OS
MISTÉRIOS DA MASCULINIDADE E DA FEMINILIDADE
BIODANZA E SEXUALIDADE DE GÊNERO
por Myrthes Gonzalez
Resumo
O artigo fala do fato de a humanidade sempre ter
utilizado rituais de passagem das etapas da vida.
Segundo Campbell os rituais são como que
portais simbólicos que comunicam ao inconsciente
individual e à comunidade do iniciado que
a criança se tornou adulta. É um
reposicionamento do inciado frente à vida
e à comunidade. Nos tempos atuais se esvaziou
o sentido dos rituais pela supremacia de comportamentos
estereotipados. E a imaturidade causa sentimentos
de depressão e de solidão. Ao se
tratar de sexualidade e de relações
de gênero, em Biodanza são criadas
vivências específicas capazes de
trazer o significado de passagem num nível
vivencial, ultrapassando comportamentos marcados
pela cultura para uma conexão com o mistério
profundo do ser masculino e feminino e seu comportamento
natural.
Palavras chave
Ritual, passagem, portal simbólico, integração
comunitária.
Os mistérios da masculinidade e da feminilidade
A humanidade sempre se utilizou de rituais para
marcar a passagem de etapas da vida. Um dos rituais
mais significativos é a passagen iniciáticas
da infância ao mundo adulto.
Este tipo de ritual marca uma mudança na
forma de ser no mundo. Segundo Campbell, o simples
fato de ocorrerem mudanças fisiológicas
na puberdade não é o suficiente
para mudarmos atitudes e comportamentos. O ritual
vem como um portal simbólico que comunica
ao inconsciente individual e à comunidade
onde vive o iniciado que daquele momento em diante
não existe mais a criança e nasce
o adulto. Desta forma existe um reposicionamento
do iniciado frente à vida e dentro de sua
comunidade.
O rituais iniciáticos mudaram ao longo
da história, de acordo com fatores culturais
e religiosos. Atualmente acontece um processo
de esvaziamento de sentido ou até mesmo
ausência deste tipo de manifestação.
Os habitantes de grandes centros urbanos passam
a ser seres anônimos dentro da multidão.
Apesar de viverem cercados por milhares de pessoas
a vivencia comunitária tende a se reduzir
a pequenos núcleos familiares ou até
mesmo não existir nos termos de sentirem-se
parte de um grupo, serem reconhecidos e considerados
como tal. Este fenômeno tem reduzido a oportunidade
de vivenciar os rituais de passagem.
Podemos dizer que existem manifestações
remanescentes como o baile de debutantes ou formaturas,
mas que tendem a perder seu significado iniciático
à medida que são superficializados
por comportamentos esteriotipados.O participante
não tem consciência dos passos que
está percorrendo e acaba se orientando
de fora para dentro, muitas vezes obedecendo padrões
de consumismo.
Segundo Campbell, a imaturidade emocional, que
causa sentimentos de depressão e de solidão,
a cada vez mais prolongada adolescência
e a conseqüente dificuldade de interação
madura entre homens e mulheres devesse em grande
parte ao esvaziamento do sentido destes rituais
em nossa cultura.
Biodanza e sexualidade de
gênero
Um dos aspectos de interesse específico
da Biodanza, quando trabalha sobre a linha da
sexualidade, é a relação
de gênero, ou seja, masculinidade e feminilidade.
É um trabalho essencialmente profundo,
de resgate das raízes arquetípicas
de rituais de passagem específicos para
homens e para mulheres. Isto não significa
que se busca reproduzir rituais iniciáticos
de culturas antigas, que em grande parte se baseavam
no sofrimento do iniciado.
Em Biodanza são criadas vivências
específicas, capazes de trazer o significado
de passagem num nível vivencial. O trabalho
se baseia em duas "casas" ( espaços
vivenciais). A "casa" dos homens e a
"casa" das mulheres. São dimensões
arquetípicas próprias a cada gênero,
mas estão relacionadas. Em cada "casa"
são propostas vivências, compartilhadas
experiências e sentimentos e esclarecidas
dúvidas que dizem respeito ao gênero
da própria casa. É, antes de tudo,
um espaço de compartilhar entre iguais,
conhecer a si mesmo a partir da experiência
semelhante de todos. Um espaço vivencial
de conhecimento, valorização e celebração
das próprias características.
Em um segundo momento, existem processos de união
das duas "casas". Vivencias de reconhecimento,
respeito e encantamento pela diferença.
Aqui não se trata de tolerar ou ignorar
diferenças entre os sexos. Biodanza em
seu trabalho de gênero reconhece homens
e mulheres como seres de uma mesma espécie
que contem profundas diferenças. O trabalho
das "casas" esta voltado ao reconhecimento
desta diferença, a busca do valor essencial
do próprio gênero e o reconhecimento
do valor do diferente. Não se trata de
comparar ou mensurar valores, mas sim de reconhecer
e valorizar uma essência complementar.
Existem coisas que somente podemos descobrir a
respeito de nós mesmos na interação
com pessoas de nosso próprio gênero.
Existe coisas que somente podemos compreender
na interação com pessoas do gênero
complementar.
A participação nas casas independe
da identidade sexual dos participantes. Ou seja,
o gênero não se altera com o fato
da pessoa viver sua sexualidade de forma homo
ou hetero erótica. A participação
nos rituais iniciáticos é importante
para todas as pessoas, independente de como estas
vivem seu erotismo. De fato, a singularidade das
experiências de vida de cada participante
das "casas" nos mostra que ser homem
ou ser mulher não é algo que se
baseia em comportamentos estereotipados, ao contrario,
nos fala de um mistério profundo a ser
descoberto gradualmente, com respeito, paciência
e amorosidade. A sutileza do trabalho não
está em mostrar como uma pessoa deve se
comportar mas sim estabelecer um contato belo,
delicado e afetuoso consigo a partir de uma também
bela , delicada e afetuosa relação
com o outro. Não existem padrões
de comportamento para homens e mulheres, mas sim
uma essência que se revela quando estamos
disponíveis e ousamos criar uma dimensão
real em nossa vida para que possamos nos reconhecer.
Bibliografia
CAMPBELL, Joseph. O herói das mil faces.
Saõ Paulo: Editora Círculo do Livro.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm
com os lobos. São Paulo: Ed. Rocco, 1992
PERERA, Sylvia. Caminhos para a iniciação
ao feminino. São Paulo: Paulinas, 1985.
|