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ESPÍRITO
E NATUREZA: UM REENCONTRO?
Feliciano E.V. Flores
Ouso tomar por empréstimo uma parte do
título do livro de Gregory Bateson, antropólogo
americano (1904-1980), para dar um nome às
reflexões que pretendo apresentar a seguir.
O título original do livro é “Espírito
e Natureza: uma unidade necessária”
mas o tema a ser desenvolvido neste ensaio não
está diretamente relacionado ao seu conteúdo.
No entanto, o título é muito inspirador
e, ao considerar a proposta de Bateson de uma
“unidade necessária”, logo
me vem a idéia de que espírito e
natureza estão, no consenso geral, definitivamente
separados.
Nossa visão de mundo atual é fortemente
marcada por dicotomias, separando corpo e alma,
matéria e espírito, natureza e humanidade,
sagrado e profano, imanência e transcendência,
etc.
Entendo que estas dicotomias são mais uma
indicação de uma polaridade do que
uma oposição de contrários
ou separação de unidades isoladas.
O trânsito de um polo ao outro faz parte
do ciclo vital e de nossa vivência cotidiana.
Nosso ser, como um todo, pode passar da vigília
ao sono, da plena consciência ao devaneio,
da percepção concreta do real à
dissolução mística na transcendência.
“Não esqueça que a gota pode
saber que está no oceano mas raramente
se dá conta de que o oceano todo está
nela” (Ma Amanda Moy, citada por Graf Dürckheim
em ‘Dialogue on the path of Initiation’).
A possibilidade de percebermos que somos a gota
e somos todo o oceano é que nos possibilita
ora o contato consciente com a realidade, ora
o fundir-se no todo ao qual pertencemos.
Se aceitamos, então, com Bateson, a necessidade
de uma união, como promover este reencontro,
esta fusão, esta retomada da concepção
de unidade?
Tentando fazer uma reflexão pessoal, reporto-me
a um livro publicado em 1980, de autoria de Marilyn
Ferguson, e intitulado “A Conspiração
Aquariana”. Nele, a autora se referia ao
surgimento de grupos de discussão, de reflexão,
de revisão filosófica, de busca
de retomada de valores humanos e de esforço
para melhorar as relações sociais.
Ela escrevia:
“... uma rede subterrânea vem trabalhando
para criar um diferente tipo de sociedade, baseada
em um conceito vastamente ampliado do potencial
humano”.
Ela intuía e ao mesmo tempo constatava
que, naquele momento histórico, estava
ocorrendo um movimento subterrâneo, subversivo,
conspiratório, de gente que buscava reencontrar
sua “humanidade”, isto é, sua
característica de “ser humano”,
em um mundo que parecia tê-la esquecido.
A década de 90 deu razão a Ferguson,
sendo marcada por manifestações
que podemos considerar como a emergência
daquele movimento subterrâneo: as livrarias
tiveram que criar um espaço especial para
a literatura de “auto-ajuda”; as lojas
de disco acrescentaram nas prateleiras o título
“new age”; os fins de semana passaram
a ser ocupados com cursos, oficinas, palestras
e “vivências” sobre processos
de transformação pessoal. Surgiram
as ONGs, o movimento ecológico se fortaleceu:
na prática, com a ação combativa
do Greenpeace; na teoria, com os conceitos filosóficos
da Ecologia Profunda.
Paralelamente, uma literatura mais acadêmica
começou a apontar caminhos teóricos
mais modernos para as concepções
científicas. Nomes como Kuhn, Hawking,
Bohm, Prigogine, Monod, Capra, Maturana, Varela,
Morin, Hillman, entre outros, começaram
a ser citados em discussões de intelectuais
e mesmo do dito público geral.
O mundo “real” ao redor balançava
entre duas atitudes. Uma, de negação,
seja pela crítica fundamentada, seja pela
desqualificação preconceituosa,
seja pela idéia simplória do “não
vi e não gostei”. Outra, de constatação
interrogativa, de observação metódica
e de avaliação com mente aberta.
Assumindo esta segunda atitude, mais condizente
com o bom senso, podemos buscar uma possível
explicação para a emergência
destes fenômenos.
Por um lado, constatamos (e leituras nos informam)
que o mundo contemporâneo, talvez a partir
da Revolução Industrial, voltou-se
“para fora”. Os interesses estavam
(ou ainda estão...) todos direcionados
para a materialidade, para a construção
física da polis, para a tecnologia, para
a acumulação de bens. Enfim, para
uma cultura do “ter”.
Por outro lado, sabemos que o ser humano, por
ser humano, pensa, raciocina, questiona-se e não
pode escapar da eterna pergunta: quem sou eu?
Há uma necessidade intrínseca de
voltar-se “para dentro”, de buscar
o que se é, de descobrir sua essência,
o ser.
Este anseio, ao meu ver, é que deu origem,
no seio de um “mundo de concreto”,
à conspiração intuída
por Ferguson.
Tentando me situar dentro destas transformações,
busco refletir sobre mim mesmo usando de uma dicotomia
para encaminhar a um reencontro.
Ao perguntar-me ‘quem sou eu?’, decido
considerar primeiramente minhas características
ditas biológicas, isto é, aquilo
que em mim é definido como “natureza”.
Sou um ser vivo, um organismo, ou seja, as partes
são organizadas para formar um todo. Sou
um animal, o que quer dizer que sou classificado
como pertencente a um dos cinco reinos biológicos.
Sou sensível, o que significa que percebo
o meu entorno (ambiente), através de mecanismos
sensoriais (sentidos) coordenados por um sistema
nervoso, e com seus elementos me relaciono.
Como organismo animal sensível, sou o resultado
de múltiplas coincidências e encontros.
Antes de mim, outros organismos animais sentiram
mutuamente suas presenças, se relacionaram
e deram origem ao meus ancestrais. Assim, além
de ser parte do corpo de meus pais (duas células
vivas que se fundiram), sou parte de todos os
que me precederam pois, nesta continuidade, não
há interrupção do fluxo da
vida. Paradoxalmente, sou todos mas sou único.
Pela genética, sou um resumo de toda a
humanidade que me precedeu na linha de progênie.
Pela identidade, sou único, sem que haja
outro igual a mim.
Se examino minha estrutura material, verifico
que minhas moléculas orgânicas são
formadas pelos mesmos átomos que constituem
o restante da matéria do universo. Estes
átomos, de acordo com as teorias mais recentes,
foram e são gerados nos processos de evolução
de uma estrela. Portanto, materialmente, atomicamente,
sou filho das estrelas, rebento do universo.
Minhas características materiais e biológicas
definem minha natureza: um ser que manifesta a
vida. Minha natureza é manifestar a vida
em mim.
A seguir, passo a considerar em mim outro tipo
de características. Pelo fato de “dar-me
conta”, de ter uma consciência, de
poder pensar e refletir, eu possuo características
que podem ser chamadas de existenciais, ou seja,
aquilo que podemos chamar de “espírito”.
Não estou aqui me referindo a uma entidade
separada de meu corpo, mas àquelas características
que me distinguem dos demais animais do meu grupo
biológico e que me permitem ser denominado
“ser humano”.
Por ser humano, eu me percebo com potencialidade
de evolução individual, com capacidade
de criar coisas novas e transformar meu entorno
a partir de projetos inéditos, mais além
do agir instintivo dos outros animais. Minha animalidade
pode, então, ser “espiritualizada”.
Minha sensorialidade se transforma em “sensibilidade”.
Meus instintos se expressam em “emoções”
que evoluem para “sentimentos”. Como
humano, sou um ser de consciência e imaginação.
E dentro de mim se manifesta um anseio por algo
mais, por “perfeição”.
Este anseio me move para a busca de minha essência,
para um “ir além” de mim mesmo,
para o encontro de meu espírito. Meu espírito
é a transcendência de mim mesmo.
Neste ponto, gostaria de citar Humberto Maturana,
neurofisiólogo chileno, que disse, em uma
palestra:
“El ser animal no niega lo espiritual; lo
hace posible como un modo de vivir; las máquinas
no son animales y no tienen vida espiritual posible,
nosotros podemos tener vida espiritual precisamente
porque somos animales y como animales tenemos
un modo de vivir espiritual”.
As características descritas acima poderiam,
talvez, ser resumidas em três aspectos essencialmente
humanos:
- a necessidade de ressonância com suas
origens, reconhe-cendo-se e assumindo-se como
um organismo resultante de uma evolução
biológica;
- o anseio pela transcendência, como necessidade
de uma evolução no plano pessoal,
filosófico, artístico, cultural,
espiritual;
- a identidade, como consciência da própria
existência e da existência de outros
que me reconhecem como único e me identificam.
O encaminhamento do reencontro, como dito acima,
se constitui no meu processo de busca de realização
de meus anseios existenciais. Como eu deveria
fazer esta busca? O que pretendo encontrar? Onde
quero chegar? As duas últimas perguntas
não têm respostas. O processo de
transcendência não é teleológico.
É basicamente utópico, idealista,
fantasioso até. Mas é humano, marcadamente
humano. E é por isto que me lanço
nesta busca.
O que busco não é aquilo que chamamos
“crescimento pessoal”, porque nada
é acrescentado. Busco o que já está
em mim, busco um desvelamento, uma redescoberta,
um revelar-me a mim mesmo.
Para isto, portanto, só posso partir do
que sou, assumindo-me com meus potenciais e minhas
fraquezas, com minhas luzes e minhas sombras,
com minha beleza e minha feiúra. Parto
do que sou biologicamente e existencialmente.
O caminho a ser feito, no entanto, só pode
ser o da autenticidade, sem modelos (pois ninguém
é como outro), mas com um princípio
norteador, ao qual logo me referirei.
O caminho da autenticidade requer uma conexão
profunda comigo mesmo, procurando perceber minha
capacidade de sentir, de me emocionar.
Cito novamente Maturana que afirma em seus escritos
que as relações entre os seres humanos
de definem, em cada caso, por uma configuração
particular do emocionar.
Nesta conexão com minhas emoções,
percebo mais profundamente minha natureza que
é manifestar a vida. A vida, pulsando em
mim, é um fenômeno tão extraordinário,
tão maravilhoso, que é o que realmente
se pode chamar de milagre. Olhando-me como ser
vivo, eu percebo todas as potencialidades de movimento
(nos gestos), de locomoção (no caminhar),
de percepção (no ver e ouvir), de
comunicação (no falar), de encontro
com o outro (no reconhecimento e no amor).
A vida em mim torna-se, então, o valor
supremo, o princípio norteador de minha
caminhada em busca da essência.
O valor imenso deste dom precioso me inspira ao
cuidado comigo mesmo, à proteção
do meu ser físico (corpo, saúde)
e espiritual (“alma”, essência).
Do mesmo modo, me revela potenciais de vida com
os quais posso me conectar e vivenciar com maior
plenitude. A caracterização destes
potenciais, eu busco em Rolando Toro, eminente
psicólogo e antropólogo chileno,
sistematizador da Biodanza:
- a sensação eufórica de
estar vivo e o ímpeto vital que me faz
estar-no-mundo com coragem, alegria e entusiasmo
- a minha Vitalidade;
- o prazer sensorial de relacionar-me com o mundo
e com os outros manifestando minha capacidade
de desejar, buscar e desfrutar as coisas boas
da vida - a minha Sexualidade;
- a possibilidade de criar coisas novas, de participar
na transformação do mundo, de expressar-me
pela arte - a minha Criatividade;
- a alegria da relação afetiva,
da amizade, do amor, do vínculo com meus
semelhantes, da solidariedade e do altruísmo
– a minha Afetividade;
- o anseio pela transcendência, pela busca
da harmonia existencial e da integração
à humanidade e ao universo – a minha
Transcendência.
A vivência mais plena destes potenciais
de vida só é possível na
relação com o outro, pois é
o outro que me reconhece, que me identifica. Identidade
é o si-mesmo-no-mundo, é presença
percebida, é o estar aqui e agora no sentir-se
e no ser reconhecido pelo outro. A identidade,
portanto, só é frente a outra identidade.
Estar frente ao outro, vivenciando minha identidade
e possibilitando ao outro a vivência de
sua identidade pelo meu reconhecimento, é
realizar o que Maturana denomina uma configuração
particular do emocionar. E são dele as
citações que seguem:
“La historia evolutiva humana tiene que
haber transcurrido y ha transcurrido bajo una
emoción fundamental que ha hecho posible
la convivencia humana y esa emoción fundamental
es el amor.” (citação de uma
palestra).
“Este é o fundamento biológico
do fenômeno social: o amor. Sem amor, sem
aceitação do outro ao nosso lado,
não há fenômeno social, e
sem socialização não há
humanidade”. (Maturana & Varela, ‘A
árvore do conhecimento’).
O amor, portanto, é um potencial de vida
e uma expressão do espírito, é
fundamento biológico de convivência
e manifestação transcendente do
ser humano.
Retomando, meu espírito é a transcendência
de mim mesmo. Minha natureza é manifestar
a vida em mim.
A vida só se manifesta realmente no encontro,
no amor.
Assim, o amor expressa a natureza e o espírito.
No amor, minha natureza é espírito.
Este é o reencontro, a síntese,
a anulação da dicotomia, a unidade
necessária.
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(Resumo da palestra apresentada no evento de instalação
do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre
Espiritualidade, da Pró-Reitoria de Extensão
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre-RS, em 28 de junho de 2000.)
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