiça social. A Biodanza seria o
caminho para a mudança para o novo estilo
de viver. Tem raízes também em Fritjof
Capra, que em O Tao da Física aponta para
"o início de um espantoso movimento
evolutivo" expresso na "preocupação
crescente com a ecologia, o forte interesse pelo
misticismo, a progressiva conscientização
feminista e a redescoberta de acessos holísticos
à saúde e à cura, (que) são
manifestações da mesma essência
evolucionária" (CAPRA, 1983:17). A
evolução do pensamento de Capra
em O ponto de Mutação, a Teia da
Vida, traz na essência da aplicação
do seu pensamento em rede à vida social,
a presença dos vínculos afetivos
como fatores estruturantes das condições
de vigência para as organizações.
Isso é explorado em “As Conexões
Ocultas” publicado recentemente.
Nossa pequena e incipiente abordagem é
apenas um inicio de humilde reflexão, como
uma abertura de caminho a vislumbrar a importância
da consideração da afetividade como
temática essencial da educação,
como pode, alem de ser a vivência básica
que sustenta o processo educativo, ser operacionalizada
em projetos pedagógicos, em objetivos,
em dinâmicas, em relação educador-educando.
Aqui somente iniciaremos o processo de reflexão.
3.1. Educação Biocêntrica
e a Pedagogia Dialógica de Paulo Freire:
a afetividade em convergência
A referência básica, portanto, da
análise dessa convergência é
a afetividade.
Na Tendência Evolucionária da Educação
a Tendência Biocêntrica articula um
processo de "reeducação afetiva
através do vínculo; o desenvolvimento
da inteligência afetiva; a aprendizagem
reflexiva e vivencial e o cultivo das energias
organizadoras e conservadoras da vida" (CAVALCANTE,
2001:41). É uma tendência que se
caracteriza por propiciar o fortalecimento do
educando e por tomar a vida como referência
para a construção do conhecimento
através da relação consigo
mesmo, com o outro e com o cosmo. Seu objetivo
é a reeducação afetiva da
vida e a ampliação da consciência.
Os conteúdos de ensino-aprendizagem são
o cultivo de energias organizadoras e conservadoras
da vida. O método de ensino-aprendizagem
se caracteriza pelo vinculo impulsionador das
estruturas cognitivas, tendo como referência
a vivência, os instintos e a expressão
dos potenciais genéticos. Também
fortalecer a função de conexão
com a vida.(Cf. CAVALCANTE, 2001:41-42).
A tendência Dialógica é critica,
questionadora e antiautoritaria. Dá ênfase
à transformação social através
da conscientização do educando.
O conteúdo de aprendizagem é extraído
da problematização da prática
da vida dos educandos (temas geradores). O diálogo
como ato político da ação
de educar. Valorização da experiência
vivida como base da ação educativa.
O diálogo é um ato de permissão
e de cuidado para que o outro se revele e nisto
aconteça como identidade.
Esta tendência se caracteriza pela transformação
social através da conscientização
do educando e o diálogo como ato político
de ação educativa. O objetivo da
escola é ser instrumento de libertação
do educando através da consciência
do seu papel histórico transformador. O
conteúdo da aprendizagem é extraído
da problematização da prática
da vida do educando, codificado nas palavras e
temas geradores. O método de ensino valoriza
a experiência do educando expressa no "círculo
de cultura". A escola é o espaço
eminentemente político(Cf. CAVALCANTE,
2001:39).
A Educação Biocêntrica considera
a cultura, mas de dentro para fora, através
da expressão dos potenciais, considerando
o ritmo de cada pessoa. Considera as contribuições
da Educação Holística por
concordar que as pessoas sejam educadas para plenitude.
A Educação Dialógica apresenta
o mesmo axioma da Educação Biocêntrica
que é o profundo respeito à vida.
Na fala de apresentação de "A
Cartilha da Ana e do Zé", a professora
Luiza Teodoro nos diz: "Essas palavras geradoras
quisemo-las não apenas geradoras fonéticas,
mas provocadoras de uma reflexão, cujo
alcance dependerá, tanto das possibilidades
do educando como da capacidade do professor na
condução do processo de descoberta
do pensamento. Assim, começamos pela palavra
mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais próxima:
Vida. Viva a vida...." .(Cf. CAVALCANTE,
2001:49).
Os dois principais temas geradores da teoria freireana
são conscientização e mudança.
Mas a vocação mais profunda da obra
e da vida de Paulo Freire é propiciar a
expressão dos oprimidos, sendo o método
e atividade pedagógica o diálogo.
Freire parte da convicção de que
o homem foi gerado para se comunicar com os outros.
O conhecimento é um processo de criação
e recriação juntamente com a criação
e recriação social. Neste particular
se reflete a teoria marxista onde a realidade
social e do conhecimento é uma produção
que resulta do processo de intervenção
humana no mundo através do trabalho. A
sistematização dos conhecimentos
ocorre nos círculos de cultura. Todos estes
elementos da perspectiva pedagógica de
Paulo Freire têm um elemento básico
de suporte: a vigência de um profundo amor
pelos oprimidos e pela sua expressão no
pensamento e na ação libertadores,
construídos coletivamente através
do aprofundamento dialógico. O diálogo
é o principio da ação ético-política,
da ação pedagógica e de relação
das pessoas. Existem a partir de uma perspectiva
de afeto. Dialogar é permitir que o outro
se expresse, é um ato profundamente ativo
de promoção, de qualificação
e de valorização que Paulo Freire
tem essencialmente incorporado como fundamento
da sua atividade educativa.
O pensamento de Paulo Freire reúne a convergência
de várias correntes filosóficas
como a fenomenologia, o existencialismo, o personalismo
cristão, o marxismo humanista, o hegelianismo,
mas a sua síntese filosófica demanda
o diálogo e a consciência social
como formas de superar a dominação
e a opressão entre os seres humanos. Para
que haja diálogo é necessário,
como disse acima, a disposição de
permitir e facilitar que o outro se expresse e
aconteça na sua realidade, na sua identidade,
na sua autonomia. Sem a amizade, o amor solidário,
sem esta postura ética radical não
há construção do conhecimento
e, tão pouco, a libertação
da opressão.
A obra de Paulo Freire em algumas passagens se
refere à exigência da afetividade
como fundamento do processo pedagógico
e social, contudo, nas entrelinhas de seu pensamento,
da sua ação, inserida nos procedimentos
didáticos, nas dinâmicas de grupo,
nos círculos de cultura, nos processo de
discussão crítica da realidade,
na relação efetiva de Paulo Freire
com seus educandos, está presente de forma
densa e efetiva a afetividade, o amor solidário,
a compaixão, a ternura, a qualificação
e a crença na capacidade do oprimido, em
comunhão com o outro, se libertar através
de um processo pedagógico-polítco
de conscientização e de engajamento
pela mudança.
O surpreendente sucesso de alfabetizar, conscientizar
e permitir a politização de homens
e mulheres camponeses, oriundos de séculos
de alienação, em 40 dias, não
é, com certeza, resultado somente de um
método de trabalho montado sobre a cooperação
e a construção coletivas, mas, antes
de qualquer coisa, na atitude amorosa de ouvir,
de reconhecer, de valorizar a experiência
do campesino, de cuidado amoroso em facilitar
a palavra de cada um, a expressão de cada
um, de resgatar o valor originário da sua
singularidade, na sua comunidade. Neste sentido,
Paulo Freire é biocêntrico e converge
na raiz com o pensamento e a metodologia da Educação
Biocêntrica que valoriza a afetividade como
base estrutural da integração da
pessoa humana, como base estrutural da educação,
da economia, da política, etc. A Pedagogia
do Diálogo e a Pedagogia Biocêntrica
são integradas à vida.
É na conexão com a vida, na formação
de vínculos através do contato que
a Biodanza desencadeia um processo vivencial de
conhecimento que pode ser elaborado e integrado
em nível racional. O homem por inteiro
na sua corporeidade é valorizado e assumido
em seus instintos, em sua percepção,
em sua intuição, emoção
e sentimentos, num processo que facilita a expressão
de seus potenciais de criação de
vínculos, de desfrutar do prazer em suas
ações, de utilizar a sua potência
energética vital de ação
e de repouso no mundo, de expressar sua criatividade
na beleza e na transformação ativa
da realidade, na sua capacidade de conexão
consigo mesmo, com o outro e com a natureza. O
eixo articulador do processo de expressão
e amadurecimento da identidade humana é
a afetividade.
O pensamento da Visão Biocêntrica
será sempre um pensamento aberto e em conexão
com a vida. A primeira grande manifestação
da vida é a amorosidade que permeia o universo
inteiro e se expressa no homem como afetividade.
No processo amoroso a vida é sempre surpreendente.
O processo da vida é um movimento de criação
expansiva que não atingiremos jamais na
totalidade. A revelação da vida
é constante e nossos métodos de
abordagem e de articulação da realidade
serão sempre limitados. A construção
da verdade será sempre um processo de vinculação
à surpresa da vida, de conexão com
o cosmo e com o outro pelo mistério do
amor.
De um modo geral, podemos considerar que a educação
em Paulo Freire se desenvolve por essa atitude
amorosa de cuidado nutritivo, de promoção
e de qualificação da vida do educando,
promovendo sua auto-estima, sua autonomia e determinação
no mundo, força essa de transformação
política real, pela criação
e estabelecimento de vínculos afetivos.
Muitos políticos de esquerda não
realizam um processo político de libertação
da opressão porque estão dissociados
afetivamente dos seus projetos, o seu discurso
não tem raiz na vivência amorosa
e ética. Centrados no poder trilham os
caminhos da dominação. O contrário
do amor e da afetividade diz Rolando Toro é
o poder (de dominação) permeando
a sociedade guiada por uma cultura da competição
e da exclusão. Uma verdadeira patologia
afetiva esta disseminada pela competição,
pela raiva excessiva, pelo ódio e pelo
racismo.
Palavras finais
A natureza da nossa proposta aponta para a continuidade
deste trabalho de uma forma mais ampla e ao mesmo
tempo minuciosa dos aspectos da Educação
Biocêntrica e da Educação
Dialógica para que se cumpram nossos objetivos.
Por ora quisemos chamar atenção
para essa possibilidade e também para a
radical importância que tem a afetividade
para a educação assim como é
também para a economia, a política
e para todas as dimensões sociais.
Gostaríamos de despertar o interesse dos
pesquisadores para voltar-se para essa dimensão
uma vez que ela, segundo os estudos atuais, representa
a base estrutural para toda a vida social.
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