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VIVENCIANDO
EM ORGANIZAÇÕES
João Carlos Vieira Machado
Cada vez mais se tem notícia sobre “abordagens
vivenciais” aplicadas ao meio empresarial.
Ao mesmo tempo, inúmeros são os
construtos que dão suporte a essas atividades,
desde abordagens enquadradas nos chamados critérios
de cientificidade até as não menos
apoiadas por argumentos contundentes, mas consideradas
não-ciência e aceitas por grupos
especiais, cujas características são,
no mínimo, muito peculiares.
Por conta disto, inúmeros argumentos têm
surgido na tentativa de esclarecer o que significa,
afinal, uma “atividade vivencial”,
para que serve e de que forma podem ser desenvolvidos
programas de capacitação nos quais
a mesma possa ser “vivenciada”.
Aliás, este é um dos argumentos
básicos: a verdadeira “atividade
vivencial”, pelo seu próprio nome,
só pode mesmo ser “vivenciada”
por quem estiver dela fazendo parte e acontece
com a dinâmica estabelecida pelas pessoas
a cada instante. Quem quer que desempenhe o papel
de facilitador nesse contexto, tão somente
irá sugerir um processo, o qual se desenvolverá
segundo a disponibilidade dos participantes.
Fica assim estabelecido um princípio imprescindível
para a caracterização dessa atividade:
é preciso que as pessoas se sintam integradas
a ponto de confiarem umas nas outras, conseguindo
“entrar” na proposta oferecida. Além
disso, é importante ir além de alguns
pressupostos tradicionalmente preconizados pelos
sistemas sociais de modo geral, principalmente
os que tratam de aspectos relacionados com “educação”,
poder e controle.
Historicamente, tanto abordagens filosóficas,
como teológicas ou políticas, entre
outras, foram aceitas na medida em que buscavam
compreender o todo mediante modelos hierarquizados
e focalizados. Assim, desde o crescimento a partir
de idéias múltiplas e mutáveis
para as idéias unas e imutáveis
segundo Platão, passando pela purificação
dialética dos sentidos para chegar ao espírito
absoluto como queria Hegel e até mesmo
nas abordagens esotéricas com seqüência
de vórtices energéticos do Tantra
Yoga, preconiza-se uma abordagem contínua
e progressiva como condição básica
para que alguém possa atingir um pleno
encontro consigo e com o resto do mundo.
Abordagens como essas contribuíram, ao
longo da história, para a aceitação
de que “alguém, alguma coisa ou algum
aspecto” sempre estará acima, num
plano mais elevado e portanto, determinará
o rumo “de outro alguém, outra coisa
ou outro aspecto”, deixando caminho livre
para que a escravidão, a extorsão,
o julgamento, a discriminação e
muitos outros mecanismos de dominação,
opressão e exclusão, pudessem se
justificar e terem sido a linha mestra de muitos
modelos de estrutura social, quer políticos,
econômicos, jurídicos, educacionais,
religiosos ou organizacionais.
Diferenças na aplicação desses
mecanismos têm ocorrido ao longo do tempo,
porém, em muitas situações
ainda, o princípio gerador de que alguns
possam ter supremacia sobre outros e que para
chegar àqueles são necessárias
determinadas condições e concessões,
tem permanecido.
Importante para esse contexto, se tornou o ensaio
de Kuhn (1978), quando flexibilizou os critérios
de cientificidade, em particular no tocante à
delimitação entre a ciência
e não-ciência, com a não-cumulatividade
do saber científico e as rupturas freqüentes
em seu contexto. Enfatizou que as mesmas ocorrem
de forma descontínua e revolucionária,
denominadas mudanças de paradigma e desta
forma anunciou concepções efetivamente
novas de mundo a serem vislumbradas.
Nessa direção, percepções,
constatações e teorias têm
questionado conceitos fundamentais, como a física
moderna com sua abordagem quântica, teoria
do caos e elementos com características
do todo infinitamente multiplicadas, auto-semelhança,
indeterminação e complexidade, convivendo
simultaneamente e desafiando modelos construídos
pela lógica formal.
Concepções como essa se confirmam
também nos sistemas biológicos complexos
e sua identificação com os sistemas
sociais, onde, segundo Capra (2002, p. 272), “perturbações
significativas podem desencadear múltiplos
processos de realimentação que podem
produzir rapidamente o surgimento de uma nova
ordem”.
Na biologia, merecem destaque ainda as considerações
de Maturana (1987), onde a autopoiese e a adaptação
são condições necessária
à existência dos seres vivos, que
se verifica mediante uma “deriva natural”.
Para que se possa, então, delinear uma
estrutura conceitual integrando as dimensões
biológica, cognitiva e social, nas perspectivas
da forma, matéria, processo e conteúdo,
permitindo uma compreensão unificada da
vida, Capra (2002, p. 267, afirma que “as
redes metabólicas dos sistemas biológicos
correspondem às redes de comunicações
dos sistemas sociais; que os processos químicos
que produzem estruturas materiais correspondem
aos processos de pensamento que produzem estruturas
semânticas; e que os fluxos de energia e
matéria correspondem aos fluxos de informações
e idéias”.
Por estes pontos de vista, o condicionamento social
e cultural se reflete nas estruturas biológicas,
remetendo para uma postura dialética resultante
da relação indivíduo x totalidade.
No âmbito individual, uma coordenação
entre as funções biológicas
do organismo e sua adaptação às
necessidades de sobrevivência se dá,
segundo Toro (2002, p. 42), mediante a articulação
do neoencéfalo e do arquiencéfalo.
Buscando estabelecer relações entre
o organismo humano complexo e o sistema Biodanza
por ele criado, o autor afirma que "o sistema
integrador-adaptativo límbico-hipotalâmico
é estreitamente ligado à expressão
dos instintos, das vivências, das emoções
e dos afetos. Ele contribui para a consolidação
dos modelos de comportamento e influi sobre o
córtex cerebral através de suas
conexões neocorticais. O córtex
cerebral (neocórtex) tem, por sua vez,
funções inibidoras que agem sobre
esse sistema e podem modelar o comportamento por
meio de estímulos conscientes".
Se a concepção de que caos e ordem,
autopoiese e adaptação ou sistema
límbico e córtex cerebral, constituem
aspectos presentes em um mesmo ser, há
que se encontrar propostas capazes de, como queria
Chardin (1988), pesquisar as condições
de funcionamento e promover a ativação
das energias humanas, o que implica em resgatar
fluidez, flexibilidade e sensibilidade para promover,
tanto uma consciência intensificada que
propicie “saltos quânticos”,
quanto uma possibilidade para “diluição
cósmica (regressão)” capaz
de permitir novas descobertas.
Neste sentido, recorrendo aos conceitos da criatividade
e ampliando a idéia de divergência
e convergência preconizada por Guilford
(1977), se compreendermos a atuação
do córtex no que chamou de pensamento convergente
e do sistema límbico em seu “pensamento”
divergente, podemos conceber uma deriva natural
como síntese de um movimento oscilatório
entre diversificação e singularidade.
Esta alternância oportuniza cada indivíduo
a ir além da racionalidade predominante,
para entrar em contato com sua emoção,
facilitando um movimento de “ir e vir”
entre a percepção, tanto de um universo
biologicamente organizado como em criação
permanente, tornando-o, como defende Toro (2002,
p. 88), “ao mesmo tempo, a mensagem, a criatura
e o criador”.
Essa conexão com o todo (divergência,
diversidade, diversificação), e
o comportamento decorrente das escolhas (convergência,
singularidade), permitem ao homem entrar em contato
com suas possibilidades, rompendo um paradigma
segundo o qual é preciso convergir de forma
ascendente e ininterrupta, muitas vezes sem espaço
para questionamento e na direção
do que já fora estabelecido por alguém.
Este processo, entretanto, de divergir, convergir,
novamente divergir e assim sucessivamente, precisa
acontecer de acordo com um método que permita
ir além de uma postura diretiva e única
e possa, de forma intermitente, oferecer oportunidade
para a percepção das alternativas
que se apresentam após um salto decorrente
de uma escolha. Um elemento chave desse processo
a ser incorporado no método refere-se,
portanto, à “abordagem vivencial”.
Esta característica se constitui na base
para a ação divergente, uma vez
que a integração entre sistema límbico
e córtex pode promover, tanto a liberação
de emoções e afetos como a modelagem
de comportamento, também a divergência
pode se dar predominantemente pela atividade límbico-hipotalâmica
e a convergência pela atividade cortical.
Se na vivência, conforme concebida por Dilthey,
as partes integrantes e complexas da vida psíquica
humana não são inferidas ou investigadas
pelo pensamento, mas simplesmente vividas, a divergência,
por ser vivencial, passa a ser o aspecto fundamental
desse novo paradigma.
Até mesmo a convergência nem sempre
será predominante-mente cortical, pois
existem exercícios vivenciais que permitem,
a partir de uma consciência intensificada,
entrar em contato com escolhas. Ocorre entretanto,
que, apesar de consolidar as descobertas oriundas
da percepção pela vivência,
por conta dos condicionamentos sociais, a pessoa
prossegue em direção à racionalidade,
necessitando de outras propostas que podem promover
preparação para esse “essencialmente
vivencial”.
Um exemplo de proposta preparatória, em
nível significativamente cortical, pode
ser constatado pela dinâmica dos grupos,
onde, segundo Schutz (1978, p. 11), se dá
o “encontro”, considerado como “um
método de relacionamento baseado em abertura
e honestidade, consciência de si mesmo,
responsabilidade por si mesmo, percepção
alerta do corpo, atenção aos sentimentos
e ênfase no aqui e agora”. Como processo,
o autor identifica três necessidades interpessoais
que denominou inclusão, controle e afeição,
as quais se manifestam em comportamentos e sentimentos
para com outras pessoas e estão arraigadas
no auto-conceito de cada indivíduo.
A inclusão refere-se a sentimentos quanto
a ser importante, ter significado ou mérito;
o controle relaciona-se a sentimentos de competência
(inteligência, aparência, praticabilidade
e habilidade para enfrentar o mundo); e a afeição
está relacionada com o fato de uma pessoa
sentir-se amada ao revelar sua essência.
Posteriormente, esse autor passou a utilizar,
para aplicação em organizações,
o termo "abertura" em lugar de afeição.
Segundo ele, mesmo antes de laços afetivos,
as pessoas podem desenvolver um clima de confiança
recíproca por se sentirem aceitas e interdependentes,
umas em relação às outras.
Na maioria das vezes, é nesse clima de
abertura e na conseqüente disponibilidade
para a vivência que podem ser desenvolvidos
programas em organizações voltados
para as atividades vivenciais. Quando isto não
ocorre, o processo fica restrito ao que se pode
denominar atividades experienciais, isto é,
mais voltadas para uma abordagem consciente, não
tendo, predominan-temente, a pulsação
“regressão, consciência intensificada,
regres-são”, característica
fundamental para que uma atividade possa ser considerada
vivencial.
Cabe ressaltar, portanto, que ao invés
de um conteúdo pronto a ser “empurrado”
para os colaboradores, há que se ir flexibilizando
desafios e propostas a partir da disponibilidade
expressa pelo grupo.
Visando atender às necessidades de uma
empresa de transporte coletivo, um programa experimental
foi apresentado, no qual, mesmo constando fases
de desenvolvimento, houve cuidado para disponibilizar
em cada uma, a possibilidade de manifestação
de conteúdos indicadores das escolhas feitas
pelos participantes.
Em cada fase do programa, havia conteúdos,
tanto relativos aos aspectos técnicos da
organização como referentes a atividades
vivenciais. Cada módulo, com duração
de três horas se iniciou com atividades
vivenciais e após um intervalo, as questões
relativas às funções de cada
um na organização foram debatidas.
Com esta metodologia, se buscou a divergência
pela atividade vivencial, onde cada participante
foi convidado a entrar em contato com um todo
relacionado ao tema. Após essa percepção,
aconteceram reuniões para expressão
verbal do que desejavam, empregando técnicas
para divergência dos conteúdos.
Com uma duração de quinze horas/aula
e por um período de dois anos em cerca
de vinte turmas, num total aproximado de quatrocentos
participantes, o programa se desenvolveu de acordo
com as seguintes fases:
FASE OBJETIVO
I Facilitar ao participante a auto-percepção,
o conhecimento dos demais participantes, a distinção
de características pessoais e o encontro
de seu lugar no grupo.
II Propiciar a expressão das percepções
a respeito das organizações (instituições),
da função pretendida na organização
em estudo e de sua participação
no contexto.
III Facilitar o contato com normas e regulamentos,
com as possibilidades de escolha e com necessidades
de mudança.
IV Facilitar a distinção e a interação
entre o potencial individual e o compartilhamento
(equipe)
V Facilitar a elaboração de planos,
o comprometimento mútuo e a preparação
para agir.
A partir da identificação desses
conteúdos originados livremente, técnicas
de convergência foram aplicadas para que
as escolhas pudessem ocorrer, se não por
consenso, pelo menos de forma democrática.
Para o encerramento, quando houve disponibilidade
por parte do grupo, foi oferecida nova atividade
vivencial, caso contrário, os trabalhos
foram concluídos com um exercício
experiencial.
Apesar de não ter sido desenvolvido unicamente
com atividades vivenciais, o programa apresentou
alguns efeitos, constatados mediante pesquisa
junto aos participantes, decorrido um ano após
o término do programa. O instrumento de
avaliação consistiu em comparar
conteúdos concentrados sob quatro alternativas,
cujo significado revelava o grau de flexibilidade
para mudanças informado pelos participantes.
Esses dados estão resumidos no quadro a
seguir:
Significado das alternativas % no início
um ano após
1 – Com baixa integração 14,73
13,81
2 - Resistentes à mudanças 19,20
18,14
3 -Conscientes para mudanças, sem saber
o que fazer 34,79 33,66
4 - Flexíveis e abertos a mudanças.
31,28 34,39
A redução na percentagem relativa
aos significados constantes nas três primeiras
linhas, seguida do crescimento ocorrido unicamente
na última alternativa, indica sensível
migração em direção
a uma maior flexibilidade e disponibilidade para
mudanças.
Resultados como esse são de grande importância
nas organizações, uma vez que, segundo
Capra (2002, p. 138), “...o ambiente empresarial
atual, com suas turbulências e complexidades
e sua ênfase no conhecimento e no aprendizado,
também é um ambiente em que a flexibilidade,
a criatividade e a capacidade de aprendizado que
sempre acompanham a vitalidade da organização
tornam-se mais necessárias”.
Procurando proceder a uma avaliação
mais qualitativa, foi empregado um outro instrumento
constituído de um questionário,
onde se buscou verificar a imagem da organização
junto a seus colaboradores. No início do
programa, opiniões como, por exemplo, a
de que seria “importante o companheirismo
entre colegas” estava em décimo sétimo
lugar e após um ano, subiu para terceiro.
Igualmente, a opinião de que existiam muitas
“fofocas e falta de confiança entre
colegas”, antes em terceiro lugar, baixou
para o quarto lugar no ano seguinte.
A importância do programa apresentado, principalmente
para aqueles que dele participaram, consistiu
em revelar maior abertura em relação
à percepção de alternativas
e, conseqüentemente, de melhores possibilidades
quanto a escolhas do que realmente era significativo
para cada um naquela organização.
Expressões de contentamento verbalizadas
como “aprendendo e mudando junto”
ou “transitando juntos da razão para
a emoção” foram comuns no
decorrer das atividades, indicando também
sua disposição para trabalhos cooperativos.
Os resultados verificados permitem relacionar
as experiências dessas pessoas com a história
biossocial por elas vivenciada em seu meio, levando
a citar mais uma vez Maturana (1987, p. 148),
para quem “... todo mecanismo de geração
de nós próprios como agentes de
descrições e observações
nos explica que nosso mundo, bem como o mundo
que produzimos em nosso ser com outros, sempre
será precisamente essa mescla de regularidade
e mutabilidade, essa combinação
de solidez e de areias movediças, tão
própria da experiência humana quando
examinada de perto”.
BIBLIOGRAFIA
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introdução à filosofia. São
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CAPRA, F. As conexões ocultas –
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São Paulo: Cultrix, 2002.
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WECHSLER, S. M. Criatividade: descobrindo e encorajando.
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