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INTEGRAÇÃO DO FEMININO
Myrthes Gonzalez
A busca da integração do feminino
é algo mais profundo do que a simples reunião
de mulheres em torno desta temática. Este
trabalho cumpre dois caminhos. Um primeiro que
é a busca da integração do
princípio feminino, negligenciado por nossa
cultura. Ou seja, retomar valores abrangentes
ligados ao feminino, como a sensibilidade e o
cuidado pela vida. O segundo é a retomada
da reunião de mulheres num sentido ritualístico
e iniciático. Ser mulher e celebrar o feminino
em si. Neste sentido constitui-se a casa das mulheres.
Uma casa não localizada no tempo e no espaço.
Mas um lugar ritual, onde cada participante pode
contatar com valores próprios de seu gênero,
a partir da condivisão solidaria com outras
mulheres.
INTRODUÇÃO
A abordagem teórica que apresento aqui,
de forma resumida, diz respeito a um trabalho
que desenvolvo há alguns anos em grupos
de final de semana exclusivos para mulheres. Embora,
na maioria das vezes, este trabalho encontre ressonância
com as necessidades das mulheres e respeito por
parte da maioria dos homens, que vêem no
trabalho com grupos de gênero uma oportunidade
diferenciada de auto conhecimento, me deparei
algumas vezes com pessoas incomodadas e, às
vezes, indignadas com a possibilidade de se trabalhar
identidade de gênero com grupos somente
de mulheres ou somente de homens.
É preciso saber que este é um tipo
diferenciado de encontro dentro da estrutura teórica
da Biodança. São celebrações
altamente ritualísticas, de caráter
iniciatório, que devem somar à estrutura
de cursos e grupos regulares mistos. Não
considero válido, no contexto de um processo
de integração global, grupos permanentes
somente de homens ou de mulheres.
Este artigo visa posicionar o trabalho da casa
das mulheres como um poderoso facilitador da emergência
da identidade feminina, o que o diferencia em
muito da vulgar conotação de “clube
da luluzinha”.
PARA COMEÇARMOS: A HISTÓRIA DO FEMININO
Quando observamos a forma de organização
social, em nossa cultura, percebemos um tipo de
relação que se estabelece entre
homens e mulheres, uma organização
social, econômica e política que
tem como características as relações
de poder e de submissão. Olhamos a história
da humanidade e percebemos um longo caminho evolutivo
deste tipo de relação. Podemos chegar
à conclusão de que a humanidade
sempre foi assim; cruel, destrutiva e contraditória,
como demonstra nossa história.
Mas se observarmos realmente toda nossa evolução
histórica vamos ver que nem sempre foi
assim. Voltemos cinco mil anos atrás e
veremos em nossa pré-história um
tipo de organização diferenciado.
A existência de culturas pacíficas,
voltadas à comunidade e à celebração
dos ciclos naturais vistos na representação
da grande deusa mãe terra. Ou seja, naquela
época deus era mulher, a divindade era
simbolizada no feminino.
Os primeiros historiadores a perceberem esta diferenciação
colocaram que seria uma sociedade matriarcal,
como oposto completo de nosso atual patriarcado.
Mais tarde chega-se à conclusão
de que em realidade a organização
das relações de poder nesta época
é completamente diferenciada da que ocorre
hoje. Em realidade não havia a qualificação
de um gênero sobre a desqualificação
de outro. Possivelmente haviam papéis definidos
para homens e mulheres na estrutura social, mas
o reconhecimento do saber. O poder de decisão
era atribuição de ambos os sexos.
Os historiadores chegaram à conclusão
de que em realidade eram culturas matrilineares,
ou seja, a linhagem é definida pela mãe.
Possivelmente essa estrutura familiar não
permitisse identificar com certeza o pai de cada
criança. Talvez mesmo se desconhecesse
o papel do homem na geração da vida.
Mas o mais provável é que dentro
de uma organização comunitária,
onde as crianças são responsabilidade
do grupo e a sexualidade não obedece a
regras morais coercitivas, a paternidade fosse
algo irrelevante.
A história de nossa civilização
começa com a descoberta da agricultura
e a fixação de populações,
antes nômades, em agrupamentos na beira
dos caudalosos rios da Mesopotâmia. Neste
primeiro momento já havia o culto de deuses
masculinos e femininos. Através desta mitologia
primitiva percebemos que neste momento a mulher
continua a ter importante papel na organização
social. A celebração orgiástica
das colheitas fala de uma sexualidade liberta
de relações de poder. Há
uma curiosidade nos sítios arqueológicos
destas culturas, uma expressão artística
desenvolvida e uma contrastante ausência
de ossadas que demonstrem mortes violentas, quando
comparado com períodos posteriores. A civilização
que habitou a ilha de Creta nesta época,
ainda oferece sítios arqueológicos
preservados que testemunham este período.
Na mesma época grupos humanos vagavam ainda
nômades pelas regiões frias das estepes.
As condições naturais eram desfavoráveis
ao desenvolvimento da agricultura e conseqüente
fixação à terra. Estes povos
desenvolveram, então, rebanhos com os quais
percorriam infindáveis distâncias
fixando-se somente o tempo de exaurir determinada
região. Tinham condições
drásticas de sobrevivência, eram
ameaçados constantemente pela invasão
e roubo por parte de outros grupos humanos e também
por predadores que ameaçavam os rebanhos.
Desta forma constituíram uma cultura extremamente
bélica, desenvolvendo toda uma tecnologia
de armamentos e estratégias de proteção
e ataque com uma organização hierárquica
rígida. O que qualificava um indivíduo
era sua força física e capacidade
de luta. Desta forma, nesta cultura, a mulher
vai ter um papel bastante inferior nas relações
sociais, tendo como meta existencial a procriação.
O poder de um homem se afirmava pelo tamanho dos
rebanhos e pelo número de mulheres que
possuía. A sexualidade feminina passa a
ser extremamente controlada e sua sacralidade
é esvaziada.
A cultura nômade das estepes, dos chamados
indo-europeus, consistia em um aglomerado de grupos
bárbaros que se expandiram na procura de
novos territórios. Ao longo de cerca de
2000 anos estes grupos foram pouco a pouco descendo
para as regiões mais quentes do então
mundo civilizado. Ao encontrar as pacíficas
culturas agrícolas deixaram um rastro de
destruição e atrocidades, acabando
com a arte e a cultura das localidades, tomando
seus habitantes como escravos. Impunham sua organização
hierárquica e seus deuses masculinos, deuses
da guerra.
Neste momento a deusa “mãe terra”
vai entrando para a sombra da humanidade. Lentamente,
ao longo de centenas de anos, as mitologias vão
mudando o grau de divindade dos gêneros,
até finalmente a fixação
de um único deus masculino, pai punitivo
e autoritário, como não poderia
deixar de ser neste modelo de organização.
Em realidade podemos pensar que a invasão
dos indo-europeus continua acontecendo ao longo
de 5000 anos, não pelos grupos primitivos,
mas por seu modelo de vida, sua destrutiva forma
de lidar com culturas diversas e com a natureza.
Vivemos hoje uma versão sofisticada da
barbárie primitiva da qual somos herdeiros.
No patriarcado o poder foi inteiramente desviado
para mãos masculinas. Quando vemos este
fato podemos concluir, de forma precipitada, que
este foi apenas um processo de afastamento da
mulher nas relações de poder. Isto
de fato ocorreu, mas esta é apenas a superfície
de uma questão muito mais complexa. O que
foi realmente afastado? Os homens permaneceram
inteiros neste processo?
A humanidade traçou seu caminho afetando
toda a vida no planeta e talvez no próprio
cosmos. A perseguição às
mulheres foi e é um sintoma de algo maior.
Em realidade o patriarcado tem por base a perseguição
de um princípio que chamaremos feminino,
ou Yin para os orientais. A metade complementar
arquetípica que vai representar tantas
coisas que partem da sensibilidade, da intuição,
da visão sistêmica de mundo, de nossa
capacidade de síntese.
As mulheres sofreram mais evidentemente com este
processo já que a vivência corpórea
e emocional da mulher a remete com muita evidência
a Yin. Este princípio está representado
arquetipicamente na imagem da mulher e em tudo
o que ela significa. Cuidar das crianças,
receber seu homem, intuir necessidades alheias
fazem parte do cotidiano feminino e compõem
a sabedoria da mulher. Este saber era muito valorizado
nas sociedades ditas primitivas, consideradas
manifestações da própria
deusa. A produção cultural, artística
e a ciência eram repletas do princípio
Yin. Neste aspecto as mulheres detinham muitos
conhecimentos sobre agricultura e medicina. Conheciam
os vegetais e associavam seus ciclos com os ciclos
de seu próprio corpo, conheciam ervas e
os processos de cura. Faziam os partos. Nas religiões
de culto à deusa as sacerdotisas tinham
conhecimento sobre o ser humano e a natureza e
uma ética própria no lidar com estas
questões.
Nos primórdios do cristianismo havia uma
convivência pacífica com este tipo
de conhecimento. Mas à medida que se constitui
a igreja católica, que vai sendo absorvida
pelo império romano e utilizada como religião
oficial, esta passa a desqualificar o conhecimento
das religiões pagãs entendendo que
elas impedem o domínio sobre a população.
Em realidade o catolicismo romano espalha-se gradualmente
pelo mundo todo absorvendo para a cúpula
da igreja todo o conhecimento que antes pertencia
aos místicos de cada religião. Desta
forma torna-se forte e poderosa e retira da população
significativos rituais que lhes permitiam união,
liberdade e consciência de si e do mundo.
Sendo as mulheres as principais detentoras deste
conhecimento místico foram elas as maiores
vítimas da perseguição durante
todo este processo.
No final da Idade Média a inquisição
mostra para a humanidade a face deformada e sádica
deste abuso que iniciou tantos séculos
antes. A santa inquisição foi em
realidade um grande genocídio, deixando
uma marca profunda no coração de
todas as mulheres que viveram a experiência
e deixaram o medo como herança para aquelas
que nasceram posteriormente. Em cidades como Torino
90% da população feminina foi morta.
Qualquer movimento feminino que saísse
dos padrões impostos pela igreja era punido
com tortura e morte. Havia a necessidade de controle
total do conhecimento.
Se pensarmos em termos de inconsciente coletivo
perceberemos que os 500 anos que nos separam desta
época são em realidade um piscar
de olhos. Se ficarmos bem atentos ainda podemos
ouvir os berros de pavor ecoando dentro de nós.
Algo novo surge no universo feminino: o medo de
ser mulher. Esta sombra acompanha a mulher durante
todos os séculos posteriores e envolve
de temor todas as manifestações
místicas que não referendassem os
dogmas da igreja.
A inquisição perseguiu o pensamento
e a experiência científica emergente
em sua época. Contrastantemente, em sua
luta para controlar todo conhecimento inerente
ao princípio feminino, ela cria as condições
ideais para a emergência da ciência
mecanicista. Esta por sua vez acompanha padrões
arquetípicos essencialmente masculinos.
São super valorizados a objetividade, a
comprovação, a concretude, o racional,
o linear. Nesta forma de pensamento a intuição,
a subjetividade, a emoção, o afeto,
o relativismo dos processos e as relações
sistêmicas são consideradas banalidades
enquanto insistirem em seu caráter imensurável.
A natureza passa a ser vista como um mecanismo
semelhante a um relógio. Tudo deve ser
comprovado matemati-camente. Aqui estamos então
no ápice da obscuridade do princípio
feminino. Completamente destituída de sua
sacralidade, a natureza passa a ser uma mera fornecedora
de matéria prima. Como disse o filósofo
Francis Bacon, a natureza é uma fêmea
selvagem que precisa ser domada para retirar dela
todos os seus segredos.
A ciência mecanicista toma o lugar torturante
da inquisição.
A parcela masculina da humanidade passa por um
instante histórico de total onipotência
e arrogância. Isaac Newton consegue desvendar
as leis básicas que regem o movimento dos
corpos. Todas as áreas da ciência
se encantam por esta precisão matemática
e buscam explicar racionalmente a mecânica
de seu campo de ação. Então,
esta mesma ciência começa a descortinar
uma realidade completamente oposta ao antropocentrismo.
Instantes históricos após o físico
Isaac Newton atestar, através das leis
da física mecanicista, o total domínio
do homem sobre a natureza, surge na biologia a
teoria da evolução das espécies,
fruto da pesquisa de Lamark e, depois, Darwin.
Estes provam que o ser humano é fruto da
evolução da vida no planeta. Somos
irmãos de todas as outras formas de vida
e guardamos especial proximidade com os macacos.
Até então tínhamos sido criados
por Deus a sua imagem e semelhança e a
natureza havia sido criada por Ele para servir
ao homem. Nosso sentido de superioridade é
profundamente abalado com esta notícia.
Mas é isso só o começo...
Logo após, Marx e Engels contestaram ferozmente
as estruturas da sociedade capitalista, denunciando
a exploração e a desigualdade de
condições de vida entre os que estão
nas linhas de produção e os que
detêm os meios de produção,
entre eles o conhecimento.
No final do século XIX surge, rompendo
com o puritanismo austríaco, Sigmund Freud,
que coloca a consciência e a racionalidade
humanas totalmente a mercê de aspectos instintivos
inconscientes.
Na entrada do século XX a física
mecanicista é diretamente contestada quando
Einstein formula as leis da teoria da relatividade,
colocando por chão todas as certezas adquiridas
em séculos de auto afirmação,
calcadas em concepções cartesianas
e mecanicistas. As leis de Newton não são
inutilizadas, mas servem a um determinado campo
de percepção da realidade. A física
quântica traz elementos de subjetividade
à mais matemática das ciências.
Sincronicamente nesta mesma época surgem
o movimento ecológico e o movimento feminista,
duas facetas de um mesmo movimento: o ressurgimento
do princípio Yin.
A Grande Mãe ressurge das sombras.
Mas não podemos dizer que este movimento
já se completou.
Vivemos hoje apenas os primeiros segundos do raiar
de um novo dia. Todos os movimentos históricos
e científicos que levaram a este momento
não tiveram como objetivo esse renascimento.
Muito pelo contrário, a maioria de seus
colaboradores pensava em leis universais tão
amplas e mecânicas como as da física
clássica, mas em seu caminho construíram
este novo momento histórico.
O contraditório século XX que vimos
chegar ao fim conheceu duas guerras que envolveram
todo o planeta. Justamente nestas guerras, em
especial na segunda, quando as mulheres substituíram
os homens nos postos de trabalho, conheceram a
possibilidade de participar do processo produtivo.
Nos anos 50 elas não querem mais voltar
ao trabalho doméstico. Querem participar
de forma igualitária da sociedade.
Nos anos 60 explode o movimento feminista exigindo
direitos e abrindo portas para uma nova mulher.
As mulheres que nesta época estavam com
vinte anos, olhavam para suas mães e não
se identificavam com um modelo feminino de submissão.
É exatamente neste momento que projetam
seu olhar para o mundo masculino e buscam aí
elementos de identificação.
Neste caminho de redescoberta da identidade feminina,
o movimento ocorrido nos anos 60 representa uma
ruptura com padrões antigos e estereotipados.
Mas 20 anos depois estas mesmas mulheres sentiam
a falta de algo muito profundo. Um sentido particular
para seu Ser mulher. O feminino continuava difícil
de apalpar, encoberto sob as obrigações
do modelo masculino e resquícios moralistas
da exigência patriarcal.
Nos anos 80 a mulher não sabe o que é
ser mulher. Possivelmente as suas antepassadas
tivessem pouca noção de um feminino
essencial, ficando em uma vida resignada, mas
com padrões estereotipados muito claros
de feminilidade. A década de 80 é
o momento de questionamento. A mulher ocidental
sente falta de uma mãe para se identificar.
Mas nesta altura também muitos homens entram
em crise com sua masculinidade quando suas companheiras
não seguem os padrões de comportamento
repetidos por tantas gerações.
Seria um erro achar que os homens tiveram alguma
vantagem com os anos de patriarcado. Aparentemente
privilegiado o homem pagou muito caro. E o preço
foi sua sensibilidade, o direito a emoção,
ao amor integrado e ao prazer. Perdeu a proximidade
com os filhos e o direito de não ter que
provar nada a ninguém. O homem dos anos
80 descobre que os valores de masculinidade de
seu pai já não são garantia
de sucesso ou estabilidade.
Depois desta longa trajetória, homens e
mulheres têm hoje o grande desafio de resgatar
realmente a sua essência. Um caminho sem
mapas, com segredos guardados há muitos
séculos no inconsciente da humanidade.
Algo aparentemente novo, mas que tem suas raízes
no passado, onde somente a força ritualística
dos arquétipos pode tocar.
CONSTRUINDO A CASA
No trabalho de sexualidade de gênero um
dos pontos mais importantes é a construção
das casas, ou seja, a casa das mulheres e a casa
dos homens. Esta estrutura está em uma
dimensão essencialmente ritualística.
As sociedades primitivas nos mostram o quanto
é essencial, dentro do processo de amadurecimento
humano, os ritual de passagem. Destes, um dos
mais significativos é o que marca a passagem
da infância para o mundo adulto. Encontramos
ainda resquícios destes rituais em nossas
celebrações atuais, mas, na maioria
das vezes, bastante esvaziados de sentido.
Os rituais de passagem da infância para
o mundo adulto têm por característica
dividir os iniciados em grupos segundo o gênero,
sendo que cada grupo tem um tipo específico
de iniciação, atendendo suas necessidades
de identificação. São então
constituídas casas ritualísticas
dos homens e das mulheres. Nestas casas os participantes
do ritual entram em uma dimensão arquetípica,
fora do tempo e do espaço, onde conhecem
os mistérios correspondentes ao seu gênero.
O que podemos perceber desta sabedoria é
que existe uma consciência de que o que
nos prepara para a condição de nosso
ser no mundo adulto são as pessoas do mesmo
gênero. É então que, para
uma mulher, é essencial conviver com outras
mulheres, a partir de sua mãe, mas também
com todas as outras mulheres que são importantes
em sua vida.
A identidade se constrói quando nos identificamos
com o outro.
No mundo masculino este ritual adquire especial
importância, pois o menino nasce de uma
mulher, o que significa que para se tornar homem
deve romper com o mundo feminino de onde veio
para construir sua identidade masculina identificando-se
com outros homens, a começar pelo pai.
O ritual é um momento de passagem onde
o inconsciente, que só compreende uma linguagem
simbólica, é comunicado que as experiências
da infância devem ser deixadas para abrir-se
as portas do mundo adulto.
A ausência de rituais de passagem acabou
por criar em nossa sociedade um período
chamado adolescência, que se constitui em
uma psique que se apega a padrões de relação
infantilizados em um corpo que é adulto.
A adolescência é uma criação
de nossa cultura. Uma cultura que teme o amadurecimento,
a sexualidade, a liberdade criativa e expansiva
do mundo adulto. Passamos nosso período
vital mais fértil nos debatendo em questões
de autoridade e quando finalmente nos percebemos
adultos e nos damos conta que temos o poder sobre
nossas vidas já nos sentimos velhos. Neste
sentido, a adolescência favorece a estrutura
ideológica da sociedade. E o que é
pior, existe a tendência de estender este
período e toda sua forma de dependência
por infindáveis anos. Se observarmos bem,vamos
encontrar em um grupo de adultos diversos “adolescentes”
de 20 ,30, 40 anos ou mais.
Em nossa cultura, existe nas entrelinhas a idéia
de que o amadurecer é uma promessa de infelicidade.
Diz-se que o mundo adulto é o mundo das
responsabilidades. O olhar infantil para os adultos
presos em obrigações pode gerar
o seguinte resultado: “não quero
amadurecer. Ser adulto é uma prisão,
é deixar de se divertir, de ter prazer.
Ter trabalho ou ter família é algo
tedioso.”
Existe na realidade uma grande confusão
entre o que é responsabilidade e o que
é obrigação. Mas vejamos:
Obrigação – Uma exigência
externa. Algo que o mundo nos cobra sem se interessar
em como nos sentimos a respeito. Muitas vezes
as obrigações nos chegam como imposições,
desconhecendo nossas necessidades e passando por
cima de nossas responsabilida-des.
Responsabilidade – É antes de tudo
um ato amoroso. Algo ligado à ética,
ao cuidado pela vida. A responsabilidade é
algo que amorosamente se expande de dentro para
fora. É o cuidado que temos na preservação
de tudo o que amamos.
Neste sentido, podemos dizer que o adulto que
vive no mundo das obrigações é
um prisioneiro, alguém que vive a ansiedade
de atender constantemente as exigências
de um meio formal e aprisionante.
Já o adulto que vive no mundo da responsabilidade
conhece a liberdade contida no ato de amar, sente
que o cuidado amoroso pela vida abre as portas
para a infinita expansão de seu próprio
ser.
O adulto que vive esta dimensão da responsabilidade
preserva a curiosidade, a inocência e o
prazer que encontrava em sua infância, somados
com a sabedoria de seus anos de vida, o conhecimento
e a estabilidade que somente a vivência
pode dar.
O puer aeternus tende a negar o valor de suas
experiências de vida, nega-se a compreender
os ensinamentos contidos em todos os fatos do
cotidiano e tende a responsabilizar os outros
por suas frustrações, vangloriando-se
de seus feitos, que em geral são atos heróicos
de caráter indicativo, como se alcoolizar
de forma extrema, esportes e atitudes de risco
e conquistas sexuais. Todas tentativas desesperadas
de romper com o mundo infantil e obter o reconhecimento
no mundo adulto.
Neste sentido o trabalho de Biodança com
a casa dos homens e a casa das mulheres resgata,
mesmo em épocas tardias, a dimensão
ritual necessária para proceder à
passagem.
Mas vamos compreender melhor este processo...
O ser humano tem uma dimensão que é
inconsciente. Em realidade esta dimensão
não está dissociada da totalidade
de seu ser. Na teoria dos sistemas a parte representa
o todo. Sendo assim o que chamamos de inconsciente
forma uma totalidade com o sistema vivente, não
sendo uma forma distanciada e oculta que nos habita,
mas sim, o resultado concreto do que vivemos e
sentimos enquanto seres vivos, enquanto espécie,
e enquanto indivíduos.
Em Biodança vamos trabalhar com o conceito
de inconsciente em três níveis que
estão sistemicamente interligados. O primeiro
nível, mais antigo, chamaremos de inconsciente
vital. Este contém a informação
primordial que nos garante unidade enquanto sistema
vivente, parte de um sistema vivente maior que
é o próprio cosmos. O inconsciente
vital compõe o pensamento de Rolando Toro
sobre princípio biocêntrico onde
o cosmos é visto como um todo orgânico.
A vida gerou o universo e não o universo
gerou a vida. O mistério que compõe
a coerência deste infindável sistema,
desde as partículas até as galáxias,
chamamos de inconsciente vital. E é este
que vai permitir a unidade do ser humano como
de qualquer outro organismo vivo. O inconsciente
vital não tem sede na psique, ou no mundo
simbólico. Ele esta presente na coerência
de nossas células que sabem como devem
se reproduzir e diferenciar, em nossos órgãos
que sabem como devem colaborar com o organismo
e em nossas emoções que se expressam
independentes de permissões racionais.
O segundo conceito é o de inconsciente
coletivo, elaborado por Jung. Resgata a história
da humanidade, não em sua linearidade,
mas em seus valores essenciais, representada em
conteúdos simbólicos comuns a toda
a espécie que chamaremos arquétipos.
O Inconsciente Coletivo é tão abrangente,
significativo e determinante para a humanidade,
que podemos dizer que ele não esta em nós,
mas nós estamos nele. O espaço e
o tempo não existem no inconsciente, estamos
imersos dentro de um grande oceano de mensagens
e enigmas essenciais. Podemos dizer que no inconsciente
coletivo o arquétipo vai dar significado
ao inconsciente vital, como se através
dos arquétipos ele pudesse ser parcialmente
compreendido pela humanidade.
O inconsciente pessoal é o ramo ontogenético
dos outros dois inconscientes, é a ponta
de um processo evolutivo, onde o arquétipo
adquire uma forma pessoal. É a história
de cada indivíduo, os valores e formas
simbólicas de sua cultura e vivências,
que formam uma espécie de mundo interno
não apreendido pela consciência,
mas determinando as ações no mundo.
Na concepção freudiana o inconsciente
pessoal determina as ações do indivíduo.
Devido a traumas infantis, que podem ser tão
hostis e de difícil elaboração,
tais ações acabam por não
chegar a consciência.
James Hillmann traz a idéia de que o inconsciente
pessoal contém uma memória do futuro
e não do passado e que desta forma propicia
vivências ao indivíduo que lhe provocam
a aprendizagem do que ele deve saber para chegar
a essência de seu ser que Hillmann vai chamar
de Demian.
A comunicação com o inconsciente
não se faz de forma racional e objetiva.
O inconsciente obedece a formas próprias
de comunicação, às quais
temos acesso à medida que estamos sensíveis,
atentos e receptivos a formas não lineares
de comunicação. Atentos às
sensações e aos sentimentos, aprendemos
a perceber e valorizar algo que vem de um movimento
interno que se traduz para consciência através
de sutis informações.
A potência da Biodança está
em penetrar no mundo arquetípico através
de sua chave mais potente, a vivência. O
ritual arquetípico abre uma brecha no presente,
dissolvendo a noção espaço
tempo e remetendo para a eternidade do aqui e
agora. O intenso compromisso emocional com o instante
vivido provoca um resultado imediato no sistema
neuro-endócrino e imunológico. Isto
representa uma via de acesso direto a todos os
níveis de inconsciente, mas de uma forma
completamente orgânica, não mecânica,
prazerosa e amorosa – e não torturante.
Promove então, não a revelação
do inconsciente à consciência, mas
a integração de todos os níveis,
desfazendo dissociações.
A Biodança pode criar vivências com
dimensões arquetípicas muito profundas.
O facilitador compreende e combina estímulos
ambientais, como música, movimento e interação
do grupo, no intuito de criar o clima ritual apropriado
a determinada vivência, resultando na integração
de potenciais de vida adormecidos em cada participante.
No caso da casa das mulheres o ambiente apropriado
ao ritual de passagem é um grupo exclusivamente
feminino. A participante vai aos poucos se sentindo
em comunhão com as outras mulheres, sente-se
parte da totalidade do mundo feminino. Percebe
o significado profundo desta totalidade feminina
como parte de uma totalidade ainda maior, a humanidade,
a natureza, o cosmos. Na casa dos homens o mesmo
acontece, enfocando as particularidades da masculinidade.
A CASA DAS MULHERES
A particularidade do universo feminino é
vivida na casa das mulheres. Não é
uma proposta limitada a um curso, mas uma continuidade
onde, a cada novo encontro, novos aspectos são
vivenciados. O trabalho das casas não substitui
o grupo regular misto. Pelo contrário,
é justamente ele a matriz comunitária
que permite, que de tempos em tempos, o encontro
somente de mulheres tenha um significado específico.
A casa das mulheres deve ser colocada como um
processo de encontros esporádicos durante
um processo grupal heterogêneo. É
um facilitador específico do de aspectos
da diversidade feminina.
Todo ser humano nasce de uma mulher. E, apesar
de na maioria das vezes a mulher ser responsável
também pela educação, o feminino
é desvalorizado em nossa sociedade como
algo de menor importância. Todas as tarefas
relacionadas ao universo feminino são menos
valorizadas, vistas como óbvias, e não
são consideradas sinônimo de talento.
Um dos aspectos importantes a serem tratados é
o da conscientização do papel da
própria mulher na propagação
de uma moral coercitiva e desqualificante dos
aspectos específicos do feminino. São
as mães as primeiras a ensinar suas filhas
que a menstruação é um sofrimento
mensal e algo que deve ser escondido com vergonha.
Ensinam suas filhas a temer a própria sexualidade
e sensualidade, a considerá-la algo feio
e sujo. Neste sentido, a mulher tem um papel fundamental
na preservação do patriarcado e
todas as formas ideológicas que o representam.
O que é pior é que isto não
se limita a esfera materna. São as próprias
mulheres através de julgamentos, fofocas
e maledicências que controlam a moral sexual
das amigas e outras mulheres próximas.
A inveja e a competição são
componentes comuns ao universo feminino do patriarcado.
Falo de pessoas infelizes que não suportam
ver um vestígio de felicidade em seus semelhantes.
Um dos pontos importantes deste trabalho é
a percepção do significado de se
aproximar de quem se admira. Nossa identidade
se compõe através da vivência
de interação com o outro. Se estiver
sempre próxima de mulheres infelizes e
frustradas e procuro destruir as mulheres que
vejo viver sua feminilidade, certamente estarei
impondo a mim esta mesma rigidez, destruindo em
mim os aspectos que condeno nos outros. Mas se
me aproximo das mulheres que percebo como vivas,
alegres, sensuais, realizadoras e guerreiras,
pouco a pouco percebo que estas mesmas características
existem de uma forma singular em mim. A vivência
da casa das mulheres ressalta a importância
da amiga na composição do universo
feminino. A outra mulher é o portal que
atravesso para formar minha identidade.
Neste sentido, são propostas diversas vivências
que resgatam aspectos arquetípicos do feminino.
Viver estes aspectos sendo celebrada por outras
mulheres desmonta as estratégias coercitivas
de que falei anteriormente. Facilita a mulher
encontrar-se integra com sua feminilidade.
A seguir algumas vivências que podem ser
utilizadas na facilitação deste
processo:
- Segmentares, acompanhada da amiga:
Os movimentos segmentares têm por objetivo
a dissolução gradual de couraças
musculares que impedem o prazer e a expressão
emocionada. Quando uma mulher acompanha outra
sem conduzir seus movimentos, comunica permissão
e aceitação integral. Por outro
lado a mulher que acompanha pode perceber que
é possível acompanhar sem super
proteger, respeitando os caminhos escolhidos pela
amiga.
- Roda concêntrica de acariciamento de
rostos:
Esta vivência no grupo feminino tem por
objetivo aproximar a mulher de suas formas próprias.
Normalmente utilizo precedido ou seguido por auto-acariciamento
de rosto.
- Encontros ouvindo o coração:
Ouvir com sensibilidade o coração
de outra pessoa tem um significado muito profundo,
ouvir e mostrar o que está no íntimo.
- Ninho:
Costumo usar a imagem da lagoa quando trabalho
o feminino. A receptividade de uma água
morna e cheia de vida. Em minha infância
vivenciei banhos de lagoa ao por do sol, com pássaros
migratórios voando em bando sobre minha
cabeça. É uma imagem muito marcante.
A receptividade feminina é como a lagoa.
Várias mulheres juntas formam a grande
lagoa. Por seu estado receptivo pode acolher e
ser acolhida afetivamente pela companheira. Ninhos
somente de mulheres lembram a doçura de
uma lagoa ao pôr do sol. Resgatam a sagrada
receptividade feminina, sua capacidade infinita
de entrega profundidade e fusão.
- Danças sensuais ao centro da roda:
Este é um momento importante para o grupo
feminino, onde podem ser utilizadas variações
sobre danças de expressão sensual.
O importante é que esta expressão
seja profunda e genuinamente celebrada pelas colegas
do grupo. A constância deste tipo de vivência
no universo feminino refaz a capacidade de experimentar
a intensidade de si mesma e rompe com padrões
morais repressores e refaz o caráter divino
da sexualidade feminina.
O trabalho com mulheres em Biodança ressalta
a percepção de que homens e mulheres
têm componentes de identidade muito diferentes,
não sendo apenas características
somente subjetivas, mas concretamente biológicas.
Isto não tira o valor de um e de outro.
São valores complementares. Na medida em
que a mulher cura suas feridas históricas
e pessoais, passa a ter acesso a sabedoria feminina.
Ressentimento com os homens e competição
com outras mulheres passam a não ter mais
sentido.
A mulher que está íntegra sabe que
é uma expressão da própria
deusa que renasce através dela. Sabe da
sacralidade da sua sexualidade e tem consciência
do valor da sua presença. Já não
existe mais falta de amor, por que este é
um sentimento que dela nasce, e se derrama no
mundo como uma benção...
Já não é mais necessário
o controle de si e do outro, por que há
a certeza de estar inserida e ser a própria
abundância.
BIBLIOGRAFIA
CAPRA, Fritjof-O Ponto de Mutação
– Ed. Cultrix – SP – 1982.
CAMPBELL, Joseph – O Herói das Mil
faces – Ed. Círculo do Livro –SP.
ESTÉS, Clarissa Pinkola – Mulheres
que Correm com os Lobos – Ed.Rocco- SP –1992.
GIMBUTAS, Marija – Todos os Nomes da Deusa
– Ed. Rosa dos ventos – RJ –1997.
JUNG, Carl – O Homem e seus Símbolos
–Ed. Nova Fronteira -RJ.
KRAMER, Heinrich – O Martelo das Feiticeiras
–Ed. Rosa dos ventos – RJ –
1997
MCNEILL, Willian – História Universal
– Ed. Globo – POA –1972.
MURARO, Rose Marie – Os Seis Meses em que
fui Homem – Ed. Rosa dos Ventos –
RJ - 1990.
PERERA, Sylvia – Caminhos para Iniciação
ao Feminino –Ed Paulinas- SP – 1985.
TORO, Rolando – Princípio Biocêntrico
– Texto Editado pela Fundação
Biocêntrica – Chile.
TORO, Rolando – Inconsciente Vital - Texto
Editado pela Fundação Biocêntrica
– Chile.
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